19 de maio de 2007

RECONSTITUINDO IMAGENS


Meu colega Kirtan (Marcelo Ivanovitch para os mais íntimos) deve estar terminando agora seu workshop "Desconstituindo Imagens" na cidade de São Paulo - momento em que começo a escrever. A idéia do trabalho é demonstrar que as imagens escolhidas hoje para ilustrar diversos conjuntos de arcanos menores é arbitrária, segundo compreendi. Não seriam seguidas regras que norteassem o leitor de Tarot em um campo seguro. Ou seja, as imagens não estariam mais traduzindo conceitos tradicionais, já que estão sendo reinventadas. Vale lembrar que a tradição em se ilustrar os arcanos menores começou com a publicação do baralho Rider Waite em 1910. Antes de Pamela Smith os menores se apresentavam apenas com padrões abstratos - as chamadas cartas de pintas de que o Tarot de Crowley também é signatário.

Pois bem. Há centos decks inspirados em Pamela Smith. Outros voam ao bel-prazer de seus criadores, como o Tarot Mitológico, por exemplo, que rompe duplamente com o que até então era conhecido. As imagens do Mitológico e de diversos outros Tarots modernos evocam aspectos e interpretações que fazem parte do universo pessoal de cada autor, da sua forma de ver o mundo e da cultura em que estão inseridos.

A proposta de Marcelo é que se atendo ao significado simbólico da numeração, e percebendo-se como esta ordem numérica evolui em cada naipe, teríamos uma ferramenta "descondicionante" da ditadura da imagem. Estratégia perfeita para se manter a coerência. Imagine só você, tarólogo, vagando por uma ilha deserta e só tendo em mãos para saber quando vai sair dali o Tarot de Milo Manara.

Considero a possibilidade também válida para que se aprofunde o conhecimento dos arcanos menores. Mas partir de conceitos se torna um fator complicante quando se trata de ler um Tarot composto de 78 cartas ilustradas com padrões figurativos.

Eu sempre digo aos meus alunos - atenham-se às imagens. É a imagem que comunica no Tarot. É um alfabeto ilustrado, uma linguagem pictórica. É partindo da imagem que se constrói a vistada do tarólogo frente à "arrumação". É assim que as significações vão sendo traduzidas com a delicadeza de quem costura. Se os arcanos maiores, o baralho filosófico, faz parte de um sistema diferente dos arcanos menores; se os dois foram construídos em momentos díspares da história e com finalidades outras, não deveríamos então separá-los por completo? Sim, por que com um sistema eu procederia de uma forma, com outro sistema, eu procederia de outro.

Complica o meio de campo. Afinal, que veio antes, o conceito ou a imagem? Podemos separar forma de conteúdo? Significante de significado, plano de expressão de plano de conteúdo? O ovo da galinha? Para estudar sim. Para ler o Tarot, não.

Entendo que o conceito subjaz à imagem. Mesmo que a figura tenha sido criada a partir de um conceito, se me compreendem.

A diferença entre apreender um dado universo pictórico e a linearidade de uma frase é que a imagem espoca em uma pluralidade de sentidos que se espalham em todas as direções, todos ao mesmo tempo - uma bomba de percepções simultâneas. Como diz Gadamer, a pintura é um presente absoluto. Já a frase só pode acontecer no tempo, no eixo das sucessões. Só posso ler uma palavra de cada vez. E só posso pensar os números um em relação ao outro – o valor do número depende do quem vem antes e do que vem depois.

A análise numerológica requer o plano do conceito imediatamente, o que é muito abstrato se comparado à materialidade das imagens significantes. E evoca um estado diferente de percepção.

Pensar a evolução numérica nos naipes seria correto quando se trabalha com as cartas de pintas, quando temos nas mãos um Tarot como o de Marseille. A iconografia assim o indica, conceitos abstratos advindo de padrões abstratos. Se estamos falando de um sistema imagético, e isso me parece claro e certo, primeiro a imagem.

Aleister Crowley ao inserir nas cartas cores diversas, planos geométricos hipnóticos, títulos que induzem a intepretação e correspondências astrológicas, cabalistiscas e mágicas, altera magnificamente nossa forma de intepretar o baralho, possibilitando um estado alterado de consciência que exige do tarólogo um mergulho profundo. Mas só cria essa sensação porque a habilidade de Frieda Harris o permitiu. Com a imagem.

Então, acho a idéia de Kirtan bacana desde que ao se nortear pela ordenação numérica, o tarólogo use um baralho que apresente as cartas de pintas. Mas não acredito na possibilidade de transportarmos este conhecimento teórico in presentia quando trabalhamos com imagens ilustradas.

Em minha opinião, isso atrapalharia o estímulo número 1 do Tarot que é o poder de sugestão das imagens, o gatilho intuitivo.

O que fazer se a imagem evocar algo diferente do conceito numérico, idealmente correta? O que se privilegia? Pronto, disparou-se a bala errada. Foi-se o gatilho. Neguinho parou pra pensar no meio da leitura, perdeu o fluxo intuitivo.

Sim, é válido termos um tipo de leitura para cada baralho que se usa. E isso é verdadeiro inclusive para os Arcanos Maiores, onde o consenso entre os comentadores do Tarot é bem maior. Quando tiro a Força no Marseille minha sensação é uma. Se for a Lascívia de Crowley, minha percepção é bem diferente embora tanto uma como a outra imagem estejam presas ao que compreendo integralmente sobre o arcano XI.

Tenho em mente também que os arcanos maiores se esclarecem em linha diacrônica e também na ordem paradigmática. Mas o valor numerólogico da imagem pra mim é uma informação de segunda ordem, uma "ancoragem" da carta. Um índice de fundo estrutural. Uma função referencial.

O que é necessário numa aula nem sempre é interessante numa consulta. A estrutura conceitual é um conhecimento integrado que deve ser introjetado e depois esquecido. A informação pulará na hora certa de um dos nossos arquivos. Disparados pelo gatilho das imagens.

Gosto muito das invencionices dos artistas. Criam-se novas formas de ver o mundo. Outros estímulos. Maiores possibilidades interpretativas que podem fazer jus a SUA forma de ver o mundo. Se fulana é uma frequentadora de cartomantes e gosta de leituras divinatórias, talvez não se sinta à vontade com um saniasyn interpretando o Tarot do Osho (ou talvez um novo mundo se descortine pra ela, sei lá). Mas com certeza a leitura do Tarot do Crowley via Gerd Ziegler se adequará completamente a alguém que esteja na India, passando férias na Osholândia.

Não sou dogmática no que se refere ao Tarot, embora só utilize baralhos tradicionais nas minhas leituras. Digamos que sou uma taróloga conscienciosa na hora de interpretar as cartas, sabendo da responsabilidade que envolve a prática do meu trabalho. Leve e concentrada. Em contrapartida, sou uma comentadora de Tarot que estimula com veemência a idéia de que o Tarot é um sistema aberto às mais inimagináveis percepções e traduções artísticas. Não poderia ser diferente.

E como professora, repito: atenha-se aquilo que você vê. Pois se no momento da leitura, ao invés de dar asas à imaginação (não é o Tarot uma arte da imaginação?) estivermos lembrando de conceitos evolutivos, não estaremos mais jogando Tarot. Estaremos fazendo uma outra coisa. O que as cartas têm para dizer a você é exatamente o que aparece à sua frente. Cabe ao tarólogo interpretar o que tem em mãos, pelo tempo que durar aquele eterno presente.

Pena, Kirtan, eu gostaria de ter estado aí com vocês para defender meu ponto de vista. Provavelmente discutiríamos a questão à exaustão e chegaríamos a uma conclusão (ou não). Sejam gentis com uma dama ausente e retruquem, por gentileza.


Zoe de Camaris

7 comentários:

Paulo Fernando disse...

Bacana e bem informativo. É a primeira vez que leio um blog sobre este assunto.

Bjos, minha querida!

Anônimo disse...

De Portugal até a Brasil entrei você pelo caminho... pelo pouco que já li espero poder aprender imenso consigo.
Um abraço
Lu

Gian disse...

Oi Zoe,
Li e reli seu texto com cuidado, meditando em cada linha.
Você me conhece e sabe o quanto sempre fui resistente em unir o tarô com outras correntes, como a Kabbalah, a Astrologia, diversas Mitologias, etc. Defendo a crença que o tarô se auto explica e, partindo dessa premissa, entendo que ele é uma poderosa ferramenta simbólica, que desperta no ser humano o desejo de "olhar para dentro". Eu tive o prazer de assistir o WS do Kirtan, enfrentando todas resistências e (pré) conceitos que haviam em mim. Digo, haviam, porque deixei de tê-los. O que ficou claro para mim, foram duas coisas: os Arcanos Menores, até a criação do Rider Waite, era um sistema "decoreba", pautado por antigas interpretações cartomânticas, sem o trabalho direto com o imaginário. Quando a Golden Dawn assumiu o tarô e, através de Waite e Crowley resignificaram as interpretações tarológicas para os Menores, uma novo horizonte se descortinou para os pesquisadores da área. Sim, o tarô passou a se dividir em duas escolas: a francesa, clássica (usando os tradicionais modelos para os naipes) e a inglesa, recheando os Menores com as imagens tradicionais. De alguma forma, a atitude de Waite incentivou artistas das décadas seguintes a libertar a criatividade e ilustrar os Menores a seu bel prazer. Um gama enorme de baralhos hoje no mercado, felizmente ou infelizmente, estão baseadas no Rider Waite (vemos pela troca numérica entre a Justiça e Força e os Menores ilustrados proximamente do referido deck). Talvez, se Crowley não tivesse enfrentado tantos problemas para publicar seu deck, teria também popularizado o mesmo com a mesma força que Waite fez. Afinal de contas, Crowley é lembrado como famoso mago e Waite, apenas como co-criador de um baralho de tarô. O problema com esse lance das imagens, surgiu particularmente nos anos 70. Com as viagens lisérgicas e liberação sexual, houve uma explosão libidinosa (entenda-se por criativa) em cima do tarô. Artistas, munidos de inspiração, passaram a ilustrar os baralhos com temas diversos, culminando nos anos 80 e se estabelecendo nos anos 90. Antigamente, o artista que pintava o tarô entendia do mesmo; hoje, apenas é preciso ser ousado, criativo e original e, pronto! Temos um baralho pronto. Nesse aspecto, eu acredito piamente que a arte não deve superar os símbolos, embora arte seja uma manifestação simbólica. Quando o artista faz apologia ao tema do baralho em detrimento do simbolismo, ele está recriando o tarô e agradando aos olhos, mas tornando o mesmo excludente para a coletiva, capricho apenas de um pequeno grupo de amantes do deck gerado. O que achei bacana no WS do Kirtan, é que ele mostrou (e demonstrou) que os Menores são maneiras de se lidar com a própria vida, e talvez, a forma que colocou o título "Desconstituindo Imagens" foi a maneira de fazer-nos repensar que, o apelo visual é tão grande, que esquecemos o que existe em essência, por detrás de cada arcano. Não estou aqui a bancar o "advogado do diabo", longe disso; eu tenho muitas divergências quanto à algumas análises feitas nessa junção "Kabbalah-Tarô", mas resolvi "destampar" os ouvidos e prestar a atenção nas exposições. Aprendi que, o tarô continuará ainda por muitas décadas, uma experiência pessoal, efetivamente uma vivência particular e os debates se tornarão sempre redundantes, pois a forma que eu sinto o símbolo, é diferente de você, e consequentemente do Kirtan. Daí, a pluralidade, tal como há na experiência religiosa, que também é simbólica. Não há uma verdade única, há experiências individuais verdadeiras e autênticas, longe de qualquer erudição cartesiana. Vamos tentar sempre explicar, mas o que vai no coração e psique de cada um é o que fica. De qualquer maneira, agradeço pelo texto muito bem escrito, me fez pensar sob outros prismas também. Não sou defensor de Waite, Crowley, Nei Naiff, Banzhaf, ou sei lá mais quem... sou defensor dessa arte, chamada tarô.
Um super beijo!!!

Gian disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Marcelo disse...

Zoe, não tenho a menor intenção de “convertê-la” para o que eu imagino ser a forma correta de se interpretar as cartas, até porque, se dá certo para você, o que eu tenho a ver com isso?

Você pede que eu argumente. Gostaria de afirmar, antes de qualquer coisa, que uma vez que se aprende Tarot, não se raciocina o Tarot – ele simplesmente flui.

Outra coisa é que se o que interessa é o que a imagem me passa, acho que você está dando um tiro no pé como professora. Viva a imagem, morra o conceito! – e todos os “inúteis” professores e autores de Tarot juntos.

Você se prendeu aos Arcanos Menores e aos valores numerológicos, mas os que tiveram o prazer de desfrutar do mousse da Vera sabem que eu implico com muito mais do que isso, como magos exercendo plenamente o seu poder, papisas sensuais, casais transando, leões estrangulados... e por aí vai.

Se eu descrevo um Fusca laranja as pessoas podem visualizá-lo mentalmente com diferentes tons, mas não terão a cor verde na cabeça. Muito menos pensarão em um Gol laranja, a não ser que, eventualmente, não entendam nada de cor ou de carro.

Se alguém perguntar no Orkut o que significa um Papa com um 7 de Espadas eu devo perguntar qual baralho ela usou para dar uma resposta? Se ela usa um baralho que eu não conheço, devo abrir mão de interpretar a jogada?

O Tarot pode ser flexível, na medida em que você associa outros saberes a ele, mas não é aberto. Aberto é o Linux, que permite que você altere o código-fonte para adequá-lo à suas necessidades. O software aberto, assim como o “Tarot aberto”, permite que você o transforme em outra coisa - não a valorização dos conceitos tradicionais. É o “Tarot aberto” que permite que um relacionamento maduro identificado pelo 9 de Ouros possa ser interpretado como um relacionamento a 3 tão somente porque Frieda Harris resolveu homenagear seus homens na lâmina do Thoth Tarot.

Não fui para SP para falar de um “novo Tarot”. Nunca escrevi nada revolucionário nos meus textos em todos estes anos. Há diferentes escolas quando se aborda os Arcanos Menores. Eu sempre recomendo que os iniciantes abracem uma e sigam em frente até que a experiência cuide de refinar a percepção das cartas. Ofereci aos presentes mais uma alternativa, e, como coloquei como umas das premissas básicas do trabalho, “Não existe uma verdade absoluta, somente níveis individuais de percepção e conscientização” - o resto é vaidade.

bjs

Vera Chrystina disse...

O grande problema do Tarô é a quantidade de artistas plásticos que ilustram o tarô sem conhecer sua linguagem e estrutura simbólica ou ainda, copiam outros ilustradores que também desconhecem.
Se você vai copiar alguma coisa pelo menos copie de fonte séria e pesquise.
O Mago vira uma mulher bruxa, a Sacerdotisa uma mulher safada e a viagem continua por aí...
Quanto mais tenta-se explicar um símbolo, mais distanciamento de sua idéia original, primordial.Imagine então pintar suas impressões ou o que você acha?
O mesmo acontece com os mitos imaginários que desvirtuaram conceitos do Cosmos (meio-ambiente) na Astrologia.Mito imaginário é para ser contado, é uma estória e não para ser interpretado.Tem muito Astrólogo por aí interpretando estórias sem base nenhuma na profundidade que a Astrologia exige de um bom pesquisador.Estão fazendo qualquer coisa, menos Astrologia...Seus estudos não tem fundamento nenhum e por este motivo a Astrologia continua sendo desacreditada.Não é para menos!
Um símbolo evoca uma idéia, o que os ilustradores pintam são imagens que orbitam ao redor do símbolo que podem ter mil e uma significações.Retratando apenas uma parte desta órbita o conhecimento fica reduzido e foge-se totalmente da profundidade inerente ao símbolo.

A nova visão dada ao Tarô é perigosa por ser reducionista!

É o que eu acho!

Marcelo disse...

Zoe, quando você trouxe uma troca que rolava no MSN para uma arena pública, desconsiderou algumas coisas que conversamos e generalizou, equivocadamente, a minha opinião a respeito do Tarot, o que me obriga a dar algumas explicações para quem pega este bonde andando. Não me importo que as pessoas tenham uma opinião diferente da minha, contanto que elas contestem o que eu realmente penso a respeito de qualquer assunto.

Continuo dizendo que se a forma como você interpreta o Tarot dá certo, be happy. Afinal, o oráculo atende às nossas convenções e o que você faz está inserido dentro de um sistema que você desenvolveu ao longo destes anos. Ele funciona. Não discuto isso. Só que eu não falo de uma abordagem individual. Não se trata de como o Marcelo joga ou como a Zoe joga. Estamos discutindo a respeito de uma estrutura simbólica, supostamente, universal. É preciso ter em mente que uma linguagem viva pode (e deve) ser atualizada, mas não temos o direito de adulterá-la - o que é uma outra história.

A origem do Tarot é desconhecida. De onde surgiram as imagens? Se ele foi criado para ser um "livro de conhecimentos", estes ensinamentos estão codificados nas imagens. Nós olhamos para cada elemento e tentamos entender o que eles querem dizer. Cada detalhe é importante: se é homem ou mulher, se o personagem olha para a direita ou para a esquerda, onde a mão está, e por aí vai... Em momento algum condeno a imagem pela imagem. É justamente por saber do valor das imagens que me preocupo com o uso que se faz delas. Não se esqueça que sou publicitário: se fizesse pouco da imagem seria bancário ou seguiria na carreira tão somente compondo anúncios de linha na seção dos classificados. Não é o caso.

Discutimos bastante, por exemplo, sobre a lâmina dos Enamorados. Destaquei para você que a mulher da esquerda toca o ombro do rapaz e que ombro, em hebraico, é shekem - também traduzido como "a porção que carrega o fardo" - o que lhe vende alguma culpa do tipo "pense bem no que está fazendo". Também lhe disse que uma diferença entre o 6 e o 15 é que o primeiro se importa com as pessoas, e que isso é visto pelo fato do rapaz estar no mesmo plano que as duas mulheres enquanto o Diabo se posiciona acima de seus escravos.

Nunca li nada disso em livros. Apenas vi as imagens e coloquei para você o que pensava sem fugir, em momento algum, dos conceitos que permeiam estes dois arcanos. É relativamente fácil ser criativo com uma namorada por semana (e se não for, talvez ninguém venha a saber). O difícil é ser criativo casado com a mesma mulher por 3, 10 ou 30 anos. As pessoas desistem fácil. Ainda há muito o que se explorar nas boas e velhas imagens do século XV. Não preciso colocar Yoda de Eremita, Aarrba The Hunt de Pendurado, Darth Vader de Diabo e a Estrela da Morte (explodindo, naturalmente) de Torre para parecer moderno.

Pegue a Imperatriz de três baralhos diferentes: uma está grávida, a outra segura um bebê no colo e a terceira tem uma criança andando aos seus pés (estou resgatando fragmentos de conversas nossas para uniformizar o debate, agora, coletivo). Se formos interpretar tão somente as imagens, temos três situações completamente diferentes, sendo que apenas a primeira estará coerente com a idéia de que, no Arcano III, o fruto ainda não está à disposição.

Não condeno "Os Amantes" do Waite de todo, por exemplo. As duas figuras têm a Árvore da Vida e a Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal às suas costas. Extraídos do contexto bíblico, a cena conserva questões como o livre-arbítrio. Se faço uso do meu conhecimento da Torá, ainda vou além, mas deixo para falar disso no meu próprio espaço. O fato é que artistas, ainda que talentosos, mas ignorantes com relação à linguagem do Tarot, viram tão somente um casal nu e tudo virou mera fornicação. Até o anjo sumiu, provavelmente com vergonha. E aí não importa se a alma do seu aluno se identifica com isso ou com aquilo: ele estará trabalhando sobre um conceito errado porque assim a imagem sugere.

Com relação aos Arcanos Menores, o Rider-Waite foi fortemente influenciado pela cartomancia - e não por princípios herméticos da Golden Dawn ou de qualquer outra Ordem, como imaginam alguns. Não existe qualquer proposta iniciática, por exemplo, como fez o Mebes. O que Pamela fez foi transformar estas informações (= conceitos) em imagens, meio que "defendendo um território" - a sua visão das lâminas. Se continuasse com 3 trevos ou 8 corações, estaria sujeita às diferentes escolas de cartomancia existentes. A imagem, teoricamente, obrigaria o leitor a seguir uma direção específica.

Não discuto se os conceitos do Waite com relação aos Menores estão certos ou errados. E em momento algum levanto a bandeira de um "Tarot Verdadeiro". Por outro lado, condeno veementemente o "Tarot da Mãe Joana".

Tomemos o 7 de Ouros como exemplo: no Rider-Waite é uma carta de "dinheiro e negócios". Deveríamos respeitar isso ao fazermos uso do baralho. Poderíamos dizer qualquer coisa, fazer qualquer viagem, enquanto as idéias girassem em torno de "dinheiro e negócios". Na descrição da lâmina, ainda encontramos que "poder-se-ia dizer que aquelas folhagens são tesouros e que o coração do jovem lá se encontra". Rachel Pollack diz, entre outras coisas, que "o trabalho dá mais do que lucro material; a pessoa também cresce". Muito coerente.

Acontece que algumas pessoas olham para a imagem desenhada pela Pamela (a mesma que fala de satisfação pelo trabalho realizado) e não acham que o rapaz esteja tão feliz. Pelo contrário, que se apoia desanimado sobre a enxada e que os 7 pentáculos estão longe de ser aquilo que ele imaginou. "Trabalhei tanto só para isso?", sugerem.

A liberdade de reinterpretar a imagem sem o conhecimento da sua origem promove isso. E se eu achar que o 4 de Copas é sinal de bebedeira e que o cara está tão doido que depois de ter bebido 3 taças ainda vê uma quarta voando em sua direção? Eu sequer estou falando de um baralho esquisito, onde o erro está na raiz. As pessoas pegam um trabalho que é referência para milhares e o recriam na medida em que projetam o que desejam, o que difere de você ter três pessoas reunidas, cada uma defendendo o ponto-de-vista de uma escola (= uniformidade de pensamento).

Com relação ao método que particularmente adoto, não estou defendendo nenhuma tradição. Deveria terminar de escrever o artigo "Eu não acredito em Tarot Cabalístico", hoje, se não parasse para explicar o que não disse. Qualquer um minimamente conhecedor da Tradição Judaica sabe que qualquer coisa que "o Tarot veio da Cabalá" é uma imensa bobagem. O que faço é pegar emprestado um sistema que me parece bastante convincente quando tem por base seus princípios originais.

Sim, tenho uma "proposta estrutural e básica de entendimento dos menores", mas ela está longe de ser uma gaiola. Não estou ditando regras como se estas "regras" fossem desprovidas de um propósito. Jogue uma maçã para cima e, sinto muito, ela irá cair - é a lei da gravidade. Regras existem, o que não significa que elas precisem ser burras. O Tarot não funciona sem a compreensão das forças presentes em cada lâmina.

Uma das minhas maiores resistências ao esquematizar o workshop foi adotar palavras-chaves. Eu não gosto delas. Você explica várias coisas e o aluno, por vezes, fica limitado a 3 ou 4 sílabas reunidas. As palavras-chaves deveriam servir apenas para ajudar na memorização de algo muito maior do que elas, mas poucos querem dar profundidade aos seus estudos pois "leva tempo" ou "dá trabalho". "Para que usar 78 cartas se com 22 tiro um caldo?" O "viajar nas imagens" ajuda muito nisso - What you see is what you get.

Não existe uma "escola de pintas" que se opõe a uma "escola de imagens". Quando se trata dos Menores, existem tão somente conceitos. Se estes conceitos virão traduzidos com ícones simples, gráficos psicodéllicos ou cenas ricas em elementos simbólicos, tanto faz. Eu pego qualquer baralho e parto dos mesmos princípios, o que não significa que eu fale as mesmas coisas, pois cada momento é um momento e há outros fatores que permeiam qualquer leitura.