31 de dezembro de 2006

A Força


potnia therion (creta)

Depois dos rituais coletivos de Ano Novo, desejo que A Feiticeira propicie a todos nós uma conversa com a natureza de nossos leões, panteras, serpentes e pássaros internos, através da compreensão do magnetismo e do sentido de dignidade.

Que haja carinho, inteligência, coragem, soberania, vitalidade e muita motivação na hora da Domadora abrir a jaula.

Às nossas feras, um perfeito 2007.


Zoe

17 de dezembro de 2006

SETE MIL VIDAS




_____________________________ “A tarefa não é a sua individuação
___________________________________mas a individuação do anjo”
__________________________________________Corbin


Sete ‘Mil Vezes’ de Copas. A lâmina que chama atenção, principalmente no baralho Rider-Waite.

Um homem olha para sete taças envolvidas em nuvens. De dentro delas, um castelo, uma serpente, um dragão, jóias, uma coroa de louros, o rosto de um anjo e uma imagem fantasmática com o rosto coberto. A Musa, a Virgem.

São diversas as opções, inúmeras as possibilidades. É quase impossível dividir um círculo em 7 partes. Um desafio coordenar a ordem do ternário, mental ou espiritual, em harmonia com a ordem do quaternário, terrena (3+4=7). Netzah. Então o 7 de copas é chamado de O Senhor do Êxito Ilusório. Ou, a “Vitória da Mulher”, o que é bem interessante. O predomínio da Anima. E de Maia, a ilusão. Uma imagem venusiana, netuniana, lunar. Via Úmida. Ordem da Grã Sacerdotisa. 


Se relacionarmos a numeração das cartas menores com os arcanos maiores, chegamos ao Carro. O condutor precisa saber usar as rédeas do invisível, senão a carroça desembesta. O Carro é corpo do Condutor. Quem o dirige é o espírito atuante.

No entanto,  é curioso que esta carta tenha um significado considerado “difícil”, mesmo quando bem dignificada. Diz Waite: “Belos favores, imagens de reflexão, sentimento, imaginação, coisas vistas no espelho da contemplação; algumas consecuções nesses graus, mas nada é sugerido de permanente ou substancial”. Perfeito. Mas as interpretações posteriores parecem fixar-se na última parte da reflexão de Edward Waite.

O surgimento do 7 de copas numa leitura é interpretado como um indício da diversidade de opções. De alternativas ilusórias. Enganos. Excesso de expectativas. Do possível uso de drogas, intoxicação. Mesmo que o número 7 signifique vitória, controle. O Poder Mágico em toda sua força, a Teurgia (atuar sobre os deuses). A dominação da matéria pelo espírito. E a matéria é considerada feminina, no que concordo. Mas sempre negativada? É claro que inverter a ordem dos fatores não dá certo. Porque esta carta não fala do domínio da matéria sobre o espírito. Mas de uma forma aquática e aérea, portanto, da ALMA, agindo sobre a matéria.

A alma rege a orquestração. A sua e a do mundo.
E alma tem o corpo de uma mulher.




“Perigo, Will Robinson, perigo!” – diz o robô. Perdidos no Espaço. Compreendo perfeitamente, ainda mais depois que Aleister Crowley denominou como “Deboche” o 7 de copas, melando (literalmente) a imagem logo de saída. Vênus em Escorpião. Plutão na jogada.

Contudo, entretanto, todavia.... será que não deveríamos observar esta carta sob uma perspectiva menos positivista?

Lembremo-nos que muitas das interpretações fixadas com relação ao Tarot são do século XIX, começo do XX. E que os magistas desta época, queiram ou não, são signatários do discurso cientificista. Quem sabe, no intuito de “validar” o Tarot tenham sido bastante racionais ao interpretar as imagens. Os comentadores que se seguiram pouco acrescentam aos significados dados a esta carta numa perspectiva menos comprometida.

Há que se ler Gaston Bachelard, James Hillman, Gilbert Durand. E para entrar mesmo no mundo da imaginação e do devaneio, só mesmo com os poetas. Deixar a imaginação colorir todas as asas, mesmo aquilo que não voa. Renomear o mundo. Intoxicar-se de música. Caminhar sem destino, observar sem conclusões. A imaginação é a suprema liberdade do espírito.

Para compreender o tarot talvez seja uma boa saída esquecer os manuais de interpretação.




São 7 as Maravilhas do Mundo, os anões da Branca de Neve. Sete os portais de Tebas, 7 léguas para as botas. Sete mares nunca d'ante navegados, 7 chacras, 7 dias da semana. Sete cabeças da Hidra de Lerna. São quatorze (são infinitas) as portas do labirinto de Asterión, em Borges. Mise em abysme. Tudo existe muitas vezes no plano da imaginação. Imagine, diz John Lennon.

E se a realidade, a realidade “ordinária” é complexa - simular idealmente a estabilidade não seria a real fantasia? Até que ponto o conselho: “coloque os pés no chão e dedique-se a reflexões fundamentadas” faz sentido? E se estivermos frente a uma pessoa enredada nas malhas cruéis da realidade e que não consegue ver na sua frente nada além de compromissos, cobranças, expectativas internas e alheias? Não seria este o momento de recriar seu mundo? E como recriá-lo sem soltar as rédeas que entre muitas voltas nos levam sempre pelas mesmas estradas e que acabam em becos sem saída?



O tarot é uma arte da “imaginação”. É através das imagens e do poder de desvincular-se da realidade ordinária que se torna possível iluminar conflitos.

Sim, é uma arte paradoxal.

O plano racional é comunicado por palavras. O inconsciente comunica-se por imagens. E se as imagens não podem emergir, como reconhecer a verdade do inconsciente?

E que é a “verdade” em tempos de panvirtualismo?

Convém definir, diferenciar, a palavra imaginação da palavra fantasia. Diz Rachel Pollack, citando o poeta S.T. Coleridge, que ambas as noções afastam a mente das percepções comuns. A imaginação nos levaria a uma percepção da verdade subjacente vinda do inconsciente enquanto a fantasia produziria imagens mentais que podem excitar, mas às quais faltaria um significado real, pois procederiam do ego.

Pollack debruça-se aqui sobre o Príncipe de Copas, aquele que olha para uma taça vazia, ou seja, para si mesmo. Ao falar do seu companheiro Valete, aponta que este vê um peixinho saindo de sua taça. E que ali sim a imaginação estaria no seu devido lugar. A infantilidade do Valete justificaria um tempo em que a fantasia e a contemplação seriam adequadas.




Embora goste da diferenciação de Coleridge, me dou ao desplante de discordar de Pollack quando relaciona a imaginação e a fantasia à imaturidade.

A imaginação sempre foi considerada “a louca da casa”, disso sabem os franceses. É uma palavra vilipendiada. É vero que a imaginação excessiva e/ou a perda dos limites pode levar alguém à loucura. Mais isso é hipostasiar um dos pratos da balança. Pesar a mão. Pensemos na justa medida. O excesso de imaginação nos enlouquece, nos torna inadequados socialmente. Torna-se delírio. A falta de imaginação nos faz parvos, secos, tolhidos de graça e matizes.

É bom não esquecer, como nos diz Neil Gaiman, que o primeiro nome de Delirium é Deleite - ainda na infância dos Perpétuos.



É impossível lançar as cartas e ser razoavelmente bem sucedido sem o poder de imaginar, sem se colocar aberto às infinitas possibilidades do 7 de copas. E não é seu título, a Imaginação?

“Cair na real” nem sempre é uma boa.



Agora vou para minha varanda deitar na rede rosa-choque entre as flores, numa bela tarde de domingo, depois de uma semana punk. E olhar para o céu, namorar o vento, chamar todos os meus amiguinhos imaginários e fazer uma festa daquelas. Se Sorte sorrir pra mim, aparece um beija-flor.

Mas aí já é Desejo.



Zoe de Camaris

Sete mil vezes




Sete mil vezes
Eu tornaria a viver assim
Sempre contigo
Transando sobre as estrelas
Sempre cantando a música doce
Que o amor pedir para eu cantar
Noite feliz
Todas as coisas tão belas





Sete mil vezes
E em cada uma outra vez querer
Sete mil outras
Em progressão infinita
Quando uma hora grande e bonita assim
Quer se multiplicar
Quer habitar
Todos os canto do ser





Quarto crescente para sempre
Um constante quando
Eternamente o presente você me dando
Sete mil vidas
Sete milhões e ainda um pouco mais
É o que desejo e o que deseja esta noite
Noite de calma e vento
Momento de prece e de carnavais
Noite de amor
Noite de fogo e de paz



Caetano Veloso

3 de dezembro de 2006

Sobre Profecias (APOLLINAIRE)




Conheço umas profetisas por aí
Madame Salmajour aprendeu na Oceania a arte da taromancia
Foi lá também que teve a chance de participar
De uma deliciosa cena de antropofagia
Claro que ela não espalhou pra todo mundo
Mas sobre o futuro nunca errava uma

Uma cartomante ceterana* Margarida etcetera e tal
É talentosa também
Mas já Madame Delroy é mais inspirada
Mais precisa
Tudo que disse sobre meu passado era verdade e o que ela
Predisse no tempo aconteceu no tempo que indicou
Conheço um sciomântico* mas não queria que interrogasse minha sombra
Conheço um adivinhador de água o pintor norueguês Diriks
Espelho quebrado banho de sal migalhas de pão
Que esses deuses sem figura sempre me poupem
E ao mesmo tempo não acredito mas olho e reparo
Acho que leio mãos muito bem
Pois não acredito mas mesmo assim reparo e escuto e olho

Todo mundo é profeta caro amigo André Billy
Mas por tanto tempo as pessoas foram levadas a crer
Que não tinham futuro e ficariam pra sempre ignorantes
E idiotas de nascença
Que eles acabam se resignando e nunca mais ninguém se lembra
De especular sobre se ele conhece ou não o futuro
Não tem nada de religioso nisso

Nem nas superstições nem nas profecias
Nem em nada que as pessoas chamam de ocultismo
O que existe acima de tudo é um jeito de observar a natureza
De interpretar a natureza
Que é completamente legítimo



Guillaume Apollinaire
Tradução: Rodrigo Garcia Lopes



* Nascida em Céter, (nos Pirineus orientais). De Ceretani, "antigo povo da Espanha, da Terraconaise, ao pé dos Pirineus".
* Forma primitiva de necromacia, relativo à adivinhação através de comunicação com as sombras (espíritos) dos mortos; também relacionado com a evocação de reflexos astrais para adivinhar eventos futuros.


18 de novembro de 2006

Madonna - Hollywood


Achei interessante o clip da Madonna, didático até. Bem na linha da abertura da série de TV Carnivàle, um passeio tridimensional pelas imagens.

Sempre imaginei um Tarot Holográfico, uma exposição com os arcanos maiores em movimento. As imagens projetadas seriam um pouco maiores do que a dimensão do corpo humano. Poderíamos atravessá-las, se assim quiséssemos.

Qual seria o primeiro gesto do Louco? Daria meia volta? Chutaria o cachorro? Cairia mesmo assim no abismo? Tiraria uma pequena flauta de dentro do seu saco de viagem e tocaria a música de Pã provocando o espírito do precipício?

A Sacerdotisa fecharia seus olhos e cairia em profunda meditação? Ou se levantaria, cansada do eterno trono? A Imperatriz sem dúvida o faria e sairia dançando entre as flores do jardim. O Imperador vociferaria um brado de comando, agitando irritado o seu cetro. O Hierofante, eu não sei. Nunca sei. O Enamorado caíria fulminado, antes de escolher? O Carro finalmente entraria em movimento? A Justiça ataria seus olhos para não ver o que se passa? A luz do Eremita se apagaria e ele tropeçaria no escuro? Ou a luz se ampliaria cada vez mais e mais e mais até que se transformasse no sol branco do Louco e as feições do Eremita voltassem a ser aquelas da juventude?

Cada um verá um movimento diferente em cada carta, de acordo com suas experiências, com seu momento de vida.

E afinal, a Dama da Força abre ou fecha a boca do Leão? Alguns me respondem que ela apenas o acaricia.


Zoe de Camaris

11 de novembro de 2006

GOROROBA "ESOTÉRICA"



Outro dia, muito bem acomodada no banco de trás do carro do meu pai, atravessando a Barão do Cerro Azul e indo sei lá pra onde, minha mãe me chamou a atenção: - Ei, filha, olha ali aquela faixa. Levantei os olhos e vi um enorme banner branco com dizeres em vermelho: TARÓLOGA. Abaixo, o número do telefone.

Anotei o número. E comecei a pensar sobre a divulgação do meu trabalho. Já havia, em priscas eras, cogitado uma placa bem linda (da cor do mar com todos seus peixinhos + azul do céu com todas suas estrelinhas), aqui na frente de casa mas desisti. Eu, que sou uma espécie de Eremita com Bela Adormecida (me apraz acreditar nisso), não ficaria à vontade. Se têm dias que nem atender o telefone atendo, quem dirá correr para a porta ou instalar uma campainha. Leituras, só com recomendação e hora marcada.

Me lembrei também daquele anúncio em papelão escrito com caneta pilot que se vê tanto por aí dizendo: JOGO DE BÚZIOS E CARTAS CIGANAS. E também daqueles "santinhos" pregados em postes em que se promulga a solução de todas as pendengas: "curo impotência, resolvo seus problemas financeiros e trago de volta seu amor perdido em 7 dias", etc. - leia-se, nas entrelinhas, pela módica quantia de 5 mil reais. Cierto, se o bicho pegar, viro a Madame Zoe (risos, por favor). Pagar vintão numa cartomante pode sair bem mais caro do que se imagina.

Chegando em casa, telefonei para a taróloga:
- Boa tarde, por gentileza, é você quem trabalha com o Tarot?
- Sim, a voz do outro lado respondeu.
- E qual Tarot você usa?
- As cartas.
- Sim, as cartas. Mas quais cartas?
- As cartas do baralho.
- Perfeito, compreendi, mas acho que não me fiz entender. Gostaria de saber que tipo de cartas a senhora usa - se é o Marselha, Waite ou Crowley.
- Não, eu faço Tarot. O Tarot é jogar búzios e cartas ao mesmo tempo.

(pausa para uma enorme surpresa)

- Senhora, eu estudei esse assunto um pouquinho e pelo que me recordo, o Tarot é um sistema de imagens composto por 78 cartas, sendo que 22 delas são os arcanos maiores e as outras 56, os arcanos menores.
- Hum, respondeu a mulher, visivelmente contrariada. Achei melhor não insistir e perguntei quanto era a consulta, ao que ela me respondeu:
- Trinta reais.
Agradeci às informações e desliguei o telefone.

Atenção: nada contra "cartomantes", muito pelo contrário. Se usamos as cartas somos todos cartomantes, obviamente. E, não raro, a intuição pura ou mesmo o dom da vidência pode se adaptar perfeitamente às necessidades de alguém. Falta de estudo não significa falta de inteligência ou de sabedoria, escuso dizer. Nada contra o uso das cartas comuns ou do Petit Lenormand, um belo conjunto de lâminas divinatórias. Mas péra aí: o Tarot agora é um mix de búzios com cartas de baralho??? Fico imaginando a cena: as pequenas conchas em uma peneira - acrescenta-se as cartas, sacode-se com força e joga-se tudo sobre um belo tecido dourado rodeado de velas. Oxumaré que traz o Ás de Copas que é o Santo Graal responde que sim.

Talvez a moça que me atendeu ao telefone seja uma fera, digo isso agora sem ironia. Talvez possa fornecer informações que não estariam ao meu alcance, mesmo com meus anos de estudo. Mas daí a se intitular taróloga...pode não.
Outra: questiono também a postura dos que mais parecem ser "shoppings centers esotéricos ambulantes". Fulano lança as runas, faz mapa astral, lê bola de cristal e, de quebra, ainda rola um "trabalhinho". Pô... eu poderia passar a vida inteira estudando o Tarot e ainda assim teria o que estudar. Porque estudar o Tarot não é só estudar o Tarot.

Não sou a favor da institucionalização do nosso trabalho porque não acredito que a lida com as artes da imaginação (que vivem de um estado "nascente") possa ser enquadrada cientificamente. Creio na necessidade de cursos de iconologia, iconografia, do conhecimento das convergências simbólicas, da arquetipologia. Que grupos de estudo são enriquecedores. Que o questionamento sobre a ética também é imprescindível. Mas não consigo me imaginar com uma "carteirinha de taróloga". Posso vir a mudar de opinião, é claro. Por ora, acredito que informações acertadas são sempre bem vindas e que é preciso, quando se procura uma consulta, que o sujeito saiba o que vai encontrar.

E a "taróloga" em questão me forneceu rapidamente as dicas de que eu precisava.


Zoe de Camaris

18 de outubro de 2006

A RAINHA DE ESPADAS





A Majestade dos Tronos do Ar. Sendo Rainha, é da Água. Por empunhar a espada, do Ar. Água do Ar. Naturalmente aspectada pelo feminino, desempenha uma função do masculino. Mas não há perfeita interação entre estes elementos mesmo tendo em conta a atração das polaridades opostas.

A Água fala de sensibilidade, emotividade e expressão dos sentimentos ao passo que o Ar transporta a racionalidade e a lógica. A Água é substancial enquanto o Ar é abstrato. Sua compatibilidade encontra-se na Umidade. A Água pode tornar o Ar visível: nuvem, bruma, nevoeiro. Em harmonia na umidade, criam o símbolo máximo do sonho e do devaneio. É a soma da memória (Água) e da imaginação (Ar). Contudo, por criarem juntos a matéria dos sonhos, não podem permanecer.

Se o Ar estiver feliz, pode gaseificar a Água. Fazer espuma. Mas não raro se ressente ao ver-se privado de transparência. Distancia-se da matéria aquosa que tudo amálgama. Precisa respirar e mata a Água por expulsão. Não suporta a lamúria da sereia.

E a Água, mesmo que essencialmente rebelde à modelagem, não se contém diante da evasão aérea – fuga, dissipação, inconstância, vacuidade. Mata o Ar por dilúvio.

A Água é fértil, o Ar é estéril. A Água quer unir-se, o Ar quer ser livre. É uma combinação difícil a que preside a Rainha de Espadas.



Tem o apelo aquático na sua essencialidade feminina, mas está orientada pelo Ar. Por isso é de uma dramaticidade gelada. Esconde suas emoções ou as transforma em facas afiadas. É ríspida, fria, uma crítica severa. Sua mobilidade é a do vento, onde opera.

Nos manuais cartomânticos é a Viúva, a dominadora. Soma sabedoria e pesar. Talvez invejosa. E por falar em “talvez”, advérbios de dúvida não fazem parte do seu repertório. Um belo exemplo é o texto da ensaísta americana Camille Paglia. Seco, claro, sempre afirmativo. A Rainha de Espadas sofre sozinha, e quando aparece é como dona da verdade. Lisa. Mordaz. Jamais irá expor seus sentimentos em público sem antes passarem pelo crivo nervoso mesmo que os fluxos aquáticos estejam lá, submersos sob a capa dura. E ela os evitará sempre.



A Rainha de Espadas liquida. Aproxima-se de Atena. De Iansã pela sua assertividade, se esta não fosse tão quente. Usa um adorno vermelho no braço, um presente do fogo, como ilustra o Tarot Waite. Proteção. Pode então agir no escuro. É hábil. A tática é a estratégia. Razão que esclarece o caos. Nunca subestime sua perspicácia. Ela sempre tem uma carta na manga.

Ganhou o inverno porque conhece os enganos da primavera. Do céu o verão, da folha o outono. Sabe e executa. Articula. Doma pela palavra. Cada letra é um arreio. Sua língua é um punhal. Tem uma dor cravada no peito. Uma armadura para arrancar do centro. Uma Medusa na égide. Austera.



No fabulário, é a “morena do mal", madrasta da Branca de Neve. As lágrimas serão pedras de gelo vertidas num cálice (talvez, com veneno). Neil Gaiman inverte genialmente a tradição no conto “Neve, Vidro e Maçãs” e a malvada, agora é a Branca de Neve. Interessante também é a releitura cinematográfica do conto de fadas, em que a história é narrada do ponto de vista da madrasta. "Floresta Negra" (Snow White: A Tale of Terror), estrelado por Sigourney Weaver, que arrepia no papel. O filme caminha bem até determinado ponto e no final o diretor consegue estragar tudo com uns zumbis que saem do nada. Mas não importa. Vale assistir a Tenente Ripley, de Aliens, maltratar a pentelha-electra da Branca de Neve. Ninguém merece!



Embora a tez da Rainha de Espadas seja secularmente representada por uma mulher com os cabelos negros, também aparece como loura gelada, impávida. Fatal feito ponta de relâmpago. Palavra-cruzada que veio do frio. Estóica, monta o quebra-cabeça da morte. Essa é a idéia de Andersen, em "A Rainha da Neve". E captada em pastiche por C.S.Lewis para vestir Jadis, a Feiticeira Branca, em "Crônicas de Nárnia". O País do Eterno Inverno. Há que se aplaudir a perfeita escolha da atriz. A Feiticeira Branca resplandece na androgenia de Tilda Swinton. Feminino e masculino em perfeita sintonia. Não é a toa que foi escolhida para representar o anjo Gabriel em "Constantine" e protagonizar "Orlando, A Mulher Imortal", baseado em obra de Virginia Woolf.



Aliás, quem tem medo de Virgínia Woolf?

A Rainha de Espadas gosta do branco e do negro. Não é adepta das cores. Em dias mais sensíveis, veste azul. Cinza nas tempestades. Espadas não costuma presentear a mulher com a sinuosidade das curvas (há controvérsias). Nada da luz fogosa de Bastões e suas cores quentes. A sexualidade é controlada para não parecer “emocionada”. É bom não esquecer que é do seu repertório confundir pela aparência de pureza. Dissimulada sim. Mas quem disse que a dissimulação não é uma maneira de se revelar?

Com os sentimentos equilibrados é uma Sílfide - sabe ser leve e ágil, a dançarina.



Não traduz padrões usuais de beleza e nada tem a ver com a delicadeza de traços de Copas, nem com a explosão de vivacidade de Paus e muito menos com a robustez profícua de Ouros. Há um equilíbrio enigmático em suas formas. Seduz pela extrema elegância. Uma papisa da moda, como Constanza Pascolato. Chic, so chic. Ela não se dará ao luxo de perder a linha, não fará escândalos. Mas arrancará a sua cabeça antes que você possa dizer “cucamonga”. Vai pegá-lo (a) desprevenido(a).

E lembrando aqui de algo nada elegante, o desvario da Rainha de Copas em "Alice no País das Maravilhas"... bem, é um tilti por pura raiva do branco nas rosas. Uma histeria de Espadas numa Rainha de Copas. Da pureza nas rosas e em Alice (a Rainha de Espadas não aguenta a Rainha de Copas. Não tem paciência com sua beleza doce, com seu romantismo, destesta os perfumes florais que ela usa). A contumaz jogadora de cricket faz o maior escarcéu, mas não corta nada. A lâmina estava quente. Alice acordou. O sonho virou pesadelo. Seria a porção de uma futura Rainha de Espadas em Alice no Espelho?



É difícil encontrar uma Rainha de Espadas em estado "puro". É um arquétipo (às vezes, apenas um estereótipo). Assim como nos tipos psicológicos de Jung, há sempre uma função predominante. Espadas é o Pensamento, Copas o Sentimento, Paus a Intuição e Ouros a Sensação. Entre extrovertidos e introvertidos, todos possuímos as quatro funções, sendo que uma é sempre mais desenvolvida, a função principal. A segunda função ajuda a principal, a terceira é rudimentar e a quarta fica na sombra e por isso é chamada de função inferior.

Hibridismos. Em "Kill Bill", a Noiva, transformada em Mamba Negra, é uma Rainha de Copas que vinga sua maternidade, tornando-se Rainha de Espadas ou despertando a fera rápida e milimetricamente perfeita que existe em toda mulher. Com o pique e a beleza de uma Rainha de Paus em suas vestes amarelas. Só se torna Rainha de Ouros, completa, quando leva a cabo sua vingança. Mas o que faz o sucesso do filme é a implacável vingadora. Cortem-lhe as cabeças!!!



Por falar em cabeças decepadas me lembrei da Dama de Ferro, Margaret Thatcher que, antes de ocupar o cargo de primeira ministra do Reino Unido, foi eleita como presidente do Partido Conservador Britânico. A eleição aconteceu na noite 11 de fevereiro de 1975 e passou para a história britânica como “a noite das facas longas”, pois o improvável acontecia: Thatcher (uma mulher) venceu seus rivais assim como Hitler, em junho de 1934, acabou com a SA.

“Facas longas”. Considerada como uma das pessoas mais insensíveis da Inglaterra, Iron Lady obedecia a princípios de rigor e patriotismo. Recuperou as Falklands (Ilhas Malvinas) para o povo inglês e foi considerada uma heroína nacional. É sua a seguinte fala: “Os homens na política são responsáveis pelos pronunciamentos, as mulheres, ao contrário, pelas ações”.



Só mesmo uma Rainha de Espadas. Uma libriana feita de ferro - segundo Aleister Crowley a Rainha de Espadas rege do 21º de Virgem ao 20 º de Libra, o que a relaciona naturalmente com o arcano VIII, O Ajustamento (A Justiça). Mas pelo jeito, Vênus (regente de Libra) não tem nada a ver com isso...No Tarot, a figura da Balança é seca, distante, fria. Separa e equilibra. É uma junção perfeita de Virgem e Libra. Sua função apaziguadora cria beleza pela harmonia. Mas não se relaciona interamente por que é Virgem - separa. Não é uma beleza essencial, mas uma beleza aparente. Afrodite não quer saber de nada disso, mesmo que seja uma Afrodite Urânia. Passa longe. Apolo, que cuida da manutenção das formas, seria um arquétipo mais adequado. Por isso é necessário algum cuidado quando se fala de correspondências entre os dois sistemas. Há convergências no que se refere à hipocrisia, por exemplo. Libra é o signo mais hipócrita do zodíaco. E a Justiça, mal dignificada, cai no mesmo lugar. Os dois arquétipos fazem qualquer negócio para manter tudo bonitinho, mesmo que por dentro reine um tremendo caos. Margaret Thatcher na cabeça.

Thatcher renuncia em 1990 e em 92 recebe o título de Baronesa. Em 2002 a Dama de Ferro vira Dama de Mármore (de Carrara). Uma estátua de dois metros e meio de altura e 1,8 toneladas destinada ao Parlamento Britânico. Mas antes que chegasse à Câmera dos Comuns, ainda na galeria de arte onde estava exposta, um produtor teatral decepa a cabeça da estátua com um golpe desferido por uma barra de ferro. O produtor (de teatro) declarou que este foi um ato político. Mas não é a Rainha que decepa cabeças? Curioso como a vida imita a ficção. Voltemos a ela. Ou nem tanto.



Um ótimo exemplo no cinema é Joan Crawford. As sobrancelhas mais atrozes da tela, em cinemascope e technicolor. Não teve filhos e adotou 4 crianças. E parece que sua postura "Rainha de Espadas" ultrapassa os papéis que fazia no cinema. Contam à boca pequena que Betty Davies faz a mesma linha. E Betty Davies lhe despreza, nunca se esqueça disso. Aliás, as duas arrasaram juntas. O que terá acontecido a Baby Jane?

Segundo Cristina Crowford, a filha mais velha, a mãe era mesmo A Malvada. Mamãezinha Querida.




Encontrei uma série de televisão que não passou aqui no Brasil intitulada "Rainha de Espadas". Tem 22 capítulos (!!!) é a atriz principal é um Zorro feminino. Elenquei aqui por curiosidade, por que deve ser ruim pra dedéu, é só ver as fotos.

E partindo do brega para o erudito, da imagem para a música, há a ópera em 3 atos de Tchaikovsky, "A Rainha de Espadas" (1890), baseada em conto homônimo do russo Alexander Pushkin.

O protagonista da ópera, Herman, um oficial do exército, é uma figura de natureza destrutiva, um adicto. Ele manipula a ingênua Lisa, neta da Condessa que é conhecida como a Rainha de Espadas. A Condessa-Rainha conhece o mistério das três cartas e revelou os dois primeiros mistérios para dois homens. Se revelá-lo a um terceiro, ele morrerá. Herman se torna obcecado pelo terceiro segredo e isso custa a vida de Lisa e a dele mesmo. As Rainhas e as Cartas do Baralho.

Não fica distante da idéia do delicioso blues chamado "Little Queen of Spades", de autoria de Robert Johnson e magnificamente interpretado por Eric Clapton em "Me and Mr. Johnson".



Mr. Johnson diz em sua música que ela é uma mulher hábil com as cartas. Que toda vez em que ela joga, ele sente arrepios. Uma mulher que sabe apostar e que nunca vai levar todo seu dinheiro por que tem “mojo”, jogo de cintura. E que se ele é o Rei e ela, a Rainha, podem juntar suas cabeças e fazer o dinheiro se tornar “verde”. Alguém duvida que existem casais imbatíveis? Eu não.

Será ele um...Rei de Paus? Um Principe de Copas não dá conta. Quem é o cara da Rainha de Espadas? Bem por hoje chega. Gatos é um outro departamento.


Zoe de Camaris
o.p.s.: quem é a Rainha de Espadas em Sex and City? Moleza....aliás as 4 rainhas estão muito bem representadas, intencionalmente. Alguém se habilita?




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Referências Bibliográficas

RAVIGNANT, Patrick. Os Presságios. São Paulo: Editora Martins Fontes, 1986.
CROWLEY, Aleister. El Libro de Thoth. Madrid: Luis Carcamo Editor, 1985.
Artigo de Nise da Silveira sobre os Tipos Psicológicos - Jung

17 de outubro de 2006

Maat



O olhar impenetrável que afasta, o coração e pluma compensadas. Ó Lustitia, irmã de Nêmesis ética, alimento de Rá que funda seus olhos. Que Seth desfaleça no Palácio das Duas Verdades, antes do julgamento final - 42 vezes. Que eu pese o que lhe equivale, pois é de meu coração que sai a voz de escaravelho e que não me levantará falso testemunho. Eu a conservo em reverência, pássaro que não quer padecer da excessiva luz. E se meu destino for Ammut, leve da irreverência o juízo. A verdade existirá no alto de seu toucado. Sabem Thot e Anúbis que eu apenas amei no horizonte de Aton. Aquela que reina na terra do silêncio.

Num ponto de Ra
Maat Hotep
Eu te saúdo
Nas três pétalas da Rosa Eterna
Em torno de Ankh

Amen Hotep
Ahum Rah /Maaah Ahum Rah
Ahum Ra / Ahum Ra
Maat Hotep


Teu ser alado
Anela
Em torno de Ra
Pelo coração-chave de Ankh

Maat Hotep
Maat Hotep


Teu Fogo
Vivifica todos os Planos
Pela espiral
De
Ra

Maat Hotep
Maat Hotep


Oh Serpente
Oh Chave da Eternidade

Tuas raízes
Na Terra
Dançam pela coluna de Ankh


Maat Hotep
Maat Hotep

Teus véus são lançados
Para quem
É impuro para Ra

Maat Hotep
Maat Hotep

Men Kheper Ra
Men Kheper Ra

Ahum Ahum

(maat)

15 de outubro de 2006

A Raiz dos Poderes do Ar




“A imagem é mais verdadeira que a verdade."
(Jean Baudrillard)


Inteligência é afrodisíaco, diz-se por aí. É vero. No amor, amizade ou trabalho aplaudimos sua arguta e bela égide. Uma afinada composição entre Atena e Afrodite. Também é senso comum que "inteligência" em excesso, atrapalha. Não raro é vista como a gênese das eternas punhetas mentais. Problemas de recorrência, círculos viciosos, obsessões, sofrimento. A manutenção de catálogos - frases feitas que fulminam a fluência, e o excesso nas categorizações.

Borboletas presas em alfinetes assinalam o fim das asas. É bom observá-las voando. Ou mudar a metáfora: que sejam lençóis delicados pelo vento sobre corda de metal, finíssima.

Mas aí vem a observação: "a mente é a uma armadilha" etc e tal. E a conversa termina drasticamente quando alguém diz, conformado, que a "ignorância é a verdadeira felicidade". Mas inteligência não tem nada a ver com confusão. Tem a ver com a forma com que se prendem os lençóis.

A inteligência emocional, por exemplo, não partiria de uma decisão do sujeito em encarar de frente as esquinas pontudas do coração, as sensações primeiras, o exagero e a falta? Tudo passa pela mente, “o grande filtro". O corpo, não teria sua "inteligência"? E não parte de uma decisão da mente deixar que o corpo fale? Desatados os nós inconscientes, é claro...

O pensamento vai do vento a uma chapa de alumínio. E assim, sucessivamente, até o ferro - pesada ferradura. Pode virar uma bigorna. Não necessariamente nessa ordem. É bom lembrar da justa medida - aquecer o aço até que se torne vermelho-cereja. Mergulhar a lâmina em água límpida. Cravá-la na terra. Lustrar a espada, sempre, com a disciplina de um samurai. Afiar a faca.

Deixar com que escoem numa complexa peneira com maior ou menor grau de retratibilidade na sua trama. As emoções (água) as sensações (terra) as intuições (fogo). Lavar a talha, limpar o filtro. Todos os dias. Os resíduos? Antes, procurar os diamantes.

Isso tudo é do escopo das Espadas.

Mas aí vem você (?) e diz: - "Há exagero nas imagens, a abstração pressupõe uma postura não-imagística. Por que tantas metáforas?” Hum, eu retrucaria: - "Onde está escrito isso? Vem com certificado de validade? "

A força do Tarot não está nos seus conceitos, mas nas imagens. E partindo desse pressuposto, não seria o naipe de Espadas um injustiçado na trama do Tarot?

Quando Waite orienta Pamela Smith em seus desenhos ou quando Crowley o faz de maneira bastante pessoal com Frieda Harris, a que lógica estruturante obedeciam além da ordenação esotérica, iniciática? Como eles falaram do seu tempo? Que idéia de mundo traziam à tona?

É só olhar para as cartas, estendê-las. Deixar a tabelinha da cabala onde estava - se é que você usa uma - e junto com ela, tudo que tinha lido antes. Ver com os olhos livres cada imagem sendo narrada.

É possível piorar a situação: estenda as cartas de pintas do Marselha, originalmente abstratas, ao lado do Crowley e do Waite. E depois guarde na caixinha os dois últimos. E me diga o que aconteceu. Talvez o palo de espadas devesse vir sem imagens, então.

Conta a lenda que as figuras de Espadas são as mais terríveis, as mais rebeldes. Pensando na seqüência de 1 a 10, o que se salvaria da selvageria mental? O Ás? O Seis? Os significados divergentes da lâmina de número Dois, chamada ora de Paz, ora de Guerra íntima? Uma engenhosa aliança.

A meu ver o Dois fala do paradoxo. Oxímoros. Por uma lado, a mente cria o estado perfeito para analisar com critério um determinado fato, por outro bloqueia o contato com as emoções. Enquanto isso, em Gotham City, ou melhor, em San Diego, as espadas cruzadas falam sobre o embate. Um encontro marcado, duelo. Colisões intelectuais podem ser extremante frutíferas. Ou não. Afinal há um mar de emoções, e são tantas as emoções...e depois, todos os cretenses sempre mentem, é bom não esquecer.

Quero dizer o óbvio: se o palo de Espadas é naturalmente mal-dignificado em seus significados mais literais, não valeria uma outra "visada"? Uma visão menos comprometida com a forma de pensar o mundo no século XIX?

Exemplos, exemplos, exemplos.



Eu desejava mesmo era falar sobre a Rainha de Espadas,
mas fiquei com o lençol agarrado na perna do Ás.

Tá valendo.
Já volto.


Zoe,
num belo domingo de primavera

18 de setembro de 2006

Tarologando (ou tagarelando) II



Diz uma aluna: - Ah, Zoe, minha tia vai adorar consultar com você.
Ela é fissurada "nessas coisas".

Essas coisas. Certo. Essas Coisas.

Do que se trata? Eu trabalho com "essas coisas" então, coisas estranhas?

Tudo começou na escola, quando a professora afirmava que minha cabeça estava nas nuvens. Certamente eu já pensava naquilo que não tem nome.

Eu realmente prefiro que chamem o que faço "dessas coisas" do que digam que sou "esotérica". Tremo com a palavra, mal aplicada que é. O desinformado, ainda grafa errado: "exotérica". Duplo arrepio. Ou então, assim: "Ela é mística". Palavra bonita, é vero, mas me soa esquisitíssima.

Bruxa, eu gosto porque me acho bonitinha. Se fosse um jaburu, acharia ruim. Feiticeira, ficou sem spell e sem smell depois da música brega. A gente esquece fácil da Samantha mexendo o narizinho. Minha memória é seletiva e tende à entropia.



"Ela é wiccan!" - odeio. Ainda mais quando pronunciam "v" ao invés de "u". Quero morrer, cometer suicídio, uma kamiquase mergulhando o nada com sua vassoura Nimbus 2007.

Essencialmente, minha espiritualidade se dirige à bruxaria. Mas não dou conta que relacionem minha percepção de mundo a uma forma quase protestante de Paganismo (grata, Dr. Graham Harvey!) e repleta de equívocos léxicos. "Religião da Deusa" é o primeiro equívoco. Ora, religião? Mas a palavra, o conceito de Religião, não pressupõe um livro sagrado? E qual seria? O "Livro das Sombras"?

A palavra "religião" está intrinsecamente ligada ao tradicionalismo cristão e a um conceito abstrato de transcendência que supõe o asceticismo. Um profeta, uma legislação estrita, severos códigos de conduta. Me parece que Paganismo não tem nada a ver com isso, pois elege "o corpo", as sensações, a natureza e a liberdade como pontos fulcrais.

E os “Dogmas Wicanns”, então? Dogma, moçada? Vocês têm certeza?

A lei tríplice é uma advertência para um possível abuso de poder. Mas por que o que faço magicamente retornaria para mim três (3!) vezes? Deve ser "dogma" mesmo, porque ninguém explica. Só nos graus mais avançados e é segredo...ok, e meu nome é Mickey Mouse.

Os teólogos cristãos, estes sim, eram feras. Descolavam explicações complicadas e eruditas. Ainda descolam. Convenceram muitos. O que já não acontece com os teálogos (sic) da "Religião da Deusa" - e que ela me perdoe o perjúrio.

Chata. Sim, sou chata com as palavras. Crica, até. Palavras vazias, palavras que nos remetem a uma leitura estereotipada. Sou a favor da criação de um léxico próprio. No mínimo, coerente com meus pensamentos. Que cada um faça o seu. E o defenda.

Aí, chega o espertinho e argumenta que as palavras não importam. Importam sim. A palavra não é a coisa, mas a "coisa" precisa de um viés digno, um suporte sensato.

Engolem-se conceitos e palavras sem questionamento. Mas, ó terra santa, será que isso traduz o que significo? Ou o que desejo significar? É uma pergunta que deveria suscitar reflexão.

Sim, trabalho com "essas coisas". Pronome demonstrativo + substantivo feminino.

Antes assim do que assado.


Zoe
p.s.: hoje tô meio virada. descobri que Éris está no meu mapa.
onde está sua Éris?

15 de setembro de 2006

Tarologando I


São Paulo é sempre uma surpresa. E dessa vez ganhei a viagem na chegada. Poderia acontecer qualquer coisa depois que a Roda girou na minha frente, escancarando sua mecânica abstrata. Basta uma visada atenta, rumo ao futuro. Não sei se isso acontece a toda gente, comigo não. O inesperado, quando a Roda dá um salto. Sempre que imagino uma máquina do tempo, estou na Grécia Antiga, num castelo medieval, num bosque de carvalhos. Escavações, Psicanálise. Futuro, só se for para descobrir os números da mega-sena - voltar - e construir uma máquina que me leve direto ao passado. Mas já que quem fica parado é poste, eu mudo de idéia. E ando encantada pelo futuro. Pelo imprevisto, pela magia da falha na Matrix. O sentido do "deslize". A vida tem sido pródiga comigo. Parece que me diz assim: - Olhe só, filhinha, o que acontece quando você desliga a lembrança. Olhe o que gira quando você está atenta, aqui e agora. E eu lhe mostro a ventura, maravilhas em cidades desconhecidas.



Tenho cismas. Cismas que geram sismas. Ano passado, foi A Temperança. E eu precisei dela todos os dias. A vida exigiu a memória, contínua, da mãe amornando a mamadeira. Da firmeza das mãos. De não colocar mais sal do que necessário, nem pimenta no caldo. Temperar a paixão, amansar a pantera. Reconhecer o incondicional no amor. Não exigir, embora Imperatriz. Uma paciência amorosa exercitada cotidianamente. Celebrar a intimidade. Até tentei cozinhar, sem muito sucesso. Para me ajudar, revirei tudo que tinha sobre o arcano XIV. Reconheci as mais antigas iconografias. As lágrimas de púrpura e âmbar. E lavava minha alma todos os dias. Comedimento, aceitação, calma, fluência, sobriedade. Relevar o caos. Imperativa a continuidade na manutenção. A amamentação. Até que um dia, a Roda-Gigante parou aqui no meu portão. Sim, literalmente. Uma máquina estranha que não sei para o quê serve, mas que se vê sempre aí, pela cidade. Um sinal mais do que óbvio. Hora da guinada.



Eu não desejei a Roda, fui desejada. Bateu à minha porta. De novo, intermináveis pesquisas. Roda do Ano, roletas, piões, girassóis, as falas do destino - eu reinarei, eu reino, eu reinei, eu não tenho reino. As estações. O centro, que impede que a Roda faça de você o que quiser. O eixo de onde se observa mudanças sazonais. Meditação que já deveria ter sido aprendida no arcano anterior, O Eremita. Pois fiquei eremita para ganhar fôlego no giro. E observei o que gravitava à minha volta e as revoluções internas. Quieta. Calada. Eu e minha boa companhia.

Agora, subo na Roda. Estou concentrada. Sei que o carrinho pára lá em cima e balança. E que o desejo mantém minha atitude na altitude. Imperatriz - sem vertigens, desta vez.


Zoe

8 de setembro de 2006

Um corpo que cai (em si)




Caí em mim
que não estava morto.

Em mim, de minhas alturas.

Sonhava. O corpo,
soalho de emanações,
sonhava comigo.

Não sei onde estava.
Senão sobre a cama.

Deitado. Dependurado.


Sérgio Alcides
O ar das cidades

1 de setembro de 2006



Caríssimos,


(ando com essa mania de 'caríssimos'...) não tenho postado nada mas é de propósito: estou guardando munição para o meu site que, assim que eu der conta de tudo que tenho pra fazer estará online. Como alguns sabem e outros ignoram sou mãe e dona de casa, além de admistrar a vida de um gato selvagem e de um cachorrinho - agora manco. E como tenho stress de minhoca - pesquisem, não vou explicar - preciso, de vez em quando, de alguns dias de descanso e devaneio. O que não é o caso. Estou indo para São Paulo hoje, para mais uma jornada tarológica. E tarot é trabalho duro. Que modéstia parte, faço com dedicada leveza.

Os interessados em consultas, gritem.
Volto com alguma novidade.

abraços & beijos, para uns,
puxões de cabelo, para outros.


Zoe de Camaris

26 de agosto de 2006

la Fortune de la Roue



quinta após quinta
a roda da fortuna
me enrodilha em suas engrenagens
finjo que estou no outro
livre do movimento
e a esfinge, caricata
sorri vitoriosa
mas por pouco tempo

Zoe de Camaris

13 de julho de 2006

Naturalidade


A Estrela / Klimt Tarot

É uma pena que na reprodução da lâmina não salte o ornamento dourado do Klimt Tarot, assim como é entre os dedos. Deck para ser usado uma vez ou outra, ao sol, sobre tecido negro. Talvez numa noite de lua cheia, pano branco, velas abertas - não sei. Funcionou bem sob a luz do sol na minha varanda. Inesquecível. Meu cachorro escolheu uma carta com a pata. Pensei em oferecer-lhe algumas considerações, entre a sala e o jardim.

Assim que o sol se foi, guardei o maço. E só o revi pra valer agora, na aula sobre o naipe de Ouros - que, diga-se de passagem, foi agraciada por um farto jantar no melhor estilo 9 de pentáculos + 3 de copas. Só podia ser.

Muito boa a minha vida de professora. Estou quase acreditando que faço isso direito. Resultados se mostram, não só na participação dos alunos, nas suas criações e novas leituras, mas também na forma com que essa interação se dá - aulas que, sem querer, se tornam temáticas. Mas não tergiversemos, voltemos ao tarot dourado.

Ganhei de uma consulente o mimo klimtiano. A moça em questão é recém-amiga, com quem muito me folgo trocando figurinhas - Jornada nas Estrelas é já. Uma dona Interestelar, sem dúvida. Corre-cometa todo o planeta em aviões prateados e nos gaviões de pupila apurada. Olha só o que ela me falou do seu último vôo, já entre o lápis-lazúli de Cleópatra:

"(...) um vôo que parecia um filme de Fellini, ou uma comédia do Monty Phyton... elenco da história da humanidade: núcleo dos judeus ortodoxos (daqueles de chapéu e barbinhaencaracolada), dos muçulmanos, dos gaúchos (não ri não), dos argentinos que moraram em Toledo e falavam 'sumo' com a língua presa, dos nigerianos, da velhinha que fez drama por não comer ovos mexidos no café, uns caras religiosos vestidos de cavaleiros da cruzada (eu deveria ter tirado uma foto pois ninguém acreditaria nisso) e, finalmente, como convidados especialíssimos, um casal na classe executiva (onde eu trabalhei). Ela queria dar a vida por um pijama da primeira classe (que a comissária aqui gentilmente negou) e depois desfilou pela cabine com uma peruca na mão. Ele, um chato de galocha que nunca ouviu falar em 'por favor' na vida, de língua presa e espaçooooooso toda vida, além de um porquinho de marca maior. Como disse minha chefe, 'they are obsessed...'.Deu para imaginar tudo isso? Ainda dizem que comissária pega a malinha evai passear nas Zorópias...Pois é amiga, ô dinheirinho suado meu Deus (...)


Que vôo, hein Clau? Leva o Murilo Mendes na valise pra bater um papo contigo da próxima vez.


O deck em foco é Golden Tarot of Klimt, desenhado por A. A. Atassanoiv e inspirado nas alegorias do artista vienense. Quem tem um estudo muito bacana sobre Klimt Tarot é Erika Hirs - que poderia muita bem entregar o ouro e deixar que eu o publicasse. É uma fera em História do Tarot e trabalha com sensibilidade sua conexão com as Artes Plásticas.


E quem manda bala na Estrela é Phoenix, em seu inspirado artigo sobre sua sedução, vidência e narciscismo. Gabriela, Vênus, Oxum, Norma Jean Marilyn, Pandora e Deneuve, pra você ter uma idéia. É só acessar o link acima e achar no Mito e Magia a direção.


As Estrelas / litografia de Roberto Matta

Enfim, esse conversê todo porque meu namorado me deliciou com um livro muito acalentado - chama-se Arcano 17, de André Breton. Faz três dias que delicadamente me debruço sobre o Mestre do Amor Sublime, antes de apagar a luz. Ninguém conseguiu tomar a Estrela assim, tão multicor, acácia e borboleta. E nem compreendê-la em sua delicadeza e altivez. Breton reconstitui o bloco de luz, sonhando.

Nem tão dourado, nem tão fatal, muito menos maluco.


E eu vou dormir.


Estrela na testa para todos,
Zoe

12 de julho de 2006





Moçada,


Estarei em São Paulo a partir de sábado, dia 12 de julho, atendendo consultas e ministrando um workshop. Quem quiser agendar, por gentileza, me mande um email.

Curitiba que se cuide, os bruxos estão pegando suas vassouras ... o tempo urge e o leão ruge.

Mais informações em www.consultastarot.blogspot.com


Abraços,
Zoe

3 de julho de 2006

A Cartomante


Minhas pernas circulavam num céu de sabão, quando uma mulher que de tão morena parecia a estátua da Fatalidade plantou-se diante de mim. Imediatamente nasceram dois baralhos de suas mãos. Diversos senadores, choferes, estudantes, operários e o núncio apostólico suicidaram-se na frente dela. Eu também devo ter me suicidado, só que o poeta é o tipo do sobrevivente. Ela ainda agarrou pela aba do roupão o banhista José, mas o herói deslizou na primeira onda de som e caiu no mar. A mulher soltava mentiras a todo instante. Cada vez que ela soltava uma mentira, nascia uma roseira. Em breve a praça tornou-se coalhada de roseiras com seus cinemas, suas confeitarias, seus bordéis, seus anúncios luminosos, seus bancos, suas guilhotinas. Os peixes cintilavam no céu, e, movendo graciosamente as barbatanas, faziam vibrar a música das esferas. Diante do espetáculo da ordem da criação, meu espírito bárbaro levantou as camadas de sífilis e de pesadelo que me legaram os retratos de meus avós cretinos, e gritou diante do mar coalhado de paquetes: "Mulher que pareces contemporânea do 1º tempo do espírito, explique-me, ô anjo máquina de costura-caos, por que existe um limite para a desarmonia; por que os anjos não atropelam os geômetras na rua; por que os capitalistas nas suas casas; por que as diabas-antenas não atropelam os músicos nas suas cabeças; por que a minha namorada não me matou". Aposto um mamão contra a eternidade que a mulher ia responder; mas um aeroplano que passava atirou uma bomba de tinta Eureka na cabeça dela. O ar ficou tão lavado e transparente que eu pude distinguir com nitidez a linha que vai do equador ao pólo; em cima dela um japonês se equilibrava, jogando bilboquê com a cabeça de um chinês.


Murilo Mendes

9 de junho de 2006

DIOR NÃO OUVIU SUA VIDENTE




Christian Dior, que virou lenda da alta-costura francesa, só assumia compromissos ou tomava atitudes se sua vidente, Mademe Delaye, aprovasse. Foi ela quem o ordenou a deixar a modesta função de desenhista da casa de Lucien Lelong e aceitar o desafio de Marcel Boussac, homem mais rico da França na ocasião e conhecido como o rei do algodão. Boussac queria Dior e o estilista estava irrequieto para romper com a silhueta feminina vigente na época. Juntou a fome com a vontade de comer. A Casa Dior abriu suas portas no dia 12 de fevereiro de 1947 e acabou sendo um marco importante naquele momento, reconduzindo a França à sua posição de capital da moda. Pela primeira vez um desenhista de alta-costura influía no gosto de mulheres ricas e pobres ao mesmo tempo. As que não podiam comprar seus vestidos, copiavam os desenhos.

Madame Delaye regularmente ia vê-lo e aprovava ou não suas decisões pelas cartas. Em 1957, obeso e adoentado, Dior programou uma viagem em Montecatini com suas famosas águas curativas. Nas cartas, sua adivinha teve um mau presságio.

– Você tem que abandonar seus planos de ir a Montecatini – insistiu ela. As cartas dizem para você não ir. Pela primeira vez ele não lhe deu ouvidos. Madame Delaye apelou a outros amigos para que não o deixassem ir, incluindo seu protegée Jacques Benita. Mas Dior estava decidido a ignorar qualquer advertência. Tomou o trem que o levaria à Itália. A viagem foi fatal, como havia augurado Mademe Delaye. Christian Dior morreu em Montecatini de um infarto fulminante, sem tempo de assistência, em outubro de 1957, tinha 52 anos. Sua morte repentina causou impacto em todo mundo da moda. Recebeu tantas flores que o governo francês permitiu que elas fossem depositadas no Arco do Triunfo.

Amaury Jr.

28 de maio de 2006

O ENIGMA




Numa certa vez incerta, um cidadão que por pura coincidência se chamava Édipo foi consultar o Oráculo, que por pura coincidência era o de Delfos.

Aí, por pura coincidência, o cidadão Édipo chegou para uma muito sedutora pitonisa que vivia por lá e perguntou: “Qual é a resposta do Enigma?”

E a pitonisa, muito sedutora: “É uma face imaginária enquadrada numa circunferência.”

Então Édipo percebeu que não sabia qual era a pergunta do Enigma.

E assim tudo ficou por isso mesmo.


Ivan Santana

18 de maio de 2006

"Recuerdos" do Tarot em Frida Kahlo II


Suzanne Mir / colagem

Por ter encontrado praticamente todos os arcanos de um "tarot em Frida", fiquei pensando como apresentá-los. Por um momento, imaginei a ordem cronológica - me pautar pela sua biografia, mas a idéia não me satisfez. Ordenar numericamente as imagens segundo a estrutura do tarot, tão pouco. Acabei optando por mostrá-los segundo o que tenho a dizer, afinal, a bibliografia que tenho aqui disponível não é farta como gostaria. Num segundo momento, reedito tudo, de outra forma. E vou parar de pedir a Frida que me oriente - no último post os livros começaram a cair no chão, as portas a bater sozinhas... :)

Começo pelo arcano IV, Os Amantes, passando pelo Diabo, o 10 de espadas, O Mago e finalizo com O Mundo.

A obra de Frida não pode ser separada do seu relacionamento com Diego Riviera. Quando o filme "Frida" foi lançado, um dos comentários era de que o filme se detinha mais na relação entre os dois do que na trajetória da artista. Bem, não é possível esquecer que estamos frente a um produto de mídia norte-americano e que histórias de amor dão mais ibope que documentários. E que a vida e a obra de Frida estão fundidas intimamente.


salma hayek e alfred molina in "Frida" (2002)

Outro dado que registrei ainda antes de assistir ao filme, foi uma conversa entre amigos que se referia ao quanto Diego Riviera teria feito Frida sofrer. Discutimos semelhanças com as histórias de Silvia Plath e Ted Hughes e também de Rodin e Camile Claudel. É fato que Diego Riviera era um mulherengo compulsivo. Mas também é fato o amor intenso, obcecado, que Frida nutria por ele. Seus quadros o demonstram largamente. Não é possível esquecer da seguinte frase de Frida, sob o impacto da separação: ''Acho que é melhor nos separarmos e eu ir tocar minha música em outro lugar com todos os meus preconceitos burgueses de fidelidade''. É fácil extrair deste dito que, para a comunista atuante, uma mulher que chocou a moralidade do seu tempo, a fidelidade (ao menos em tese), era um procedimento anacrônico, descontextualizado do meio sócio-cultural em que vivia. Há uma cena em que os amantes fazem um pacto. Diego diz a Frida que não lhe seria fiel. Ela pede então ao futuro marido, lealdade, sinceridade. Estes acertos são fundadores e marcam um relacionamento, seja entre quem for, enquanto dure. Um sempre irá lembrar ao outro o que foi combinado num clima de cumplicidade. Imagino o quanto deve ter sido contraditório para a canceriana Frida, de tenaz forte, aceitar as escapadas de Diego. Mas trato é trato, pacto de confiança.


"Frida Kahlo e Diego Riviera" (1931)

Escrever as analogias imagéticas do arcano VI com a obra de Frida, é desnecessário porque óbvio. Mas para quem acha as imagens do Tarot demasiadamente fortes ... Frida Kahlo, nesse sentido dá de dez no Tarot. É verdade que o delicado trabalho de Pamela Smith, na imagem abaixo, é o mais leve que conheço. Mesmo a sombra da dúvida que paira no Enamorado do tarot de Marselha, aqui não se retrata.


the lovers / waite tarot

Mas a paixão, o traço obsessivo que pode ou não permear uma relação de amor, é sua sombra: O Diabo. As correntes são fortes, o par não reconhece seu algoz. O anjo negro se esconde, funciona nas coxias. O sexo desenfreado, a bebida, a impulsividade e a confusão são elementos do arcano XV - número este que reduzido, segundo a prática numerológica, daria o 6, a carta dos Amantes.


the devil / waite tarot

Não li as cartas apaixonadas que Frida escreveu para Diego (publicadas pela José Olympio) em que poderia extrair mais informações. Sei apenas que não deve ter sido um relacionamento fácil (existe?) – ela gostava muito de tequila, era uma mulher passional e transou com diversas amigas. Brigas deviam ser comuns. Nitroglicerina pura.


"Diego en mi pensamiento" (1943)

Frida viu Diego pela primeira vez em 1922. Em 1928, levou suas obras para que ele as apreciasse, ocasião em que se tornaram amigos. Em 1929 estavam casados e participando ativamente da vida cultural mexicana.

Em 1935, nos Estados Unidos, Diego tem um caso com a irmã de Frida, Cristina, que posara para o artista. O golpe foi violento, uma dupla traição. Um dos quadros que retratam esse momento conturbado de Frida, e de natureza bastante apelativa, é “Unos quantos piquetitos”. Baseando-se em uma notícia de jornal, Frida transcreve a imagem de uma mulher morta pelo marido ciumento. O assassino, justificando-se perante a polícia, teria dito: “mas foram apenas alguns golpes!”


"Uns quantos golpes" (1935)

O quadro me lembrou imediatamente a imagem e o significado de um arcano menor, o 10 de espadas, que representa uma figura deitada, cravada por dez espadas no tarot Waite e similares. Apesar da interpretação tradicional não aludir à uma morte violenta, fala de traição - que era o momento de Frida, apunhalada pelas costas. A carta refere-se ao desamparo, à razão divorciada da realidade (que parece ter a ver com a observação feita pelo marido ciumento, ao justificar-se), à ruína. Rachel Pollack, estudiosa do tarot, ao interpretar esta carta, diz que basta uma única espada para matar alguém. E que seu significado se prenderia mais a uma atitude histérica, que teria sua voz na seguinte frase: “ninguém sofreu tanto como eu, minha vida acabou”. E parece que este era exatamente o recado que Frida queria passar para Diego.

Optei pelo tarot New Vision, que mostra o que estaria acontecendo do lado contrário da carta, e que introduz a imagem da morte e mostra a face da figura caída, ao exemplo do quadro de Frida. Morte: o marido com a faca na mão e o pássaro negro. As cores das duas imagens também combinam: o cinza do rodapé do quadro com as nuvens escuras do arcano menor; uma nesga de céu claro, amarelado, dialogando com o chão pintado de amarelo.


10 of swords / new vision

Depois da decepção, Frida viaja, afasta-se de Diego, dedica-se com vigor ao partido comunista, tem vários casos amorosos. Seu romance com Leon Trotski rendeu assunto. Nessa época, Frida conhece André Breton, contato importantíssimo na sua carreira e que lhe levará mais tarde a Paris, na sua primeira grande exposição em terras estrangeiras. Apesar do afastamento que ocorreu entre Frida e Diego, eles continuam casados. Em Nova Iorque, Frida tem uma relação bastante apaixonada com o fotógrafo Nickolas Murray. Depois de terminado o romance, Nickolas lhe escreve: “Eu sabia que NY só te tinha satisfeito enquanto substituto temporário e espero que encontres o teu refúgio intacto quando regressares. De nós os três só estavam lá vocês os dois. Sempre senti isso. As tuas lágrimas diziam-me quando ouvias a voz dele. O meu eu está eternamente grato a ti pela felicidade que a tua metade me deu tão generosamente”.

Ela continuava completamente apaixonada pelo “seu” Diego, Murray percebeu. Mas como Frida não havia se recuperado da traição que descumpria o trato de lealdade, e também por insistência de Diego, que achava que assim ela se dedicaria mais à sua obra e seria mais feliz, dão entrada no divórcio. Os papéis ficam prontos no final de 1939 e eles se separam. Frida começa a beber muito, ao mesmo tempo em que mergulha de cabeça no seu trabalho. É desta época seu quadro "Auto Retrato com Cabelo Cortado". Não queria mais sobreviver com o dinheiro de Diego. Abdica de seus atributos femininos e dos seus trajes tehuna, vestindo um terno tão maior do que ela que poderia ter saído do guarda-roupa de Diego. Ironicamente, pinta na parte de cima do quadro um verso de uma canção mexicana: "Olha, se te amei foi pelo teu cabelo; agora que está careca, já não te amo". Frida retrata-se com uma tesoura nas mãos e os cabelos caídos no chão parecem estar vivos, enroscados na cadeira.


"Autorretrato com pelo cortado" (1940)

A imagem evoca o Mago no tarot, arcano que fala do princípio masculino e da criatividade. O instrumento da "magia", a tesoura; as três pernas da cadeira, assim como a mesa no arcano I; a letra de música como a inspiração vinda do alto. A partir de deste quadro, Frida cria uma série de auto-retratos bastante semelhantes entre si, diferenciando apenas os adereços. "Manipula vários elementos para expressar temperamentos diferentes que, ao mesmo tempo, escondem a natureza de uma produção em massa, para ser vendida", segundo Andrea Kettenmann. O Mago é um comerciante nato e organiza seus objetos sobre a mesa para poder iludir e extrair alguma vantagem.


le bateleur / camoin e jodorowski

A saúde de Frida piora consideravelmente depois da separação. Em dezembro de 1940, Diego a pede em casamento novamente, declarando: “A nossa separação estava tendo um efeito prejudicial sobre nós dois”. Casam-se novamente. Mas ela coloca duas exigências: que se sustentaria com o seu próprio trabalho e que não teriam mais relações sexuais. Diego diz que ficou tão feliz com a concordância de Frida em reatar que aceitou tudo de muito bom grado. Ficam juntos até a morte de Frida em 1954, poucos meses antes das bodas de prata. Foram 25 anos juntos.

Diego foi o Homem de Frida. Frida, a Mulher de Diego. Uma relação crucial, literalmente. Amor, dúvidas, encanto, beleza, encruzilhadas. Uma ilustração mais do que perfeita para o Arcano VI.

Sim, Diego fez Frida sofrer. O sofrimento de Frida Kahlo também dever ter feito sofrer Diego Riviera. Se por um lado, Diego foi abandonado pela mãe e criado por diversas mulheres a partir de então - o que explicaria sua falta de confiança num amor único - Frida era atormentada por um grande vazio somado às suas inúmeras dificuldades físicas, às suas diversas cirurgias e abortos. Este foi um encontro de duas personalidades marcantes, extraordinárias. E um amor que apesar dos obstáculos, sobreviveu. Com Diego, Frida pôde compartilhar alegrias e dores, amantes e decepções. Foram parceiros e amigos, seus interesses eram comuns.


El abrazo del amor de El Universo, la tierra (Mexico), Yo, Diego y el señor Xólotl

Ele não a amava, então? Relações intensas são condenáveis? Por quem? Por quê? O correto é o que satisfaz as expectativas da sociedade, da família, os preceitos do “bem viver”? Presumivelmente sim. Mas as relações amorosas desafiam as regras do bom senso. Houve dedicação, coragem.

E o Amor não serve à covardia.

Diego ocupava os pensamentos de Frida, o que se vê em diversos auto-retratos, no “Retrato duplo”, presente de aniversario para o marido em 1944, em que imagem funde o rosto dos amantes, e no “Abraço Amoroso ente o Universo, a Terra (México), Eu, o Diego e o Senhor Xólotl,” de 1949. O cão representa o ser que guarda o reino dos mortos na mitologia pré-hispânica. Dessa forma, Frida reconstrói um novo "além-mundo" para ela, a Lua, e Diego, o Sol, onde estariam unidos para sempre. No último arcano do Tarot - O Mundo, O Universo.


the universe / crowley tarot


Zoe de Camaris
p.s.: mais arcanos “em Frida”, em breve.


Bibliografia: KETTENMANN, Andréa. Frida Kahlo, dor e paixão. Lisboa: Taschen, 2001.