No sul do Brasil, aqui onde moro, é muito frio no início da primavera. Por causa das chuvas frequentes, a umidade soma-se ao ar gelado do inverno e nos maltrata. Quando o sol aparece, com ele vêm as flores e as amoras começam a madurar. Maravilhas, jasmins, ipês amarelos.
Já tenho quatro ninhos, até onde eu sei, ao redor da casa. As rolinhas estão acomodadas e um sabiá escolheu meu jardim de inverno (pouco usado, portanto, seguro) para fazer seu ninho sobre um antigo suporte de plantas. Estamos separados por uma porta de vidro com uma cortina muito leve; vou poder acompanhar discretamente o aninhamento dos ovinhos.
Em breve os cheiros vão mudar e os grilos começarão seu canto no fim da tarde. Mas por enquanto, está muito frio, o frio que se enfia nos ossos.
Se a Primavera é o início de tudo, equilíbrio de luz e sombra, o Inverno é a morte. Sem ultrapassar as noites longas, sem deixar ir o que já se foi, não há reinício. E as semanas que antecedem a estação da germinação pedem movimentos de limpeza.
É o tempo de comprar novas vassouras, de limpar atrás dos móveis, de doar o que ainda pode agasalhar alguém. De olhar aquela lista de decisões de Ano Novo que ficou na gaveta pra ver se algo dali ainda faz sentido. E se dá tempo de correr atrás do prejuízo.
Já notaram que tudo começa a se atropelar agora e que ninguém tem tempo pra nada?
É uma estação de correria, de libertação, de respiro profundo. Tempo de desejar novos amores, novos amigos, novas festas, outras paragens. E talvez tudo isso só ganhe forma no calor do verão, mas aí já é outra história.
O que a Morte tem a ver com a Primavera?
A primavera é a estação em que as cores voltam para a terra: o sol cresce, as flores brotam, os passarinhos arquitetam seus ninhos. A Terra comemora, se alegra, mas o ânimo mesmo, pra valer, só retorna depois das longas noites geladas. A natureza é cíclica, e o corpo, feito da mesma matéria, também é – ainda que seja fácil esquecer disso e cobrar de si um florescimento constante, sem nenhuma pausa.
Antes de poder brotar é preciso reconhecer o frio e o fim. Antes de brotar, é preciso preparar a terra, arrancar as ervas daninhas. E esse movimento é a dança da Morte no Tarot. Vamos chamá-la de O Jardineiro, pra variar.
Pensa no Jardineiro caminhando, como quem não quer nada, e dando de cara com um homem suspenso pelo pé. O Pendurado se balança de lá pra cá, com uma cara de tédio mortal. Não sabemos por que ele está lá, mas fica claro que ele não consegue se soltar da corda, corda que o prende numa trava, armada entre duas árvores. Será ele mesmo, uma árvore? Seus cabelos são como raízes. Se traçarmos uma linha na altura do pescoço, longitudinalmente, na sua imagem, vemos que a cabeça, como um bulbo, está abaixo da terra. Dizem que os humanos são árvores de cabeça para cima. Ou que as árvores são humanos de cabeça para baixo. Dizem.
O Jardineiro se compadece da situação vexatória. Talvez o homem esteja ali há muito tempo. E num gesto ágil de caridade, com a foice em punho, corta a corda que o ata.
Mas a Morte, ops, o Jardineiro, sempre leva consigo um pouco mais do que precisa. Caem alguns galhos da árvore. Os cabelos do Pendurado se soltam, cansados de pensamentos repetitivos. E é com estes galhos e com estes fios emaranhados que fazemos as novas vassouras, as vassouras que varrem o velho antes da entrada da Primavera. As vassouras que levam pra longe tudo que sobra, tudo que transborda, saindo pela culatra.
Antes que a primavera chegue é bom fazer a limpeza. E quem nos ajuda nessa missão ingrata de se desfazer daquilo a que temos apego, dentro e fora de nós, e também daquilo que escurece aos poucos embaixo da sola dos nossos sapatos, é a Temperança.
Ela com seus vasos alquímicos. Ela, que mescla o azul e o vermelho em um contínuo aquático que se mantém suspenso, sabe-se lá por qual tipo de imã. Ela, que lava as nossas almas antes da nova estação.
No baralho Smith-Waite um anjo de asas abertas traz sobre o peito o triângulo do Fogo. O coração pulsante. A carta reúne, numa só figura, os quatro elementos: a terra sob um dos pés, a água sob o outro, o ar nas asas, o fogo no centro do corpo, envolvido pela matéria.
A Temperança transmuta. Renova a vida. E habita o cenário que indica o caminho até o sol da primavera. As águas que levam embora os restos do sacrifício do homem Pendurado, cortados pela foice da Morte e devolvendo o corpo à sua própria mistura.
Este é o nosso momento. Prepare-se para a primavera.





















