10 de dezembro de 2008

ERRAR PODE DAR CERTO


Recomecei a atender há poucos dias. E em uma das leituras aconteceu algo curioso. A consulente fez uma pergunta sobre a condução da sua vida espiritual. Saquei o Crowley da estante e o dispus numa arrumação por sete. Na sexta posição, “maior medo e maior desejo”, para minha surpresa e espanto da cliente, saiu uma das cartas extras de divulgação da O.T.O, Ordo Templi Orientis. Para quem não sabe, quando um tarot é impresso, via de regra, possui 80 cartas. 78 Arcanos, maiores e menores, mais duas lâminas que contém a marca pessoal do autor do deck e geralmente a propaganda da editora que o imprimiu.

Putz, pensei. Mas rapidamente lembrei que tudo o que acontece do momento em que o consulente entra no seu consultório faz parte da questão principal e da resposta. É uma carta que cai no chão, a forma que o consulente embaralha e escolhe as cartas e também, em um leque possível de ocorrências, o tarólogo que, distraído, não tomou o devido cuidado de conferir seu baralho. Meu caso, nesse dia.

Nem vou perder tempo dizendo que a vida de uma recém mamãe de um recém nascido é muito atribulada. Que você, como sempre, pensa em todos os detalhes, mas que nunca é perfeita. E que o destino, na casa de uma taróloga, sempre acena com suas contribuições, nem sempre facilmente decodificáveis.

Lembro-me de um amigo falando sobre o oráculo de Mercúrio. Sabem como funciona? Você está andando na rua pensando naquela questão para qual não há uma solução fácil quando duas ou mais pessoas passam conversando e você escuta uma palavra, uma frase que revela o vaticínio: a palavra "arrisque", por exemplo. Cai como uma luva. Responde a questão.

O mundo é oracular para quem sabe ou tenta lê-lo. É a Macro Geomancia. O vôo dos pássaros, uma folha que cai, uma porta que bate. Uma carta que não deveria estar no maço.

Interessante que a pergunta da minha consulente se referisse à vida espiritual. Ela é budista. Queria saber se estava dedicando tempo suficiente à prática. Se deveria cortar impulsos da sua vida mundana. Se poderia, um dia, morar no templo. Boba seria eu se não tivesse aproveitado o recado contido na lâmina que traz a simbologia da Ordo Templi Orientis.

Errar pode dar certo.
É bom não esquecer este ensinamento.


Zoe

7 comentários:

Adash - Tarot Urbano - disse...

Muito bom!

Mais ainda ter a humildade de reconhecer o pequeno deslize, sem perder a compostura, e perceber em sua sutileza o recado dado!

Abraços, Feliz Retorno!

Lord of Erewhon disse...

Budista com carta da OTO...? Lucifer se diverte imenso.

Zoe de Camaris disse...

É vero que a carta que antecedeu a lâmina de divulgação da O.T.O., foi O Louco, O Coringa, o brincalhão. Mas o que me soa mais importante aqui é o fato de ser a carta do Templo.

Anônimo disse...

Isso é ser profissional. bela! http://br.geocities.com/rotadotarot
Fábio Cezar

Tiago disse...

Seu texto me fez lembrar de um belo aforismo de Nietzsche do livro "A Gaia Ciência": "Providência pessoal – Existe, na vida, um certo ponto algo: ao atingi-lo corremos novamente, com toda a nossa liberdade, e por mais que tenhamos negado ao belo caos da existência toda razão boa e solícita, o grande perigo da servidão espiritual, e temos ainda a nossa mais dura prova a prestar. Pois é então que para nós se apresenta, com a mais insistente energia, a idéia de uma providência pessoal, tendo a seu favor o melhor advogado, a evidência, é então que vemos com nossos olhos que todas, todas as coisas que nos sucedem resultam constantemente no melhor possível. A vida de cada dia e cada hora parece não querer mais do que demonstrar sempre de novo essa tese; seja o que for, tempo bom ou ruim, a perda de um amigo, uma doença, uma calúnia, a carta que não chegou, a torção de um pé, a olhada numa loja, um argumento contrário, o ato de abrir um livro, um sonho, uma trapaça: imediatamente ou pouco depois tudo se revela como algo que "tinha de acontecer" – é algo de profundo sentido e utilidade justamente para nós! Haverá mais perigosa tentação a renunciar à fé nos deuses de Epicuro, esses indiferentes desconhecidos, e crer em alguma divindade zelosa e mesquinha, que conhece todo fio de cabelo de nossa cabeça e não repugna prestar os mais miseráveis serviços? Ora – quero dizer, apesar de tudo isso! -, vamos deixar em paz os deuses e também os prestativos gênios e satisfazer-nos com a suposição de que nossa própria habilidade prática e teórica em interpretar e arrumar os acontecimentos tenha atingido seu ponto alto. Tampouco vamos ter em bem alta conta essa destreza de nossa sabedoria, se por vezes nos surpreender muito a maravilhosa harmonia que surge de nosso instrumento: uma harmonia que soa bem demais para que ousemos atribuí-la a nós mesmos. De fato, aqui e ali alguém toca conosco – o querido acaso: ele eventualmente guia a nossa mão, e a mais sábia providência não poderia conceber música mais bela do que a que então consegue esta nossa tola mão." (NIETZSCHE. Gaia Ciência, livro IV, §277, pp.188-189. Tradução Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das letras, 2001).

Yuri Andreas disse...

Fantástica Experiência ! Obrigado por compartilhar...

Aproveito para convidá-la a ler o seguinte post de minha autoria:

Porque existem Três Magos no Tarot de Thoth?
http://ladoocultodaweb.blogspot.com/2009/08/porque-existem-tres-magos-no-tarot-de.html

Bjs,

Yuri

Alexsander disse...

Como é om voltaa ler Ze Camaris! Aora, cuidado, NÃO LEIA COM MODERAÇÃO - VICIE, pq não dá pra evitar! Amei o texto!!! cara, é legal, mt legal a gente compartilhar essas experiencias do outro lado da mesa e de forma tão leve! Zô, bejus! te adoro!