15 de abril de 2007

4 de Copas


Sentado no meu quarto/ O tempo voa/ Lá fora a vida passa/ E eu aqui à toa/
Eu já tentei de tudo/ Mas não tenho remédio/ Pra livrar-me deste tédio.

Biquini Cavadão



"Deus, livra-me dos chatos!" - Dalton Trevisan



As imagens falam. Como estoy aburrida, não tenho muita vontade de tecer comentários, mas vamos lá. Prometo que farei o possível. E não me chateiem - lembrem-se! Eu moro em Curitiba, cidade onde tudo funciona. Céu azulzinho de outono, ônibus por um real que te leva aonde você quiser aos domingos (saco, hoje é domingo) - já abri as janelas faz tempo, já fiz café, já coloquei comida pro gatinho e pro cachorrinho... ó céus, ó vida, ó destino! Como é que o tempo ousa se arrastar desse jeito?

Bem. Calvin repete, na tirinha, o mesmo gesto do rapaz na imagem de Pamela Smith, do Universal Waite. Parece óbvio e é. A imagem do tédio - cruzar os braços em total empatia consigo mesmo já que nada do outro lado parece funcionar de agrado. Tudo uniforme, a expressão da indiferença. Tédio inclui ironia, algumas vezes cinismo. O mundo pode cair que você não está nem aí. Mas, com certeza, ele não cairá. Faz parte do tédio a desesperança. Digamos que o tédio não é grave como a angústia. Na angústia, há movimento. No tédio, tudo pára de fazer sentido. E há uma inflação egóica, claro. O entediado é um príncipe, cansado de suas riquezas e dos cachorros de raça que o distraem, vez ou outra. Tédio é para poucos, digamos assim. Há uma nobreza no tédio que é típica daqueles que são excessivamente mimados. E que pode ser confundido com "estilo".

Causa, inclusive, a exasperação alheia. Sim, os chatos que não se cansam de repetir: - mas olhe como a vida é linda! Humpft. Tédio. Aqui, não se toma conhecimento do que a vida, generosamente, entrega. Nenhuma gratidão. Certo mesmo está é o Olavo Bilac, outro porre: "Sobre minh'alma, como sobre um trono,/ Senhor brutal, pesa o aborrecimento./ Como tardas em vir, último outono,/ Lançar-me as folhas últimas ao vento!".

Se fosse tédio mesmo, o poema não teria tantas exclamações. Aliás, como o tédio tem a ver com uma certa preguiça, os marcadores sem dúvida seriam as reticências.

Tremenda mesmice. Um bocejo imenso vai engolir o mundo. Nada do que lhe é oferecido faz alguma diferença. A palavra-chave é indiferença. Vantagens? Sim. Para Baudelaire, de quem acabei de roubar a frase do bocejo, o esvaziamento da dimensão simbólica da existência seria uma necessidade para a subversão crítica da realidade. Mas esse ensaio que estou lendo é um saco, passemos a algo menos chato, senão, que nem a Rê Bordosa, vou estourar de tédio junto com meus leitores que, a essas alturas, espero, já tenham fechado a janela. Ninguém merece esse texto. Não hoje.

E dêem graças a deus os que estão vivos, porque acabei de achar um poema de J.G. de Araújo Jorge perfeito para o momento e aí então, não sobraria pedra sobre pedra. Vou poupá-los de tamanho aborrecimento.

Ai ai. Voltemos então ao Tarot. Crowley agora. Se você ainda estiver de olhos abertos, observe a imagem:



O nome da carta é Luxúria. Exuberância. Hum? Lúxuria é bom? É, né? Dizem que é, não sei. Parece que a palavra "luxúria" dentro do contexto crowleyano quer dizer mais coisas, tem seu sentido estendido. Excesso de prazeres. No meu caso, excesso de chocolates.

E quando há exagero, obviamente, há tédio. Faz parte da natureza humana "sentir falta". Se algo não me falta, se não me falta nada, o estado é de prostração. Hazo Banhaf é bacana ao interpretar a carta. Bonzinho. Eu prefiro as aulas do Veet Vivarta em que a seguinte expressão reveladora nunca mais me saiu da cabeça: "amor de grude". A Lua está em Câncer, o que equivale a dizer que está em casa. Mas tem coisa mais chata que a Lua em Câncer e em casa? Chicletes. Amor & chicletes. Gente que fica abraçando e beijando o tempo todo, telefonando, dizendo que ama, agarrando no pescoço. Eu não gosto de melação - há quem goste, claro. Minha Lua é clean, virginiana. Carinho é bom. Pegação no pé é um saco.

Há um conformismo que pode significar conforto. Bem dignificada, a carta significa ternura, aceitação do amor entregue. Você está sendo mimado. Cuidado (nos dois sentidos). É claro que para que isso resvale no ciúme, no zelo excessivo, é apenas um pequeno passo.

A seqüência explicita: Ás de Copas - transbordamento amoroso como estado inicial; Dois de Copas - amor compartilhado; Três de Copas - festa, amor vivaz, lua-de-mel; Quatro de Copas - cansaço (depois do orgasmo?) seguido de tédio e do...Cinco de Copas, claro, desapontamento.

Outro dia, li numa comunidade sobre Tarot que o 4 de copas poderia significar traição. Sorri com o canto da boca. A "traição" está é no 3 de copas. No quatro, só há acomodamento.

As nuvens no fundo da lâmina começam a ficar escuras. Nimbus recheada. O tédio é cinzento como uma tarde de domingo.

Ok, vou parar de cansar vocês e almoçar na casa da minha mãe. Se eu der sorte, não vai ter macarrão. Mas eu SEI que vai ter macarrão.



Zoe de Camaris

11 comentários:

Anita disse...

Oi Zoe, gostei do post mas não entendi uma coisa: o porque de 3 de copas significar "traição". Abraços!

Anônimo disse...

ai, amiga,
seu texto é meu destino nessa semana de perna engessada e repouso absoluto. bem sincrônico.
vou ter que apelar para... sete de copas. ah, vc sabe.
erika

Raquel disse...

Pior que macarrão na casa da mãe aos domingos é ir à Santa Felicidade.

Zoe de Camaris disse...

Oi Anita,

Primeiro, vamos pela proximidades: copas-sentimentos. Três, triângulos. Os cálices levantados em comemoração por mulheres.

Se a questão se refere a isso, possibilidades de "cerca pulada", ou se o arcano vem acompanhado de lâminas que possam travar diálogo com a carta nesse sentido...O Diabo, por exemplo, ou o 7 de espadas, pode ser sim um indicativo de que a pessoa em questão está "solta".

Veja: não devemos tomar isso ao pé da letra. O 3 de copas pode significar que o par está feliz, aberto, em plena lua-de-mel. Mas isso sempre vai depender da questão e mais - da intuição da (o) taróloga(o).

Outro dado: Se o 3 de espadas é tristeza, o 3 de copas é abundância. Parece que para a mente, o 3 é úm número difícil. Para copas, no entanto, no plano dos sentimentos, tudo é possível.

Infidelidades são praticadas desde que o mundo é mundo. Mas hoje, pelo menos numa perspectiva mais contemporânea, muitas vezes não é vista com tanta restrição por certas pares. Nesse sentido, podemos dizer que no coração cabe tudo, na mente não. Tanto é que a culpa não parece ser um processo desencadeado pelo coração mas sim pela cabeça e as regras morais que aceita ou não.

O 3 de copas, numa leitura "sexualmente aberta" poderia significar um "menáge à trois".

No 4 de Copas não. A pessoa está repleta. Nesse sentido, até poderia indicar um estado de saturação dentro de um relacionamento que mais tarde poderia resultar em infidelidade. Mas nunca ser tomado como um indicativo de traição ou coisa que o valha. Você comeria uma barra de chocolate depois de estar empazinada de chocolates?

Minha experiência com o Tarot, inclusive em perguntas pessoais, me indica esse significado.

Uma vez, há mito tempo, estava esperando um namorado que viria da cidade dele para a minha. Cidades próximas. Estranhei porque ele estava demorando muito, isso não costumava acontecer.

Fiquei preocupada, achando que poderia ter acontecido alguma coisa. E angustiada também, sem saber o motivo. Não aguentei - fui perguntar para o Tarot.

E lá me sai as 3 mulheres, segurando suas taças. Não tive dúvida. Dormi tranquila por um lado, sabendo que ele estava bem. Mas também sabendo que ele estava era "bem" demais.

No dia seguinte telefonei e fui direta: - Você ficou com alguém ontem, não foi? Ele, sempre sincero, me respondeu a verdade: Sim.

Menos mal. Lidar com a verdade é sempre melhor.

Há uma outra carta que poderia indicar infidelidade, o 9 de ouros, Ganho. Mas essa é bem controvertida porque (no tarot do Crowley) se basearia no fato de Frida Harris ter retratado na carta o seu amante, Crowley, e seu marido, Israel Regardie.

abraços,

Zoe de Camaris disse...

Oi Erika,

O meu tédio foi embora depois que escrevi o artigo. É sempre assim. Basta que eu exorcise o arcano.

Sete de Copas como antídoto para Quatro de Copas? Perfeito...

besos e melhoras para a perninha,

Zoe de Camaris disse...

Oi Raquel,

Agora você me superou em termos de tédio...rs.

besos,

Lord Morpher disse...

Domingo, dia do Sol...

Minha vida inteira observei isso, tudo é muito bom em um final de semana, só que, quando o domingo vem, vem aquela energia mais pesada... é como se o Sol torrasse (a paciência)...

Acho que a grande diferença entre o 4 e o 5 de copas mora em que, no 4,´nós perdemos as expectativas, e no 5, nós temos essas expectativas frustradas... E é bem comum essa "perda" de projeção egóica no domingo, embora a "desfixação" seria interessante, tudo se torna chato... Seria por isso que Gugu e Faustão são sempre apresentados no Domingão?

Adorei o texto, de qualquer forma, e confesso... não dormi! Mas li só na segunda-feira... vai ver é por isso!!!

Eu fiz anos atrás um curso com a Sugama Krenzinger, sobre os Arcanos, ela era companheira de cursos com o Vivarta, que vc citou, e ela buscava alertar, no 4 de copas, o ciclo fechado... Nada acontece além da gaiola de ouro.

E nós, ansiosos por uma novidade, apenas aguardamos passar o tempo, e quando chega segunda, que a rotina recomeça, somos relançados ao encontro de novo do 4 de copas, e não nos damos o "Luxo" de fazer isso reacontecer... Resultado: Sexta eu curo isso... e caio de novo nas teias que vão acabar com meu domingo...


Abração


Dri

Alexsander disse...

Nossa, quase nem consegui ler o texto de tão chato que estava. Totalmente 4 de copas. Cheio até a boca, com muito, abundante mas totalmente sem interesse. A energia da carta rolou através das suas palavras.

Por isso, minha querida, só me resta dar um saltinho para trás, pegar uam taça antes que ela vire e fazer um brinde ao seu trabalho maravilhoso!

;o)

Bjão!

José Pedras disse...

o seu blog para além de muito interessante é muito pertinente e educativo, daí eu querer pedir autorização para aidcionar aos links favoritos da Akasha, espaço que penso já ter ouvido falar pelo Alex Lepletier. E permita-me o impertinência mas a beleza do Tarot espelha-se na própria taróloga.
Um grande abraço do staff da Akasha

Marcela Alves disse...

Olá, Zoe !!!

Estava com uma certa dificuldade em assimilar o 4 de copas, fui vasculhar em varios livros e em sites, mas ainda não tinha absorvido o seu significado....
Com este texto, deu pra dar um rumo melhorzinho para os meus amiguinhos " tico e teco"...rsrs.
Adorei !!!
Marcela Alves

Emanuel disse...

Quatro de Copas tem gosto de guarda-chuva molhado na casa dos outros.
Por isso deixa a gente ensimesmado. Festa estranha com gente esquisita - eu não tô legal, não aguento mais birita!
Mas, recentemente, nada mais Quatro de Copas + Domingo que a música "Domingo de manhã". Não recomendo que ouça, mas dá uma olhada na letra. Tédio absoluto. Grude de chiclete. Como bem ensinou minha professora de matemática, se grudar chiclete passa gelo que ele quebra.

Beijos.

E.