RAINHA DE BASTÕES
Água do Fogo, chama
líquida. Ela, decididamente, apaga fogo com gasolina. Sendo Rainha, traz em si
a essência da Água, conhece a arte da moldagem. Desliza fácil. Sendo
água-ígnea, escorre como a lava de vulcão — queimando em curvas pelas encostas
tudo que vê pela frente. Sua palavra-chave é transformação, então, pode também
aquietar-se. Menos brusca, é feito um rio que atrai reflexos do sol. Sempre irá
brilhar, no claro e no escuro.
Ela revela o que sente,
seus olhos são gemas transparentes. A verdade atirar-se para fora deles em
forma de chamas. Mostra todas as cores do prisma e projeta seus raios em
indefiníveis estruturas.
Criativa, é o poder da
mutação. Em situação passiva, é a força da visão. Se não consegue transformar aquilo
que deseja, ela destrói.
Vou lhe dizer que é
melhor mantê-la sempre feliz ao seu lado, caríssimo Viajante.
Uma figura do fogo é
movida à paixão. E só descansa quando ela mesma se transforma, momentaneamente
consumida. Mas não se engane – a brasa sempre estará acesa. E tornará a brilhar
frente à delicada presença de uma folha seca. Às vezes, queima como brasa no
palheiro, até ter seu fogo nutrido. E a partir daí, nada a segura.
Nunca a deixe sem ar, é
muito triste ver o fogo extinguir-se. E seu mundo perderá o brilho por muito
tempo. Você está ofuscado? Tem medo de desintegrar-se frente ao seu brilho?
Então você não sabe o que é a paixão, caro amigo.
A Rainha do Fogo é única
entre muitas, se destaca entre as águas mansas e as areias do deserto inóspito.
Uma miragem. Você ficará sem fôlego ao vê-la. Sim, por momentos ela parece
retirar o ar que você respira. E claro, é compreensível, isso dá medo. Mas não
se engane! Ela só é intensa enquanto permanece. Pode esquecê-lo num piscar de
olhos e arrebatar todos os olhares, rápida como uma fagulha, noutra freguesia. I’m
so sorry.
Ela é mutável como a água
e o fogo. Só que o fogo, essencialmente masculino, nunca para quieto. Não se
contém. Ou você o alimenta, ou ele se apaga lentamente. Ela é fênix, o pássaro.
Pode se recolher às suas águas mornas por um tempo, sua deliciosa cama de
piscina. Mas sempre ressurgirá, passado o tempo necessário, vibrante e
vitoriosa.
Enquanto seus olhos
estiverem hipnotizados – e ela o perceberá sempre – a Dama do Fogo estará
entregue. A Rainha de Bastões é a mais vaidosa de todas as soberanas do Tarot.
Nunca tentará estratagemas
como uma Rainha de Espadas, nem chantagens requintadas de uma Rainha de Copas,
não lhe oferecerá caldos em uma noite de inverno, como uma Rainha de Ouros. Mas
exigirá sempre a sua admiração, Viajante. Afinal, ela é o centro das atenções.
No psicodrama das
substâncias fundamentais, a Majestade dos Tronos do Fogo é a água ardente, a
febre aquática. Suas melhores datas são o início da primavera, o auge do verão,
o final do outono. Respectivamente, ela irrompe na primeira estação,
individualiza-se na segunda, projeta-se na terceira. Pegou a manha? Aproveite a
oportunidade oferecida.
Quando é movida pelo
desejo, cria, muta, descobre. Quando acossada, ofusca-se e desintegra-se.
Quando a Água predomina, é a Rainha da Ebulição, a face no espelho, a embriaguez
do álcool. Quando o Fogo prevalece, é ducha de luz e miragem.
O Fogo é um evento caótico.
Só pode ganhar forma através de uma força externa, humana. A Água se molda
naturalmente. De difícil conjugação é o casamento destes dois elementos
contrários, mas complementares.
As Mênades, companheiras
de Dionísio, são Damas indomáveis de Bastões. Dançam tontas com sua vibrante
energia. E da mesma forma que criam a loucura, padecem, se incorporam o próprio
veneno. Uma Senhora do Fogo sem direção estará completamente perdida até que
reencontre sua pequena água, seu oásis.
No Tarot de Mrs. Pamela
Smith, vemos a Rainha de Paus no seu trono, decorado com leões talhados na
pedra. À sua frente, em frente às suas pernas abertas, vemos o gato negro.
Acontece, Viajante, que no jogo dos arcanos a Rainha de Paus encarna o
arquétipo primordial da Bruxa. Não é a Feiticeira das Neves, tão associada com
a frieza da Rainha de Espadas; nem as Sereias de Taças, donas da malemolência
ondulante e do encanto; nem Baba Yaga, residência do naipe de Ouros, onde as
avós da Terra preparam suas ervas e unguentos.
A Bruxa empunha o tirso,
bastão envolto em ramos de videira e sobre seus cabelos de fogo escorrem ramos
de hera. Bacante, seu giro é em torno de uma fogueira quando, magicamente, se
muda em pantera.
Quem assistiu Cat People,
cult movie dos anos 80, releitura de um clássico de 1942, viu Natassia
Kinski em plena transformação. É um filme que gruda nas veias!
Para Barbara Walker, no
seu Tarot bruxólico, ela é Hel, rainha do inferno pagão na mitologia nórdica.
No espaço da Princesa de Paus, é também Atargátis, grande dama das terras do
norte da Síria.
Indubitavelmente, na
relação das Figuras da Corte com os Arcanos Maiores, ela está próxima da carta da
Força, aquela que acaricia seu leão.
Sua imagem arquetípica
associa-se à Mãe dos Dragões de Game of Thrones, Daenerys da Casa
Targaryen, Primeira de seu nome, Nascida da tormenta, A não queimada,
Quebradora das correntes, Mãe dos escravos, Khaleesi dos Dothraki, Rainha de
Meereen, Rainha de Westeros, Dos Ândalos, Dos Roinares.
Ela é a Sekmet egípicia,
a Kali indiana e Maria Madalena, figuras de força, criatividade e poder.
Mas nada, nada se compara
à correlação da Rainha de Paus com Pele, a deusa havaiana dos vulcões e da
dança, no confronto com sua irmã, Namakaohai, a temida deusa das águas.
Conta a lenda que Pele,
natural do Tahiti, seduziu o marido de Namakaokahai, de nome Aukelenuiaiku. Tomada
pela ira, a deusa das águas envia tsunamis e destrói a casa de Pele, passando a
persegui-la por onde quer que fosse.
E assim começa o périplo
da deusa dos vulcões. Todas as vezes em que encontrava uma ilha em que pudesse
habitar, batia seu bastão na terra e criava uma cratera. Ali ela descansaria.
Mas a fumaça a imediatamente a identificava e Namakaokahai, implacável, voltava
ao seu encalço com suas ondas triunfantes.
Assim foi até que Pele
encontrou a Ilha Grande do Havaí e as montanhas do Mauna Loa, altas demais para
que a irmã a atingisse.
Do alto de sua fortaleza
de basalto, mais precisamente do monte Kilauea, Pele guerreia.
Hoje, dia primeiro de
junho de 2026, relembro que este texto está perigosamente calado num arquivo ao
ver o Kilauea lançar seu fogo líquido assustadoramente vermelho contra o céu
azul do Havai.
Mas o cenário
descortinou-se diante dos meus olhos no dia vinte e nove de setembro de 2021,
quando escrevia, coincidentemente, este artigo. Por quatrocentos e quarenta e
um dias, o mundo assistiu ao espetáculo. Pele derrubou sua lava incandescente
em forma de cascata sobre as águas azuis da irmã. Nuvens de vapor ácido subiam
como bandeiras de guerra. A Beleza gosta de andar junto com o Perigo.
No espaço do encontro da
lava com o mar temos a mais pura tradução da Rainha de Paus. Fogo e água
fundidos. Se o eterno ciúme de Namakaohai gera as ondas do surf, a vingança de
Pele eterniza o confronto na rocha. Seus cabelos são finas lâminas de vidro
basáltico, os famosos Cabelos de Pele; fios dourados que o vento
estira e que ferem a pele e as narinas dos moradores da ilha.
Seu rosto aparece
estampado na fumaça do vulcão, há quem diga. O vapor delineia seu corpo em
movimento. Mas há também arrependimento em toda fúria.
Suas lágrimas
solidificadas são olivinas, pedras preciosas que tornam verdes as areias de
Papakolea. Joias nascidas da dor. Mutável como a própria lava, Pele também caminha
entre nós. Pode ser uma jovem de beleza estonteante, uma idosa pedindo carona
na estrada deserta ou um cachorro branco que surge antes da erupção.
O aviso é dado: a Rainha continua
desperta.
Zoe de Camaris