16 de maio de 2012

Basta um peteleco


O processo criativo é algo enigmático. Cada um de nós têm sua forma, seu momento, sua esquisitices, facilidades e dificuldades na hora de parir uma ideia, seja um projeto, um poema, uma pintura, uma nova receita de bolo.

O lampejo pode surgir do caos: Plim! Em seguida é necessário que pequeno gérmen fale com o que lhe vai  fundo na alma. Dialogue com seus desejos. Aí é preciso que se materialize primariamente, momento em que muitas vezes, a ideia escorre e se perde para sempre. Já dizia o escritor Jack Kerouac: "Considere uma ideia perdida como irremediavelmente perdida", sugerindo que a memória cria peças e que um bloco de notas faz toda a diferença. 

Lembro-me que li em algum lugar sobre as etapas do processo criativo relacionado com os naipes, se é que é possível separar em partes o que funciona em harmonia... Bem, vale como tentativa de estudo. O insight seria Espadas (1); a indispensável empatia pela ideia, Copas (2); a energia dispendida para realizá-la, Paus (3); e sua realização propriamente dita, em Ouros (4). Se era isso mesmo, não sei. Mas minha memória concorda efetivamente com as etapas Copas/Ouros. Quanto a Paus/Espadas, podemos pensar também que o lampejo poderia estar em Paus e a energia intelectual dispendida na terceira etapa, em Espadas. 

Creio que a ordem da dupla masculina Fogo/Ar dependa do que está em jogo. 

Se é uma obra sujeita à organização racional das idéias, teríamos Paus/Espadas. Exemplo: Tive uma "sacada" boa para um projeto. A luz acende. A partir do momento em que  percebo que a ideia faz sentido para mim (sim, porque posso ter uma nova ideia mas não "gostar" ou não ter "ferramentas" para fechar o processo) sento e escrevo. 


Se é uma obra que depende de soltura e profusão energética, sem maior interferências organizadoras, a ordem seria diferente. A ideia nasceria em Espadas e depois de fundamentada nos meus sentimentos, Copas, precisaria me desligar do processo racional e dar vazão através de Paus, o Fogo. A escrita de um poema surrealista se daria assim. Ou então a pintura de um abstrato.

Percebam que ainda restam dúvidas na diferenciação da primeira etapa do processo criativo. Qual a diferença entre um lampejo de Paus para um lampejo de Espadas? Além do mais, é claro que estamos falando de algo que não é dividido assim, bonitinho. É só a velha mania cartesiana de Jack, O Estripador...

Gostaria de opiniões sobre a questão dos naipes e o processo criativo. O que vocês acham? 
Eu tenho as minhas delicadezas quando crio. Preciso de paz, silêncio, de que o burburinho do dia-a-dia se aquiete. Conheço pessoas que tem o fantástico poder da redoma de cristal. Conseguem abstrair. Invejável, a capacidade de bem-tecer em qualquer ocasião. Para concluir esse texto, por exemplo, devo ter sido interrompida e também me interrompido umas mil vezes: criança chorando, telefone & interfone, visitas... Enfim, boas interrupções que não atrapalharam um texto que não precisa ser "inspirado". Porque quando é assim, meus amigos, só com minha filha pequena na casa do pai, telefone desligado e minha mãe avisada de que não morri. Pelo contrário: Estou viva, vivíssima. 

Tem horas também que não dá para bancar a Eremita. Existem prazos, o famoso deadline. É aí que me lembro deste trecho da Clarissa Pínkola Estes, no capítulo sobre o sustento das águas criativas (em Mulheres que correm com os lobos) que deveria ser enviado para filhos, marido, ex-maridos, amigas novidadeiras, porteiros, e ainda colocado na secretária do telefone:

"Pode também acontecer de o processo criador da mulher ser mal compreendido ou desrespeitado pelos que a cercam. Cabe a ela informar-lhes que, quando ela está com 'aquela expressão' nos olhos, isso não quer dizer que ela seja um terreno baldio à espera de que o ocupem. Quer dizer que ela está equilibrando um grande castelo de cartas de idéias na ponta de um único dedo, que está unindo cuidadosamente todas as cartas usando minúsculos ossos cristalinos e um pouquinho de saliva e que, se ao menos conseguir levar tudo até a mesa sem que caia ou se desmorone, ela poderá trazer à luz uma imagem do mundo invisível. Falar com ela nesse momento equivale a criar um vento de Harpia que, com um sopro, destrói toda a estrutura. Falar com ela nesse momento equivale a partir seu coração".


Ei, não parta meu coração!


Zoe de Camaris

2 comentários:

Luciana disse...

Excelente texto! Adorei essa reflexão sobre o processo criativo e a relação com os naipes. Me ajudou muito hoje.

Ernesto - com dor no coração disse...

Prezada, muito bom o texto. No entanto, isto vale para homem também que sobrevive de processos criativos aliado a muito suor.
Gostei muito de conhecer esta página.