28 de dezembro de 2007

Boas festas?



Ano Novo não existe. Se existir é em Março. No entanto, as convenções funcionam e todo mundo passa a comemorar - parece ser o que basta.

31 de dezembro é o começo do fim.

90 dias é Tempo para preparar a guinada marciana, a entrada do belo espírito de ferro, o filho de uma flor.


Mars, só em Março. Beleza e Perigo.
Fogo no London Eye.

Quando começa o seu ano? Em que parte da Roda está?
Reina, reinou, reinará ou não tem Reino?
Em cima, abaixo, ao lado...

Burlamos o giro para vencer o destino.
Mas a ousadia só é uma virtude quando se conhece a coreografia.

Meu voto de Revirada é que você tome o seu lugar na Roda.
Que a Fortuna lhe sorteie a coragem sensata. Força e Inteligência.
Como nunca, vencerão os melhores. No olho da tempestade.



Divinatrix

29 de novembro de 2007

Fellini, Buñuel, Dali e Cocteau que me desculpem - Jodorowsky é supra-surreal. Nunca vi nada parecido no cinema. E hoje, além de curtir, "El Topo", rola a SoberbaCaravanaTropoMitológica do Tarot no Rio, Centro Cultural Banco do Brasil. Comemorando o Jodô na área, uma palestra e um documentário sobre o Tarot, e o aniversário de Alexsander Lenormando. YES!


SANTA SANGRE:



A MONTANHA SAGRADA:

25 de novembro de 2007

Um Dado sobre o Grão



Ovos. Perfeito quando se vê o inscrito ao invés do escrito. Ou quando se lê a cor da página antes do código. A arte da memória, uma mera recordação da verdade?

O implícito, a gélida mão sobre o livro, a Sibila. Resignação. O Sagrado prevê sacrifício. O olho que aceite o que vê.

A cabeça de colméia só vira mel e natureza quando nasce Imperatriz.

Há um azul na reconstrução do Tarot de Marseille que me agrada, fosforecente que é. As cartas ficam acordadinhas, céleres. Contrapõe-se ao ocre medieval de Jean Payen a que estou acostumada.

Jodorowsky explicita, lá com o hospitaleiro Camoin, a Grã-Sacerdotisa. E vai da habilidade do desenhista e do tarólogo em concerto concluir que só o aparente é possível e que aqui há de se ocultar a saga, o signo.

O Grão é feito Véu, proposto inconteste.
Quanto mais transparente, melhor. Lady Frieda Harris o fez com precisão milimétrica.

É assim que eu a chamo e vejo: Grã-Sacerdotisa.

Nem Papisa, nem só Sacerdotisa.
Um Germe, um Ovo antes ainda.
Um Grão.

É a mulher refeita do Arcano XXI. O Mundo, A Suprema-Bailarina. Outra, e assim mesmo, a mesma. Há muito da Estrela e da Força, da Temperança na Moça. Aquela que sabe ser Velha.

Um pouco de todas as Rainhas no Arcano II. O Reino de de Copas, o músculo da água.
A Gênese do que sempre esteve.

E há o ovo.



Zoe

Se seus olhos ainda não viram, a Reconstrução do Tarot de Marseille.

23 de novembro de 2007

A Taróloga e seu Amante


Jodorowski aos 19 anos


Conta Alejandro Jodorowsky que quando era jovem, em Santiago do Chile, conheceu no Parque Florestal uma francesa de 60 anos chamada Marie Lefèvre. Marie tinha um amante de 18 anos, Nene. Era uma mulher pobre mas mantinha sempre, fervendo, uma sopa feita dos restos de comida que recebia em troca de leituras de tarot nos restaurantes vizinhos.

Enquanto seu namorado dormia nu, Marie servia para Alejandro e seus amigos o magma escaldante. E depois, sobre o ventre de Nene, que trazia sobre a virilha uma cinta de rosas escondendo seu sexo, Marie lia gratuitamente o Tarot.

Diz Jodorowsky que esse exemplo de amor, poesia e generosidade marcou sua relação com o Tarot para sempre.

E que os deuses aplaudam Marie Lefèvre...

Zoe

22 de novembro de 2007

JODOROWSKY NO BRASIL



One man show. Expressão perfeita para Alejandro Jodorowsky - cineasta, roteirista de HQ, tarólogo, ator, escritor, poeta. E psicomago, seja lá do que se trate. Material na rede para pesquisar não falta mas estou a fim de conferir ao vivo o Festival que já começou no Rio de Janeiro e depois segue para São Paulo e Brasília. Imperdível. Para os amantes de cinema, de quadrinhos e claro, de Tarot.

Confira:


Zoe

6 de novembro de 2007

SONHO DE CONSUMO



Fico só imaginando: sair de Curitiba, seguir para SP pegar o Alexey (será que a Erika topa?) rumo a Jaboticabal sequestrar o Leo Chioda. No Rio, um mega alô para o Ivanovitch que não conheço, mais 78 figurinhas lingüísticas com Nei somado a um belo almoço com música na orla. No fim da tarde juntar o Alexsander de surpresa e depois subir rápido para Petrópolis girando todos os amigos com o Gian e curtindo um friozinho na Serra.

Bacana a Vera junto - significa fumar em paz e a companhia feminina do pão-de- queijo, mais tricot & tarot básico. Eia, todas as Veras! Quem pode com elas? Tudo lá fora e também O Mundo, tão pertinho.

Aí todos nós, digo a moçada toda, a SoberbaCaravanaTropoMitológica, talvez quiçá à quatro e quimera às raias do Nordeste - mais precisamente em Campina Grande do Sul, estaríamos felizes e, portanto, trupe em grande estilo.

Depois de muito sol e poeira, o respiro prometido em Natal - banho de piscina, cheiro azul de mar e palpitar tarots e decks com a Sônia. Sonhar é permitido. Pedras Negras e fim o da tarde. A viagem continua, e dessa vez, sabe-se lá pra onde.

Quem puxa O Carro?

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Caravana Holiday

The Tarot Tour

07/08

coming soon
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Zoe

p.s.: a foto é um achado do Leo, pesquisa também merece crédito. A chamada para a Caravana parte do mesmo BatCanal.

20 de setembro de 2007

A TORRE DE PLATH



A Casa de Deus, A Torre Abatida pelo Raio, ou simplesmente A Torre. Terrível arcano XVI. Terrível sim, porque poucos querem se desiludir. Poucos querem deixar de acreditar que as velhas formas de lidar com a vida já deram o que tinham que dar. Dizem que o Diabo revela uma prisão do instinto. Pois a Torre revela uma prisão do intelecto. Normas internas, construções mentais, uma arcabouço de procedimentos cravados na memória, o moto-contínuo dos gestos viciados. E aí, zaz-traz! lá vem o raio. Joga você no chão e você levanta, juntando os destroços e colocando a culpa no relógio, no outro, na fome, na falta. Ou então o raio ilumina. E como um xamã, você retorna "outro" para a vida. Ou seja, você mesmo. Como era antes. Mas aí já é A Estrela.

Silvia Plath, poeta americana, parece ter usado leit-motivs do Tarot em diversos poemas. É uma especulação. Mas basta ler seus poemas. Silvia lia o Tarot ou o Tarot estava em Silvia Plath?

Zoe


CANÇÃO DE AMOR DA JOVEM LOUCA



Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro
Ergo as pálpebras e tudo volta a renascer
(Acho que te criei no interior da minha mente)

Saem valsando as estrelas, vermelhas e azuis,
Entra a galope a arbitrária escuridão:
Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro.

Enfeitiçaste-me, em sonhos, para a cama,
Cantaste-me para a loucura; beijaste-me para a insanidade.
(Acho que te criei no interior de minha mente)

Tomba Deus das alturas; abranda-se o fogo do inferno:
Retiram-se os serafins e os homens de Satã:
Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro.

Imaginei que voltarias como prometeste
Envelheço, porém, e esqueço-me do teu nome.
(Acho que te criei no interior de minha mente)

Deveria, em teu lugar, ter amado um falcão
Pelo menos, com a primavera, retornam com estrondo
Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro:
(Acho que te criei no interior de minha mente.)



Silvia Plath
tradução de Maria Luíza Nogueira
in A REDOMA DE VIDRO

21 de agosto de 2007

FIGOS




"...Vi minha vida se desenrolar diante de mim como uma figueira de um conto que havia lido. Da ponta de cada ramo, um gordo figo roxo acenava e me seduzia com um futuro maravilhoso. Um figo significava um marido e um lar feliz com filhos, outro era uma poetisa famosa, outro uma professora, outro era Esther Greenwood, a surpreendente editora, outro era a Europa, a África e a América do Sul, outro Constantin e Sócrates e Átila, um bando de amantes com nomes esquisitos e profissões originais, outro ainda era uma campeã olímpica, e acima de todos esses figos havia muitos outros que eu não conseguia entender. Vi-me sentada sob essa figueira, morrendo de fome, só porque não conseguia decidir qual figo escolheria. Queria-os todos, e escolher um siginificava perder o resto. Incapaz de me decidir, os figos começavam a murchar e apodrecer, e um a um caiam no chão a meus pés..."


Sylvia Plath
A Redoma de Vidro

13 de agosto de 2007


AS SETE FACES DO DR. LAO
Charles Finney

(no qual a senhora Cassan, cidadã do município de Abalone, vai ao encontro de Apolônio de Tiana)

Uma viúva, a senhora Howard T. Cassan, leu o anúncio do circo do dr. Lao às dez e quinze. "...haverá um adivinho... protegido pelo véu do mistério... profecias invariavelmente exatas..." A senhora Cassan estava sempre à procura de videntes. Quando não havia nenhum ela mesma deitava cartas ou fazia sessões mediúnicas com um copo virado de cabeça para baixo. Havia pedido que lhe lessem a sorte tantas vezes que a fim de cumprir todas as previsões ela teria de viver mais noventa e sete anos e conhecer e enfeitiçar todo um regimento de homens altos e morenos. – Vou lá perguntar a esse homem... vamos ver... é, vou lá perguntar a ele sobre aquele poço de petróleo com que sonhei – disse consigo a senhora Howard T. Cassan.

(...)

A viúva Howard T. Cassan chegou ao circo com seu frívolo vestido marrom e seus sapatos baixos e encaminhou-se diretamente para a tenda do vidente. Pagou a entrada e sentou-se para escutar seu futuro. Apolônio de Tiana avisou-a de que ela ficaria desapontada.

- Não hei de ficar, se o senhor me disser a verdade – disse a senhora Cassan. – O que desejo saber, antes de mais nada, é quando vai jorrar petróleo naquele meu alqueire no Novo México.

- Nunca – respondeu o vidente.

- Bem... então, quando vou me casar outra vez?

- Nunca.

- Muito bem. Que espécie de homem vai surgir em minha vida?

- Não haverá mais homens em sua vida – disse o vidente.

- Bem, então do que me adianta viver, se não vou ficar rica, não vou me casar outra vez, nem vou conhecer novos homens?

- Não sei – confessou o profeta – Só leio o futuro. Não o julgo.

- Bem, eu paguei. Leia meu futuro.

Apolônio leu:

- Amanhã será como ontem e depois de amanhã como anteontem – disse Apolônio. – Vejo o resto dos seus dias como uma tediosa coleção de horas. A senhora não viajará a nenhum lugar. Não terá pensamentos novos. Não experimentará nenhuma nova paixão. Sua idade aumentará, mas não sua sabedoria. Crescerá seu formalismo, mas não sua dignidade. A senhora não tem na juventude, daquela curiosa simplicidade que no passado atraiu alguns homens, nada resta, nem a senhora as poderá reconquistar. As pessoas lhe falarão ou visitarão por pena ou solidariedade. Não porque a senhora tenha qualquer coisa a lhes oferecer. Já viu uma velha haste de milho que amarelece e definha, mas se recusa a morrer, na qual alguns passarinhos pousam de vez em quando, quase sem notar sobre o que estão pousados? Isso é a senhora. Não consigo imaginar qual seja seu lugar na organização da vida. Uma coisa viva deveria criar ou destruir, segundo sua capacidade ou capricho, mas a senhora não faz uma coisa nem outra. Vive a sonhar com coisas bonitas que gostaria que lhe acontecessem, mas que nunca acontecem; e imagina vagamente por que as jovens vidas ao seu redor, às quais ocasionalmente censura por uma suposta impropriedade, nunca lhe dão ouvidos e parecem fugir à sua aproximação. Quando a senhora morrer, será sepultada e esquecida, somente isso. Os agentes funerários a fecharão num ataúde à prova de vermes, com o que lacrarão, para a própria eternidade, a argila da sua inutilidade. A julgar por todo o bem e todo o mal, toda a criação e toda a destruição que sua vida pudesse haver provocado, a senhora poderia perfeitamente jamais ter existido. Não vejo propósito em tal
vida. Só vejo nela um desperdício chocante, vulgar.

- Eu entendi o senhor dizer que não julgava vidas – disse a senhora Cassan rispidamente.

- Não estou julgando. Estou apenas divagando. Hoje, por exemplo, a senhora está sonhando em achar petróleo num alqueire de terra que possui no Novo México. Não existe petróleo lá. A senhora sonha com um homem alto, moreno e belo que venha a cortejá-la. Não virá homem algum, nem moreno, nem alto, nem de qualquer espécie. No entanto, a senhora continuará a sonhar, apesar do que lhe digo. Continuará a sonhar durante a pequena ronda de suas horas, costurando, balançando-se, mexericando e sonhando. E o mundo gira, gira, gira. Crianças nascem, crescem, casam-se, adoecem e morrem, mas a senhora fica em sua cadeira de balanço, cose, mexerica e leva a vida. E a senhora tem voz ativa no governo, e um número suficiente de pessoas votando igual poderia mudar a face do mundo. Há algo terrível nessa idéia. Mas sua opinião pessoal sobre qualquer assunto no mundo é absolutamente desprezível. Não, não consigo atinar com a razão da sua existência.

- Não lhe paguei para atinar com coisa alguma. Diga apenas meu futuro e pronto.

- Estive dizendo seu futuro! Por que não ouve? Deseja saber quantas vezes ainda comerá alface ou ovos cozidos? Quer que eu enumere as vezes em que gritará bom dia para a vizinha sobre a cerca? Devo dizer-lhe quantas vezes mais a senhora comprará meias, irá à igreja, assistirá a filmes? Deverei fazer uma lista mostrando quantos litros de água a senhora ferverá no futuro para o chá, quantas combinações de cartas receberá no bridge, quantas vezes o telefone tocará nos anos que lhe restam? Deseja saber quantas vezes voltará a censurar o jornaleiro por não deixar o jornal no lugar que menos a irrita? Devo dizer-lhe quantas vezes mais a senhora se aborrecerá por chover ou deixar de chover, segundo seus caprichos? Devo calcular quantas moedas há de poupar regateando no mercado? Deseja saber tudo isso? Pois nisso, senhora Cassan, se resume seu futuro: fazer as mesmas coisas inúteis que tem feito nos últimos cinqüenta e oito anos. A senhora se defronta com uma repetição do seu passado, uma recapitulação dos algarismos na máquina de calcular de seus dias. Há apenas um algarismo brilhante, talvez: houve um pouco de amor em seu passado; mas não haverá nenhum em seu futuro.

- Bem, devo dizer uma coisa: o senhor é o adivinho mais estranho que já vi em minha vida.

- É minha cruz só ser capaz de dizer a verdade.

- O senhor já amou?

- Naturalmente. Mas por que a senhora pergunta?

- Há um fascínio estranho em sua franqueza brutal. Eu imagino uma moça, ou melhor, uma mulher experiente, lançando-se a seu pés.

- Houve uma moça, mas ela nunca se lançou a meu pés. Eu me lancei aos dela.

- O que ela fez?

- Ela riu.

- Ela o magoou?

- Sim. Mas depois disso nada me magoou muito.

- Eu sabia! Sabia que um homem com sua terrível crueldade mental devia ter sido ferido por uma mulher, em alguma época. As mulheres são capazes de fazer isso a um homem, não é?

- Creio que sim.

- Pobre homem, pobre homem! O senhor não é muito mais velho do que, não é? Eu também fui magoada. Por que não poderíamos ser amigos, ou mais que amigos, quem sabe, e juntos remendar os farrapos de nossas vidas? Acho que eu seria capaz de compreendê-lo, consolá-lo e tomá-lo sob meus cuidados.

- Minha senhora, eu tenho quase dois mil anos de idade, e sempre fui solteiro. É tarde demais para começar.

- Ah, como o senhor é engraçado! Eu adoro brincadeiras! Nós nos daríamos esplendidamente, os dois, tenho certeza!

- Sinto muito. Eu lhe disse que não haveria mais homens em sua vida. Não tente me fazer com que eu me desdiga, por favor. A consulta terminou. Boa tarde.

A senhora Cassan começou a dizer alguma coisa, mas não havia mais ninguém com quem falar. Apolônio havia desaparecido com aquela presteza dominada apenas pelos mágicos de maior experiência. A senhora Cassan saiu para o clarão da tarde ensolarada. Lá fora encontrou Luther e Kate. Isso foi exatamente dez minutos antes da petrificação de Kate pela Medusa.

- Querida – disse a senhora Cassan a Kate – esse adivinho é o homem mais magnético que já vi. Vou falar com ele de novo hoje à noite!

- O que foi que ele disse sobre o petróleo? – perguntou Luther.

- Ah, ele me encorajou muitíssimo!!!

31 de julho de 2007

EM SÃO PAULO




Acabei de chegar em casa, ainda tentando colocar minhas cartas internas em ordem. Demoro uma semana para conseguir isso, mesmo que seja uma viagem curta. Tem horas que me surpreendo como posso ser tão rápida em certas coisas e devagar em outras. Em São Paulo, como sempre, tudo maravilhoso. A palestra na Gaia (grata, Robson!), Diálogos com a Modernidade, cumpriu seu objetivo. Conheci a visão do Alexey sobre o Tarot e os Quadrinhos e a assisti de camarote a estréia do Leo "Café Tarot" Chioda. Sem contar que passei quase uma semana só lendo H.Q., coisa que não fazia há tempos. Tem coisa melhor que travesseiro, cobertas e Neil Gaiman?

Isso sem contar o nosso maluquíssimo experimento do "Tarot à Três". Pressupõe-se que uma leitura de Tarot não deva ser interpretada posteriormente por outro tarólogo, com o risco de perder o felling, a linha sutil que faz com que uma interpretação seja adequada. Que a leitura exige uma interação delicada entre consulente e tarólogo. Que a presença de mais de duas pessoas numa sala de atendimento possa colocar em risco o trabalho. Acredito nisso. Tanto que tive a idéia, Alexey exultou e eu, imediatamente, me coloquei a questionar. Mas gostei da experiência. Uma "junta tarológica" pode ser de grande valia em casos muito difíceis. E pelo menos nas sessões que fizemos, tudo deu certo. Teríamos que testar mais.

O blog anda abandonadinho. Mas eu já volto. Estou pilhada com um filme novo que acabei de assistir e quero interpretar. Alguém adivinha?


besos,
Zoe

psiu 1: notinha no blog da Revista Marie Claire.

psiu 2: criei uma lista de divulgação (ainda em fase de "testes") no Google Groups. Se deseja receber os comunicados de novos cursos, palestras, works e etc, inscreva-se!

24 de junho de 2007

IMAGEM & CONCEITO


Valie Export


São inúmeros os significados contidos no arquétipo da “Mãe”. A fertilidade, a concepção, a gestação, o parto. Em seu bojo, cornucópia, a grandiosa idéia da Natureza e a mudança das estações. É a eclosão de flores na primavera, os frutos maduros no verão, os tapetes de ouro quando caem as folhas, a geada no inverno. Sua correspondência mitológica mais conhecida é Ceres-Deméter, a que traz em si Kore e desdobra-se em Perséfone. É a tradução dos ciclos e, portanto, intemporal. Intemporal como o inconsciente, de onde brotam as imagens arquetípicas.

Na carta da Imperatriz subjaz o modelo ancestral da Mãe-Natureza. Há um diálogo direto, imanente. Seu cetro, o trono, a coroa, o escudo que contém a águia lhe entroniza o poder do feminino. A beleza e a maternidade, a regência venusiana e lunar.

O poder de expressão, o estalo criativo, talvez ainda sem direção definida. Alguns autores afirmam que o processo de gestação estaria mais explícito na Sacerdotisa e que só eclodiria na Imperatriz. O arcano 3 contém o arcano 2, se nos detivermos na idéia de “trunfo” – o arcano seguinte combate e vence seu predecessor.

Ali está a idéia de Amor, da generosidade. Mal aspectada pode indicar a face negra, a Mãe Terrível, o abuso do poder então matricêntrico - a manipulação, a frivolidade e a vaidade exarcebada. Intensa como a Natureza. É a tempestade e o cataclisma, literal e metafórico. Há ambigüidades, enigmas na imagem da Senhora dos Tempos, assim como em todas as cartas que foram pintadas e idealizadas pelo lampejo de um mestre e a pena de uma mulher.


Thoth Tarot
Quando pensamos em um outro elemento da carta, o número, e temos em mente que o 1 é o princípio criativo e masculino e o 2 o passivo e o feminino, o 3 nos traz, imediatamente, a idéia de nascimento, da união realizada, de uma realidade nascente - o fruto, a criança. Para Crowley, para Waite, para diversos comentadores do Tarot de Marseille, na explanação de G.O Medes, entre outros, para economizar citação.

O que poderia indicar que o fruto no arcano III não está disponível seriam as cartas com que a Imperatriz dialoga e a referência tomada da pergunta feita. Nunca só ela mesma. Pois não há “tempo”, como assim o conhecemos, em uma carta de Tarot. Não há presente, passado e futuro no inconsciente. Nós, tarólogos, somos quem o delimita.

No Carro há o homem que decide ir, mas que talvez ainda não tenha ido. Posso ver também Aquiles correndo em sua biga. E posso observar também os cavalos de força desgovernados. Quem dirá se o Condutor da Carruagem foi bem sucedido, será quem dialogará com ela. Há sintaxe no Tarot. Como há paradigmas.

Estávamos discutindo Arcanos Menores. A Imperatriz só compareceu aqui porque a afirmação de que no arcano III o fruto não está disponível me soou estranha. A Imperatriz sabe que o fruto acontece em todos os tempos.



Em uma carta de Tarot está contida, em símbolos, uma parte do mundo. Ali não há um só conceito. Assim como na Confeitaria das Famílias em Curitiba. A decoração em estilo espanhol não traduz um conceito mas sim um apanhado de memórias da proprietária: cheiros, cores, clima. Sua Espanha particular. Não UM conceito.

Se o conceito é o que norteia a imagem... Será o Tarot uma obra de Arte Conceitual? Legal a idéia.


Como o Tarot é um código aberto dentro de uma estrutura fixa, podemos criá-lo. Não seria possível resumir e transformar arquétipos em conceitos? Creio que, no mínimo, quase tudo se perderia.

Na definição de Sol LeWitt, “na Arte Conceitual,a idéia ou o conceito é o aspecto mais importante da obra. Quando um artista usa uma forma conceitual de arte, significa que todo planejamento e decisões são tomadas antecipadamente, sendo a execução um assunto secundário. A idéia torna-se na máquina que origina a arte”.

O resultado final na arte conceitual é dispensável. Vale a idéia, que deve gritar de dentro da obra de arte. Que poderia ser traduzido facilmente em palavras com o recurso de metáforas e da ironia. Mas o suporte aqui não importa.

Uma carta de Tarot não pode ser captada assim. Arquétipos não podem ser contidos em palavras. Ou melhor, não num só recado. A imagem, com sua abertura sincrônica, talvez capture melhor o modelo ancestral pela sua intrínseca simultaneidade.

Definitivamente, Tarot não é Arte Conceitual. Mas está imerso até a cabeça na cultura pop. Nada há o que fazer quanto a isso, só lançar mão de nossos critérios para escolher o que nos agrada ou não - Kelly Key não destruirá os futuros amantes de ópera. O pagode não invalida a música clássica. Quadros de pinheiro pegando fogo, o grito do kitsh, não abolem a existência do Museu do Louvre. O Horóscopo não invalida a Astrologia. Por isso não temo o Tarot das Fadinhas, do Papai Noel, dos Gnomos Coloridos e de Outras Realidades.

Certos tarots são brinquedos e não armas. É a diferença entre um revólver de sabão e a nitroglicerina pura.

O que eu também não entendo é o seguinte: porque usar Tarots de casais transando e crianças correndo se a imagem, nesses casos, se colocam contra o “conceito” no qual se valida, se crê, se acredita?
Se render-se a imagem é coisa de tarólogo dionisíaco, sou dionisíaca. Mas reconheço as divisas: não concebo ler o Housewives num templo, assim como não leria o Thoth numa mesa de bar. Limites. Sou dionisíaca, não surrealista.
Conceitos, imagens, arquétipos, símbolos, números estão fundidos em cada carta de Tarot. Só são separados para que se possa estudar o fenômeno, no melhor estilo século XIX. Os de vertente holística achariam isso um absurdo já que a imagem deveria ser apreendida integralmente, de um só golpe. Não deixa de fazer sentido. Imagens podem ser a mola propulsora de conceitos. Imaginemos o pintor que divaga frente ao mar e deixa sua mente livre para que o pincel traduza emoções, sentimentos e percepções em uma imagem única e intransferível. A imagem (não estou falando do símbolo, que é motivado) não nasce necessariamente de um conceito.

Diz Ernst Cassirer que a gênese das palavras vem de imagens que iluminam, deuses fugazes e instantâneos.

Definir essências pode ser um sinal de agonia. Foi isso que Jor-El fez quando Krypton ia acabar. Há que se saber quando colocar borboletas em caixinhas. Mitos são destruídos porque seu tempo acabou e não há mais quem os transmita. A estabilidade é mantida pelo câmbio, lembrando Crowley e também o chavão básico da Roda da Fortuna: a única coisa que permanece é a mudança. Sem a troca, o ponto que aumenta o conto, acabou-se a história.



Sue Williams


E a História do Tarot é uma história de transformações. Quem tem a razão? Aliette, o maluquete, Eliphas Levi, o monstro da magia, Crowley e seu novo Aeon? Cadê ela, a verdade? Eu acho que vi um gatinho...


O que seria então desconstituir imagens num universo de imagens? Houaiss: desconstituir é desfazer, tirar os “poderes outorgados”. Em bom português, tirar o poder da imagem. Um ato ousado. Que relevo tanto que estou aqui escrevendo uma terceira postagem - não há como desconsiderar essa idéia, no mínimo, polêmica.


A arena, Marcelo, possivelmente não foi bem escolhida - no que me desculpo. Talvez o debate caísse melhor numa lista de discussão ou no orkut, como dita a silenciosa regra que desobedeci. Assim, eu não teria causado a impressão de estar jogando um colega iniciante (que não é iniciante) na cova dos leões. O fato de ter colocado a minha opinião no blog também pode ter sugerido que eu tentei me promover em cima de sua idéia ou detonar contigo. Pra quem não me conhece.

Primeiro, que não estou com essa bola toda – estamos equiparados em idade e conhecimento. Troca de iguais. Segundo, que não estou participando de nenhuma lista e de nenhuma comunidade, nem mesmo as minhas.

Este é o meu espaço, o único em que encontro tempo para escrever e assim mesmo de vez em quando. Então, talvez tenha sido um ato leviano transportar uma discussão que rolava no messenger para o meu espaço. OK. Perdoem-me todos, minha idéia não foi expor a pessoa do Kirtan, mas sim as idéias, nossas velhas conhecidas. E me senti no direito de fazê-lo porque houve aquiescência entre as partes.

Acredito, e sempre irei acreditar no debate de idéias de forma transparente e construtiva, tão importante quanto as próprias idéias. Assim aprendemos, tanto no sentido de conhecer o que não sabíamos, como de reconhecer o que já sabíamos. O problema é que eu me animo com a contenda e entro valendo. É a minha forma de expressão - quanto a isso, não há nada a fazer. Ou se aprecia ou se lamenta.

E é claro que o Marcelo considera a imagem. Nossa conversa e os insights que teve ao analisar o jogo de posturas presente na imagem do Enamorado, foi esclarecedora. Um tarólogo precisa ser apaixonado por imagens, condição sine qua non para o trabalho. Isso é inquestionável. E Kirtan usa bem a imagem, o que se percebe claramente através do flyer que montou para seu Workshop, uma crítica sutil e muito bem montada ao meu post sobre o tédio. Me senti feliz por inspirar o desenvolvimento de um WS – e podem ter certeza que não estou sendo irônica, mas sincera. O cara é bom, não vou dar murro em ponta de faca. Desafios me inspiram e me incitam. E há o direito de resposta.

Reconsideremos então, Marcelo e todos os envolvidos na discussão, a montagem da arena. Parece que a montamos juntos. Não há cova dos leões.

Só para finalizar e voltando às questões teóricas, pois são elas que aqui importam, quando o Kirtan usa o título “Desconstituir Imagens”, quando afirma que “quando se trata de menores só existem conceitos” e que na Imperatriz o fruto não está disponível, eu continuo discordando e argumentando. Lembrando que objetivo de uma discussão não é convencer ninguém a nada, apenas espraiar diferentes pontos de vista que podem vir esclarecer questões importantes sobre esse baralho enigmático, sempre surpreendente e perplexo chamado Tarot.

Abraços para todos,
Zoe de Camaris

3 de junho de 2007

LIBERDADE PARA OS MENORES


Reconstituindo Imagens II

Em resposta aos comentários feitos à postagem anterior pelo Gian, Marcelo e Vera, tenho mais algumas reflexões. Antes, quero assinalar que não vou me esforçar em florear palavras, certa de que todos os colegas aqui envolvidos certamente concordam que uma discussão teórica dispensa mesuras e melindres. O que nos une aqui é o Tarot.

Só há um ponto de discordância: Marcelo Kirtan defende que o conceito sobrepuja a imagem. E eu discordo com veemência. Não pode. Se assim fosse, teríamos outra coisa, não um Tarot, sistema de linguagem essencialmente imagética que é. Reafirmo que gosto da contribuição de uma linha de compreensão teórica e unificadora para os arcanos menores. Mas que essa é só mais um função referencial e não o cerne da coisa.

Quanto ao que foi colocado pelo Gian e pela Vera nos comentários, tenho a acrescentar que o Tarot não é uma língua morta. É uma linguagem vivíssima e praticada em todo o mundo. Parece-me que não percebê-lo desta forma é cair na besteira de achar que processos de mudança indicam decadência, assim como acreditam os puristas da língua culta - fazendo aqui uma relação com a palavra escrita. Em todos os campos da vida humana mudança significa avanço, desenvolvimento. Deveríamos bater palmas para todos os artistas que se dedicam a repensá-lo. Milhares de tarots sendo publicados no mundo todo indicam evolução, pensamento em ação, troca de idéias. Fico feliz que o Tarot seja mote para a literatura, para as artes plásticas, para música, para arte. Ele nunca perderá sua aura, por mais que seja reproduzido e alterado. Não vejo nenhum problema que certos decks atendam grupos específicos ou demandas de mercado. Assim como o Tarot possui seu lado esotérico, pode ser usado exotericamente. Implico sim com certas saladas de gosto duvidoso, pretensamente herméticas, mas creio que seu potencial criativo não se limite ao que o nosso gosto ou crivo pessoal qualifiquem de bom ou de mau, verdadeiro ou falso. Dialetos, idioletos, linguagem de guetos, gírias, não modificam o nosso modo de falar?

Convenhamos: qual é regra que rege os arcanos menores? Primeiro, as interpretações foram criadas por cartomantes e os significados, compilados com acréscimos de outros. Depois Waite e Crowley lançam mão do Picatrix, antigo manuscrito árabe, da Astrologia e da Cabala para CRIAREM um universo de possíveis correspondências para os arcanos menores. Ou seja, não existe uma “tradição” propriamente dita. Existem tarots mais antigos que outros e também “leituras” sobre os arcanos menores. Pamela Smith foi buscar inspiração no 3 de espadas do Sola Busca, por exemplo. E o que tem no Tarot que explica a história de Roma que seja fundamental para o “conhecimento secreto”?

Digamos que ao contrário dos maiores, onde podemos identificar a simbologia tradicional (as virtudes cardeais, por exemplo), os arcanos menores são um prato cheio para a criação e diversidade. Nesse sentido, a palestra do Kirtan é um acréscimo: uma proposta estrutural e básica de entendimento dos menores. Mas assim como todas as leituras, é apenas mais uma possibilidade de interpretação que elege a Cabala como regra fundamental - aquela que preservaria uma possível essência das cartas. Mas conseguiria a Cabala preservar a essência das imagens? Tem como conceitos deterem a explosão de idéias que espocam a partir de uma imagem? Sim, de alguma forma, se elas fossem redesenhadas a partir desta idéia motriz. Mas assim como estão, no Waite e no Crowley, não é o que acontece. Cada um fez como lhe pareceu e essa é a única regra, mesmo que tenham lançado mão de estudos da ordem a que pertenciam.

Se os arcanos maiores e os menores fazem parte de estruturas e sistemas distintos, se existem regras para os maiores que estão inscritas na tradição, o mesmo não parece acontecer com os menores. Ainda não me mostraram nenhum pergaminho que consiga absorver e traduzir toda essa diversidade. Crowley explica Crowley, Waite explica Waite, Manara explica Manara e Osho explica Osho.

O que dita a regra é o baralho escolhido. Ou então cria-se um tarot que traduza o que você pensa do Tarot (esotericamente ou artisticamente) e ele será, melhor ou pior, apenas mais um conjunto de cartas que será escolhido por pessoas que pensam concordam com o seu modo de ver a vida.

Por isso não uso Tarots que considero apenas como peças de coleção para as leituras. Escolho os baralhos que falam comigo. E respeito o que eles dizem. Segundo o que entendi da palestra do Kirtan, a idéia estaria "sobre" a imagem e não subjacente a ela. E se a imagem lhe disser algo que não corresponde ao que ele reconhece como sendo a essência ideal de cada carta, o que valeria é o conceito. Eis aí mais uma vez, o ponto fulcral de discordância.


Se assim fosse, ao invés de darmos um passo para frente daríamos um passo para trás. Reduziríamos o Tarot a conceitos. Para tanto, bastaria um conjunto de cartas com números de 0 a 22, mais um de conjunto de 4 séries de 1 a 10 e também de pajem a rei, estes só com o nome estampado. Para que serve a imagem se podemos dispensá-la?

Não, Kirtan, não dou um tiro no pé como professora, pois minha função não é ditar regras mas sim demonstrar um processo de compreensão do tarot que julgo bastante eficiente, apresentar as melhores bibliografias e discuti-las, e faciltar aos alunos a escolha de um deck adequado. Recomendo o que considero mais confiável mas também apresento conjuntos curiosos. Para que eles exercitem antes de qualquer coisa a sua imaginação e se abram para o processo intutivo, pois, sem ele, não se lê o Tarot.

Livrinhos de regras têm um monte por aí. Zil cartilhas. A gente só aprende a escrever depois que sabe falar. E só aprende a estudar depois que aprendeu a escrever. Manter a ordem dos fatores aqui, garante o produto final.

E depois, acho engraçado que você, Marcelo, na defesa de uma postura mais racional de entendimento dos menores, peque exatamente num total não-entendimento da prática do discurso científico quando diz: "Zoe, não tenho a menor intenção de “convertê-la” para o que eu imagino ser a forma correta de se interpretar as cartas, até porque, se dá certo para você, o que eu tenho a ver com isso?".

Puxa, Marcelo, achei que estaríamos debatendo um assunto teórico para o qual são necessárias boas doses de isenção e de abertura para discussão, além de interesse por outros pontos de vista. Por isso pedi que argumentasse. Em nenhum momento compreendi que você estava tentando "converter-me" a algo, que coisa absurda. Viagem de Hierofante.

E eu tenho a ver com o que você pensa sobre o Tarot sim, porque o considero capaz e talentoso. Não discuto com quem não admiro. O que nos interessa é sempre o que nossos pares pensam. O rio que corre perto da nossa aldeia. Espero que a recíproca seja verdadeira e desconfio que sim, senão meus artigos não poderiam ter servido nem para lhe inspirar algumas sacadas sobre o mesmo assunto. Portanto, é claro que você tem a ver com que eu penso sobre o Tarot. Eu, Gian, Vera, Alexsander, Alexey, e por aí vai. Somos profissionais discutindo. Caramba, não estou “atacando” seu trabalho. Só mostrando claramente que discordo quando se coloca o conceito "antes" da imagem.

E eu não disse que o conceito deve morrer. Apenas que não se deve partir dele quando se tem frente aos olhos uma torrente de estímulos que acionam diversos sentidos e conteúdos. Conceito não tem cor, carta de Tarot tem. Conceito não tem contorno, conceito não tem cenário, conceito não tem personagem.

A importância dos conceitos é inegável. Esquecê-los, um passo para ignorância ou para uma mera leitura de "salão". Nós, como professores, devemos facilitar a vida do sujeito, apontar os caminhos, abrir possibilidades de analogia e paralelos. Mas cada coisa na sua hora. Não só no processo de aprendizagem como também no processo prático de leitura das cartas.

Quanto às papisas sensuais e aos leões estrangulados, compreendo perfeitamente. Não uso Tarots com papisas sensuais e nem leões estrangulados. Mas se o meu aluno eleger esse tarot como aquele que lhe fala à alma, está no seu direito. Ele foi apresentado e conhece o que se considera como tradicional.


Ontem, experimentei uma leitura com o Tarot de Mantegna que foge radicalmente da estrutura tradicional, embora seja "tradicionalíssimo". Perfeito para quem não gosta de diabos e torres incendiadas. Foi levíssimo extrair significados de Vênus, da Poesia ou do Gentil Homem. E os números ali, fazem algum sentido?

Ganhei de uma consulente há alguma semanas o Tarot do Senhor dos Anéis, em alemão. Ok, já teria como seduzir adolescentes loiros na porta do Instituto Gothe. Mas por mais que tenha achado legal, jamais irei usá-lo em uma leitura. No máximo, ver se a Jornada do Herói se encaixa nos arcanos maiores. No entanto, a generosidade de minha consulente também me brindou com um Visconti-Sforza com o laminado dourado e um tarotée esplendoroso. Já sei que vou passar dias e dias com ele e quando menos esperar, estará na minha mesa de leitura. E nessa hora gostaria muito de ter estado na palestra do Kirtan pois ela me ajudaria diretamente com os menores de padrão abstrato.

Impossível ler uma grande diversidade de Tarots? Bem, ouso dizer que pra mim não, desde que o desafio elegesse algum tarot razoável e que ele resolvesse falar comigo. Conheço a simbologia dos maiores e os menores me ditariam, segundo suas imagens, o complemento da história. Ou eu teria que ficar pensando em outra coisa? Hum, esse três de espadas tá muito lindinho, cheio de florzinhas, mas eu sei que no fundo ele é triste...ferrou.

Quanto a questão hipotética proposta: "Se alguém perguntar no Orkut o que significa um Papa com um 7 de Espadas eu devo perguntar qual baralho ela usou para dar uma resposta? Se ela usa um baralho que eu não conheço, devo abrir mão de interpretar a jogada?" lhe respondo sinceramente, Marcelo, que não gosto disso, tanto é que não participo ativamente. Primeiro porque o momento em que a leitura acontece dita parte do jogo. Há uma série de questões envolvidas, inclusive a escolha do baralho. A interpretação dada por um tarólogo é única. Um outro tarólogo reinterpretá-la pode ser um caminho certo para o erro.

Lanço então uma questão hipotética também: Marcinha vai jogar para Joaninha. Joaninha abre seu coração para Marcinha. Mas Joaninha não sabe que Marcinha teve um caso com seu namorado na semana passada. Podemos levar em conta a leitura de Marcinha para Joaninha e interpretá-la seriamente? Nós não sabemos que Marcinha é fim do namorado da Joaninha... Portanto, colegas, quando vejo essas interpretações sempre penso que elas contribuem para a discussão acerca dos significados das cartas, mas que talvez não ajudem adolescentes ansiosos. Não se sabe se houve uma concentração mínima na hora de deitar as cartas, não se sabe que baralho foi usado, não se sabe de nada. Só temos uma combinação de cartas e uma enorme vontade de acertar.

Com relação ao exemplo do 9 de ouros não vou nem entrar no mérito da questão. Primeiro que, embora não me faça a cabeça, nada impede que uma relação a três seja madura. Segundo que se Frieda Harris associou esta idéia ao 9 de ouros através das égides dos amantes, o significado está lá para que possamos lançar mão, se assim a nossa intuição indicar.

"Um símbolo evoca uma idéia, o que os ilustradores pintam são imagens que orbitam ao redor do símbolo que podem ter mil e uma significações. Retratando apenas uma parte desta órbita o conhecimento fica reduzido e foge-se totalmente da profundidade inerente ao símbolo". Sim, Vera, concordo. Por isso gosto dos maiores de Marselha, tão ubíquos e misteriosos. Parece que tudo está lá, naquelas imagens toscas. Sempre que o comparo ao Waite por exemplo, vejo o quanto o marselhês é infinitamente melhor embora não tão bonito e colorido.


No entanto, certas idéias quase esquecidas e contidas nos arcanos menores podem saltar à vista como no 3 de copas do Housewives Tarot. E não é que o 3 de copas pode significar o nascimento de uma criança? Seja como for, não usaria o Housewives para nada, a não ser para brincar num chá de entre amigas. Mas fico felicíssima que esse produto exista: bem bolado, um projeto gráfico delicioso, e apesar da tiração de sarro, algo bem feito e com base em estudos, dá pra sacar que eles pesquisaram uma boa quantidade de tarots. E ele continuará enfeitando minha estante e saltará de lá sempre que eu queira "exibir" minha coleção. Só me serve à vaidade.

Quando a arte, a beleza estética, supera a simbologia, ESTANTE. Curiosidade. Esse é o lugar do meu Housewives e outros artigos de coleção. Então, falando agora com o Gian, quero que todos os artistas do mundo soltem enlouquecidamente sua libido no Tarot, criem seus universos paralelos, aproveitem o código aberto dos menores para suas viagens lisérgicas, demoníacas, malucas, absurdas. Pois este é o paraíso da Arte. Em se tratando da escolha do Tarot, devemos ser parcimoniosos, no que parece haver concordância.

Mas discordo quanto à redundância das discussões, Gian. Se não discutirmos estes pontos tão fundamentais para o entendimento da matéria, aí sim é que não chegaremos a lugar algum. A escolha é sempre de cada um, a liberdade nunca estará em discussão.

abraços apertados para todos,
Zoe

19 de maio de 2007

RECONSTITUINDO IMAGENS


Meu colega Kirtan (Marcelo Ivanovitch para os mais íntimos) deve estar terminando agora seu workshop "Desconstituindo Imagens" na cidade de São Paulo - momento em que começo a escrever. A idéia do trabalho é demonstrar que as imagens escolhidas hoje para ilustrar diversos conjuntos de arcanos menores é arbitrária, segundo compreendi. Não seriam seguidas regras que norteassem o leitor de Tarot em um campo seguro. Ou seja, as imagens não estariam mais traduzindo conceitos tradicionais, já que estão sendo reinventadas. Vale lembrar que a tradição em se ilustrar os arcanos menores começou com a publicação do baralho Rider Waite em 1910. Antes de Pamela Smith os menores se apresentavam apenas com padrões abstratos - as chamadas cartas de pintas de que o Tarot de Crowley também é signatário.

Pois bem. Há centos decks inspirados em Pamela Smith. Outros voam ao bel-prazer de seus criadores, como o Tarot Mitológico, por exemplo, que rompe duplamente com o que até então era conhecido. As imagens do Mitológico e de diversos outros Tarots modernos evocam aspectos e interpretações que fazem parte do universo pessoal de cada autor, da sua forma de ver o mundo e da cultura em que estão inseridos.

A proposta de Marcelo é que se atendo ao significado simbólico da numeração, e percebendo-se como esta ordem numérica evolui em cada naipe, teríamos uma ferramenta "descondicionante" da ditadura da imagem. Estratégia perfeita para se manter a coerência. Imagine só você, tarólogo, vagando por uma ilha deserta e só tendo em mãos para saber quando vai sair dali o Tarot de Milo Manara.

Considero a possibilidade também válida para que se aprofunde o conhecimento dos arcanos menores. Mas partir de conceitos se torna um fator complicante quando se trata de ler um Tarot composto de 78 cartas ilustradas com padrões figurativos.

Eu sempre digo aos meus alunos - atenham-se às imagens. É a imagem que comunica no Tarot. É um alfabeto ilustrado, uma linguagem pictórica. É partindo da imagem que se constrói a vistada do tarólogo frente à "arrumação". É assim que as significações vão sendo traduzidas com a delicadeza de quem costura. Se os arcanos maiores, o baralho filosófico, faz parte de um sistema diferente dos arcanos menores; se os dois foram construídos em momentos díspares da história e com finalidades outras, não deveríamos então separá-los por completo? Sim, por que com um sistema eu procederia de uma forma, com outro sistema, eu procederia de outro.

Complica o meio de campo. Afinal, que veio antes, o conceito ou a imagem? Podemos separar forma de conteúdo? Significante de significado, plano de expressão de plano de conteúdo? O ovo da galinha? Para estudar sim. Para ler o Tarot, não.

Entendo que o conceito subjaz à imagem. Mesmo que a figura tenha sido criada a partir de um conceito, se me compreendem.

A diferença entre apreender um dado universo pictórico e a linearidade de uma frase é que a imagem espoca em uma pluralidade de sentidos que se espalham em todas as direções, todos ao mesmo tempo - uma bomba de percepções simultâneas. Como diz Gadamer, a pintura é um presente absoluto. Já a frase só pode acontecer no tempo, no eixo das sucessões. Só posso ler uma palavra de cada vez. E só posso pensar os números um em relação ao outro – o valor do número depende do quem vem antes e do que vem depois.

A análise numerológica requer o plano do conceito imediatamente, o que é muito abstrato se comparado à materialidade das imagens significantes. E evoca um estado diferente de percepção.

Pensar a evolução numérica nos naipes seria correto quando se trabalha com as cartas de pintas, quando temos nas mãos um Tarot como o de Marseille. A iconografia assim o indica, conceitos abstratos advindo de padrões abstratos. Se estamos falando de um sistema imagético, e isso me parece claro e certo, primeiro a imagem.

Aleister Crowley ao inserir nas cartas cores diversas, planos geométricos hipnóticos, títulos que induzem a intepretação e correspondências astrológicas, cabalistiscas e mágicas, altera magnificamente nossa forma de intepretar o baralho, possibilitando um estado alterado de consciência que exige do tarólogo um mergulho profundo. Mas só cria essa sensação porque a habilidade de Frieda Harris o permitiu. Com a imagem.

Então, acho a idéia de Kirtan bacana desde que ao se nortear pela ordenação numérica, o tarólogo use um baralho que apresente as cartas de pintas. Mas não acredito na possibilidade de transportarmos este conhecimento teórico in presentia quando trabalhamos com imagens ilustradas.

Em minha opinião, isso atrapalharia o estímulo número 1 do Tarot que é o poder de sugestão das imagens, o gatilho intuitivo.

O que fazer se a imagem evocar algo diferente do conceito numérico, idealmente correta? O que se privilegia? Pronto, disparou-se a bala errada. Foi-se o gatilho. Neguinho parou pra pensar no meio da leitura, perdeu o fluxo intuitivo.

Sim, é válido termos um tipo de leitura para cada baralho que se usa. E isso é verdadeiro inclusive para os Arcanos Maiores, onde o consenso entre os comentadores do Tarot é bem maior. Quando tiro a Força no Marseille minha sensação é uma. Se for a Lascívia de Crowley, minha percepção é bem diferente embora tanto uma como a outra imagem estejam presas ao que compreendo integralmente sobre o arcano XI.

Tenho em mente também que os arcanos maiores se esclarecem em linha diacrônica e também na ordem paradigmática. Mas o valor numerólogico da imagem pra mim é uma informação de segunda ordem, uma "ancoragem" da carta. Um índice de fundo estrutural. Uma função referencial.

O que é necessário numa aula nem sempre é interessante numa consulta. A estrutura conceitual é um conhecimento integrado que deve ser introjetado e depois esquecido. A informação pulará na hora certa de um dos nossos arquivos. Disparados pelo gatilho das imagens.

Gosto muito das invencionices dos artistas. Criam-se novas formas de ver o mundo. Outros estímulos. Maiores possibilidades interpretativas que podem fazer jus a SUA forma de ver o mundo. Se fulana é uma frequentadora de cartomantes e gosta de leituras divinatórias, talvez não se sinta à vontade com um saniasyn interpretando o Tarot do Osho (ou talvez um novo mundo se descortine pra ela, sei lá). Mas com certeza a leitura do Tarot do Crowley via Gerd Ziegler se adequará completamente a alguém que esteja na India, passando férias na Osholândia.

Não sou dogmática no que se refere ao Tarot, embora só utilize baralhos tradicionais nas minhas leituras. Digamos que sou uma taróloga conscienciosa na hora de interpretar as cartas, sabendo da responsabilidade que envolve a prática do meu trabalho. Leve e concentrada. Em contrapartida, sou uma comentadora de Tarot que estimula com veemência a idéia de que o Tarot é um sistema aberto às mais inimagináveis percepções e traduções artísticas. Não poderia ser diferente.

E como professora, repito: atenha-se aquilo que você vê. Pois se no momento da leitura, ao invés de dar asas à imaginação (não é o Tarot uma arte da imaginação?) estivermos lembrando de conceitos evolutivos, não estaremos mais jogando Tarot. Estaremos fazendo uma outra coisa. O que as cartas têm para dizer a você é exatamente o que aparece à sua frente. Cabe ao tarólogo interpretar o que tem em mãos, pelo tempo que durar aquele eterno presente.

Pena, Kirtan, eu gostaria de ter estado aí com vocês para defender meu ponto de vista. Provavelmente discutiríamos a questão à exaustão e chegaríamos a uma conclusão (ou não). Sejam gentis com uma dama ausente e retruquem, por gentileza.


Zoe de Camaris

13 de maio de 2007

EL MAGO



Ou também chamado de Prestidigitador. Aquele que tem uma incomum habilidade nas mãos. No dicionário, prestidigita aquele que tem a aptidão para iludir, para encantar. Mas antes de tudo há a destreza de seus braços. O Mágico tem o poder de movê-los tão depressa, mais tão depressa que seus gestos confundem e atordoam. É o ilusionista de feira que move os copos com tanta rapidez que não se sabe onde foi parar a moedinha. De onde vieram os coelhos? Cadê o valete?

É o Mago que aciona águas e ventos, que seduz céus e terra com seu gesto imperativo. O eterno iniciado. A nasciturna ordem no caos.

Traz, em primeira mão, a idéia de potência, de algo que ainda não se realizou, arcano 1 que é. Hora em que ainda não se sabe se o movimento está nele ou nós, como num espelho. Há que se olhar o Tarot com perplexidade. A carta instaura a idéia de uma primeira visada. O que fará o rapaz de cabelos dourados com a ânsia da ação? Tudo ou nada. O poder de criação está em suas mãos.


E quando o Mago erra a mão? Ou fica com as mãos atadas? Problemas...

Coisa que verifiquei ontem. Sentindo que esta que vos escreve precisava de uma azeitada nos ombros e uma geral nas costas chamei um amigo de minha filha, masso e fisioterapeuta. Genial. Foi o melhor presente que me dei nos últimos tempos, me colocar em boas mãos.

Ele começou pela direita. Ficou um tempão ali massageando cada centímetro, cada pedacinho. Aquela dorzinha gostosa sabe? Mas que em certos pontos, doía pra caramba. Aí ele passou para a mão esquerda e como senti uma dor mais aguda, observei que possivelmente a esquerda estava pior do que a direita. Ele não concordou. E falou assim:

- Tem algo que você deseja muito. Com todo fervor, com todas suas forças. Mas que não pode fazer. Não tem meios de acionar o gesto porque aí reside uma série de implicações. Toda essa vontade está aqui, contida, deixando sua mão dura, tensa. Presa. Você reteve tudo com as mãos postas.


Eu só não caí pra trás com o diagnóstico porque estava deitada. É exatamente a situação em que me encontro. Via de mão única com uma pedra na frente. E uma teimosia enorme em trocar de caminho. Não quero e por isso não posso. Quero o desejo do outro que, não necessariamente, deseja aquilo que desejo. No tempo em que desejo. E esta impossibilidade me torna inflexível, me tolhe todo o movimento. O Mago invertido. O Feiticeiro me deixou na mão. O Enforcado é o Mago preso no espelho?

Quando a única ação é a não-ação, só quem é zen se dá bem. Ou quem passa, sem tanta insistência, para o lugar da Sacerdotisa e coloca tudo nas mãos do universo. Aguarda, com conhecimento de causa. Ela tem o livro sob suas mãos. E toda arte da gentil paciência. O que é uma mão na roda, diga-se de passagem - para quem consegue. Relaxar, desencanar. Mas quando se quer colocar mãos à obra e não se tem como, mete-se a mão na cumbuca. E de lá ela não sai.

Pensei em tudo isso enquanto via aquelas bolinhas loucas de prana dançando na minha frente, logo ali na varanda. Fazia tempo que não as observava, dançando e cintilando. Era como se meu corpo estivesse se descristalizando. E quando a massagem acabou, minhas mãos estavam tão leves que eu poderia dizer que as mãos de gengibre da bruxa que eu não via se transformaram novamente em mãos de fada. Asas ao invés de mãos. Eu poderia voar.

Há que se dar a mão à palmatória. Não há como manipular, nem prestidigitar certas situações. O jeito é largar mão. Colocar a mão na consciência, aceitar os fatos e entregar de mão aberta o desejo, meu tão forte desejo, ao universo. Dona Esperança que pare de passar a mão na minha cabeça e disfarçar seu assalto à mão armada porque é isso que ela faz. Finge que te dá uma mãozinha. Faz com as mãos e desmancha com os pés. E a água te escorre pelos dedos.


Agora, de duas uma: ou tenho um insight e a minhas mãos me guiam sem fazer força para o acalentado objetivo e o Mago se colocará de pé novamente, ou então elas vão endurecer de novo. Porque fiz o movimento contrário - liberei no corpo o que ainda não está liberto na mente. E talvez nunca vá estar liberto no coração. O Mago fala de controle. Mas tem coisas que a gente não pode controlar e por isso se controla tanto. Taí a liberdade - bolinhas de prana.



Ainda não tenho a solução, nem conheço o gesto certo. Porque não quero nem iludir nem acenar. Tenho o movimento mas não posso fazê-lo. Queria que o Valete me segurasse pela mão, saindo da manga. Aí então, eu teria asas. Como Cupido para Psiquê.

E nada de jogar as mãos para o céu - seria um ato forçado e de segunda mão, como esta frase. Mas também não vou colocar minhas mãos no fogo e assisti-las queimando. Seja como for, vi claramente a situação em que me meti. Porque um Mago me tocou. Fez o gesto certo e conhecia a palavra. Abriu a mão. E de lá cairam todas as moedas que eu guardava nas orelhas. E essa sorte, essa grande sorte, me foi dada de mão beijada.


digitando,
Zoe de Camaris
psiu: fui visitar minha amiga Alice, de passagem pela cidade por causa do dia das Mãos, ops, das Mães. E falando sobre a espera ela me disse que a gente, nesses casos, nunca espera. Só se desespera. Porque o esperar é um grito que fica alisando o peito. Então não há espera. Só desespero. Fala de poeta.

29 de abril de 2007

DUAS ESPADAS

Sumi, né? Não, não morri de tédio. Na semana passada, bati com a cabeça na parte pesada da janela enquanto me ajeitava na cama. Doeu pra caramba, foi sangue pra tudo quanto é lado e baixei hospital. Não precisei dar pontos mas passei a semana inteira com uma dor de cabeça horrível. Agora, tô melhorzinha mas ainda sem o ânimo e a concentração necessária para escrever.




Então, pra não deixar meus leitores sem o artigo de final de semana, recomendo o texto do Leonardo Chioda sobre o 2 de espadas - O Silêncio entre duas lâminas. Excelente! No Café Tarot.

Enquanto isso, continuo no melhor estilo 9 de paus. Mas já volto.

besos,
Zoe

15 de abril de 2007

4 de Copas


Sentado no meu quarto/ O tempo voa/ Lá fora a vida passa/ E eu aqui à toa/
Eu já tentei de tudo/ Mas não tenho remédio/ Pra livrar-me deste tédio.

Biquini Cavadão



"Deus, livra-me dos chatos!" - Dalton Trevisan



As imagens falam. Como estoy aburrida, não tenho muita vontade de tecer comentários, mas vamos lá. Prometo que farei o possível. E não me chateiem - lembrem-se! Eu moro em Curitiba, cidade onde tudo funciona. Céu azulzinho de outono, ônibus por um real que te leva aonde você quiser aos domingos (saco, hoje é domingo) - já abri as janelas faz tempo, já fiz café, já coloquei comida pro gatinho e pro cachorrinho... ó céus, ó vida, ó destino! Como é que o tempo ousa se arrastar desse jeito?

Bem. Calvin repete, na tirinha, o mesmo gesto do rapaz na imagem de Pamela Smith, do Universal Waite. Parece óbvio e é. A imagem do tédio - cruzar os braços em total empatia consigo mesmo já que nada do outro lado parece funcionar de agrado. Tudo uniforme, a expressão da indiferença. Tédio inclui ironia, algumas vezes cinismo. O mundo pode cair que você não está nem aí. Mas, com certeza, ele não cairá. Faz parte do tédio a desesperança. Digamos que o tédio não é grave como a angústia. Na angústia, há movimento. No tédio, tudo pára de fazer sentido. E há uma inflação egóica, claro. O entediado é um príncipe, cansado de suas riquezas e dos cachorros de raça que o distraem, vez ou outra. Tédio é para poucos, digamos assim. Há uma nobreza no tédio que é típica daqueles que são excessivamente mimados. E que pode ser confundido com "estilo".

Causa, inclusive, a exasperação alheia. Sim, os chatos que não se cansam de repetir: - mas olhe como a vida é linda! Humpft. Tédio. Aqui, não se toma conhecimento do que a vida, generosamente, entrega. Nenhuma gratidão. Certo mesmo está é o Olavo Bilac, outro porre: "Sobre minh'alma, como sobre um trono,/ Senhor brutal, pesa o aborrecimento./ Como tardas em vir, último outono,/ Lançar-me as folhas últimas ao vento!".

Se fosse tédio mesmo, o poema não teria tantas exclamações. Aliás, como o tédio tem a ver com uma certa preguiça, os marcadores sem dúvida seriam as reticências.

Tremenda mesmice. Um bocejo imenso vai engolir o mundo. Nada do que lhe é oferecido faz alguma diferença. A palavra-chave é indiferença. Vantagens? Sim. Para Baudelaire, de quem acabei de roubar a frase do bocejo, o esvaziamento da dimensão simbólica da existência seria uma necessidade para a subversão crítica da realidade. Mas esse ensaio que estou lendo é um saco, passemos a algo menos chato, senão, que nem a Rê Bordosa, vou estourar de tédio junto com meus leitores que, a essas alturas, espero, já tenham fechado a janela. Ninguém merece esse texto. Não hoje.

E dêem graças a deus os que estão vivos, porque acabei de achar um poema de J.G. de Araújo Jorge perfeito para o momento e aí então, não sobraria pedra sobre pedra. Vou poupá-los de tamanho aborrecimento.

Ai ai. Voltemos então ao Tarot. Crowley agora. Se você ainda estiver de olhos abertos, observe a imagem:



O nome da carta é Luxúria. Exuberância. Hum? Lúxuria é bom? É, né? Dizem que é, não sei. Parece que a palavra "luxúria" dentro do contexto crowleyano quer dizer mais coisas, tem seu sentido estendido. Excesso de prazeres. No meu caso, excesso de chocolates.

E quando há exagero, obviamente, há tédio. Faz parte da natureza humana "sentir falta". Se algo não me falta, se não me falta nada, o estado é de prostração. Hazo Banhaf é bacana ao interpretar a carta. Bonzinho. Eu prefiro as aulas do Veet Vivarta em que a seguinte expressão reveladora nunca mais me saiu da cabeça: "amor de grude". A Lua está em Câncer, o que equivale a dizer que está em casa. Mas tem coisa mais chata que a Lua em Câncer e em casa? Chicletes. Amor & chicletes. Gente que fica abraçando e beijando o tempo todo, telefonando, dizendo que ama, agarrando no pescoço. Eu não gosto de melação - há quem goste, claro. Minha Lua é clean, virginiana. Carinho é bom. Pegação no pé é um saco.

Há um conformismo que pode significar conforto. Bem dignificada, a carta significa ternura, aceitação do amor entregue. Você está sendo mimado. Cuidado (nos dois sentidos). É claro que para que isso resvale no ciúme, no zelo excessivo, é apenas um pequeno passo.

A seqüência explicita: Ás de Copas - transbordamento amoroso como estado inicial; Dois de Copas - amor compartilhado; Três de Copas - festa, amor vivaz, lua-de-mel; Quatro de Copas - cansaço (depois do orgasmo?) seguido de tédio e do...Cinco de Copas, claro, desapontamento.

Outro dia, li numa comunidade sobre Tarot que o 4 de copas poderia significar traição. Sorri com o canto da boca. A "traição" está é no 3 de copas. No quatro, só há acomodamento.

As nuvens no fundo da lâmina começam a ficar escuras. Nimbus recheada. O tédio é cinzento como uma tarde de domingo.

Ok, vou parar de cansar vocês e almoçar na casa da minha mãe. Se eu der sorte, não vai ter macarrão. Mas eu SEI que vai ter macarrão.



Zoe de Camaris


Morte
William Butler Yeats


Medo não tem, nem esperança,
Um animal a agonizar:
Aguarda um homem o seu fim,
Tudo a temer, tudo a esperar;
Já muitas vezes morreu ele,
As muitas vezes retornando.
Em seu orgulho, um grande homem,
Homens que matam enfrentando,
Sobre a substituição da vida
Atira um menosprezo forte;
sabe ele a morte até os ossos
- Foi o homem quem criou a morte.

tradução de Péricles Eugênio da Silva Ramos

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Morte

Nem temor nem esperança assistem
Ao animal agonizante;
O homem que seu fim aguarda
Tudo teme e espera;
Muitas vezes morreu,
Muitas vezes de novo se ergueu.
Um grande homem em sua altivez
Ao enfrentar assassinos
Com desdém julga
A falta de alento;
Ele conhece a morte até ao fundo —
O homem criou a morte.

tradução de José Agostinho Baptista

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Death


Nor dread nor hope attend
A dying animal;
A man awaits his end
Dreading and hoping all;
Many times he died,
Many times rose again.
A great man in his pride
Confronting murderous men
Casts derision upon
Supersession of breath;
He knows death to the bone —
Man has created death.


W. B. Yeats

6 de abril de 2007

XIII

“Se você não morrer antes de morrer, morrerá ao morrer”.
Ordem dos Cavaleiros Teutônicos



Ver a Morte em vida. Solução para a fama aziaga do décimo-terceiro arcano do Tarot? Creio que não. Morrer, quando se está vivo, é uma constante ou pelo menos deveria ser. Livrar-se do velho para que o novo apareça. O processo é complicado porque há fatos morimbundos. Aqueles que moram dentro da gente em estado de coma, velharias que insistimos em manter vitalizadas - como se isso fosse possível sem que tudo no entorno apodrecesse.

Ano passado, suicidei-me. Não, não foi uma tentativa de suicídio. Suicidei-me mesmo. Estava tão envolvida em uma situação, tão agarrada a ela, tão identificada com algo que não me pertencia que não tive outra alternativa. Ter total consciência do processo é fundamental. Cada etapa minuciosamente analisada e só depois ritualizada pelo instinto de vida. Buscar o entendimento dos meandros, das vielas, das esquinas em que a depressão se instala. Buscar a verdade. Perguntar sempre: - por quê? Não importa se a resposta vem. Continuar inquerindo, sempre. Em determinado momento a solução eclode, vinda sabe-se lá de onde.

Quando vi minha imagem de esqueleto no espelho, algo dentro de mim começou a se mexer como as serpentes na cabeça da Medusa. Eu não tinha mais como conviver com o que estava agonizando dentro de mim. Mas para que a Morte pudesse pegar sua foice e realizar seu trabalho no jardim, precisei permitir a sua presença ao meu lado.

Era uma tarde chuvosa, como deveria ser. Um cenário propício. Eu estava sozinha e muito triste. Minhas leituras, na época, muito pesadas. Uma lassidão, um amortecimento, um cansaço de todas as tristezas. O corpo pesado no colchão. Exaurida. Lembro-me que escutei as folhas da amoreira gritarem que não. Mas não lhes dei ouvidos. Peguei o primeiro papel que vi no criado-mudo e escrevi o poema que contava a minha morte etapa por etapa. Auto-comiseração? Não. Um gesto libertador. Cada célula do meu corpo gritava de dor à medida que as palavras eram escritas no rascunho. Hipostasia romântica? Não. A solução, o resumo, a essência de sofrimentos acumulados durante muito tempo. Escrevi o poema a seco. Tomei um comprimido para dormir. E a escuridão veio.

Uma penumbra adocicada, sem sonhos. Não sei quanto tempo isso durou. Não sei o que aconteceu enquanto eu dormia. Se à minha volta, dançavam todos os meus fantasmas de mãos dadas com aqueles que já se foram; se um anjo salvador erguia suas mãos sobre minha alma e me libertava; se a imagem da Morte no espelho se desgrudava lentamente e tomava o caminho da amoreira.

Sei que acordei, sonâmbula, e caminhei até o banheiro. Liguei o chuveiro e tomei um banho imóvel. Era só a água, meu corpo e nenhum gesto. As águas da Temperança. Quando senti que era hora de desligar, saí dali, coloquei uma roupa qualquer e passei o resto do dia como um robô. O piloto automático ligado para lavar a louça, desligar o computador, pentear os cabelos. O fim da tarde se arrastou, a noite chegou e eu dormi tranquila mas ainda com aquela sensação de anestesia. Troquei a roupa de cama. Coloquei um pijama limpo e quente.

Deixei a janela aberta de propósito. O dia nasceu ensolarado. Levantei e, como de costume, coloquei a água pra ferver. No primeiro gole de café, meus pensamentos voltaram para o lugar de sempre, como um passarinho habituado à sua árvore. Mas a árvore não estava mais ali. Uma sensação de estranhamento me percorreu. Ei, onde está meu sofrimento preferido? E me dei conta que ele tinha sumido, realmente sumido.

Bem, é claro que história tem um final feliz. Cada célula que antes gritava de dor estava possuída por uma nova força. Cada fio de cabelo tinha passado pelo salão de beleza dos deuses com sua queratina de néctar. Eu, era eu novamente. Graças a mim mesma que permiti, finalmente, a visita do arcano Sem Nome - em Vida.



Zoe de Camaris

26 de março de 2007

O menino


celeuma
onde se lê uma
leiam-se duas


p. leminski

Ele pode ter 19, 35, 46 ou 54 – não importa. Seu impasse é o mesmo. Está entre três chamados: o da Beleza, que é sua Arte; o da Mãe, que é de onde ele veio e sempre tende a voltar; e o da Mulher, que é para onde ele deseja ir e de quem costuma fugir. Seu movimento é um eterno vai-e-vem mental, confuso entre os estímulos diversos.

Para tornar-se um Homem, precisa, antes de mais nada, assegurar-se da sua Arte e reconhecer naquilo que o sustenta o seu grande e primeiro amor. A Arte nunca irá abandoná-lo. Propicia ao Enamorado um sentido ético para a jornada. Aí então, o menino confuso pode encontrar o fio de Ariadne, tomar seu Carro e colocar-se a caminho de uma solução. Fundamental, o primeiro passo.

Alguns, peterpânicos, nunca saem do impasse. Repetem-no por toda vida, mudando as personagens. Uma mulher, aquela que não ocupa seu desejo romântico, no papel de esteio. A Mãe, a Mestra, a Esposa (leia-se aí, alguns casamentos falidos em que a relação homem/mulher mais parece uma relação filho/mãe). Um pilar cimentado pela necessidade de alguma segurança. Laços de família ou laços religiosos bem atados. Religiosos sim, porque não raro os laços estão amarrados no sentimento de culpa com nó cego.

A Outra é aquela que ocupa o lugar de risco, a namorada-novidade sem a qual ele não vive - nem que seja num movimento imaginário. Sua idéia erotizada de mulher lhe traz a ilusão de movimento. E ele sempre troca de revistinha. Uma hora é loira, depois é morena. Desiste ao primeiro sinal de dificuldade ou encara a situação apenas como mais um desafio.

Para escapar do desespero inaugural o menino tem sua Arte, onde se lança com energia. Alguns mais, outros menos. Aos que a Arte não toca, ao invés do Anjo-Menino, têm o Anjo-Diabo. E ele os domina através de seu riso entorpecente. Aqueles que reconhecem sua Arte sobem o Himalaia, praticam esportes radicais, são admiráveis e admirados pelo seu trabalho mas ainda assim, continuam meninos. Alguns ainda, no melhor estilo “O Louco”, caminham pela borda de viadutos completamente ébrios.

Diz-se que depois de feita uma escolha, não se deve olhar para trás. Que o caminho rejeitado nunca mais deve ser sequer cogitado. Isso soa assustador: - Quer dizer então, que não vou poder voltar?
Camile Paglia, em Personas Sexuais, é de uma clareza impressionante quando diz que o homem obedece ao caminho ditado pela direção do falo – sempre em frente, quando rijo. Ao perder a rigidez, volta para o lugar de onde veio. O eterno vai-e-vem masculino, uma metáfora do ato sexual.

Essa trama que triangula o menino é onde algumas mulheres se enredam. Por não compreenderem o mecanismo, perdem o entendimento. E se o entendem intelectualmente, não significa que o tenham introjetado. A mulher, que até aí também é só uma menina, ou está ocupando temporariamente o lugar de uma menina, só se liberta da teia quando encontra um homem. Um homem que tenha superado o imperativo do impasse biológico. Que tenha assumido seu lugar no Carro, que saiba para onde se encaminha. Que possa granjear-lhe a admiração pela sua força de vontade.

Talvez essa força masculina tão desejada pelas mulheres precise ser, antes de tudo, encontrada dentro delas próprias. E que este encontro lhes permita, num segundo momento, reconhecer as diferenças entre um homem e um menino.

O menino, que num primeiro momento traz a graça de Eros, em pouco tempo mostra que não sabe para onde ir. Seria a confusão, admirável? E sobrevive o amor, ou mesmo a paixão, sem a admiração? Talvez a compaixão, não o amor. Ou talvez a ilusão de amor ainda perdure por um bom tempo na insistência da alma feminina e faça com que mulheres aparentemente maduras percam o sono. Não entendem “aonde ele quer chegar” por que ele mesmo não sabe “aonde” quer chegar. O menino emite sinais confusos. De um lado mostra que gosta, e é real. De outro, que não lhe interessa. E também é real. Sabedoria do cancioneiro popular: a verdade mesmo é que ele não sabe o que quer.
Um homem não anda em zigue-zagues. Coordena seus cavalos de força na direção da sua vontade mais íntima. Pelo menos, descobriu o que deseja e deixou de se iludir com o que “pensa” desejar. Pode optar também por eleger a sua dúvida como verdade. E aí, num sentido romântico, dá-se como perdido. Se for um forte, assumirá sua opção pela dúvida com todas as letras. Sem medo. E quem gostar dele, gostará mesmo assim. Um ato de coragem a que meninos não se dispõe.

Outro dia, comentei com um colega tarólogo sobre o excesso de questões que nos são trazidas com relação a assuntos sentimentais. Brinquei ao propor que criássemos uma tiragem complexa e destinada, exclusivamente, a responder a pergunta básica, feita por mulheres dos 15 aos 70: “Ele vai voltar pra mim”?

A tiragem complexa funcionaria como forma de reflexão e mais nada. Porque a resposta é sempre mesma:- Você está envolvida na rede do sexto arcano. Se a questão se referisse a um homem e não a um garoto, a pergunta não precisaria ser feita. Pois a mulher teria em mãos sua resposta clara e certa.


Um homem sabe para aonde está indo. Mesmo que seus cavalos de força oscilem vez ou outra, ele sempre lhe deixará muito clara sua direção.

Meninos são adoráveis. Mas apenas para as meninas.


Zoe de Camaris
madrugada de 25 de janeiro de 2007


Algumas observações:

1 - O teor do artigo supõe a existência de distinções básicas que pontuam o comportamento dos dois sexos. Não que a mulher não sofra com dilemas, obviamente, apenas os vivencia de forma diferente. A mulher não precisa afirmar que é mulher. O homem sofre essa pressão constantemente. Andrógino é o anjo.

2 - Tive um diálogo intenso sobre esse artigo com o tarólogo Marcelo Bueno, que me deu permissão para "editar" a nossa conversa. Isso será feito futuramente - é bacana ter um opinião masculina sobre o assunto. O ponto de vista do artigo é feminino - não pretendo ser científica, graças aos deuses.

21 de março de 2007

DIVINATRIX NO AR!




Divinatrix é o nome do site que estou lançando hoje no seguinte endereço: www.zoedecamaris.com. Visitem e coloquem aqui seus comentários!

abraços,
e um feliz começo de outono para todos nós,
Zoe

14 de março de 2007

Mais acordes de Violino



Há alguns detalhes que ficaram faltando na análise do Violino Vermelho, postagem anterior. Não satisfeita com a falta de informações sobre as fontes do Tarot apresentadas no filme, continuei na minha insana fúria de pesquisa.

Pois bem. Há 3 questões relevantes: 1) Não há nada na internet que revele o autor das cartas; 2) Há mudanças estruturais importantes em quatro das cinco imagens apresentadas se comparadas ao padrão marselhês; 3) E uma gafe - o Tarot não teria sido usado como prática divinatória na época em que o filme é ambientado.

Quanto ao primeiro tópico, agradeço a quem descobrir alguma coisa. Me parece que manter o autor no anonimato faz parte de uma aura de mistério intencionalmente provocada.

Com relação ao segundo ítem, percebe-se claramente que na lâmina do Diabo falta uma personagem, um dos "escravos". A vítima do encanto é uma só, Frederik Pope. Na carta da Justiça, há a inclusão de um navio e da bandeira chinesa, além de umas figurinhas que nos remetem aos cardeais presentes no desenho original do Papa, no Tarot marselhês. No Enforcado, falta meio cepo de uma das árvores laterais. Na carta da Morte, há uma cidade ao fundo. Observem as imagens no post anterior. Não consegui reproduções de qualidade mas é nítido que foram inspiradas no Tarot de Marselha.

Sobre a questão histórica, afirma-se que o Tarot não teria sido usado antes 1781, século XVIII, como prática divinatória. Eteilla teria sido o responsável pelo uso do Tarot para a adivinhação, alavancado por Court de Gébelin, em Monde primitif. O filme é ambientado em 1681, século XVII. Temos aí então um hiato de 100 anos. Como a história do Tarot não é minha melhor praia, recorri a quem saca do riscado - minha amiga Erika Hirs.

Erika me diz que as pesquisas mais recentes afirmam o mesmo - antes de 1781, nada de Tarot adivinhatório. O máximo que podia existir seria a leitura de uma carta, como na bibliomancia, mas nada de adivinhações estruturadas.

Antes disso, as cartas de Tarot eram utilizadas como jogo e também como método mnemônico, didático. O Sola Busca, por exemplo, um Tarot militar, era usado para ensinar a história de Roma. Também existiam os tarocchi appropriati, composições feitas com base nas cartas, como as de Boiardo. Se houve uso divinatório antes de Eteilla, é provável que uma carta fosse retirada do maço para conselhos, como a prática de abrir saltérios e bíblias.

Raciocino: quer dizer então que antes de 1770 existia uma prática correlata à "carta do dia"? Curioso. Se as cartas comuns já eram usadas para a adivinhação e se existia o costume de se tirar uma carta do Tarot como conselho, será mesmo que o Tarot não teria sido usado para adivinhação, mesmo que de forma não-sistematizada, antes de 1780?

Erika me responde que em 1519 existe o registro de um "ritual mágico" que Rolando - de Orlando Furioso - teria feito com cartas de baralho comuns para descobrir os inimigos de Carlos Magno. E no século XV, um livro alemão oracular que acompanhava as cartas comuns. Em 1540 sabe-se de um método de divinação usando só as cartas de moedas.

Eu e Erika concordamos que seria possível que as cartas de Tarot fossem utilizadas ainda antes de Eteilla. Mas como não há provas, considera-se que só após 1780 as cartas teriam sido realmente deitadas com intuito divinatório. Esperemos as novas descobertas.

Enquanto isso não acontece, é bom levar em consideração que uma obra de ficção, apesar do imperativo da verossimilhança, é uma obra de ficção. E a beleza do filme Violino Vermelho, na minha opinião, supera suas possíveis gafes.




Zoe de Camaris

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