6 de abril de 2007

XIII

“Se você não morrer antes de morrer, morrerá ao morrer”.
Ordem dos Cavaleiros Teutônicos



Ver a Morte em vida. Solução para a fama aziaga do décimo-terceiro arcano do Tarot? Creio que não. Morrer, quando se está vivo, é uma constante ou pelo menos deveria ser. Livrar-se do velho para que o novo apareça. O processo é complicado porque há fatos morimbundos. Aqueles que moram dentro da gente em estado de coma, velharias que insistimos em manter vitalizadas - como se isso fosse possível sem que tudo no entorno apodrecesse.

Ano passado, suicidei-me. Não, não foi uma tentativa de suicídio. Suicidei-me mesmo. Estava tão envolvida em uma situação, tão agarrada a ela, tão identificada com algo que não me pertencia que não tive outra alternativa. Ter total consciência do processo é fundamental. Cada etapa minuciosamente analisada e só depois ritualizada pelo instinto de vida. Buscar o entendimento dos meandros, das vielas, das esquinas em que a depressão se instala. Buscar a verdade. Perguntar sempre: - por quê? Não importa se a resposta vem. Continuar inquerindo, sempre. Em determinado momento a solução eclode, vinda sabe-se lá de onde.

Quando vi minha imagem de esqueleto no espelho, algo dentro de mim começou a se mexer como as serpentes na cabeça da Medusa. Eu não tinha mais como conviver com o que estava agonizando dentro de mim. Mas para que a Morte pudesse pegar sua foice e realizar seu trabalho no jardim, precisei permitir a sua presença ao meu lado.

Era uma tarde chuvosa, como deveria ser. Um cenário propício. Eu estava sozinha e muito triste. Minhas leituras, na época, muito pesadas. Uma lassidão, um amortecimento, um cansaço de todas as tristezas. O corpo pesado no colchão. Exaurida. Lembro-me que escutei as folhas da amoreira gritarem que não. Mas não lhes dei ouvidos. Peguei o primeiro papel que vi no criado-mudo e escrevi o poema que contava a minha morte etapa por etapa. Auto-comiseração? Não. Um gesto libertador. Cada célula do meu corpo gritava de dor à medida que as palavras eram escritas no rascunho. Hipostasia romântica? Não. A solução, o resumo, a essência de sofrimentos acumulados durante muito tempo. Escrevi o poema a seco. Tomei um comprimido para dormir. E a escuridão veio.

Uma penumbra adocicada, sem sonhos. Não sei quanto tempo isso durou. Não sei o que aconteceu enquanto eu dormia. Se à minha volta, dançavam todos os meus fantasmas de mãos dadas com aqueles que já se foram; se um anjo salvador erguia suas mãos sobre minha alma e me libertava; se a imagem da Morte no espelho se desgrudava lentamente e tomava o caminho da amoreira.

Sei que acordei, sonâmbula, e caminhei até o banheiro. Liguei o chuveiro e tomei um banho imóvel. Era só a água, meu corpo e nenhum gesto. As águas da Temperança. Quando senti que era hora de desligar, saí dali, coloquei uma roupa qualquer e passei o resto do dia como um robô. O piloto automático ligado para lavar a louça, desligar o computador, pentear os cabelos. O fim da tarde se arrastou, a noite chegou e eu dormi tranquila mas ainda com aquela sensação de anestesia. Troquei a roupa de cama. Coloquei um pijama limpo e quente.

Deixei a janela aberta de propósito. O dia nasceu ensolarado. Levantei e, como de costume, coloquei a água pra ferver. No primeiro gole de café, meus pensamentos voltaram para o lugar de sempre, como um passarinho habituado à sua árvore. Mas a árvore não estava mais ali. Uma sensação de estranhamento me percorreu. Ei, onde está meu sofrimento preferido? E me dei conta que ele tinha sumido, realmente sumido.

Bem, é claro que história tem um final feliz. Cada célula que antes gritava de dor estava possuída por uma nova força. Cada fio de cabelo tinha passado pelo salão de beleza dos deuses com sua queratina de néctar. Eu, era eu novamente. Graças a mim mesma que permiti, finalmente, a visita do arcano Sem Nome - em Vida.



Zoe de Camaris

3 comentários:

Alexsander disse...

Uau! Deu um friozonho na barriga esse texto... maravilhoso...

e parfraseando uma amiga minha que vem lá de camaris, saindo da escuridão da gruta para a alegria e a luz do dia:

"Tudo na vida passa..."

Fico aqui imaginando a alegria das células depois de uma pressão tão grande! E o alívio que faz parecer que podemos voar!

E viv(d)a a Morte!

Clau disse...

Como vi o 'antes' e o 'depois', fico muito feliz com a 'morte' e a paz que a preencheu.

Beijos amiga, e te cuida :-)

Saudades,

Beth Blue disse...

Lindo texto...Eu volta e meia morro um pouco também. São as pequenas mortes em vida, antes da morte maior e definitiva. Hoje acabei de cometer meu orkuticídio...o primeiro e provavelmente último. A vida muda e a gente precisa aceitar essas mudanças. Deixar o rio fluir.