11 de março de 2011

Kamelia e a Borra do Café


Aí está o meu oráculo. Alguém se arrisca a interpretar?


O nome dela é Kamelia. Nasceu no Líbano, mas mora aqui perto da minha casa. Quem me indicou foi uma amiga de infância e como tenho uma verdadeira paixão sobre o poder de leitura de imagens fui conferir. Confesso que mais pela arte do que procurando previsões.

A verdade é que não tenho mais a curiosidade que tinha na consulta de oráculos. Leio o Tarot para mim muito raramente e quando Madame Zoe dá o ar de sua graça, o que não acontece sempre. Eu também tenho que marcar horário. E mais: preciso sair de mim para que a leitura seja correta. O risco de projeção é muito alto e a necessidade de isenção, enorme. Isso é paradoxal porque um tarólogo precisa conseguir interpretar seus arcanos. Então, uma vez ou outra, sento-me no consultório, medito, e em situação de paz interior lanço minhas cartas.

Quando a barra pesa e eu realmente preciso de uma leitura apurada, recorro aos meus colegas. Aí estão Alexsander e seu baralho Lenormand, a perícia de Alexey com os signos e planetas, a sabedoria de Marcelo "Kirtan" Bueno nos arcanos. Giancarlo, Vera. Meu querido amigo Wagner Piccinin. Ou então leio os sinais nas sincronicidades cotidianas ou pela Geomancia, minha arte secundária.

No entanto, a caminho da borra de café, eu sabia que algo diferente iria acontecer apesar da natural apreensão com a leitura de oráculos, apreensão essa que todo consulente deveria ter quando se trata de dar um poder momentâneo para que alguém rompa os véus que separam a nossa ilusão de passado presente e futuro. Por alguma razão eu sabia que seria legal. Mas Kamelia superou as minhas expectativas.

Peguei um taxi porque não queria me atrasar. Curiosamente a motorista era mulher. Comentei que ia para uma leitura de borra do café e os olhos da motorista brilharam através do espelho retrovisor. Na hora de passar o cartão a maquininha deu uma emperrada e vi Kamelia me esperando na porta (para se chegar na casa é preciso atravessar um longo jardim). Acenei para que me esperasse e reparei que a leitura já tinha começado.

Ela me recebeu na sala que rescendia a um perfume exótico. Uma sala simples. Seu filho sentado em torno da mesa parecia fazer contas ou estudar. Me sentei no sofá, a televisão estava ligada (vale a pena ver de novo!) e Kamelia foi preparar o café. Rapidamente me meti na cozinha porque queria ver a preparação tradicional ao modo árabe. Kamelia me mostrou tudo, tim tim por tim tim.

Sentamos na sala como fazem velhas amigas e tomamos o café. O rapaz desligou a televisão, Kamelia derrubou o que restava do pó de café do fundo da xícara em um guardanapo e fomos para um quarto ao lado.

Ela não sabia nada de mim, muito menos a minha profissão. Pediu-me que não falasse nada e com o óculos na ponta do nariz começou a sua inspirada e delicada leitura. A cada frase, a magia que faz com que o oráculo conte com uma história que desconhece me surpreendia. Ali estava o meu presente e cenas misturadas do passado e do futuro que iam sendo deslindadas pela interpretação das imagens no fundo da xícara, as linhas castanhas sobre o branco.

Não, eu não vou contar para vocês o que ela me disse porque isso não se faz. Mas foi um momento único na minha vida. Um momento de surpresa, conhecimento e magia. Nunca fiquei tão bem impressionada e olhem que, definitivamente, não sou marinheira de primeira viagem. A vida não havia até então me brindado com o café de uma sacerdotisa árabe e nessa hora, eu era só uma consulente atrapalhada, querendo interromper com meus desabafos a condução delicada de algo que suplanta o raciocínio comum (fica aqui a dica para consulentes matracas-tricas: aproveitem o oráculo e consultem uma psicóloga para outros fins).

Fechada a leitura, que por algum motivo durou mais que o tempo regulamentar, Kamelia me surpreendeu com outra de suas artes: a culinária. Sua magia estende-se pela alquimia dos alimentos. Para complementar a renda familiar, atende encomendas de grandes e pequenos jantares com as delícias orientais. Vi seus frascos de água de rosas, provei de seus quitutes (o chanclich e o zátar vocês não acreditam),  e ainda saí de lá com duas conservas: uma de coalhada, outra de beringela com amêndoas.

E olha... Eu vou voltar. Não só para encomendar gostosuras mas para dar continuidade às linhas de café que ainda não apareceram.

Kamelia foi um presente que falou do meu passado e do meu futuro. E parece que recuperei o meu gosto por oráculos. E por café com cardamomo.
















Zoe de Camaris
p.s.: se alguém quiser experimentar das artes da maga libanesa é só me mandar um email: zoedecamaris@gmail.com .



3 comentários:

Emanuel disse...

Quem é essa mulher de fartos cabelos cacheados

Heather disse...

brilliant, gorgeous, voluptuous story. xxxxx

Flávia Nagel disse...

Adorei! ela lê por email? rsrs