12 de maio de 2018

Orgulho e Paixão



O Tarot na Novela das 6



Cecília Benedito e A Lua, de Zoe de Camaris para o GShow



Sendo o Tarot um produto da imaginação humana é natural ver sua ligação com o mundo do Cinema, da Poesia, da Literatura e das Artes Plásticas. É possível identificar facilmente a presença dos arcanos em obras de arte, assim como é possível ler uma história através das cartas. Você conseguiria, por exemplo, identificar quais são os arcanos maiores presentes em Romeu e Julieta? E poderia modular os acontecimentos com os arcanos menores e as personagens das cartas da corte? Tente! É instigante e divertido. Só recomendo que depois do estudo, anote suas impressões e recolha as cartas. Uma vez eu analisei Macbeth e deixei o Tarot aberto na mesa, para anotar no dia seguinte. A noite foi horrível, podem acreditar.

Algumas noções de roteirização podem ajudar no seu trabalho. Recomendo dois livros: Story, de Robert McKee e A Jornada do escritor, de Christopher Vogler. Se quiser se aprofundar no assunto, arrisque As estruturas antropológicas do imaginário, de Gilbert Durand. 

As relações entre o Tarot e as Artes sempre nortearam meu trabalho. Quando comecei a cursar minha especialização em Literatura e outros sistemas semióticos no ICHS-UFOP, riam de mim quando falava sobre o Tarot. Mas eu bati sem parar nas mesmas 78 teclas e acabaram me escutando. Me cansa enormemente quando encontro alguém que considero inteligente e percebo que despreza o Tarot, relacionando-o unicamente com a adivinhação. Não reconhecer sua linguagem ótica, imagética, e que sua estrutura perfeita nos entrega uma experiência incrível de analogias e correlações é de suma ignorância. Interessante que não adianta tentar explicar, a pessoa se fecha em copas e fim de assunto. E, normalmente, essas pessoas são escritores ou ligados de alguma forma à Literatura. Curioso, não? 

Ultimamente a vida não deixado que eu curta tanto quanto gostaria o meu assunto predileto. Fico torcendo para que alguém me encomende um trabalho, mas isso quase nunca acontece. O que as pessoas querem é mesmo saber se o amor de sua vida vai voltar. Certo, é uma pergunta lícita, mas cansa... Ainda mais quando temos na nossa frente uma miríade possibilidades quando se trata do Tarot. Pois bem. Estava eu aqui atrapalhada com meus afazeres quando recebi uma proposta do Personare: relacionar arcanos do Tarot às personagens da novela Orgulho e Paixão. Oba! Até porque as personagens da novela foram inspiradas em obras de Jane Austen. 

Como a sinopse das personagem era muito curta e também para escrever algo fidedigno, fui atrás de Orgulho e preconceito, Razão e sensibilidade, A abadia de Northanger, Emma, Mansfield Park e Lady Susan. Claro que não deu tempo de reler tudo. Consegui tirar algumas dúvidas com Raquel Sallaberry, especialista no assunto e que mantém um site sobre Jane Austen em português. Grata, Raquel!

Claro que os textos para o GShow precisam ser curtos e acessíveis e também precisei contar com o poder de previsão do enredo para acertar minhas escolhas, o que não foi muito difícil em se tratando de uma novela das 6 e tendo em mão os romances, sem querer tirar do autor da novela, Marcos Berstein, a liberdade de composição e as possíveis surpresas na trama. Hoje, assistindo a novela, faria algumas pequenas modificações. 

Também precisei lidar com o Tarot de Marselha, deck utilizado pelo Personare. Eu teria escolhido o Rider Waite ou o Sevenfold Mystery, de Robert Place. Inclusive, temos alguns Tarots inspirados diretamente na obra de Jane Austen que poderiam servir maravilhosamente bem ao propósito. O Marselha não é inspirador quando se trata dos arcanos menores. A corte tradicional, formada por Pajens, Cavaleiros, Rainhas e Reis, também não ajuda nem um pouco em uma novela onde o destaque pertence às personagens femininas. O estilo de Pamela Smith no Tarot Waite daria conta do recado, mas ainda assim eu teria 3 cartas da corte masculinas para 1 feminina. Sim, as cartas reais podem representar aspectos ditos femininos em homens e aspectos ditos masculinos em mulheres, mas vamos combinar que fica estranho em um trabalho que precisa impactar e destinado a quem não conhece intimamente o Tarot, associar um Cavaleiro, por exemplo, a uma moça do início do século XX. Então tive que me virar com as restrições. Aliás, restrições são portas abertas para a criatividade. 

Aí está o trabalho. Espero que gostem!


Zoe de Camaris






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