6 de agosto de 2016

O Rapto de Perséfone

- A Virgem de Agosto -



As situações de crise são as que melhor refletem a necessidade de transformação. O fundo do poço é a mola que nos faz voltar à superfície, como diz a sabedoria popular. O mito de Perséfone, filha de Deméter, a deusa da vegetação e da agricultura, raptada por Hades, o deus das profundezas, ilustra simbolicamente como somos arrebatados da nossa felicidade por situações que nos levam à depressão e a decorrente dificuldade de reagirmos, estabelecendo um diálogo com a nossa consciência e negociando uma subida à luz com o equilíbrio reconquistado. Subimos diferentes de quando descemos; há um processo de maturação e integração da nossa sombra depois de passarmos alguns meses com Hades. 

O jogo, proposto pelo tarólogo Veet Vivarta em O Caminho do Mago, serve para que seja possível libertar Perséfone, fazendo justiça tanto a Hades quanto Deméter, e se aplica à administração de crises e para clarear situações do passado que ainda não foram compreendidas e assimiladas. 

A força de Hades mostrará o que precisa morrer na sua vida; a resistência ao rapto, a forma como vem bloqueando seus processos de transformação; os grãos de romã, onde se está perdendo energia; a seca de Deméter, as riquezas que não se expressam devido as suas desistências; a presença de Hermes, a ação correta neste momento, o acordo entre Hades e Deméter, a área da vida em que os ajustes precisam ser realizados e o retorno de Perséfone, no que resultará um trabalho comprometido diante da crise. 

A leitura deste jogo é feita por Skype ou WhatsApp (gravações de aúdio, para quem não tem disponibilidade de tempo) com as cartas do Tarot de Crowley. A duração é de 50 minutos e o valor da consulta é de 78 reais neste mês de agosto. Informações pelo e-mail: zoedecamaris@gmail.com.



"Perséfone, de belos olhos negros e braços brancos, filha de Deméter e Zeus, colhia flores despreocupada num dia de primavera quando uma fenda abre-se na terra. Da enorme fenda surge Hades, o de face invisível, senhor do Érebo, com seus cavalos negros. Hades havia se apaixonado e rapta a virgem, levando-a a contragosto para as profundezas. Deméter, inconsolável, sai desesperada em busca da filha. Os frutos secam nos pés, as flores murcham, a terra estéril sofre com a tristeza da deusa da agricultura. Mas Perséfone já não pode voltar do reino dos mortos: comera algumas sementes de romã e quem ingerisse alimento nos infernos não mais poderia retornar. É Hermes (alguns mitos apontam Zeus) que negocia com o deus das profundezas e, frente ao mundo desolado e seco, que Perséfone permaneceria apenas três meses com Hades e o restante do tempo, na superfície com sua mãe, criando a roda das estações".


Zoe de Camaris

15 de fevereiro de 2016

O Tarot Furtado

"O mundo impede que o silêncio fale"
E. Ionesco

PRÓLOGO


O Tarot é uma galeria de figuras enraizadas há seis séculos no imaginário ocidental. E para que assim seja reconhecido, o baralho filosófico de 22 cartas obedece uma organização e dinâmica peculiar na articulação dos seus conteúdos. Sem a manutenção do encadeamento numérico tradicional e a presença de determinados motivos iconográficos que o caracterizam, deixa de ser um Tarot. No entanto, por tratar-se de uma máquina de imaginar, é um campo aberto para releituras e vôos criativos. A imaginação que embalou sua gênese é também o que perpetua sua força representativa até os nossos dias.

O Tarot Furtado, idealizado por João Fasonare Acuio, propõe uma releitura surpreendente apesar de sua aparente simplicidade. As imagens não sofrem modernização ou adequações a um universo particular de signos, como acontece nos baralhos transculturais. Exibem as imagens tradicionais de Marselha, mais especificamente o Tarot Jean Payen. Sua singularidade é marcada pela supressão de símbolos fundamentais do contexto das cartas. O Mago, por exemplo, perde o seu chapéu-leminiscata e alguns instrumentos de sua mesa, fazendo com que se torne um mero prestidigitador de feira, um falastrão. Não tem a conexão com o infinito que lhe propicia um dito inspirado ou o poder de criar realidades inesperadas.

Um tarot pra tudo quanto é nego torto”, diz o autor, que relaciona sua criação a ícones populares de Curitiba, como Maria Bueno e Gilda. Um Tarot da Cidade. Uma carta achada ao acaso, um beijo roubado, uma oração. O daimon rondando as ruas, o coiote, o brincalhão, um gênio que perdeu a lâmpada e que, na sua procura, aciona o acaso. A Roda Fortuna está em cena.

Furtar é tirar de alguém algo que lhe pertence sem a sua permissão. E todos nós temos algo que nos foi tirado sem autorização consciente. Consciente. Porque muitas vezes abrimos a janela e criamos o ambiente propício para a entrada do ladrão. E ele vem na calada da noite e de manhã sentimos que algo sumiu, algo precioso, mas não sabemos muito bem o quê. Fica uma sensação de vazio e a falta nos acompanha, às vezes, por anos a fio.

O que nos foi tirado? Por que perdi a paz? Quem é o ladrão? Como pode nos ser restituído? E o que desejávamos, no final das contas, realmente? O que norteará nosso desejo? Estas são perguntas que o Tarot Furtado nos estende de uma forma física, indubitável, já que a imagem está arraigada no corpo e possui uma consistência quase material. Ao emudecer símbolos de cada lâmina dos arcanos maiores do Tarot, a falta comunica. E o espaço em branco, en reserve, identificado em uma matriz imagética arquetípica, exige preenchimento. O silêncio grita. A ausência é a evidência. O Tarot Furtado tem a característica de nos mostrar a pergunta e não a resposta.

A imagem de uma carta de Tarot é arrebatadora. Permite que se perceba, simultaneamente, todo um conjunto de elementos. As sensações visuais nos chegam como um todo, explodem frente aos nossos olhos. E para serem traduzidas pela linguagem escrita e/ou falada exigem um eixo temporal – só é possível enviar uma palavra por vez. E por isso mesmo, ante as cartas, o primeiro momento apreendido é o da sensação e não da palavra. É importante que se mantenha a reação frente a supressão de um símbolo, com o mesmo silêncio. Assim as impressões se multiplicam. A palavra é tardia e, como bem aponta Hegel, vem como uma mediação entre o corpo e o objeto.

O Tarot Furtado ganha quando apresenta o silêncio como sua primeira fala. E ganha mais quando é utilizado de acordo com a sugestão do seu autor. Segundo Acuio, há um procedimento inicial para que o Tarot Furtado se declare, um circuito mágico, um rito. Um rito que tem o poder de lhe devolver o que sempre foi seu, por direito. O tarólogo, ou aquele que ocupa o papel de tarólogo, é o mediador. Um agente do silêncio.

Na caixa, nos são apresentados dois conjuntos idênticos de lâminas. O primeiro é seu, o segundo é dado a alguém de sua escolha. Se você recebeu o seu Tarot de presente, para que se dê continuidade ao ritual, precisará de mais um maço. Você descobrirá no processo: 1) o que lhe foi roubado, no exato momento em que lhe é restituído; 2) quem roubou, quem é o ladrão; 3) qual é o seu verdadeiro desejo, enquanto disseca a trama. O Tarot Furtado é um tarot investigativo. Se você quer saber, vai descobrir.

Prepare-se, a história vai começar. A primeira leitura é única, o ritual é feito apenas uma vez. As cartas são embaralhadas. Peça ao Tarot o arcano que vai lhe restituir o que é seu. E ao mesmo tempo, diga o seu nome em voz alta. O nome possui uma grande força evocativa e mostra quem está no comando. É você quem pede o seu Arcano Restaurador. Embaralhe três vezes.

I ATO

Eis a primeira carta e a mais importante, o Arcano Restaurador, a que indica o que lhe foi furtado. Se, por exemplo, a carta é O Imperador, o que lhe foi roubado é a águia que falta no escudo, ou seja, a visão que todo governante precisa para que não se torne um déspota. O aparecimento da carta restaura o equilíbrio perdido, ou seja, lhe devolve a águia, o poder de enxergar longe e ir com afinco atrás daquilo que deseja. Não esqueça: a imagem é lida pelo símbolo (ou conjunto de símbolos) ausente(s). Sem o pássaro, o governante (de sua própria vida) fica apenas na defensiva. Mas quem roubou a águia da carta? Este é o segundo passo, descobrir o ladrão.

II ATO

O segundo conjunto de cartas é então entregue e apresentado ao destinatário de sua escolha. Mas antes que você possa descobrir o ladrão, sorteará o Arcano Restaurador para o seu presenteado, repetindo o primeiro processo. A indicação é que esta carta não seja interpretada pelo tarólogo embora seja importante a escuta, o que a pessoa sente e tem dizer a respeito. Prepare os ouvidos e feche a boca. O Tarot Furtado inverte o processo tradicional de leitura das cartas.

Agora, de posse do seu baralho, peça ao presenteado que tire uma carta do maço para você. A carta lhe apresentará o bagunceiro, o daimon, o coiote, o ladrão. Vamos supor que saia O Eremita. Pois bem, foi este velho sem lamparina, lamparina que é símbolo de conhecimento e profundidade, sem luz, quem roubou a águia do seu Imperador. Talvez o ladrão não tenha feito de propósito. Talvez o ladrão seja só um agente do destino, o que faz a coisa toda se desenrolar, o criador da desordem. Sem luz para reconhecer o caminho, o Eremita pode ter se servido de qualquer outra coisa que estivesse à mão. Mas pode ser sim, o mal-intecionado: acolviteiro, eminência parda, conspirador. Ou pode ser você mesmo.

Deixe a imagem falar por si só. Lentamente, vá identificando os contornos do ladrão. Fale o que lhe der na telha e não espere por uma interpretação. O tarólogo irá escutar. E pontuar, se necessário.


III ATO

Agora, em segredo, você tirará o Arcano do Desejo, completando o circuito. Esta terceira carta é o seu ideal. Mais que um objeto de desejo, mostra o conjunto, o contexto, o agenciamento. Mais do que algo, deseja-se o algo e o seu entorno. Vamos supor que a carta sorteada seja A Roda da Fortuna. Ela será lida de acordo com a imagem do Tarot tradicional, ou seja, como se não faltasse na imagem a manivela que faz girar a roda. Podemos interpretar esta sequência hipotética da seguinte forma: O que lhe foi tirado é dom da visão arguta (a águia desaparecida do escudo do Imperador), e que lhe foi surrupiada pelo Eremita sem auto-conhecimento (falta a lamparina). Do momento em que A Roda da Fortuna aparece com a manivela no lugar onde deveria estar, há a possibilidade de que a vida volte a acontecer no ritmo desejado, ao menos como um “vir-a-ser”. A sorte lhe foi restituída no devir. O Arcano do Desejo nos dá o tema da leitura. Não conte a sua carta do desejo pra ninguém.

EPÍLOGO

O Tarot Furtado se revela no momento em que é dramatizado. Mas quando passei pelo processo (e o fiz lentamente, sem a angústia de um resultado) percebi que a interpretação geral (a conclusão que se tira das três cartas) acontece em vários níveis. Num primeiro plano as associações se referiram a algo bastante óbvio e conversavam com o cenário a que eu estava submetida no momento da leitura. Foi como se eu levasse um tapa na cara. A impressão permaneceu durante alguns dias até que eu percebesse que o resultado calava mais fundo na minha alma e não se referia a uma só situação emergente (embora fundamental). Vi a recorrência de furtos e ladrões no palco da minha vida. A mesma trama encenada por atores diversos em épocas diferentes; personagens que trocaram de roupa, mas fizeram o mesmo papel.

E sei que agora, de posse desta leitura única, poderei recorrer a ela em diversas situações quando a mesma tríade poderá se apresentar, mas agora, minhas atitudes frente a questão estarão em um diapasão diferente, em uma oitava maior. Então, o Furtado acontece no momento em que é dramatizado porém continua se desenvolvendo no tempo.

Mas então, você me pergunta, o Tarot Furtado só pode ser usado dessa maneira? Eu lhe diria que é bastante nutritivo manter o ritmo pausado de revelações que o procedimento mágico propõe. Vivemos em uma cultura de imagens, imagens sobrepostas em ritmo alucinante. Mal sentimos o que uma imagem revela e já estamos olhando para outra e, assim, sucessivamente. O Tarot Furtado é um convite à reflexão apurada quebrando o ritmo loquaz das imagens e criando uma área “de respiro”. 

No entanto, este conjunto de cartas pode ser usado por um tarólogo ou um diletante em uma leitura comum, principalmente quando o fio da meada interpretativa se perde. As três cartas são jogadas obedecendo a mesma regra, mas agora como método: 1) Arcano restaurador; 2) Arcano Ladrão; 3) Arcano do Desejo. Basta não esquecer que, ao contrário do que a prática comum estabelece (1. passado (ou tese) / 2. presente (ou antítese) / 3. futuro (ou síntese) no Tarot Furtado os atos são intercambiáveis. Ou seja, apesar da sequência obedecer uma ordem de tiragem, ela pode ser lida de trás para frente, de frente para trás, do meio para os lados... O Mago, aquele que inicia todos os trabalhos do Tarot, sabe bem como mexer seus pauzinhos. Embaixo de qual copo, diz o Prestigitador, está a moeda? Pois é, você não sabe. Pode estar embaixo de qualquer um. Tenha em conta também que o Arcano do Desejo não é a meta. O Desejo é como a Utopia: quando se alcança, já deixou de ser. O que realmente importa, segundo a visão de seu autor, seja no procedimento mágico, seja no método usado para uma leitura comum, é tirar a pessoa da esfera limitante da posição de número 2, O Ladrão, e certificá-la que ela recebeu o que lhe havia sido furtado e que ressurge na posição 1, A Restauradora.

E fique atento ao reaparecimento das suas cartas mágicas quando estiver jogando para alguém. Se a sua carta primeira (O Imperador) reaparece na posição 1 do consulente, é uma confirmação daquilo que lhe foi restituído. Lembre-se disso, parece que é preciso. Se a sua segunda carta (O Eremita) surge na posição 2 do consulente, cuidado. O ladrão está à solta novamente e exatamente naquele momento. Interrompa a leitura e retome dias depois. E se a sua terceira carta (A Roda da Fortuna) constelar a na posição 3, ah, que alegria. Você está perto de alguém que tem o mesmo desejo que você. Comemore!

A riqueza do Tarot Furtado reside na inversão de um olhar comum. Não é consulente que pede a leitura, ela é oferecida pelo tarólogo que sai de sua casa e visita o seu escolhido. O tarólogo pode pagar uma moeda ao consulente. A leitura, que normalmente é feita de uma vez só, aqui é concluída em etapas, respeitando a gênese do Tarot, uma Arte da Memória.

Atravessando o tempo, o Tarot Furtado ficará para sempre. Furtando o coração das cartas, Acuio nos devolve toda a loquacidade do silêncio. E o silêncio faz um barulho danado.


Zoe de Camaris

p.s.: Ah! Se você quer começar o circuito mágico e não ganhou um baralho de presente, fale com o João! Ele se oferece para tirar a sua primeira carta. Escreva para joaoacuio@gmail.com.


9 de junho de 2015

Existe Amor em SP

Estou indo para o evento Cartomancia em São Paulo. Eu e Leo Chioda faremos uma explanação sobre "As 22 Formas de Amar" a partir dos arcanos maiores de Tarot. Cartomancia acontece no dia 13 de junho, dia de Santo Antônio seguido ao Dia dos Namorados. A iniciativa é Priscilla Lhacer, economista e taróloga que está a frente da Presságio Editora. Esperamos você! 


21 de março de 2015

Vida de Tarólogo (I)


Hoje me fizeram uma pergunta de resposta óbvia, mas capciosa. Se eu, na minha profissão como analista de símbolos, sempre tomo atitudes ajustadas. Afinal, diz aquele que me inquiriu, sou uma taróloga de muita prática, de conhecimentos teóricos explicitados e acesso facilitado a uma ferramenta poderosa de auto-conhecimento, quiçá, de adivinhação. Antes de desconsiderar a pergunta resolvi escrever. Alguma coisa há de ser aproveitada no processo de reflexão.

As coisas não funcionam assim. Seria o mesmo que imaginar que alguém que trabalha com a Alma sempre estivesse em estado de Temperança, que todos os poetas fossem o retrato do equilíbrio, os psicólogos donos de suas neuroses e todos os filósofos, reis das escolhas acertadas.

O que eu tenho a dizer sobre os ganhos da minha vida pessoal frente a experiência profissional é que conviver intensamente com minhas questões, sem varrer o que não entendo logo de cara pra baixo do tapete, fez com que eu possa prever com relativa frequência o resultado de minhas atitudes. Quase sempre sei no que vai dar, mesmo que muitas vezes preferisse não saber para me sentir mais livre para experimentar e errar. Talvez minha visão se deva aos anos de vida somado ao tempo que dediquei à arqueologia do inconsciente reconhecendo minhas pulsões, incoerências e recorrências. E claro que, além da Análise, o Tarot também me ajudou bastante. Se meu instrumento de trabalho não houvesse me servido como meio de auto-reflexão, também não serviria àqueles que atendo.

Mas não tenho os números mega-sena íntima e duvido que alguma colega meu tenha. Tomo atitudes impensadas, faço besteiras, enfio o pé na jaca e me equivoco. Ninguém, e agora vou chover no molhado, mesmo aqueles que lidam diretamente com a Alma do Mundo, estão livres do erro ao lidar consigo, o que deve ser festejado, SEMPRE.

Penso que se você adia seus movimentos espontâneos, seus desejos, as opiniões do seu coração para manter o controle (controle esse que é ilusório, diga-se de passagem), a vida fica muito sem graça, previsível. Eu só tiro caras de Tarot para mim quando estou frente a uma encruzilhada e preciso tomar uma decisão importante, rápida e acertada, mas faço isso cada dia menos.

Decididamente, hoje, prefiro ter espetos de pau na casa de Vulcano.

Zoe de Camaris
p.s.: A imagem é Jake Baddeley, Sun & Moon.

11 de dezembro de 2014

As Três Espadas da Dor

"Mora na filosofia 
Pra que rimar 
Amor e dor".

Monsueto





















Dor. A dor de amor. A rima é pobre, mas multiplica-se exponencialmente em dobrões de ouro no baú da arte: música, poesia, literatura. Um tesouro de metáforas, sons e tintas. Dá ibope porque todo mundo já sentiu, sente ou sentirá um dia (e por longas noites, noites que parecem não ter fim) o coração trespassado pelas Três Espadas. “Do meu coração ela fez almofada furadinha de alfinetes”, acerta na mosca Dalton Trevisan.

Eu não queria falar sobre o assunto porque recordar é viver, mas a enxurrada de consulentes nos últimos meses com a mesma questão (de sempre) vinha me encasquetando. Quando isso acontece acabo achando que preciso me deparar com o assunto de forma mais profunda. Mas não estava nem um pouco a fim, juro pra vocês. Medo de escutar todas aquelas musicas bregas de novo; depois, todas aquelas outras lindas de morrer. Então deixei quieto até que vi uma imagem que não conhecia do arcano menor. E lembrei do coração que, um dia, desenhei em uma árvore. Tarde demais, já havia acionado a máquina do tempo. E um filme pulou do arquivo.





















Brilho eterno de uma mente sem lembranças. Para se livrar das memórias amorosas, uma máquina que tudo apaga. Fantasia constante na dor de cotovelo. Você quer esquecer imediatamente, uma piscadela de Jeannie, uma fórmula mágica para recomeçar a viver, chega de sofrimento. Mas não adianta. A engenhoca não existe. E depois, a questão pode ser bem mais complicada do que parece: apaixonar-se pela Tristeza. Manter a dor é manter alguma coisa da história que se foi. E o que mais dói são as boas lembranças. 

Hajo Banzhaf, ao interpretar o 3 de espadas frisa que essa imagem, comumente vista como uma tradução da dor emocional causada por sofrimento amoroso, ofusca o significado principal do arcano menor: a decisão tomada contra este sentimento. Aceito que toda carta traga em si sua solução, vamos explorá-la. Concordo também que é impossível fazer uma leitura de Tarot sem que se tenha em mente que o significado de uma carta é modulado por aquelas que a rodeiam, já que o Tarot é uma linguagem. O 3 de espadas em alguns contextos pode significar apenas alguma tristeza passageira ou uma dor antiga que ficou encalacrada.

No entanto, o impacto da imagem é revelador. Não há quem não identifique o coração trespassado como uma tradução vívida da dor emocional. Quem nunca desenhou um um coração ferido por uma flecha? Cupido sacana, garoto irresponsável. E quando da flechada se esvaiem gotas, uma poça de sangue? E precisava flechar três vezes?





















A Espada Branca do Abandono

O coração foi atingido por um vazio devastador. Um deserto de areias claras que nasce de uma nódoa, uma mágoa profunda. Poderia ser negra a espada? Sim, negra como Saturno, todos os nossos filhos devorados, um buraco. Estamos na fossa, negra pela ausência de cor. Mas branca como os cabelos brancos, branca como um tremendíssimo Nada. Nada que até desejaríamos escuro, pois aí então seria a Morte. É pela morte que clamamos quando começa a crise de abstinência, a angústia do aniquilamento. Mas o problema no auge da dor é que não estamos mortos. Pelo contrário. Acordamos e dormimos com a ausência. E a vida fica em branco, desintegrada. Desalento, abandono. A criança que perdeu a mãe. E o único colo possível se levantou apressado. Vulneráveis, estamos sozinhos e desabrigados no frio, na chuva. E sentimos Medo.

A Espada Branca do Abandono é a espada crucial, acerta no meio do coração. Vai ditar o tempo real em que permaneceremos na fossa. Tudo depende da sua autoestima. Da sua capacidade de nutrição. Do valor que tem perante a si e, mesmo que seja difícil admitir, perante aos outros. Do apoio que recebe. Do carinho amoroso que pode embalá-lo agora. A ternura salva. Mas não se esqueça que a Dor, assim como a Alegria, faz parte do caminho. Encare a dor da perda, viva o luto por tempo determinado. Combater a dor imediatamente  com remédios não é a saída. 

A carta que ressignifica a Espada do Abandono é o 3 de copas. O que não cabe na cabeça, o que a cabeça rejeita, pode caber perfeitamente no coração. As águas quentes de Copas podem derreter o gelo de Espadas, o frio egoísta do amante rejeitado. E o deserto transforma-se em um espaço de liberdade. 


A Espada Vermelha da Raiva

"Talvez as lágrimas não sejam mais do que isso, o alívio de uma ofensa", diz José Saramago. A tristeza confunde-se facilmente com a raiva. Para não chorar, gritamos, lançamos impropérios às estrelas. É o espaço da birra. Do ciúme, da vingança, os planos que arquitetamos para que aquele (a) que nos fez sofrer arda no inferno do merecimento. As armações, inevitavelmente prejudicadas por uma chama que coloca toda estratégia a perder. Não se pensa bem quando baixa o pano vermelho. Única cor quente entre as Espadas da Dor e também a mais perigosa. Um sopro de vida nos coloca em pé de guerra. O estado passivo dá lugar à ação. A raiva toma o lugar do tesão e da alegria. A agressividade como impulso vital em meio ao gelo do abandono. A Espada dos Inconformados. E dos assassinos. Gotas de sangue sobre a neve. Me disse uma vez um amigo sobre a raiva: "Você fica com o original e manda a cópia". Ou seja, a primeira vítima do veneno destilado é você mesmo. 

A Espada Vermelha da Raiva mostra que a energia existe. Está ao seu dispor. E que você pode transmutá-la em ânimo. Que depois de esmurrar travesseiros, dar um pique (vários) de bike e tomar um (diversos) banhos ultra especiais, aquele vestido ainda está no armário e os batons vermelhos, no prazo de validade. Só não caia na velha armadilha de tomar um porre. Assim, a volta da Espada Branca será inevitável. 

A carta que ressignifica a Espada da Raiva é o 3 de Bastões, A Virtude. Ultrapasse os limites que o mantém preso em espaços torturantes. Desmonte a área de conforto desconfortável. Transmute o fogo da Espada Vermelha explorando o desconhecido. O mundo está aí, em suas mãos. 


A Espada Azul da Saudade

O passado se mistura ao fluxo do presente e se lança no futuro. Nenhuma outra espada tem o poder de acionar a máquina do tempo como a espada azul. Na bruma blues da palavra, paira o monstro da esperança e da alienação. O retorno do ser amado, a volta ao paraíso, os planos traçados para quando ele perceber que sem você a vida não tem graça. A Espada Azul da Saudade pode apagar a ideia de abandono e também da raiva situado-se em um ideal que obinubila a realidade, agora azul-clara como os olhos de um cego. Cria-se um mundo de fantasia em que podemos habitar na hora em que nos der na telha. É espada que não se tira da pedra. A única que vingará para um amor vivido em techinicolor. Temos total liberdade para sonhar. Como a Hidra de Lerna e sua cabeça imortal! Lembram que Hércules destrói todas as cabeças da Hidra menos uma? Aquela que mesmo enterrada pode voltar à vida a qualquer minuto? Manhosa, esse espada.

A Espada Azul da Saudade exige que depois da choradeira, depois de escutar a mesma música por três (ou mais) dias inteiros, depois de lembrar do corpo dele (a) em seus menores detalhes com uma disciplina que faria inveja a um monge, a recorrência ao mesmo motivo seja lentamente deslizada para o trabalho. Cabeça vazia (cheia de lembranças) é a Oficina do Diabo. "Um passarinho/ volta para a árvore/ que não mais existe// meu pensamento voa até você/ só para ficar triste". Poema belíssimo que nos faz visualizar a imagem da saudade, de Alice Ruiz. Mas agora deu. Faça com que o passarinho pouse na árvore que está aí fora da sua casa, aquela árvore que você consegue ver. Se não isso não vai acabar nunca!

A carta que ressignifica a Espada da Saudade é o 3 de Pentáculos, o Trabalho. Reuna suas forças (mente, corpo e espírito em uma só direção) e lance-se em um projeto. Tome atitudes concretas para diminuir o tempo do devaneio.





















Nada deu certo?  Não é bolinho mesmo, ninguém disse que ia ser fácil (a decepção amorosa é o reino dos chichês). Mas eu ainda tenho algumas cartas na manga. Essa foi a que funcionou comigo. Vamos lá:

Imagine um monstrinho negro e peludo. Gordinho, redondo. Ele paira à esquerda da sua cabeça, um pouco mais para o alto. Ele se alimenta da sua autocomiseração, da sua raiva, dos seus pensamentos saudosos. Vamos emagrecer o bichinho. Mas antes o visualize (aqueles livros de imaginação ativa que você leu escondido de seus amigos intelectuais precisam servir para alguma coisa).

(...)

Pronto? Visualizou? Pois bem. Você poderia matá-lo com uma espada astral, mas iria dar um trabalho tão monstruoso quanto o próprio monstro. Então vamos pelo caminho mais simples, mas não menos efetivo. A inanição da forma-pensamento sangue-suga. Pare de alimentá-lo lentamente, com requintes de crueldade.  Quando ele estiver morrendo de fome vai ficar louco, sedento. Os pensamentos dos quais quer se livrar vão voltar com tudo e você vai dizer que essa tal de Zoe de Camaris está de estória. Calma, esse é o momento mais difícil. Mantenha a imagem. Veja o monstro peludo diminuindo de tamanho. Do negro vibrante azulado, ao cinza empalidecido. Não, não corra escutar Alone Again de novo, por favor. Você vai conseguir. 





















Talvez a alma de borboleta azul do bicho peludo nunca suma por completo. Mas a pior parte já passou. Você está livre para respirar, para trocar os espelhos de casa, os seus olhos voltarão a brilhar. Uma casca de cebola retirada é retirada para sempre. Você já deu vários passos. A projeção, o risco da dor, a beleza de amar estarão aí nessa vida de idiossincrasias sempre, ao alcance de sua mão. Porque é o que nos resta depois dessa experiência maravilhosamente horrível, não é? Crescer. 

Eu não inventei a magia do monstrinho. Está em um livro de magia prática que tem o Tarot como mote. Apenas a adaptei sem alterar a essência. Enquanto escrevia esse artigo, contei para minha irmã como funcionava. Ela gostou, mas disse ter uma bem melhor e de própria autoria. Vou colocá-la aqui porque no fundo ainda acho que só o Tempo, esse senhor que deve ser respeitado, é que dá jeito na dor de amor. E se você já tentou tudo, sais de banho, academia, psicanálise, meditações ativas; já rasgou as fotos, já roeu todas as unhas, encantamentos para cortar os fios, vale a marmelada antes da morte. Agora, só para mulheres:

Coloque uma roupa de príncipe encantado no seu príncipe. Meias rosadas, sapatos que viram na ponta com fivelas douradas, calçonetes bufantes, blusa idem (com algumas listras), pluma escandalosa no chapéu medieval. Imagine ele com um corte chanel, com as pontas dos cabelos escapando pelas orelhas. Escolha então um apelido "daqueles". Apelido que deve ser mantido em segredo e só usado em petit comite

E agora, por favor, ria um pouco!



Zoe de Camaris

P.S.: Agradeço ao amigo Marcelo Bueno, tarólogo de fino trato, por ter me acompanhado em aspectos teóricos e práticos enquanto formulava esse artigo. 


24 de setembro de 2014

FLASH TAROT




O Flash Tarot é uma modalidade de leitura das cartas enviada para você em pequenos arquivos de voz pelo WhatsApp. A tiragem utilizada é a Mandala Astrológica. A Mandala apresenta um panorama da sua vida agora e cobre diferentes áreas como amor, trabalho, carreira, amigos, projetos, família, estudos, sexo, saúde, etc. As cartas indicam as oportunidades e os desafios. 

A Mandala é como um retrato, um instantâneo do momento presente e que contém em si a semente do que está por vir. Qualquer aprofundamento em um ou mais setores poderá ser tratado em uma consulta específica, on-line ou presencial. 

O trabalho funciona da seguinte forma: você me envia uma foto sua. Uma foto que de alguma forma o represente neste exato momento de sua vida. Vou precisar também que escolha um número de 1 a 36 e me deixe saber qual é. Sobre as cartas serão dispostos amuletos e talismãs retirados de uma bolsa de apetrechos criada especialmente para este projeto pela artista e astróloga Vanessa Panambi. A ideia é que estes objetos reforcem ou amenizem os efeitos de determinados padrões energéticos que influenciam o seu presente. 

Uma foto da sua Mandala será enviada em seguida, assim que a leitura se encerre. O valor da consulta é de 125 reais depositados no Banco do Brasil. Assim que depósito for verificado, sua leitura gravada e a foto chegarão em seu celular num prazo de 48 horas (excetuando o fim de semana). Para qualquer esclarecimento adicional ou marcação de um jogo, entre em contato pelo e-mail zoedecamaris@gmail.com.

Suporte gráfico: Café Tarot

23 de setembro de 2014

O Tarot e a Arte de Imaginar

Jake Baddley/The Messenger



































O Tarot é um conjunto de imagens formado por 78 cartas que nos apresenta a junção de dois sistemas articulados. Os 22 Arcanos Maiores, intitulado de baralho filosófico; e os 56 Arcanos Menores, composto por quatro naipes de cartas numeradas de 1 (Ás) a 10, mais as Cartas da Corte - Rei, Rainha, Cavaleiro e Pajem.

Não se sabe quando os dois sistemas foram associados. O que se verifica, na prática, é que há uma interpenetração entre as duas estruturas, criando um grande leque de possibilidades combinatórias.

Há várias idéias para uma só imagem, o que obedece a um eixo paradigmático de interpretação, mas as várias imagens constituem também uma só idéia, um eixo sintagmático. E esse eixo sintagmático traduz um processo de desenvolvimento do imaginário humano, lido em uma escala composta por imagens motrizes, os Trunfos, e que revela um caminhar do inconsciente coletivo da humanidade assim como uma possível trajetória do desenvolvimento subjetivo e individual.

Mas o que importa mesmo é que o Tarot é um magnífico exemplo da arte de imaginar. Lâminas que condensam a matéria fluida da psique em um acordo poético que escapa à interpretação literal. A Imaginação resiste à Hermenêutica, como afirma Bachelard. E aí reside o poder do Tarot  - persistir pelo mistério. Seduzir por não se deixar agarrar facilmente. Depois de conhecida a estrutura, a gaiola, tenta-se capturar o passarinho. E dependendo da sua habilidade em caçar, ele até canta em suas mãos. Mas quando se vai colocá-lo na gaiola, desaparece no ar.

E assim funciona a imagem. Não se deixa capturar. É verdade que a lexicalização, ou seja, a tradução de imagens em palavras torna a imagem de certa forma dependente das palavras. O nome da coisa não é a coisa, mas como falar das coisas senão através palavra?

Podemos exprimir sim, o que sentimos com relação às imagens, animando-as. Ou criando outras imagens. Traduzindo-as no corpo, na dança, num canto. Envolvendo-se, ao invés de “interpretá-las”. Construir um olhar. Perceber que os limites que desenham o pássaro estão borradas, que é um pássaro vindo do mundo do devaneio e não pode ser agarrado com suas mãos físicas.

Restituir o Tarot a sua categoria de mistério e deixar um pouco de lado os manuais. Aproximar-se das cartas humildemente, ingenuamente.  Esquecer as redes de segurança, a razão. Não simplificar, pois a simplificação paralisa a imaginação. Deixar que as imagens apareçam, voem, voltem a parecer. Esquecer a forma. O que importa é a força contida em cada imagem.

Envolver-se para depois desenvolver. A imagem fala por si.

Creio que, cada vez mais, é necessário que o estudante e/ou praticante do Tarot se torne realmente sensível para as imagens subjetivas, antes de cair matando nos manuais. Não digerir de pronto as palavras dadas. Buscar as inferências, esquecer a prática cientificista na estante de livros.

O Tarot é uma Arte da Imaginação. E para enxergar sua alma é necessário abrir-se para a Alma do Mundo.


Zoe de Camaris

1 de dezembro de 2013

O Ciclo do Segredo


SEGREDO


A razão do Segredo é a sua revelação. Mas o momento que antecede o seu sentido sempre será secreto. Há algo no Segredo que o prende às profundezas originais. É certo que o mistério permanecerá misterioso. A sibila habita um sono profundo na substância dos sonhos. Quando um dragão dorme é porque seus olhos estão abertos. Faz parte da anatomia do Segredo.

Dentro do Templo existe um livro. Na caverna, uma taça de leite e sangue. No centro do botão da rosa, um ovo. Na concha, caracol. A casca fina de Babushka sofisticada é véu que não se descerra. Só quando se está morto.

A Papisa/ Scapini Tarot

A GRÃ-SACERDOTISA - II

A Sacerdotisa, Arcano 2 do Baralho Maior, traduz a a noite, o passado, o movimento lento que propicia à germinação em contraponto à ação fertilizadora do Arcano 1. No entanto, ela mesma se duplica e reduplica no claro e no escuro. É duas dentro de duas de duas dentro. A Sacerdotisa, tradução de Entropia, é o fundo infinito da fechadura. Para uma fechadura existe uma entre 7 chaves. Que é possível encontrar se você não se perder no espelho.


SILÊNCIO


O decifrador está nos limites do esconderijo. Ele o Dono do Silêncio, o único que pode se aproximar do Segredo. Só se decifra um código em um minuto branco, extenso e calado. O fotógrafo possui o instantâneo. Uma carta escondida embaixo de sua larga manga, o ciciar da cigarra. O Eremita sabe. Coleciona informações, capta sinais, enxerga pegadas no escuro. Ele só existe no tempo presente, é o Agora. Aquele que percorre o caminho por vielas escuras. O conspirador solitário com a habilidade de decodificar o emaranhado dos signos. O leitor. A serpente que se esgueira e se enrola nas joias da arca. O Silêncio concentrado no Segredo olha para o Sigilo.

 O Eremita/ Alchemical Tarot

O ERMITÃO - IX

A carta 9 do Baralho Maior fecha um ciclo na organização numérica do Tarot. O Eremita é o Velho Sábio, O Louco que criou Juízo. Sua capa abriga a Ciência e o Conhecimento. Amoral, pode usar o que sabe da forma que bem entender. O Silêncio conhece a anatomia do Segredo. Mas não pode ou não deve revelá-lo. Até que cada um por si, Deus por todos.


REVELAÇÃO

Na infância minha mãe me deu um livro ilustrado que mostrava Deus nas nuvens, dono do Céu e da Terra. O Grande Olho. Sim, é a mesma imagem que se formou frente aos seus olhos agora. Aquele-que-Tudo-Vê, o chato de galochas que não nos deixa brincar em paz. O que descobre a cena antes do desfecho. Do olho imenso do anjo vazam raios, o som da revelação. Alarde, gritos e confusão. Um bando de pássaros revoa atabalhoadamente. A porta foi aberta. Agora não tem mais jeito. O Futuro está acontecendo. As cartas voam da mesa. Vamos ver a foto.



 O Julgamento/ Kazanlar Tarot

O JUÍZO - XX


Chama atenção a diferença iconográfica entre o arcano 20 nos baralhos de Marselha e no Rider-Waite em contraponto ao Aeon de Harris-Crowley. As razões que levaram Crowley a alterar a imagem já foram bem exploradas, mas cabe aqui uma observação que cai bem neste Ciclo do Segredo. Se nos primeiros o Anjo é um escancarado, no segundo leva o dedo de enfermeira à boca e refaz o Silêncio. Devolverá o Anjo/Hórus a decifração ao Rei dos Enigmas? E o Eremita, por sua vez pedirá perdão à Sacerdotisa/Nut por sua curiosidade? O Universo continuará a seguir o caminho da Entropia? Aguardem as cenas dos próximos capítulos. A chave você sabe onde está. 

Zoe de Camaris


* Hoje cedo li uma publicação da taróloga (e fotógrafa) Giane Portal sobre a A Sacerdotisa. Lembrei-me imediatamente de uma ideia que rabisquei nas paredes da área de serviço e que continuei a escrever na minha imaginação. Ela é a autora das imagens que ilustram esse pequeno artigo. Grata, Giane, pelo mote. 

21 de maio de 2012

O mundo de cabeça para baixo





"Não a entendo", disse Alice. "É horrivelmente confuso!”
“É isso que dá viver às avessas", disse a Rainha com doçura: "sempre deixa a gente um pouco tonta no começo...”
"Viver às avessas!" Alice repetiu em grande assombro. "Nunca ouvi falar de tal coisa!"
"...mas há uma grande vantagem nisso: a nossa memória funciona nos dois sentidos."
"Tenho certeza de que a minha só funciona em um", Alice observou. "Não posso lembrar coisas antes que elas aconteçam.”
“É uma mísera memória, essa sua, que só funciona para trás", a Rainha observou.

Alice através do Espelho- Lewis Carroll




          ZOE NO PERSONARE !

16 de maio de 2012

Basta um peteleco


O processo criativo é algo enigmático. Cada um de nós têm sua forma, seu momento, sua esquisitices, facilidades e dificuldades na hora de parir uma ideia, seja um projeto, um poema, uma pintura, uma nova receita de bolo.

O lampejo pode surgir do caos: Plim! Em seguida é necessário que pequeno gérmen fale com o que lhe vai  fundo na alma. Dialogue com seus desejos. Aí é preciso que se materialize primariamente, momento em que muitas vezes, a ideia escorre e se perde para sempre. Já dizia o escritor Jack Kerouac: "Considere uma ideia perdida como irremediavelmente perdida", sugerindo que a memória cria peças e que um bloco de notas faz toda a diferença. 

Lembro-me que li em algum lugar sobre as etapas do processo criativo relacionado com os naipes, se é que é possível separar em partes o que funciona em harmonia... Bem, vale como tentativa de estudo. O insight seria Espadas (1); a indispensável empatia pela ideia, Copas (2); a energia dispendida para realizá-la, Paus (3); e sua realização propriamente dita, em Ouros (4). Se era isso mesmo, não sei. Mas minha memória concorda efetivamente com as etapas Copas/Ouros. Quanto a Paus/Espadas, podemos pensar também que o lampejo poderia estar em Paus e a energia intelectual dispendida na terceira etapa, em Espadas. 

Creio que a ordem da dupla masculina Fogo/Ar dependa do que está em jogo. 

Se é uma obra sujeita à organização racional das idéias, teríamos Paus/Espadas. Exemplo: Tive uma "sacada" boa para um projeto. A luz acende. A partir do momento em que  percebo que a ideia faz sentido para mim (sim, porque posso ter uma nova ideia mas não "gostar" ou não ter "ferramentas" para fechar o processo) sento e escrevo. 


Se é uma obra que depende de soltura e profusão energética, sem maior interferências organizadoras, a ordem seria diferente. A ideia nasceria em Espadas e depois de fundamentada nos meus sentimentos, Copas, precisaria me desligar do processo racional e dar vazão através de Paus, o Fogo. A escrita de um poema surrealista se daria assim. Ou então a pintura de um abstrato.

Percebam que ainda restam dúvidas na diferenciação da primeira etapa do processo criativo. Qual a diferença entre um lampejo de Paus para um lampejo de Espadas? Além do mais, é claro que estamos falando de algo que não é dividido assim, bonitinho. É só a velha mania cartesiana de Jack, O Estripador...

Gostaria de opiniões sobre a questão dos naipes e o processo criativo. O que vocês acham? 
Eu tenho as minhas delicadezas quando crio. Preciso de paz, silêncio, de que o burburinho do dia-a-dia se aquiete. Conheço pessoas que tem o fantástico poder da redoma de cristal. Conseguem abstrair. Invejável, a capacidade de bem-tecer em qualquer ocasião. Para concluir esse texto, por exemplo, devo ter sido interrompida e também me interrompido umas mil vezes: criança chorando, telefone & interfone, visitas... Enfim, boas interrupções que não atrapalharam um texto que não precisa ser "inspirado". Porque quando é assim, meus amigos, só com minha filha pequena na casa do pai, telefone desligado e minha mãe avisada de que não morri. Pelo contrário: Estou viva, vivíssima. 

Tem horas também que não dá para bancar a Eremita. Existem prazos, o famoso deadline. É aí que me lembro deste trecho da Clarissa Pínkola Estes, no capítulo sobre o sustento das águas criativas (em Mulheres que correm com os lobos) que deveria ser enviado para filhos, marido, ex-maridos, amigas novidadeiras, porteiros, e ainda colocado na secretária do telefone:

"Pode também acontecer de o processo criador da mulher ser mal compreendido ou desrespeitado pelos que a cercam. Cabe a ela informar-lhes que, quando ela está com 'aquela expressão' nos olhos, isso não quer dizer que ela seja um terreno baldio à espera de que o ocupem. Quer dizer que ela está equilibrando um grande castelo de cartas de idéias na ponta de um único dedo, que está unindo cuidadosamente todas as cartas usando minúsculos ossos cristalinos e um pouquinho de saliva e que, se ao menos conseguir levar tudo até a mesa sem que caia ou se desmorone, ela poderá trazer à luz uma imagem do mundo invisível. Falar com ela nesse momento equivale a criar um vento de Harpia que, com um sopro, destrói toda a estrutura. Falar com ela nesse momento equivale a partir seu coração".


Ei, não parta meu coração!


Zoe de Camaris