3 de junho de 2026

 

RAINHA DE BASTÕES

 

Água do Fogo, chama líquida. Ela, decididamente, apaga fogo com gasolina. Sendo Rainha, traz em si a essência da Água, conhece a arte da moldagem. Desliza fácil. Sendo água-ígnea, escorre como a lava de vulcão — queimando em curvas pelas encostas tudo que vê pela frente. Sua palavra-chave é transformação, então, pode também aquietar-se. Menos brusca, é feito um rio que atrai reflexos do sol. Sempre irá brilhar, no claro e no escuro.

Ela revela o que sente, seus olhos são gemas transparentes. A verdade atirar-se para fora deles em forma de chamas. Mostra todas as cores do prisma e projeta seus raios em indefiníveis estruturas.  

Criativa, é o poder da mutação. Em situação passiva, é a força da visão. Se não consegue transformar aquilo que deseja, ela destrói.

Vou lhe dizer que é melhor mantê-la sempre feliz ao seu lado, caríssimo Viajante.

Uma figura do fogo é movida à paixão. E só descansa quando ela mesma se transforma, momentaneamente consumida. Mas não se engane – a brasa sempre estará acesa. E tornará a brilhar frente à delicada presença de uma folha seca. Às vezes, queima como brasa no palheiro, até ter seu fogo nutrido. E a partir daí, nada a segura.

Nunca a deixe sem ar, é muito triste ver o fogo extinguir-se. E seu mundo perderá o brilho por muito tempo. Você está ofuscado? Tem medo de desintegrar-se frente ao seu brilho? Então você não sabe o que é a paixão, caro amigo.

A Rainha do Fogo é única entre muitas, se destaca entre as águas mansas e as areias do deserto inóspito. Uma miragem. Você ficará sem fôlego ao vê-la. Sim, por momentos ela parece retirar o ar que você respira. E claro, é compreensível, isso dá medo. Mas não se engane! Ela só é intensa enquanto permanece. Pode esquecê-lo num piscar de olhos e arrebatar todos os olhares, rápida como uma fagulha, noutra freguesia. I’m so sorry.

Ela é mutável como a água e o fogo. Só que o fogo, essencialmente masculino, nunca para quieto. Não se contém. Ou você o alimenta, ou ele se apaga lentamente. Ela é fênix, o pássaro. Pode se recolher às suas águas mornas por um tempo, sua deliciosa cama de piscina. Mas sempre ressurgirá, passado o tempo necessário, vibrante e vitoriosa.

Enquanto seus olhos estiverem hipnotizados – e ela o perceberá sempre – a Dama do Fogo estará entregue. A Rainha de Bastões é a mais vaidosa de todas as soberanas do Tarot.

Nunca tentará estratagemas como uma Rainha de Espadas, nem chantagens requintadas de uma Rainha de Copas, não lhe oferecerá caldos em uma noite de inverno, como uma Rainha de Ouros. Mas exigirá sempre a sua admiração, Viajante. Afinal, ela é o centro das atenções.

No psicodrama das substâncias fundamentais, a Majestade dos Tronos do Fogo é a água ardente, a febre aquática. Suas melhores datas são o início da primavera, o auge do verão, o final do outono. Respectivamente, ela irrompe na primeira estação, individualiza-se na segunda, projeta-se na terceira. Pegou a manha? Aproveite a oportunidade oferecida.

Quando é movida pelo desejo, cria, muta, descobre. Quando acossada, ofusca-se e desintegra-se. Quando a Água predomina, é a Rainha da Ebulição, a face no espelho, a embriaguez do álcool. Quando o Fogo prevalece, é ducha de luz e miragem.

O Fogo é um evento caótico. Só pode ganhar forma através de uma força externa, humana. A Água se molda naturalmente. De difícil conjugação é o casamento destes dois elementos contrários, mas complementares.

As Mênades, companheiras de Dionísio, são Damas indomáveis de Bastões. Dançam tontas com sua vibrante energia. E da mesma forma que criam a loucura, padecem, se incorporam o próprio veneno. Uma Senhora do Fogo sem direção estará completamente perdida até que reencontre sua pequena água, seu oásis.

No Tarot de Mrs. Pamela Smith, vemos a Rainha de Paus no seu trono, decorado com leões talhados na pedra. À sua frente, em frente às suas pernas abertas, vemos o gato negro. Acontece, Viajante, que no jogo dos arcanos a Rainha de Paus encarna o arquétipo primordial da Bruxa. Não é a Feiticeira das Neves, tão associada com a frieza da Rainha de Espadas; nem as Sereias de Taças, donas da malemolência ondulante e do encanto; nem Baba Yaga, residência do naipe de Ouros, onde as avós da Terra preparam suas ervas e unguentos.

A Bruxa empunha o tirso, bastão envolto em ramos de videira e sobre seus cabelos de fogo escorrem ramos de hera. Bacante, seu giro é em torno de uma fogueira quando, magicamente, se muda em pantera.

Quem assistiu Cat People, cult movie dos anos 80, releitura de um clássico de 1942, viu Natassia Kinski em plena transformação. É um filme que gruda nas veias!

Para Barbara Walker, no seu Tarot bruxólico, ela é Hel, rainha do inferno pagão na mitologia nórdica. No espaço da Princesa de Paus, é também Atargátis, grande dama das terras do norte da Síria.

Indubitavelmente, na relação das Figuras da Corte com os Arcanos Maiores, ela está próxima da carta da Força, aquela que acaricia seu leão.

Sua imagem arquetípica associa-se à Mãe dos Dragões de Game of Thrones, Daenerys da Casa Targaryen, Primeira de seu nome, Nascida da tormenta, A não queimada, Quebradora das correntes, Mãe dos escravos, Khaleesi dos Dothraki, Rainha de Meereen, Rainha de Westeros, Dos Ândalos, Dos Roinares.

Ela é a Sekmet egípicia, a Kali indiana e Maria Madalena, figuras de força, criatividade e poder.

Mas nada, nada se compara à correlação da Rainha de Paus com Pele, a deusa havaiana dos vulcões e da dança, no confronto com sua irmã, Namakaohai, a temida deusa das águas.

Conta a lenda que Pele, natural do Tahiti, seduziu o marido de Namakaokahai, de nome Aukelenuiaiku. Tomada pela ira, a deusa das águas envia tsunamis e destrói a casa de Pele, passando a persegui-la por onde quer que fosse.

E assim começa o périplo da deusa dos vulcões. Todas as vezes em que encontrava uma ilha em que pudesse habitar, batia seu bastão na terra e criava uma cratera. Ali ela descansaria. Mas a fumaça a imediatamente a identificava e Namakaokahai, implacável, voltava ao seu encalço com suas ondas triunfantes.

Assim foi até que Pele encontrou a Ilha Grande do Havaí e as montanhas do Mauna Loa, altas demais para que a irmã a atingisse.

Do alto de sua fortaleza de basalto, mais precisamente do monte Kilauea, Pele guerreia.

Hoje, dia primeiro de junho de 2026, relembro que este texto está perigosamente calado num arquivo ao ver o Kilauea lançar seu fogo líquido assustadoramente vermelho contra o céu azul do Havai.

Mas o cenário descortinou-se diante dos meus olhos no dia vinte e nove de setembro de 2021, quando escrevia, coincidentemente, este artigo. Por quatrocentos e quarenta e um dias, o mundo assistiu ao espetáculo. Pele derrubou sua lava incandescente em forma de cascata sobre as águas azuis da irmã. Nuvens de vapor ácido subiam como bandeiras de guerra. A Beleza gosta de andar junto com o Perigo.

No espaço do encontro da lava com o mar temos a mais pura tradução da Rainha de Paus. Fogo e água fundidos. Se o eterno ciúme de Namakaohai gera as ondas do surf, a vingança de Pele eterniza o confronto na rocha. Seus cabelos são finas lâminas de vidro basáltico, os famosos Cabelos de Pele; fios dourados que o vento estira e que ferem a pele e as narinas dos moradores da ilha.

Seu rosto aparece estampado na fumaça do vulcão, há quem diga. O vapor delineia seu corpo em movimento. Mas há também arrependimento em toda fúria.

Suas lágrimas solidificadas são olivinas, pedras preciosas que tornam verdes as areias de Papakolea. Joias nascidas da dor. Mutável como a própria lava, Pele também caminha entre nós. Pode ser uma jovem de beleza estonteante, uma idosa pedindo carona na estrada deserta ou um cachorro branco que surge antes da erupção.

O aviso é dado: a Rainha continua desperta.


Zoe de Camaris

27 de abril de 2024

Como escolher um bom profissional de Tarot?

Algumas considerações sobre a prática do Tarot no Brasil, suas linhas de abordagem e sobre a escolha de um tarólogo que responda à sua demanda.

Reconheço três fases do desenvolvimento do Tarot no Brasil, a partir do momento que comecei a estudá-lo, em 1983.


1) Antes de 1980, o Tarot é visto exclusivamente como uma arte oracular. Seus praticantes, não raro, demonstravam vínculos com a Umbanda ou as cartas são deitadas por cartomantes sem ligação com religiosidades. Também são utilizadas para a prática divinatória as cartas do baralho comum ou o baralho de Mdm. Lenormand. Os estudos esotéricos estão relegados às escolas iniciáticas ou à ação autodidata;


2) O Tarot passa a ser mais conhecido pelo público após o boom esotérico dos anos 80. Antes dessa data, a maior parte dos estudos publicados no nosso país restringia-se a poucos livros e a bibliografia em língua estrangeira;


3) No fim dos anos 80, início dos anos 90, o Tarot começa a ser reconhecido como um instrumento auto-reflexivo, inciativa perpetrada, principalmente, pelos sanyasin, discípulos do Osho, que traduziam livros americanos e ingleses para suas oficinas. Essa iniciativa causa uma mudança necessária e bastante significativa para os estudos sobre o Tarot no Brasil. A bibliografia começa a aparecer, e acontecem alguns cursos isolados. 


4) Nos anos 2000, as listas do YahooGroups promovem boas discussões que continuam na época do Orkut e depois, no Facebook. As redes sociais facilitam encontros entre os praticantes e os mecanismos de tradução permitem que aqueles que não praticam línguas estrangeiras tenham acesso ao material publicado na Internet.


Para um tarólogo que faz dessa arte sua profissão, é sugerido que conheça as três vertentes do Tarot: a prática ocultista, a divinatória e a de auto-conhecimento.


A prática ocultista do Tarot é vinculada às escolas esotéricas, como a Golden Dawn, a Gnose, à Maçonaria. Seus autores mais conhecidos são Stanislas de Guaita, Eliphas Levi, Papus, Edward Waite e Aleister Crowley. São aventadas aí as relações do Tarot com a Astrologia, com a Geomancia, com a Cabala, o conhecimento profundo da carga dos números. Temos também a Alquimia, a riquíssima arte da transformação, com suas imagens estimulantes e etapas do processo alquímico. 


Na minha experiência me servi bem das estruturas propostas pelas ciências da magia. E aprecio bastante da linguagem cifrada, porque ela ativa meu entendimento e a minha imaginação. 



No Tarot de autoconhecimento são diversos os autores e comentadores que se apóiam nas contribuições da psicologia em geral, como a de viés analítico, a de Carl Gustave Jung. Procedimentos da PNL, Programação Neurolingüística, e técnicas de escuta ativa são algumas dentre inúmeras outras possibilidades de cruzamento.


Normalmente, quem gosta de Tarot também lê sobre Psicologia, e comigo não foi diferente. Alternava a leitura de tudo que me caia às mãos com os livros sobre Contos de Fadas e Mitologia, de autores como Marie-Louise von Franz, James Hillmann, Esther Harding. 



A prática divinatória é, ainda hoje, a que mais atrai consulentes desejosos em especular seu futuro. Há muito charlatanismo nessa facção – “trazemos seu amor de volta em um dia”, “com 3 mil reais à vista vamos resolver seu problema de impotência através das cartas”, entre outras coisas engraçadas mas se mantivermos os olhos abertos é possível perceber que a prática irresponsável e o abuso de poder também cercam o mundo “ocultista”, onde talvez, o perigo ainda seja maior. 


Outros aderem a uma espécie de pseudo prática de autoconhecimento e aconselhamento, nem sempre levada a cabo de forma efetiva. As leituras de Tarot costumas ser sazonais e a prática da Psicologia requer acompanhamento e suporte ao paciente, coisa para qual o tarólogo, grande parte das vezes, não está habilitado.


Bem, o que nos confere algumas certezas? Praticamente, quase nada. A escolha de um bom tarólogo ainda funciona bem pelo método antigo – a recomendação. No entanto, o que é bom para um pode não ser bom para o outro, o que pode acontecer com o atendimento médico ou com o encanador que fez maravilhas na casa de sua amiga e acaba estourando toda sua cozinha. Conclusão que nos leva novamente ao ponto de partida. 


Nas redes sociais é possível perceber, para um olhar mais atento, quem são os profissionais de leitura simbólica que levam sua profissão a sério. Observe se as postagens demonstram repertório em outras áreas de conhecimento e se existem registro de alguma leitura aberta ao público, onde você possa verificar se a forma dele/dela trabalhar faz sentido para você. O marketing selvagem, aquele que promete mundos e fundos, na minha forma de perceber, desmerece o profissional. Mas vai saber, né? Pode ser preconceito da minha parte. 


O que nos confere algumas certezas num terreno tão subjetivo como a prática tarológica?


Aventam alguns, a institucionalização da profissão de tarólogo. Outro problema. O Tarot está intrinsecamente ligado ao pensamento mágico, à poesia, ao oráculo. Como institucionalizar o trabalho de um analista de símbolos? Não é possível estabelecer um código de ética com uma prática que lida com o sorteio. Teria uma ética, o “acaso”? E se existisse, seria uma ética humana ou sobre-humana? 


O Tarot é uma arte da imaginação. E sem a carteirinha de tarólogo, homologada sabe-se lá por quem, seria caçada a cartomante que atende nos fundos de casa para completar a renda da família? Deixa a pessoa trabalhar em paz. 


O que validaria alguém que trabalha com o Tarot? Como escolher um tarólogo com alguma margem de acerto? Então vamos lá: 


Primeiro, que faça uso das cartas tradicionais, os 78 arcanos menores e maiores. Em segundo lugar, que conheça a iconografia pertinente e sua relação com outros sistemas de pensamento. Que seja uma pessoa culta, sim, já que a leitura do Tarot pressupõe algum trânsito pelo espírito do seu tempo. Que possua a prática necessária para poder cobrar pelo trabalho, assim como qualquer outro profissional.


Nós, os tarólogos, sabemos da importância crucial do poder imaginativo e da intuição. Que sem esse aparato do espírito, de nada adianta o conhecimento racional. E isso não pode ser medido – ainda não inventaram o intuitômetro. Olhar para as imagens com a perplexidade como que Arcano Zero olha para o mundo é fundamental para criar narrativas que contem, através de uma combinação inusitada, a história de alguém que você não conhece. E muitas vezes, uma senhora pertencente a uma família de baixa renda e, porventura, mal alfabetizada, pode nos dar dez a zero, pelo menos nesse quesito.

Então, o vale mesmo, é o que você deseja. Quer uma leitura divinatória, que aponte sem maiores responsabilidades os caminhos futuros mesmo que isso corresponda a escutar coisas desagradáveis? Procure alguém com este perfil. É o Império do Destino.


Deseja descobrir a razão de pesadelos e possíveis ataques astrais? Procure um tarólogo ocultista. É o Império da Magia.


Quer um trabalho mais moderno, que fale do seu presente e lhe mostre as tendências futuras, sempre lembrando das escolhas que estão em suas mãos? Procure um tarólogo ligado às terapias holísticas.  É o Império do livre-arbítrio.


Separei tudo em blocos para que o leitor possa ter uma breve ideia das linhas adotadas pelos tarólogos. Mas volto a afirmar: um bom tarólogo transita nas três, sem que você perceba. 



Boa sorte nas suas escolhas!



Zoe de Camaris

p.s.: Estou na plataforma de consultas do Personare. Se quiser consultar comigo, é só clicar aqui.

24 de abril de 2024

Queens and Sex and City




Aproveitando que a série voltou ao nosso imaginário em 2024 e já é uma das mais vistas na Netflix, recupero esse artigo de 2008. 

Curti Sex and City bem depois que tinha passado na TV. Um amigo me emprestou as 6 temporadas e, como eu estava de bobeira e a fim de perder tempo, resolvi saber do que se tratava. E gostei. Os diálogos são bem amarrados, as atrizes são divertidas, os temas bastante comuns a todas mulheres, solteiras ou não. O lado ruim é que quando você vai se vestir sempre acha o seu guarda-roupa um lixo, provavelmente porque é mesmo. O dia que a colunista de um jornal possa comprar todos aqueles sapatos caríssimos, teremos mais "Carries" no mundo. Obviamente, nenhuma das 4 amigas representa a de exatidão um arquétipo, o que é inumano. Todas elas guardam características de outras Rainhas. Mas em linhas gerais, se encaixam bem nas meninas da corte. Fica como curiosidade.

R A I N H A_ D E _P A U S


S a m a n t h a _ J o n e s


Água do Fogo. A Rainha de Paus é a mais quente e alegre de todas as Rainhas. A receptividade da Água, feminina, e a ação do Fogo, masculino. A ígnea dama conhece bem o seu poder pessoal e emana confiança. Carisma é o seu nome. Paixão, o que corre em suas veias feito lava de vulcão. E Samantha Jones é uma explosão, uma bombshell, sexo em estado puro. Femme Fatale de apetite voraz. Sua profissão? Relações Públicas! Dona de sua empresa e de um belo nariz arrebitado, exemplifica bem a independência da Rainha de Paus. E sabe ganhar dinheiro, coisa do naipe de Ouros. Samantha não se envolve afetivamente com seus parceiros. Para não se machucar usa todas estratégias possíveis de desvio. Eis sua linha de pensamento: -"O homem certo é uma ilusão, portanto vamos começar a viver nossa vida". E Samantha tem orgulho de ser como é. Quando interpelada por um desconhecido com a cantada de praxe "nos não nos conhecemos de algum lugar?", responde: -"É bem possível que já tenhamos transado." E a resposta não é a toa, já que sua marca nas 6 temporadas de Sex and City é de 42 transas - incluindo Maria, a artista plástica vivida no seriado por Sonia Braga. Suas cores são básicas - vermelho, amarelo, azul. A Rainha ferida de Samantha é a Rainha de Copas. E é com ela que terá que se deparar no final da série. Aceitar amar e ser amada.

R A I N H A_ D E_ C O P A S


C h a r l o t t e _Y o r k

Água da Água. A pureza feminina. Até o nome, Charlotte, parece de doce. A mais romântica, sonhadora e delicada das quatro amigas, é Rainha de Copas na cabeça. Sua palavra de ordem é tradição. O maior desejo é ter filhos, casar com um homem sério e destacar sua posição social. É uma marchand, trabalha com obras arte, mas isso nunca está em evidência e deixa de ser importante frente ao casamento. Com tendências compulsivo-obsessivas, guarda uma característica de Espadas. Charlotte gosta de tudo nos seus devidos lugares. Suas cores são leves, os vestidos clássicos e delicados. Sexo animal não é bem sua praia, é a mais "pudica" das quatro. No episódio quatro da segunda temporada, diz: - " Se gostamos do cara, que mal há em fingir um 'oh, oh'? É melhor que ficar sozinha." Apesar de ser a mais abastada financeiramente, creio que por herança de família, sua Rainha ferida é Ouros. Tem dificuldades para engravidar. No final das seis temporadas, Charlotte adota um bebê, dando vazão ao seu instinto maternal.

R A I N H A_ D E_ E S P A D A S

M i r a n d a_H o b b e s

Água do Ar. A Rainha de Espadas é mais inteligente, rápida e sarcástica de todas as Rainhas. E Miranda é tudo isso - advogada, graduada em Harvard, sócia da firma em que trabalha, batalha por suas idéias e é dona do apartamento em que mora. A melhor amiga de Carrie é a mais "jogo duro" das quatro. Sua posição em relações aos homens é bastante objetiva: -"Quem não é casado é gay ou divorciado. Ou vem do planeta 'não namore comigo". Quando não tem nenhum parceiro sexual, Miranda desconta comendo chocolates compulsivamente. Sua Rainha ferida é a de Paus - não é segura do seu poder de atração, do seu corpo, não acredita no seu sex-appeal: -"Sexy é um adjetivo que eu tento fazer com que eles vejam em mim depois que eu ganho a atenção deles com minha personalidade". No final da série Miranda tem um filho, se casa e deixa Manhattan pelo Brooklyn, bairro que detesta. Sua frieza é temperada pelo casamento.

R A I N H A_D E_ O U R O S

C a r r i e__B r a d s h a w

Água da Terra. A Rainha de Ouros traz em si todas as outras Rainhas. E na protagonista e narradora de Sex and City se encontram todas. Espadas, pela sua profissão - o Ar é o elemento da comunicação, do questionamento. É Paus porque exercita sua sexualidade sem maiores problemas e trabalha razoavelmente bem com sua imagem em evidência. É Copas, porque o amor lhe é caro e norteia sua vida e seu trabalho. Mas não é cínica como pode ser uma Rainha de Espadas, não é uma devoradora de homens como pode ser uma Rainha de Paus e nem é melosa e casadoira como uma Rainha de Copas. Portanto, Rainha de Ouros. Uma Rainha de Ouros com apartamento alugado mas que troca um jantar por uma Revista Vogue. Carrie equilibra as 4 Rainhas e sabe das coisas: - "Você pode tirar o garoto do Studio 54, mas não tira o Studio 54 do garoto". Carrie só perde a noção das coisas frente a um par de sapatos Manolo Blahnik.
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Agora, por força das circunstâncias, lá vou eu ver Sex and City, o filme. Será que Carrie fica mesmo sem o seu Big Man? Torcendo para que role qualquer outra história, porque acho ele um babaca. 

abraços,
Zoe

27 de março de 2023

A Braçada | 10 de Paus | Robert Frost




10 de Paus



A Braçada



Para cada pacote que me abaixo e apanho

Deixo cair outro dos meus braços e joelhos

Toda a pilha desliza, garrafas e biscoitos

Coisas difíceis de serem arrumadas

E nada que eu pudesse perder.

Com tudo que possuo para segurar, mãos e mente

E coração, se preciso, farei o possível

Para manter seu edifício equilibrado em meu peito

Vou me abaixando para evitar-lhe a queda;

E depois no meio deles todos eu me sento.

Tive que deixar cair tudo no caminho

E tentar arrumá-los de um jeito melhor.


Robert Frost 

tradução de Rogério Kalinowski




The Armful


For every parcel I stoop down to seize

I lose some other off my arms and knees,

And the whole pile is slipping, bottles, buns,

Extremes too hard to comprehend at. once

Yet nothing I should care to leave behind.

With all I have to hold with hand and mind

And heart, if need be, I will do my best.

To keep their building balanced at my breast.

I crouch down to prevent them as they fall;

Then sit down in the middle of them all.

I had to drop the armful in the road

And try to stack them in a better load.


Robert Frost 







12 de maio de 2018

Orgulho e Paixão



O Tarot na Novela das 6



Cecília Benedito e A Lua, de Zoe de Camaris para o GShow



Sendo o Tarot um produto da imaginação humana é natural ver sua ligação com o mundo do Cinema, da Poesia, da Literatura e das Artes Plásticas. É possível identificar facilmente a presença dos arcanos em obras de arte, assim como é possível ler uma história através das cartas. Você conseguiria, por exemplo, identificar quais são os arcanos maiores presentes em Romeu e Julieta? E poderia modular os acontecimentos com os arcanos menores e as personagens das cartas da corte? Tente! É instigante e divertido. Só recomendo que depois do estudo, anote suas impressões e recolha as cartas. Uma vez eu analisei Macbeth e deixei o Tarot aberto na mesa, para anotar no dia seguinte. A noite foi horrível, podem acreditar.

Algumas noções de roteirização podem ajudar no seu trabalho. Recomendo dois livros: Story, de Robert McKee e A Jornada do escritor, de Christopher Vogler. Se quiser se aprofundar no assunto, arrisque As estruturas antropológicas do imaginário, de Gilbert Durand. 

As relações entre o Tarot e as Artes sempre nortearam meu trabalho. Quando comecei a cursar minha especialização em Literatura e outros sistemas semióticos no ICHS-UFOP, riam de mim quando falava sobre o Tarot. Mas eu bati sem parar nas mesmas 78 teclas e acabaram me escutando. Me cansa enormemente quando encontro alguém que considero inteligente e percebo que despreza o Tarot, relacionando-o unicamente com a adivinhação. Não reconhecer sua linguagem ótica, imagética, e que sua estrutura perfeita nos entrega uma experiência incrível de analogias e correlações é de suma ignorância. Interessante que não adianta tentar explicar, a pessoa se fecha em copas e fim de assunto. E, normalmente, essas pessoas são escritores ou ligados de alguma forma à Literatura. Curioso, não? 

Ultimamente a vida não deixado que eu curta tanto quanto gostaria o meu assunto predileto. Fico torcendo para que alguém me encomende um trabalho, mas isso quase nunca acontece. O que as pessoas querem é mesmo saber se o amor de sua vida vai voltar. Certo, é uma pergunta lícita, mas cansa... Ainda mais quando temos na nossa frente uma miríade possibilidades quando se trata do Tarot. Pois bem. Estava eu aqui atrapalhada com meus afazeres quando recebi uma proposta do Personare: relacionar arcanos do Tarot às personagens da novela Orgulho e Paixão. Oba! Até porque as personagens da novela foram inspiradas em obras de Jane Austen. 

Como a sinopse das personagem era muito curta e também para escrever algo fidedigno, fui atrás de Orgulho e preconceito, Razão e sensibilidade, A abadia de Northanger, Emma, Mansfield Park e Lady Susan. Claro que não deu tempo de reler tudo. Consegui tirar algumas dúvidas com Raquel Sallaberry, especialista no assunto e que mantém um site sobre Jane Austen em português. Grata, Raquel!

Claro que os textos para o GShow precisam ser curtos e acessíveis e também precisei contar com o poder de previsão do enredo para acertar minhas escolhas, o que não foi muito difícil em se tratando de uma novela das 6 e tendo em mão os romances, sem querer tirar do autor da novela, Marcos Berstein, a liberdade de composição e as possíveis surpresas na trama. Hoje, assistindo a novela, faria algumas pequenas modificações. 

Também precisei lidar com o Tarot de Marselha, deck utilizado pelo Personare. Eu teria escolhido o Rider Waite ou o Sevenfold Mystery, de Robert Place. Inclusive, temos alguns Tarots inspirados diretamente na obra de Jane Austen que poderiam servir maravilhosamente bem ao propósito. O Marselha não é inspirador quando se trata dos arcanos menores. A corte tradicional, formada por Pajens, Cavaleiros, Rainhas e Reis, também não ajuda nem um pouco em uma novela onde o destaque pertence às personagens femininas. O estilo de Pamela Smith no Tarot Waite daria conta do recado, mas ainda assim eu teria 3 cartas da corte masculinas para 1 feminina. Sim, as cartas reais podem representar aspectos ditos femininos em homens e aspectos ditos masculinos em mulheres, mas vamos combinar que fica estranho em um trabalho que precisa impactar e destinado a quem não conhece intimamente o Tarot, associar um Cavaleiro, por exemplo, a uma moça do início do século XX. Então tive que me virar com as restrições. Aliás, restrições são portas abertas para a criatividade. 

Aí está o trabalho. Espero que gostem!


Zoe de Camaris






22 de abril de 2018

Cartas Difíceis


Algumas cartas de Tarot são reputadas como "difíceis". Negativo e positivo compõe todo grande arquétipo, mas há um grau maior ou menor grau de dificuldade em encarar determinadas cartas, em especial o Pendurado, a Morte, o Diabo, a Torre e a Lua (os tópicos com links vão te levar para alguns textos aqui do blog).

A Roda da Fortuna e O Julgamento, no meu entender, são caracteristicamente neutras. A Roda rola, movimento giratório na linha do tempo, O Julgamento é mudança de paradigma.

Meu artigo neste mês de abril de 2018 no Personare foca na presença das cartas difíceis em leituras para relacionamentos amorosos, mas alinhava seus efeitos também em outros assuntos. Veja lá se gosta! 

Zoe de Camaris

4 de outubro de 2017

A Sacerdotisa, com Nena Inoue


No espetáculo “Para não morrer”, Nena Inoue aciona o arquétipo da Grã-Sacerdotisa, arcano II do Tarot.
Nua, coberta apenas pelos cabelos que caem como um véu sobre seu corpo, cercada de jarras e copos d'água, o fundo escuro contrastando com o trono branco manchado de vermelho, eis que se apresenta a personagem concebida por Nena Inoue, como num altar. Da velha que fala pela boca torta, observa-se a mão direita livre, a esquerda crispada, as pernas afastadas em forma de pinça de caranguejo.
O texto, baseado em trechos do livro “Mulheres”, de Eduardo Galeano, dá voz a histórias de mulheres que lutaram pela liberdade. Mulheres caladas que precisam ter suas histórias contadas, “para não morrer”, para não caírem no esquecimento. Um discurso sobre o silêncio.
A Sacerdotisa no Tarot é o arquétipo do mistério feminino, daquilo que não pode ser compreendido com palavras. No entanto, traz um livro em seu colo. A personagem/entidade de Nena Inoue abre o livro e através de uma fala prejudicada pela idade ou por uma doença, dá voz a estas mulheres, a todas as mulheres, trazendo à tona os nossos silêncios engasgados.
As mulheres de Galeano sangram. E nós sangramos junto. No arcano II do Tarot dormem os enigmas da concepção, da menarca e da menopausa. A lua, uma pitonisa, uma silbila, uma bruxa. Sua voz é a voz da alma. Sua mensagem está além da lógica. Apesar dos cabelos cobrindo sua nudez, as pernas abertas da atriz remetem à Sheela Na Gui (celta) e à Gauri (indiana), deusas com o sexo escancarado. Na Sacerdotisa habitam, em potência, todas as deusas da fertilidade.
A água em diversos jarros e copos cercando o trono parece conter um desejo de espalhar-se. A personagem enche os copos mantendo a distância necessária para aludir à quedas d'água. Água ainda assim insuficiente para lavar o sangue da experiência feminina, uma dor que parece estar sempre atrelada a alguma forma de amor. Amor pela terra, pelos filhos, pelo homem.
As polaridades, que na carta da Sacerdotisa estão marcadas por duas colunas, na cena se deixam entrever pela mão esquerda crispada (lado receptivo) e pela mão direita livre (lado ativo). O feminino magoado está no lado esquerdo. E destrava-se pelo poder da expressão de sua mão direita.
A Velha ri. Mas suas histórias querem nos fazer chorar. Mandos e desmandos, assassinatos, estupros, raptos. E o aparecimento de Maria Bueno, aquela que virou santa, no meio da história. A moça degolada pelo seu “namorado”, o soldado Diniz, recebe velas e rosas vermelhas no Cemitério Municipal de Curitiba, beatificada pelo povo.
A Sacerdotisa no Tarot também é conhecida pelo título “A Papisa”. Eu poderia contar, por exemplo, a história Manfreda Visconti, eleita como a primeira Papisa da seita gugliemita e que, segundo seus seguidores, iniciaria uma era onde as mulheres seriam as representantes de Deus na terra. A Igreja rapidamente cortou as asas dos gugliemitas e queimou a irmã Manfreda em 1300, exatamente o ano em que a nova era teria início. Cem anos mais tarde a família Visconti encomendou o primeiro jogo de cartas de Tarot e dentre os seus trunfos, a carta de numero dois viria a ser chamada de “A Papisa”. Ou seja, a história do Tarot também está ligada a um sacrifício feminino.
São diversas as convergências iconográficas e de sentido entre a carta e a cena. Saí do teatro com a impressão que Nena havia bebido algo dessa imagem no planejamento visual e no trabalho de corpo. Mas ela me disse que não. Curioso. Realmente, se você quer escutar a Sacerdotisa do Tarot falando, ainda dá tempo de ver o espetáculo.
E já que estou aqui costurando similaridades, a parceria de direção da peça é com a preparadora vocal Babaya. Fica difícil não lembrar de Baba-Yaga, a bruxa do folclore eslavo. Mas antes que eu comece a viajar demais, que fique o mistério no seu lugar preferido. Que é permanecer no espaço do mistério e da reflexão.

Zoe de Camaris


P.S.: Além da idealizadora e atriz Nena Inoue, a peça tem parceria de direção de Babaya Morais, dramaturgia de Francisco Mallmann, iluminação de Beto Bruel, figurino de Carmen Jorge e trilha original de Jo Mistinguett.

Espaço Fantástico das Artes
Alameda Princesa Izabel, 465
de 13 a 22 de outubro de 2017
às 20h.

Pague quanto vale/ Vale quanto pesa!

Os ingressos para o espetáculo seguem a política do “Pague Quanto Vale”, no qual o espectador tem a possibilidade de decidir o valor que deseja pagar pelo ingresso da peça.