17 de dezembro de 2006

SETE MIL VIDAS




_____________________________ “A tarefa não é a sua individuação
___________________________________mas a individuação do anjo”
__________________________________________Corbin


Sete ‘Mil Vezes’ de Copas. A lâmina que chama atenção, principalmente no baralho Rider-Waite.

Um homem olha para sete taças envolvidas em nuvens. De dentro delas, um castelo, uma serpente, um dragão, jóias, uma coroa de louros, o rosto de um anjo e uma imagem fantasmática com o rosto coberto. A Musa, a Virgem.

São diversas as opções, inúmeras as possibilidades. É quase impossível dividir um círculo em 7 partes. Um desafio coordenar a ordem do ternário, mental ou espiritual, em harmonia com a ordem do quaternário, terrena (3+4=7). Netzah. Então o 7 de copas é chamado de O Senhor do Êxito Ilusório. Ou, a “Vitória da Mulher”, o que é bem interessante. O predomínio da Anima. E de Maia, a ilusão. Uma imagem venusiana, netuniana, lunar. Via Úmida. Ordem da Grã Sacerdotisa. 


Se relacionarmos a numeração das cartas menores com os arcanos maiores, chegamos ao Carro. O condutor precisa saber usar as rédeas do invisível, senão a carroça desembesta. O Carro é corpo do Condutor. Quem o dirige é o espírito atuante.

No entanto,  é curioso que esta carta tenha um significado considerado “difícil”, mesmo quando bem dignificada. Diz Waite: “Belos favores, imagens de reflexão, sentimento, imaginação, coisas vistas no espelho da contemplação; algumas consecuções nesses graus, mas nada é sugerido de permanente ou substancial”. Perfeito. Mas as interpretações posteriores parecem fixar-se na última parte da reflexão de Edward Waite.

O surgimento do 7 de copas numa leitura é interpretado como um indício da diversidade de opções. De alternativas ilusórias. Enganos. Excesso de expectativas. Do possível uso de drogas, intoxicação. Mesmo que o número 7 signifique vitória, controle. O Poder Mágico em toda sua força, a Teurgia (atuar sobre os deuses). A dominação da matéria pelo espírito. E a matéria é considerada feminina, no que concordo. Mas sempre negativada? É claro que inverter a ordem dos fatores não dá certo. Porque esta carta não fala do domínio da matéria sobre o espírito. Mas de uma forma aquática e aérea, portanto, da ALMA, agindo sobre a matéria.

A alma rege a orquestração. A sua e a do mundo.
E alma tem o corpo de uma mulher.




“Perigo, Will Robinson, perigo!” – diz o robô. Perdidos no Espaço. Compreendo perfeitamente, ainda mais depois que Aleister Crowley denominou como “Deboche” o 7 de copas, melando (literalmente) a imagem logo de saída. Vênus em Escorpião. Plutão na jogada.

Contudo, entretanto, todavia.... será que não deveríamos observar esta carta sob uma perspectiva menos positivista?

Lembremo-nos que muitas das interpretações fixadas com relação ao Tarot são do século XIX, começo do XX. E que os magistas desta época, queiram ou não, são signatários do discurso cientificista. Quem sabe, no intuito de “validar” o Tarot tenham sido bastante racionais ao interpretar as imagens. Os comentadores que se seguiram pouco acrescentam aos significados dados a esta carta numa perspectiva menos comprometida.

Há que se ler Gaston Bachelard, James Hillman, Gilbert Durand. E para entrar mesmo no mundo da imaginação e do devaneio, só mesmo com os poetas. Deixar a imaginação colorir todas as asas, mesmo aquilo que não voa. Renomear o mundo. Intoxicar-se de música. Caminhar sem destino, observar sem conclusões. A imaginação é a suprema liberdade do espírito.

Para compreender o tarot talvez seja uma boa saída esquecer os manuais de interpretação.




São 7 as Maravilhas do Mundo, os anões da Branca de Neve. Sete os portais de Tebas, 7 léguas para as botas. Sete mares nunca d'ante navegados, 7 chacras, 7 dias da semana. Sete cabeças da Hidra de Lerna. São quatorze (são infinitas) as portas do labirinto de Asterión, em Borges. Mise em abysme. Tudo existe muitas vezes no plano da imaginação. Imagine, diz John Lennon.

E se a realidade, a realidade “ordinária” é complexa - simular idealmente a estabilidade não seria a real fantasia? Até que ponto o conselho: “coloque os pés no chão e dedique-se a reflexões fundamentadas” faz sentido? E se estivermos frente a uma pessoa enredada nas malhas cruéis da realidade e que não consegue ver na sua frente nada além de compromissos, cobranças, expectativas internas e alheias? Não seria este o momento de recriar seu mundo? E como recriá-lo sem soltar as rédeas que entre muitas voltas nos levam sempre pelas mesmas estradas e que acabam em becos sem saída?



O tarot é uma arte da “imaginação”. É através das imagens e do poder de desvincular-se da realidade ordinária que se torna possível iluminar conflitos.

Sim, é uma arte paradoxal.

O plano racional é comunicado por palavras. O inconsciente comunica-se por imagens. E se as imagens não podem emergir, como reconhecer a verdade do inconsciente?

E que é a “verdade” em tempos de panvirtualismo?

Convém definir, diferenciar, a palavra imaginação da palavra fantasia. Diz Rachel Pollack, citando o poeta S.T. Coleridge, que ambas as noções afastam a mente das percepções comuns. A imaginação nos levaria a uma percepção da verdade subjacente vinda do inconsciente enquanto a fantasia produziria imagens mentais que podem excitar, mas às quais faltaria um significado real, pois procederiam do ego.

Pollack debruça-se aqui sobre o Príncipe de Copas, aquele que olha para uma taça vazia, ou seja, para si mesmo. Ao falar do seu companheiro Valete, aponta que este vê um peixinho saindo de sua taça. E que ali sim a imaginação estaria no seu devido lugar. A infantilidade do Valete justificaria um tempo em que a fantasia e a contemplação seriam adequadas.




Embora goste da diferenciação de Coleridge, me dou ao desplante de discordar de Pollack quando relaciona a imaginação e a fantasia à imaturidade.

A imaginação sempre foi considerada “a louca da casa”, disso sabem os franceses. É uma palavra vilipendiada. É vero que a imaginação excessiva e/ou a perda dos limites pode levar alguém à loucura. Mais isso é hipostasiar um dos pratos da balança. Pesar a mão. Pensemos na justa medida. O excesso de imaginação nos enlouquece, nos torna inadequados socialmente. Torna-se delírio. A falta de imaginação nos faz parvos, secos, tolhidos de graça e matizes.

É bom não esquecer, como nos diz Neil Gaiman, que o primeiro nome de Delirium é Deleite - ainda na infância dos Perpétuos.



É impossível lançar as cartas e ser razoavelmente bem sucedido sem o poder de imaginar, sem se colocar aberto às infinitas possibilidades do 7 de copas. E não é seu título, a Imaginação?

“Cair na real” nem sempre é uma boa.



Agora vou para minha varanda deitar na rede rosa-choque entre as flores, numa bela tarde de domingo, depois de uma semana punk. E olhar para o céu, namorar o vento, chamar todos os meus amiguinhos imaginários e fazer uma festa daquelas. Se Sorte sorrir pra mim, aparece um beija-flor.

Mas aí já é Desejo.



Zoe de Camaris

7 comentários:

Clau disse...

Lindinha, finalmente em casa por um mês. Saudades! Beijos

Anita disse...

Oi Zoe

Eu ainda sou aprendiz nas veredas do tarô, tive um tarô de marselha por oito anos (de 95 a 2003) mas não conseguia dialogar com ele. No entanto, com o mitológico que possuo há um ano consigo dialogar bem (talvez pq ele seja "didático" demais). Uma psicóloga que lê o mitológico há tempos me disse que o sete de copas significa o cumprimento de tarefas no âmbito familiar. Qual sua opinião? Eu estou pesquisando sobre tarôs e lendo o texto de Ítalo Calvino (O castelo dos destinos cruzados) e como não simpatizo com o deck de Marselha, pretendo comprar um Rider Waite assim que possível para ter mais referências além do mitológico. Confesso que acho o Thot um deck muito abstrato, pelo menos por enquanto.

Zoe de Camaris disse...

Anita,


Parto do seguinte princípio: as imagens falam mais alto. O que percebo na minha prática com os alunos que já estudam faz tempo é que eles ficam presos aos conceitos, aos significados dados às cartas e depois não conseguem criar os "links", ou seja, ler fluentemente. Veja, o tarot é uma linguagem. Podemos, para facilitar, recorrer à seguinte idéia: cada carta é uma palavra. Uma, ao lado da outra, cria uma frase. Há uma sintaxe que determina a semãntica. E sabemos bem que uma palavra que significa algo sozinha, modifica-se ao combinar-se com outras.

Portanto aí, precisamos de um entendimento que não seja estanque, fechado.

Obviamente, não estou menosprezando os manuais. São necessários, afinal de contas, é a rica contribuição de estudiosos dedicados.

Mas acredito que olhar para as imagens, deixar que elas falem, prescrutar nossos sentimentos em relação a elas, descrevê-las e atribuir significados de acordo com a nossa experiência seja um passo importantíssimo para quem quer ler bem o tarot.

A inovação do Tarot Mitológico é determinar uma história sequencial para os arcanos menores, facilitando assim a vida de muita gente. Minhas duas irmãs são fãs do Mitológico. Mas ficaram paradas nele, não conseguem sair. E já tive alunos com o mesmo problema.

O Thot recria os padrões abstratos tradicionais. Genialmente, Frieda Harris deu cor às lâminas. As associações astrológicas e os títulos das cartas, além da força simbólica e imagética, ajudam muito na leitura.

Mas se vc gosta mais da tradição pictórica, do estilo "HQ", recomendo mesmo o Rider Waite ou algum similar, como o Hanson and Roberts.

Quanto ao significado atribuido por Sharman-Burke & Greene ao 7 de copas, no contexto da história de Eros e Psiquê, é perfeito. Ali estão as opções que encontramos no 7 de copas do Rider Waite. Mas de novo parece que "realizar" ou desvincular-se da ilusão, "cair na real" é o mais importante.

E é isso que questiono com relação aos significados atribuidos em relação a carta. A falta de uma justa medida.

abraços,

KLATUU o embuçado disse...

__________FELIZ NATAL__________

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JAJAJAJAJAJAJAJAJAJAJAJAJAJA!!!!!!!

Alexsander disse...

Oi Zoe!

Esse 7 de copas... carta tão brincalhona que engana até mesmo quem a estuda...

Outro dia estava eu cá, na terrinha do frio e do Azeite Galo dando um curso sobre Arcanos Menores qdo uma aluna traz uma jogada geral onde, na casa do Plano Espiritual, sai a "Temperança com o Sete de Copas". E a minha querida aluna, hj amiga do peito, vira-se para mim e diz que aquela combinação não fazia nenhum sentido para ela. "Ilusões em relação à espiritualidade?" - Indagou minha amiga Lusitana.
A interpretação que me veio à cabeça na hora não foi nada disso...
Aquele Arcano (14) dignificado no plano espiritual, harmonizando e protegendo indicava que sua espiritualidade estava em ordem e proteção não lhe falava… e ao ver os pezinhos do anjo no chão lembrei, de imediato, do tarô mitológico onde eles representam a Temperança como Íris, a Deusa do Arco Íris, como Hermes, mensageira dos Deuses. Então, no meu entender, aquele sete de copas só poderia ser: “mensagens”… uma espécie de comunicação espiritual que se manifestaria através de sonhos, visões ou intuições e que tb me sugeriam que seu equilíbrio espiritual seria tb encontrado através de atividades lúdicas, do trabalho com a arte e com a imaginação. As duas cartas bem aquáticas numa combinação pra lá de Netuniana, manifestando-se no Plano espiritual de forma tão perfeita me fizeram rever os conceitos sobre o sete de copas e perceber que ele estava para além da habitual embriaguês e ilusão. Nesse caso ele até poderia se apresentar assim, caso a consulente quizesse racionalizar suas intuições observa-las de maneira demasiado objetiva! Nesse caso “cair na real” seria “cair no buraco”…

Qdo li esse seu texto o caso do sete de copas e a espiritualidade veio-me logo em mente e cada palavra nele contido traduzia essa combinação revelando um lado não mt falado do nosso 7 de copas! Acho que nessa tirada, o 7 de copas teve mesmo a “Justa Medida”!

E pensando nessa combinação não teríamos aqui em verdadeiro “Arco-Iris” com o sete de copas decompondo a luz e revelando as suas mil cores e colorindo a vida dessa pessoa?

Viagens do Alex!

Bjão!

Emanuel disse...

Eu entendo o Sete de Copas como uma distração necessária. O colorido, o fogo fátuo, a graciosidade netuniana que aquarela a realidade. Evidentemente, como qualquer remédio - até o chá de boldo que tomo nesse momento - a dose é que é a diferenciação entre veneno e antídoto. Algo que, convém dizer, não está no rol de habilidades netunianas. Eu olho para a xícara e vejo o dourado adamascado que enche meus olhos. Quase esqueço com isso, o amargor do seu conteúdo. E assim eu vejo os Setes: atento para a sua beleza, suas cores e suas possibilidades tão diáfanas. Mas sei que ali se esconde algo amargo, e o amargor pode ser positivo e bem vindo.
Depende da dose. E do Desejo, claro.

Solange Silva disse...

Cada vez mais amo o tarô de Thoth. É lindo, cada carta parece uma obra de arte. E para mim é o mais expressivo. Sem falar no material de ótima qualidade. Não consegui me acostumar com outros tarôs. Vale a pena estudar e praticar.