23 de setembro de 2014

O Tarot e a Arte de Imaginar

Jake Baddley/The Messenger



































O Tarot é um conjunto de imagens formado por 78 cartas que nos apresenta a junção de dois sistemas articulados. Os 22 Arcanos Maiores, intitulado de baralho filosófico; e os 56 Arcanos Menores, composto por quatro naipes de cartas numeradas de 1 (Ás) a 10, mais as Cartas da Corte - Rei, Rainha, Cavaleiro e Pajem.

Não se sabe quando os dois sistemas foram associados. O que se verifica, na prática, é que há uma interpenetração entre as duas estruturas, criando um grande leque de possibilidades combinatórias.

Há várias idéias para uma só imagem, o que obedece a um eixo paradigmático de interpretação, mas as várias imagens constituem também uma só idéia, um eixo sintagmático. E esse eixo sintagmático traduz um processo de desenvolvimento do imaginário humano, lido em uma escala composta por imagens motrizes, os Trunfos, e que revela um caminhar do inconsciente coletivo da humanidade assim como uma possível trajetória do desenvolvimento subjetivo e individual.

Mas o que importa mesmo é que o Tarot é um magnífico exemplo da arte de imaginar. Lâminas que condensam a matéria fluida da psique em um acordo poético que escapa à interpretação literal. A Imaginação resiste à Hermenêutica, como afirma Bachelard. E aí reside o poder do Tarot  - persistir pelo mistério. Seduzir por não se deixar agarrar facilmente. Depois de conhecida a estrutura, a gaiola, tenta-se capturar o passarinho. E dependendo da sua habilidade em caçar, ele até canta em suas mãos. Mas quando se vai colocá-lo na gaiola, desaparece no ar.

E assim funciona a imagem. Não se deixa capturar. É verdade que a lexicalização, ou seja, a tradução de imagens em palavras torna a imagem de certa forma dependente das palavras. O nome da coisa não é a coisa, mas como falar das coisas senão através palavra?

Podemos exprimir sim, o que sentimos com relação às imagens, animando-as. Ou criando outras imagens. Traduzindo-as no corpo, na dança, num canto. Envolvendo-se, ao invés de “interpretá-las”. Construir um olhar. Perceber que os limites que desenham o pássaro estão borradas, que é um pássaro vindo do mundo do devaneio e não pode ser agarrado com suas mãos físicas.

Restituir o Tarot a sua categoria de mistério e deixar um pouco de lado os manuais. Aproximar-se das cartas humildemente, ingenuamente.  Esquecer as redes de segurança, a razão. Não simplificar, pois a simplificação paralisa a imaginação. Deixar que as imagens apareçam, voem, voltem a parecer. Esquecer a forma. O que importa é a força contida em cada imagem.

Envolver-se para depois desenvolver. A imagem fala por si.

Creio que, cada vez mais, é necessário que o estudante e/ou praticante do Tarot se torne realmente sensível para as imagens subjetivas, antes de cair matando nos manuais. Não digerir de pronto as palavras dadas. Buscar as inferências, esquecer a prática cientificista na estante de livros.

O Tarot é uma Arte da Imaginação. E para enxergar sua alma é necessário abrir-se para a Alma do Mundo.


Zoe de Camaris

3 comentários:

edy disse...

amo você e seus textos, querida!

SoniaWeil21 disse...

Como é bonito o seu blog, Zoe!

Horóscopo do Dia disse...

De fato as imagens revelam muito sobre nós mesmos e outros aspectos de nossa alma. Sempre fico emocionada ao ver quão frágil sou.