21 de maio de 2012

O mundo de cabeça para baixo





"Não a entendo", disse Alice. "É horrivelmente confuso!”
“É isso que dá viver às avessas", disse a Rainha com doçura: "sempre deixa a gente um pouco tonta no começo...”
"Viver às avessas!" Alice repetiu em grande assombro. "Nunca ouvi falar de tal coisa!"
"...mas há uma grande vantagem nisso: a nossa memória funciona nos dois sentidos."
"Tenho certeza de que a minha só funciona em um", Alice observou. "Não posso lembrar coisas antes que elas aconteçam.”
“É uma mísera memória, essa sua, que só funciona para trás", a Rainha observou.

Alice através do Espelho- Lewis Carroll




          ZOE NO PERSONARE !

16 de maio de 2012

Basta um peteleco


O processo criativo é algo enigmático. Cada um de nós têm sua forma, seu momento, sua esquisitices, facilidades e dificuldades na hora de parir uma ideia, seja um projeto, um poema, uma pintura, uma nova receita de bolo.

O lampejo pode surgir do caos: Plim! Em seguida é necessário que pequeno gérmen fale com o que lhe vai  fundo na alma. Dialogue com seus desejos. Aí é preciso que se materialize primariamente, momento em que muitas vezes, a ideia escorre e se perde para sempre. Já dizia o escritor Jack Kerouac: "Considere uma ideia perdida como irremediavelmente perdida", sugerindo que a memória cria peças e que um bloco de notas faz toda a diferença. 

Lembro-me que li em algum lugar sobre as etapas do processo criativo relacionado com os naipes, se é que é possível separar em partes o que funciona em harmonia... Bem, vale como tentativa de estudo. O insight seria Espadas (1); a indispensável empatia pela ideia, Copas (2); a energia dispendida para realizá-la, Paus (3); e sua realização propriamente dita, em Ouros (4). Se era isso mesmo, não sei. Mas minha memória concorda efetivamente com as etapas Copas/Ouros. Quanto a Paus/Espadas, podemos pensar também que o lampejo poderia estar em Paus e a energia intelectual dispendida na terceira etapa, em Espadas. 

Creio que a ordem da dupla masculina Fogo/Ar dependa do que está em jogo. 

Se é uma obra sujeita à organização racional das idéias, teríamos Paus/Espadas. Exemplo: Tive uma "sacada" boa para um projeto. A luz acende. A partir do momento em que  percebo que a ideia faz sentido para mim (sim, porque posso ter uma nova ideia mas não "gostar" ou não ter "ferramentas" para fechar o processo) sento e escrevo. 


Se é uma obra que depende de soltura e profusão energética, sem maior interferências organizadoras, a ordem seria diferente. A ideia nasceria em Espadas e depois de fundamentada nos meus sentimentos, Copas, precisaria me desligar do processo racional e dar vazão através de Paus, o Fogo. A escrita de um poema surrealista se daria assim. Ou então a pintura de um abstrato.

Percebam que ainda restam dúvidas na diferenciação da primeira etapa do processo criativo. Qual a diferença entre um lampejo de Paus para um lampejo de Espadas? Além do mais, é claro que estamos falando de algo que não é dividido assim, bonitinho. É só a velha mania cartesiana de Jack, O Estripador...

Gostaria de opiniões sobre a questão dos naipes e o processo criativo. O que vocês acham? 
Eu tenho as minhas delicadezas quando crio. Preciso de paz, silêncio, de que o burburinho do dia-a-dia se aquiete. Conheço pessoas que tem o fantástico poder da redoma de cristal. Conseguem abstrair. Invejável, a capacidade de bem-tecer em qualquer ocasião. Para concluir esse texto, por exemplo, devo ter sido interrompida e também me interrompido umas mil vezes: criança chorando, telefone & interfone, visitas... Enfim, boas interrupções que não atrapalharam um texto que não precisa ser "inspirado". Porque quando é assim, meus amigos, só com minha filha pequena na casa do pai, telefone desligado e minha mãe avisada de que não morri. Pelo contrário: Estou viva, vivíssima. 

Tem horas também que não dá para bancar a Eremita. Existem prazos, o famoso deadline. É aí que me lembro deste trecho da Clarissa Pínkola Estes, no capítulo sobre o sustento das águas criativas (em Mulheres que correm com os lobos) que deveria ser enviado para filhos, marido, ex-maridos, amigas novidadeiras, porteiros, e ainda colocado na secretária do telefone:

"Pode também acontecer de o processo criador da mulher ser mal compreendido ou desrespeitado pelos que a cercam. Cabe a ela informar-lhes que, quando ela está com 'aquela expressão' nos olhos, isso não quer dizer que ela seja um terreno baldio à espera de que o ocupem. Quer dizer que ela está equilibrando um grande castelo de cartas de idéias na ponta de um único dedo, que está unindo cuidadosamente todas as cartas usando minúsculos ossos cristalinos e um pouquinho de saliva e que, se ao menos conseguir levar tudo até a mesa sem que caia ou se desmorone, ela poderá trazer à luz uma imagem do mundo invisível. Falar com ela nesse momento equivale a criar um vento de Harpia que, com um sopro, destrói toda a estrutura. Falar com ela nesse momento equivale a partir seu coração".


Ei, não parta meu coração!


Zoe de Camaris

14 de maio de 2012

FASHION TAROT






Quando comecei trabalhar como professora na Universidade Federal de Ouro Preto, onde também cursei minha especialização em Letras, lembro-me que quando falava do Tarot sempre causava um estranhamento, quando não uma risadinha de canto de boca. Me irritava muito que as pessoas não percebessem o seu potencial como um sistema de linguagem visual e relacionassem o Tarot apenas ao seu conteúdo esotérico e oracular.  Mesmo o seu viés misterioso era abafado pela imagem do charlatão, da cartomante de fundo de quintal, da tenda de estrelinhas, enfim, parte de um universo brega. 

Italo Calvino já havia escrito o seu Castelo dos destinos cruzados e isso me ajudou um pouco, afinal Calvino sempre foi e é considerado um autor de ponta para os estudos literários. Mesmo assim a desconfiança continuava e eu cada vez mais imbuída da minha pretensiosa missão de revalidar o Tarot como uma das mais profícuas máquinas de imaginar já criadas pela sensibilidade humana. E a gente começa, sempre, na beira do rio que corre em nossa aldeia...

Hoje, vejo com alegria que, independente das minhas pequenas vitórias e derrotas, o Tarot  não precisa mais de revalidação. Sua qualidade em propulsionar o ato criativo é reconhecida universalmente e cada dia que passa fascina mais adeptos. 

Pesquisando imagens que guardo nos meus arquivos, dei de cara com uma modelo desfilando para o Fashion Week de Nova Iorque um traje inspirado nas imagens de Frida Harris. E resolvi então pesquisar um pouco sobre o mundo fashion e o Tarot. Uau! O Tarot faz festa em Milão, Nova Iorque e Paris.



























O ensaio fotográfico é da René Oliver Production e se chama Visionary Fashion. Não entendo nada de moda mas gosto particularmente da ideia proposta para a Torre e da beleza delicada da carta da Justiça. Curiosamente são as duas imagens que guardam uma maior semelhança com o conteúdo original das lâminas.




E esta máscara/cabelo então? É maravilhosa. Frida H. na veia.





Essa produção é para o Harper's Bazaar, 1953, por Louise Dahl Wolfe. Vintage total.





E este traje de Christian Lacroix para a Grã, Alta, Super Sacerdotisa? Alucinante. 

Bem, aí estão alguns poucos exemplos do Tarot fazendo moda. E para quem quer um oráculo fashionista, clique aqui e tire suas cartas com o Vogue Tarot.

Agora lá vou eu tomar um banho e dar de cara com meu guarda-roupinha. Ai ai, é para quem pode, não para quem quer... Snif.


Zoe de  Camaris

12 de maio de 2012

OS LIMITES DA INTERPRETAÇÃO




















O Tarot é um sistema imagético de linguagem que permite uma gama variada de interpretações, tanto na sua sintaxe, sua sequência linear, como nas inúmeras relações paradigmáticas, ou eixos associativos, permitidas por sua estrutura combinatória. Aí reside sua grande riqueza, gerar possibilidades inimagináveis de leitura em diversos níveis de interpretação. No entanto, assim como em nossas qualidades residem nossos piores defeitos, com o Tarot não é diferente. Para quem não percebe a especificidade dos ingredientes de uma receita o que temos como resultado é a famosa gororoba: - Mas eu segui a receita certinho, diz o iniciante. Pois é. No açafrão há uma distância considerável entre a raiz e o pistilo da flor. 

No que se refere aos arcanos maiores sabemos que existem certos conceitos norteadores fixos. Não podemos, por exemplo, interpretar a aparição da Imperatriz como um "momento de retirada", assim como não é possível ler na carta do Julgamento, uma fase de estabilidade. 

Os arcanos menores apresentam uma maior variedade interpretativa, dependendo do sistema com o qual se trabalha ou deck escolhido. Os menores de um Tarot Egípcio nem sempre encontrarão eco nos arcanos menores do Tarot Waite, por exemplo. É possível, inclusive, criar um Tarot que respeite os símbolos e significados dos arcanos maiores e inovar nos arcanos menores, desde que se mantenha o mesmo número de lâminas e também a sua estrutura.  O Tarot Mitológico, nesse sentido, é exemplar.

Do momento em que o Tarot "fala" com você, novos insigths interpretativos se abrem e isso é mágico. As possibilidades relacionais são incontáveis. Isso no que se refere aos conceitos pertinentes a cada carta. Estamos tratando de Arte e não de Ciência. E quando se fala da leitura de cinco ou mais arcanos dispostos ao acaso, viajamos então para um céu repleto de estrelas.

Com isso quero dizer que apoio e defendo a liberdade de interpretação. Embora não consiga evitar uma rejeição natural às maioneses interpretativas e confesso que, neste "novo mundo do Tarot" com o qual me deparo depois de alguns anos tratando de outros assuntos, há mais salmonela que a quase inócua maionese. Maionese ainda vaí, mas com salmonela pode ser letal.

O susto se deve, principalmente, quando vejo as imagens do Tarot sendo interpretadas ao pé da letra, de forma rasa e com psicologismos de botequim. E me assusto ainda mais quando vejo estas informações divulgadas em blogs e sites que se dizem sérios e por "tarólogos" que de Tarot não entendem lhufas.

Também não vou dar nomes aos bois porque tenho percebido mais um outro dado estarrecedor: o mundo do Tarot virou um ringue. Até uns cinco anos atrás existiam divergências tratadas com elegância e pontualidade, o que é profícuo. Mas elegância não pode ser confundida com hipocrisia pois é detestável o reino das concordâncias vazias, do puxa-saquismo e dos elogios faca-de-dois-gumes. O que tenho visto agora, além da arena das vaidades, é uma apelação que beira o ridículo. Pessoas que não compreendem metáforas, que não identificam ironia e que, por consequência, não estão habilitadas para interpretar símbolos, alegorias, emblemas.

Aí virão me dizer, mas Zoe, quem pira interpretando cartas é você que ilustra poemas com imagens, que procura o significado das cartas no cinema, nas artes plásticas! Sim, essa é a Zoe eterna estudante. A estudante que sempre estará buscando vieses interpretativos, novas possibilidades de sentido. A estudante que antes de relacionar uma imagem do Tarot com qualquer outro sistema coisa lê no mínimo três livros sobre o assunto e que pesquisa incansavelmente.

MAS, quando se trata de ler o Tarot, de dar de encontro com um consulente que, via de regra estará aberto para as palavras e ideias que leio nas minhas cartas, a coisa toda é bem diferente. Reconheço os limites. Tenho um enorme respeito pelo meu trabalho e mais respeito ainda pelas pessoas que se consultam comigo até porque, quando era adolescente, fui vítima de uma cartomante terrível que me deixou na cabeça uma questão que não tinha nada a ver por mais de trinta anos. A responsabilidade é muito grande. Não temos e sempre achei que não deveríamos ter uma instituição reguladora. Hoje sou obrigada a rever minha opinião. 

Então, caros leitores do meu blog, ao relacionar uma carta a um poema ou a um filme, trata-se de criatividade, busca de conhecimento e diletantismo. Agora, quando são criados significados fixos para as cartas, significados estes que podem (infelizmente) ser usados em leituras "PROFISSIONAIS" de Tarot, a porca torce o rabo. 

Cuidado. 

Goroboba esotérico-psicológica já é péssimo. Mas salmonela mata.













Zoe de Camaris






18 de fevereiro de 2012

A FLOR AZUL (1)




Li em algum lugar, talvez colhida do grande cabedal imaginário que habita a alma do mundo, talvez nas histórias da avó de um tal de João, que no passado acontecia das bruxas enamorarem-se pelos homens e que em muitas ocasiões, os pobres mortais se apaixonavam pela bruxas.

No segundo caso, a consequência de não poder culminar esses amores impulsionava os pobres moços abduzidos e encantados pelas feiticeiras a buscar a imortalidade tranformando-se em astutos políticos ou em algo ainda mais nobre, pobres poetas.

De vez em quando acontecia do rapaz ser um pobre poeta. Se perseverava em sua fidalguia, podia conseguir romper o coração da bruxa. Ela então, mais racional do que seu enamorado, sentindo-se presa por um amor mortal, chorava sua eterna amargura com uma só lágrima. Dizia a lenda que se a lágrima caísse no chão próxima a um choupo, daria origem a uma roseira da qual brotariam rosas azuis. Há muitos e muitos anos, ao pé de quatro choupos no rosal asturiano de Olviedo,  floresciam rosas azuis no solstício de verão.

Por algum motivo que desconheço, determinados símbolos nos percorrem alma como se estivessem grudados nas enzimas do sangue. Por que o que me significa não é "a" mas sim "b"? Por que não arregalo os olhos frente a idéia de um cavalo alado mas sinto meus olhos fluirem só em pensar em uma flor azul? Muito antes de me deparar com as horríveis rosas pintadas de anelina, grito do "kitsch", já reconhecia a flor azul como um símbolo do impossível. Efeito sessão da tarde, sem dúvida, já que não li românticos alemães na infância. E ao conhecer a obra de Novalis apenas me certifiquei do que já sabia: "O que desejo ver é a flor azul. Sua imagem não me abandona". E fui percorrendo histórias. Para não deixar barato, ainda a poesia de Samuel Coleridge: "E se você dormisse? E se você sonhasse? E se, em seu sonho, você fosse ao Paraíso e lá colhesse uma flor bela e estranha? E se, ao despertar, você tivesse a flor entre as mãos? Ah, e então?" 

A flor azul seria a encarnação da perfeição, do amor impossível, da raridade, da pureza máxima, da inocência, da cura, da imaginação criativa, da utopia e da imortalidade. Há uma certa tristeza nela e alguma solidão. Flor líquida e aérea, azul da água e do céu. A graça da flor azul é sua impossibilidade natural. Uma rosa azul seria o Santo Graal das flores.

A imagem é reiterada poeticamente por Pablo Neruda, que a cita em pelo menos em uns cinco poemas. Em Batman Begins, da flor azul é feito o alucinógeno que desperta em Bruce Wayne os seus maiores medos - substância que, mais tarde, será derramada no abastecimento de água de Gotham City para despertar as fobias da população. Seria a flor azul de Batman, uma papoula?


No filme O Labirinto de um Fauno, de Guillermo del Toro, ei-la novamente:


"Há muitos e muitos anos, em um país longínquo e triste, existia uma enorme montanha de pedra negra e áspera. Ao cair da tarde, em cima dessa montanha, florescia todas as noites uma rosa que concedia a imortalidade. Uma rosa azul. Seu espinhoso caule cobria e rodeava toda a volta da escarpada ponta negra da montanha de granito. Os espinhos cresciam ao redor da rocha como serpentes que a sufocavam. Mas nada nem ninguém se atrevia a aproximar-se dela, pois seus numerosos espinhos estavam envenenados.  Entre os homens só se falava do medo da morte e da dor, mas nunca da promessa de imortalidade. E todas as tardes a rosa murchava sem poder outorgar seus dons a nenhuma pessoa. Esquecida e perdida em cima da montanha de pedra fria, sozinha até o final dos tempos. "

Inventaram então os japoneses, esses loucos, a tal rosa azul, por mutação genética. Ah, dirão alguns, mas é só um experimento, como outros que estão aí. Clones, dolllys.... Mas não. A criação da rosa azul altera e alcança a dimensão do simbólico. Seria o mesmo se amanhã ao abrir a janela, me deparasse com um unicórnio atravessando o jardim.

Até porque de azul, basta a beleza dos miosótis e seu anil de estrelas. A Rosa Azul. A única flor azul no topo de uma montanha.


Zoe de Camaris

SORTE SUA


Um dia é da caça - outro, do caçador. Tudo gira, o mundo muda, única constante. Às vezes o giro é tão rápido que nos lança fora da roda - não raro quando desejamos colher no inverno os frutos do verão. Nosso peso altera o ritmo da roda. Vale sossegar a alma e acompanhar, no olho do furacão, seu movimento belo e terrível. A Fortuna. Um lance de dados nunca abolirá o acaso. Regnabo, regno, regnavi. Estrela cadente. Dizem que quem tem sorte no amor não joga cartas. Será que quem joga cartas tem, necessariamente, pouca sorte no amor?

Diviníssima Providência, serendipity.
Alea jacta est. A sorte está lançada.