19 de novembro de 2005

TARÔ E CINEMA ( I )

O Rumor dos Arcanos em “The Village”, de Shyamalan

Todas as terras, nas minhas Visões / Junto co’a minha se encontrarão /
Por nós todos feita, Jerusalém, / Coração no coração e mão na mão.


Jerusalém, A Emanação do Gigante Albion - 1804
William Blake




Prescrições para a manutenção do espaço utópico

1ª Não deixe a cor ruim ser vista: - ela os atrai;
2º Não entre na floresta. É lá que eles vivem;
3º Toque o sino de alerta se eles vierem;
Não leia este artigo se não tiver visto o filme
!


Grande sacada de Mr. Shyamalan (ou da equipe de marketing) : bolar chamadas para induzir o público a não revelar o desfecho do filme que, se desvendado, “perde a graça”. Ou seja, é criada no espectador uma apreensão similar às prescrições que protegem o Vilarejo, impedindo-o, ou querendo impedi-lo, de contar o final. São três leis para os habitantes da Vila e uma lei para o espectador. Não se revela o fim do filme da mesma forma que o segredo do bosque precisa ser mantido - dupla articulação, uma similitude de significados que se associa ao marketing cinematográfico. Perfeito. Perfeito porque funciona.


O Muro

O filme “A Vila” metaforiza fobias do homem moderno. Até aí, nada de novo. Aliás, a surpresa que o diretor nos reserva é de uma obviedade que amedronta - nada está seguro. A inocência agoniza em um caldeirão perpétuo. Ou nos trancamos a sete chaves ou os monstros nos comem. Realidade? Exagero?

Alguns lêem o filme como uma apologia ao puritanismo - uma apreensão ingênua. Outros, como uma crítica ao governo Bush ou um pastiche de “Matrix”. Todas as leituras são válidas, o texto é polissêmico.

Uma das facetas que me salta aos olhos em “The Village” é a criação de uma cidade utópica no passado, já que as cidades “perfeitas” do cinema preferem habitar o futuro (ou um não-tempo). E também a possibilidade de discutir o Amor e a Confiança – questão importantíssima e libertadora e que, em minha opinião, torna o filme instigante.

Quanto ao primeiro item, não é de se estranhar que um filme que trate das utopias na contemporaneidade desloque o lugar ideal, a eutopia, para um passado que corresponde a uma idéia romântica. O futuro visto do presente traz a idéia de um espaço distópico, degradado. Se a questão é a segurança, o passado prometeria maiores certezas ou a ilusão de alguma garantia, mesmo que signifique retrocesso – abrir mão do que é conhecido, principalmente em termos tecnológicos.

O preço da segurança em “The Village” é a perda da liberdade. E é natural da condição humana não aceitar grades, prisões. A não ser que o cativeiro seja a própria ignorância: longe dos olhos, longe do coração - não é o que diz o fabulário sentimental? A ignorância nos destina ao não-exercício da vontade. Optar nem sempre é prazeroso, mas é muito irritante quando esse direito nos é tomado. Nem que a nossa atitude seja como a do pássaro que sempre viveu em cativeiro – ao abrir-se da portinhola, volta-se correndo para o espaço que parece seguro.

Imaginemos então dois círculos: o que separa o vilarejo do bosque e o que separa o bosque da civilização. São dois os muros. O primeiro é um “cercado” que protege a inocência, assim como é dramatizado no arcano XIX, O Sol. Até a cor amarela das capas, tintas e bandeirolas que sinalizam os limites no filme e que reproduzem a cor do Sol contribuem para facilitar a analogia.



Interessante que a idéia de uma proteção circular esteja presente, por exemplo, na organização físico-espacial de diversas tribos indígenas, criando uma fronteira que separa o mundo da cultura do mundo da natureza. É claro que o nativo se sente muito mais à vontade no seu habitat do que nós, os ditos civilizados. Mas ainda assim a natureza o apavora. E o círculo formado pelas tabas o abriga, separando o que é conhecido daquilo que causa medo - tudo aquilo de que não se tem consciência ou que não se quer ver. O Sol em uma tiragem de tarô também pode significar proteção. Um espaço de fruição da inocência.



O segundo círculo/elipse que estaria separando o bosque da civilização é a guirlanda, o têmeno protetor do mundo. No arcano XXI, O Mundo, do Tarô Visconti-Sforza, dois anjos (os gêmeos do Sol) erguem a Jerusalém Celeste envolvida por uma bolha. A Nova Jerusalém do poema de William Blake, mítica cidade mental da liberdade e da paz e que, juntamente com outras materializações literárias sobre cidades utópicas, poderia ter inspirado o Vilarejo de Shyamalam. Os anjos são os guardiões da inocência.


O Amor e a Escolha

A possibilidade de escolha está no eixo do Tarô: o Arcano dos Enamorados, também intitulado de Os Amantes. Pontual que uma imagem relacionada ao Amor trabalhe juntamente com a questão do livre-arbítrio - principalmente no arcano VI do Tarô de Marselha ou conjuntos de lâminas inspirados nele, já que nos decks ingleses a eleição não transparece imageticamente, como se nota nas figuras abaixo:



Tarô de Marselha


Tarô Waite

No palco das relações amorosas sempre está em cheque a opção, o receio de uma seleção equivocada, a medida da confiança e uma prova moral. O êxito ou o fracasso nessa prova é que irá determinar o desenrolar dos acontecimentos.

No filme, observamos um triângulo amoroso: Lucius, Ivy e Noah, relação dinâmica e que irá impulsionar toda a seqüência dos fatos e desenlaces sob a égide do Arcano VI, O Enamorado. Vamos agora conhecer as relações entre os protagonistas e as idéias-força:

Oswald Wirth, um dos mais importantes estudiosos do Tarô, marca o princípio da inteligência individual nas seguintes imagens: O Mago, A Força, O Enforcado e O Louco. Essas lâminas compõem a primeira das tétradas comparativas do Tarô em uma quadrangulação de forças que se esclarece por aproximação e analogia, a saber: O Mago tem a potência e a aptidão para instruir-se em todas as coisas, enquanto A Força, em um estágio plenamente instruído, dedica-se a obras práticas. No Enforcado o rendimento é improdutivo, mesmo que os talentos sejam reconhecidos. Seu pensamento demasiado sublime para fazer-se inteligível. Já O Louco, dono de um intelecto incapaz, não tem meios para compreender o que o rodeia.

Parece claro: Lucius Hunt é O Mago; Ivy Walker, A Força; Noah Percy, O Louco. E todos passam, em momentos diferentes, pela condição do Enforcado.





Lucius é aquele que traz em suas mãos o poder da mudança. Deseja ir buscar remédios para que ninguém mais padeça (como a criança falecida pela qual um pai chora no início do filme). Lucius Hunt é aquele que primeiro desafia o perigo e o único que se habilita a usar de seu potencial em prol da comunidade. É importante lembrar que O Mago faz tudo através de suas mãos e é através delas que Lucius indica o caminho para Ivy. Quando ele a toca, alguma magia se faz e tudo passa a se desencadear de forma vertiginosa. Lucius Hunt, como objetiva seu nome, é a Luz da Caça (o caçador da luz?) Lucius é a luz que ilumina o caminho de Ivy. O Mago existe em potência, não necessariamente em ação. E assim que Lucius fica imobilizado se torna O Enforcado. Quem é age é Ivy, A Força, impulsionada pela confiança, pelo amor e também pelo desespero.

Ivy significa “a videira”, aquela que dá a vida. A semelhança com “Eva” é nítida, ou seja, mulher primeva que inicia algo novo. Ivy é a cega que enxerga. A que confia cegamente. Ivy Walker (Walker é aquele que caminha), dona de uma sensorialidade apurada, coloca em ação o desejo de Lucius. É a potência do Mago que se estende e se realiza na Força. Ivy não vê as cores que separam o Vilarejo do Bosque. Sua compreensão da vida é outra – difusa e, no entanto, pontual. Ivy, no bosque, é a imagem do Eremita. Traz na sua capa a cor do sol e a luz da lamparina. Sozinha. Muitas vezes, o Amor exige esta jornada solitária, em busca da redenção. Restam-nos as experiências guardadas na sacola do Louco.


E Noah Percy é a encarnação do Louco. Percy, de “Percival”, aquele que perfura o vale - em outra possibilidade interpretativa, o que perfura o véu. Quem vê através do véu é Iyy, a cega. Noah, a inocência de mãos dadas com a alienação. Noah irá tornar-se o Enforcado porque é através dele que a salvação chega à vilarejo por vias inesperadas. É através dele também que o segredo será mantido. A sua morte garante a segurança de todos. Ele é o bode expiatório do grupo.

É através da morte de Noah que Lucius poderá sobreviver.

E para que alguém percorra o caminho com sucesso é necessária a união, a força das duas famílias – os que caminham (Walker) e os que caçam (Hunt), o que já se insinua na relação platônica de Alice e Edward, a mãe de Lucius e o pai de Ivy, respectivamente.

O Conselho, formado pelas figuras parentais (primeiras 5 imagens do tarô), são os anciões da Vila. Alice e Edward cumprem o papel da Imperatriz e do Imperador, arquétipos materno e paterno. A Justiça é representada pelo Conselho, fórum onde se discute todas as ações da comunidade. O Julgamento, além de estar presente nos veredictos, se faz sentir em todas as situações de irrupção – o alarme, os barulhos estranhos que vêm do bosque, as marcas feitas nas portas. É bom lembrar que o arcano do Julgamento é o único que apresenta um instrumento musical. E que chama a atenção de forma direta, incontestável - o som sempre nos pega de surpresa.

O Hierofante também é Edward, no papel de professor. A cena que o retrata na escola nos remete imageticamente ao arcano V. Na carta de tarô, temos os discípulos com os rostos voltados para o Pontífice. Na cena do filme, Edward é retratado de costas, com os alunos olhando para ele. Uma postura que insinua um segredo? Que existe algo por trás da história daqueles de quem não pode se dizer o nome?

Os arcanos se misturam, se interpenetram - Ivy tem elementos da Estrela (a sensorialidade diferenciada, percepção sintonizada, apurada, e também a inocência da Mulher-Estrela), da Força (aquela que doma o medo) e do Eremita (aquele que caminha protegido por um manto e que carrega uma lanterna iluminando seu caminho).

A cena em que Ivy coloca a mão para fora de casa e um daqueles de quem não se fala o nome se aproxima, momento exato em Lucius vem e toma sua mão, é a prefiguração, o prenúncio de Ivy enfrentando o medo na floresta. Lucius lhe dá confiança necessária para enfrentar a Morte.


A cor vermelha, proibida, é O Diabo. O sangue, o desregramento, a paixão, o sexo, a violência. Tudo que deve ser evitado para que não se perca a inocência e para que a Vila continue protegida. A fruta que não deve ser colhida - a maçã proibida de Ivy-Eva? Seria a cor vermelha a que Ivy pressente na aura de Lucius? Lucius-Lucifer, o anjo luminoso? Um paraíso perdido? Quando Noah Percy cai num buraco da floresta, é nítida a imagem do anjo caído. Vale rever a cena.


Dizem que existe um número determinado de temas no mundo e que todas as histórias derivariam destes arquétipos/protótipos. Eu lembraria da Flor Azul dos românticos alemães, o símbolo do impossível. E do conto da Rosa Azul, em que o príncipe, para salvar a princesa de uma mal terrível que a levaria à morte certa, precisa atravessar montanhas, florestas, perigos e trazer-lhe o remédio exato. A única flor azul que nasce no topo de uma única montanha. Em mundo em que o amor não raro é confundido com tesão e sexo, em que a confiança foi substituída pelo “ninguém é de ninguém” e pela omissão, é no mínimo constrangedor – para alguns – e emocionante – para outros – que o tema do amor romântico ainda faça tanto sucesso.

"The Village" rememora que o Amor e a Confiança movem montanhas, iluminam o caminho de cegos, promovem a Magia do Impossível. Mas sem esquecer que as frutas vermelhas sempre estão no meio do caminho.


Zoe de Camaris

Ofereço este artigo para João Acuio, Alexey Dodsworth e Janaina Leite. Grata pela interlocução: João no cinema e a caminho de casa, Alexey na Astréia e Jana no Messenger. Demorei mas publiquei. Incrível como fico me enrolando.

7 comentários:

Melissa Mell disse...

%@&#*#(#(#*, Zoe!!!
VOCÊ CONSEGUIU SE SUPERAR ( e isso não é pouca coisa!)
Este artigo é uma das melhores coisas que já li sobre Tarot, está simplesmente maravilhoso!
Parab´ns, querida, beijos da sua admiradora,
Melissa Mell

STELA GOMENSORO disse...

ZOE!
Voce se superou mais uma vez. Seu texto sobre "The Village" é um show. Amei de montão!
Beijos

virna disse...

adorei o sistema de comentários.
vou alugar o filme antes e depois leio.
e que coincidência: a carta de edward (husband) é o hierofante.
beijo

lex lilith disse...

urru
ótimo filme, sensacional leitura
beijos, gatona...

Priscilla Rigueira disse...

Parabéns! Indicaram o seu blog em uma comunidade do orkut. Nossa, eu não havia me dado conta das imagens e mensagens incutidas no filme. Passei a gostar mais do filme após a sua análise. Além do que a leitura é muito gostosa

Samanta disse...

Zoe,
Sem comentários!!! O que falar mais? Adorei a interpretação e quando lia podia rever as cenas na minha cabeça nitidamente!!!!
Parabéns!!!

Gwydyon Drake disse...

Depois de muiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiito tempo oia eu comentando.
Gostei muito do filme, principalmente por ele mostrar que sem a liberdade a segurança se torna um problema e que a felicidade exige que riscos sejam corridos.