
Reconstituindo Imagens II
Em resposta aos comentários feitos à postagem anterior pelo Gian, Marcelo e Vera, tenho mais algumas reflexões. Antes, quero assinalar que não vou me esforçar em florear palavras, certa de que todos os colegas aqui envolvidos certamente concordam que uma discussão teórica dispensa mesuras e melindres. O que nos une aqui é o Tarot.
Só há um ponto de discordância: Marcelo Kirtan defende que o conceito sobrepuja a imagem. E eu discordo com veemência. Não pode. Se assim fosse, teríamos outra coisa, não um Tarot, sistema de linguagem essencialmente imagética que é. Reafirmo que gosto da contribuição de uma linha de compreensão teórica e unificadora para os arcanos menores. Mas que essa é só mais um função referencial e não o cerne da coisa.
Quanto ao que foi colocado pelo Gian e pela Vera nos comentários, tenho a acrescentar que o Tarot não é uma língua morta. É uma linguagem vivíssima e praticada em todo o mundo. Parece-me que não percebê-lo desta forma é cair na besteira de achar que processos de mudança indicam decadência, assim como acreditam os puristas da língua culta - fazendo aqui uma relação com a palavra escrita. Em todos os campos da vida humana mudança significa avanço, desenvolvimento. Deveríamos bater palmas para todos os artistas que se dedicam a repensá-lo. Milhares de tarots sendo publicados no mundo todo indicam evolução, pensamento em ação, troca de idéias. Fico feliz que o Tarot seja mote para a literatura, para as artes plásticas, para música, para arte. Ele nunca perderá sua aura, por mais que seja reproduzido e alterado. Não vejo nenhum problema que certos decks atendam grupos específicos ou demandas de mercado. Assim como o Tarot possui seu lado esotérico, pode ser usado exotericamente. Implico sim com certas saladas de gosto duvidoso, pretensamente herméticas, mas creio que seu potencial criativo não se limite ao que o nosso gosto ou crivo pessoal qualifiquem de bom ou de mau, verdadeiro ou falso. Dialetos, idioletos, linguagem de guetos, gírias, não modificam o nosso modo de falar?
Convenhamos: qual é regra que rege os arcanos menores? Primeiro, as interpretações foram criadas por cartomantes e os significados, compilados com acréscimos de outros. Depois Waite e Crowley lançam mão do Picatrix, antigo manuscrito árabe, da Astrologia e da Cabala para CRIAREM um universo de possíveis correspondências para os arcanos menores. Ou seja, não existe uma “tradição” propriamente dita. Existem tarots mais antigos que outros e também “leituras” sobre os arcanos menores. Pamela Smith foi buscar inspiração no 3 de espadas do Sola Busca, por exemplo. E o que tem no Tarot que explica a história de Roma que seja fundamental para o “conhecimento secreto”?
Digamos que ao contrário dos maiores, onde podemos identificar a simbologia tradicional (as virtudes cardeais, por exemplo), os arcanos menores são um prato cheio para a criação e diversidade. Nesse sentido, a palestra do Kirtan é um acréscimo: uma proposta estrutural e básica de entendimento dos menores. Mas assim como todas as leituras, é apenas mais uma possibilidade de interpretação que elege a Cabala como regra fundamental - aquela que preservaria uma possível essência das cartas. Mas conseguiria a Cabala preservar a essência das imagens? Tem como conceitos deterem a explosão de idéias que espocam a partir de uma imagem? Sim, de alguma forma, se elas fossem redesenhadas a partir desta idéia motriz. Mas assim como estão, no Waite e no Crowley, não é o que acontece. Cada um fez como lhe pareceu e essa é a única regra, mesmo que tenham lançado mão de estudos da ordem a que pertenciam.
Se os arcanos maiores e os menores fazem parte de estruturas e sistemas distintos, se existem regras para os maiores que estão inscritas na tradição, o mesmo não parece acontecer com os menores. Ainda não me mostraram nenhum pergaminho que consiga absorver e traduzir toda essa diversidade. Crowley explica Crowley, Waite explica Waite, Manara explica Manara e Osho explica Osho.
O que dita a regra é o baralho escolhido. Ou então cria-se um tarot que traduza o que você pensa do Tarot (esotericamente ou artisticamente) e ele será, melhor ou pior, apenas mais um conjunto de cartas que será escolhido por pessoas que pensam concordam com o seu modo de ver a vida.
Por isso não uso Tarots que considero apenas como peças de coleção para as leituras. Escolho os baralhos que falam comigo. E respeito o que eles dizem. Segundo o que entendi da palestra do Kirtan, a idéia estaria "sobre" a imagem e não subjacente a ela. E se a imagem lhe disser algo que não corresponde ao que ele reconhece como sendo a essência ideal de cada carta, o que valeria é o conceito. Eis aí mais uma vez, o ponto fulcral de discordância.
Se assim fosse, ao invés de darmos um passo para frente daríamos um passo para trás. Reduziríamos o Tarot a conceitos. Para tanto, bastaria um conjunto de cartas com números de 0 a 22, mais um de conjunto de 4 séries de 1 a 10 e também de pajem a rei, estes só com o nome estampado. Para que serve a imagem se podemos dispensá-la?
Não, Kirtan, não dou um tiro no pé como professora, pois minha função não é ditar regras mas sim demonstrar um processo de compreensão do tarot que julgo bastante eficiente, apresentar as melhores bibliografias e discuti-las, e faciltar aos alunos a escolha de um deck adequado. Recomendo o que considero mais confiável mas também apresento conjuntos curiosos. Para que eles exercitem antes de qualquer coisa a sua imaginação e se abram para o processo intutivo, pois, sem ele, não se lê o Tarot.
Livrinhos de regras têm um monte por aí. Zil cartilhas. A gente só aprende a escrever depois que sabe falar. E só aprende a estudar depois que aprendeu a escrever. Manter a ordem dos fatores aqui, garante o produto final.
E depois, acho engraçado que você, Marcelo, na defesa de uma postura mais racional de entendimento dos menores, peque exatamente num total não-entendimento da prática do discurso científico quando diz: "Zoe, não tenho a menor intenção de “convertê-la” para o que eu imagino ser a forma correta de se interpretar as cartas, até porque, se dá certo para você, o que eu tenho a ver com isso?".
Puxa, Marcelo, achei que estaríamos debatendo um assunto teórico para o qual são necessárias boas doses de isenção e de abertura para discussão, além de interesse por outros pontos de vista. Por isso pedi que argumentasse. Em nenhum momento compreendi que você estava tentando "converter-me" a algo, que coisa absurda. Viagem de Hierofante.
E eu tenho a ver com o que você pensa sobre o Tarot sim, porque o considero capaz e talentoso. Não discuto com quem não admiro. O que nos interessa é sempre o que nossos pares pensam. O rio que corre perto da nossa aldeia. Espero que a recíproca seja verdadeira e desconfio que sim, senão meus artigos não poderiam ter servido nem para lhe inspirar algumas sacadas sobre o mesmo assunto. Portanto, é claro que você tem a ver com que eu penso sobre o Tarot. Eu, Gian, Vera, Alexsander, Alexey, e por aí vai. Somos profissionais discutindo. Caramba, não estou “atacando” seu trabalho. Só mostrando claramente que discordo quando se coloca o conceito "antes" da imagem.
E eu não disse que o conceito deve morrer. Apenas que não se deve partir dele quando se tem frente aos olhos uma torrente de estímulos que acionam diversos sentidos e conteúdos. Conceito não tem cor, carta de Tarot tem. Conceito não tem contorno, conceito não tem cenário, conceito não tem personagem.
A importância dos conceitos é inegável. Esquecê-los, um passo para ignorância ou para uma mera leitura de "salão". Nós, como professores, devemos facilitar a vida do sujeito, apontar os caminhos, abrir possibilidades de analogia e paralelos. Mas cada coisa na sua hora. Não só no processo de aprendizagem como também no processo prático de leitura das cartas.
Quanto às papisas sensuais e aos leões estrangulados, compreendo perfeitamente. Não uso Tarots com papisas sensuais e nem leões estrangulados. Mas se o meu aluno eleger esse tarot como aquele que lhe fala à alma, está no seu direito. Ele foi apresentado e conhece o que se considera como tradicional.
Ontem, experimentei uma leitura com o Tarot de Mantegna que foge radicalmente da estrutura tradicional, embora seja "tradicionalíssimo". Perfeito para quem não gosta de diabos e torres incendiadas. Foi levíssimo extrair significados de Vênus, da Poesia ou do Gentil Homem. E os números ali, fazem algum sentido?
Ganhei de uma consulente há alguma semanas o Tarot do Senhor dos Anéis, em alemão. Ok, já teria como seduzir adolescentes loiros na porta do Instituto Gothe. Mas por mais que tenha achado legal, jamais irei usá-lo em uma leitura. No máximo, ver se a Jornada do Herói se encaixa nos arcanos maiores. No entanto, a generosidade de minha consulente também me brindou com um Visconti-Sforza com o laminado dourado e um tarotée esplendoroso. Já sei que vou passar dias e dias com ele e quando menos esperar, estará na minha mesa de leitura. E nessa hora gostaria muito de ter estado na palestra do Kirtan pois ela me ajudaria diretamente com os menores de padrão abstrato.
Impossível ler uma grande diversidade de Tarots? Bem, ouso dizer que pra mim não, desde que o desafio elegesse algum tarot razoável e que ele resolvesse falar comigo. Conheço a simbologia dos maiores e os menores me ditariam, segundo suas imagens, o complemento da história. Ou eu teria que ficar pensando em outra coisa? Hum, esse três de espadas tá muito lindinho, cheio de florzinhas, mas eu sei que no fundo ele é triste...ferrou.
Quanto a questão hipotética proposta: "Se alguém perguntar no Orkut o que significa um Papa com um 7 de Espadas eu devo perguntar qual baralho ela usou para dar uma resposta? Se ela usa um baralho que eu não conheço, devo abrir mão de interpretar a jogada?" lhe respondo sinceramente, Marcelo, que não gosto disso, tanto é que não participo ativamente. Primeiro porque o momento em que a leitura acontece dita parte do jogo. Há uma série de questões envolvidas, inclusive a escolha do baralho. A interpretação dada por um tarólogo é única. Um outro tarólogo reinterpretá-la pode ser um caminho certo para o erro.
Lanço então uma questão hipotética também: Marcinha vai jogar para Joaninha. Joaninha abre seu coração para Marcinha. Mas Joaninha não sabe que Marcinha teve um caso com seu namorado na semana passada. Podemos levar em conta a leitura de Marcinha para Joaninha e interpretá-la seriamente? Nós não sabemos que Marcinha é fim do namorado da Joaninha... Portanto, colegas, quando vejo essas interpretações sempre penso que elas contribuem para a discussão acerca dos significados das cartas, mas que talvez não ajudem adolescentes ansiosos. Não se sabe se houve uma concentração mínima na hora de deitar as cartas, não se sabe que baralho foi usado, não se sabe de nada. Só temos uma combinação de cartas e uma enorme vontade de acertar.
Com relação ao exemplo do 9 de ouros não vou nem entrar no mérito da questão. Primeiro que, embora não me faça a cabeça, nada impede que uma relação a três seja madura. Segundo que se Frieda Harris associou esta idéia ao 9 de ouros através das égides dos amantes, o significado está lá para que possamos lançar mão, se assim a nossa intuição indicar.
"Um símbolo evoca uma idéia, o que os ilustradores pintam são imagens que orbitam ao redor do símbolo que podem ter mil e uma significações. Retratando apenas uma parte desta órbita o conhecimento fica reduzido e foge-se totalmente da profundidade inerente ao símbolo". Sim, Vera, concordo. Por isso gosto dos maiores de Marselha, tão ubíquos e misteriosos. Parece que tudo está lá, naquelas imagens toscas. Sempre que o comparo ao Waite por exemplo, vejo o quanto o marselhês é infinitamente melhor embora não tão bonito e colorido.
No entanto, certas idéias quase esquecidas e contidas nos arcanos menores podem saltar à vista como no 3 de copas do Housewives Tarot. E não é que o 3 de copas pode significar o nascimento de uma criança? Seja como for, não usaria o Housewives para nada, a não ser para brincar num chá de entre amigas. Mas fico felicíssima que esse produto exista: bem bolado, um projeto gráfico delicioso, e apesar da tiração de sarro, algo bem feito e com base em estudos, dá pra sacar que eles pesquisaram uma boa quantidade de tarots. E ele continuará enfeitando minha estante e saltará de lá sempre que eu queira "exibir" minha coleção. Só me serve à vaidade.
Quando a arte, a beleza estética, supera a simbologia, ESTANTE. Curiosidade. Esse é o lugar do meu Housewives e outros artigos de coleção. Então, falando agora com o Gian, quero que todos os artistas do mundo soltem enlouquecidamente sua libido no Tarot, criem seus universos paralelos, aproveitem o código aberto dos menores para suas viagens lisérgicas, demoníacas, malucas, absurdas. Pois este é o paraíso da Arte. Em se tratando da escolha do Tarot, devemos ser parcimoniosos, no que parece haver concordância.
Mas discordo quanto à redundância das discussões, Gian. Se não discutirmos estes pontos tão fundamentais para o entendimento da matéria, aí sim é que não chegaremos a lugar algum. A escolha é sempre de cada um, a liberdade nunca estará em discussão.
abraços apertados para todos,
Zoe