17 de janeiro de 2009

O ANO DA FORÇA


__A Força - Tarot Nicholas Conver


O ano de 2009 é do arcano XI, A Força. No Tarot, é comumente representado pela figura de uma dama que envolve um leão. Não sabemos se ela o alimenta, o acaricia, abre ou fecha sua boca. Sabemos que os personagens da lâmina XI se mostram em um enigma cúmplice. O animal e a dama são retidos para sempre no emblema arquetípico que os representa. No momento em que foi eternizado o leão se mostra tomado pela força uma mulher. Ou seria um engano e a mulher estaria presa no olhar magnético do felino?

Conta-se que os grandes gatos têm poder hipnótico. Que o contato físico com o predador acontece em condições similares a um sonho de olhos abertos em um estado de privação prazeroso. O ser humano então, capturado pelos olhos do felino, não consegue reagir. O cérebro anestesia o corpo e se instaura uma cumplicidade entre presa e predador para que tudo acabe o mais rapidamente possível. Um entorpecimento dos sentidos, quase um prazer sensual toma conta da vítima – resta entregar-se.

Quem domina quem?

Não sabemos como a dama chegou até o animal, não sabemos o que vai acontecer em seguida. Ela soltará o leão e ele rodeará suas pernas como um gatinho? Ou ouviremos um rosnado, um esturro fatal mostrando a revolta do leão contra sua frágil domadora?

Para quem não assistiu, recomendo o filme “Roselyne et les lions” (1989), de Jean-Jacques Beineix. É possível ver a Dama da Força (e A Morte) em ação bem de pertinho (clique na imagem e veja o vídeo). A beleza de Isabelle Pasco é impressionante.





Uma mulher não domina um leão pela força bruta. Então, temos que pensar que tipo de força está em jogo, já que a ação contrária, o leão que domina a mulher, é mais plausível na vida real. Que é tão real quanto a vida simbólica, é bom não esquecer.

É o poder da suavidade que desarma o animal? Vejo delicadeza e pureza nos olhos da dama do Tarot marselhês, mas suas mãos me parecem bem fortes com a empunhadura cor de carne (no Tarot marselhês de Jean Payen). Seu pé também se mostra bem apoiado surgindo pela barra do vestido.

Será que a Dama da Força subjuga o leão pela sensualidade? Sim, a Dama é sensorial. Se não fosse, não conseguiria manter o bicho cativo.

Crowley a rebatiza, no Thot Tarot se chama “Lascívia”. E hipostasia a figura relevando ao máximo apenas um de seus aspectos: sua extrema sensualidade e a lida direta com o instinto.

__Lascívia - Thot Tarot

A Dama controla o leão através da inteligência? Seria a representação do confronto entre o poder da mente e a força bruta? Provavelmente. No Tarot de Marselha o chapéu da Força é a mesma leminiskata, símbolo do infinito, que cobre a cabeça do Mago - figura mercuriana por excelência.

Podemos dizer que a “namorada” do Mago no Tarot é a Dama da Força, também chamada de “A Feiticeira”, com muita propriedade.

E quando se fala do arcano XI, estamos pensando em quem? Na dama ou no animal? Sem dúvida representa os signos astrológicos de Virgem e Leão. A Força é o resultado da ação das duas figuras, intimamente ligadas.


Nos contos de fada, é “A Bela e a Fera”. No cinema,“King Kong”, o bruta gorila, rendido por Ann, uma bela loura. Ou Betty Ross, a namorada do “Hulk”, que o faz diminuir de tamanho, coisa que toda a armada norte americana unida não consegue.

Sim, porque ela também rende o leão através da beleza e do amor.

Tudo isso nos leva a pensar que ano de 2009 nos coloca frente a uma questão corriqueira, mas também muito interessante: o domínio das paixões. Somos vítimas da ação das paixões ou nos colocamos acima delas? O ideal será abrir a jaula e soltar as feras ou mantê-las cativas e alimentadas? Nem tanto ao céu, nem tanto à terra. Soltando as feras sentimos um grande alívio, mas prejudicamos quem está ao redor. Trancando a fera na jaula poupamos nossos amigos, companheiros e familiares, mas ficamos com um sapo (um leão?) preso na garganta.

Deixemos que a Força venha como uma grande lufada de vento. Respiremos sua energia brilhante - ela é nossa. Do momento que interagimos com a Força, assim como a Dama interage com o Leão, conseguimos absorver seu poder, integrá-lo ao nosso corpo. O leão nos alimenta. Nós alimentamos o Leão. E podemos assim, distribuir sua intensidade.

Essa solução serve para momentos de raiva, situações de crise, para momentos em que somos tomados por uma grande paixão e corremos o risco de tomar atitudes precipitadas.

A Força ensina que a energia apaixonada precisa ser distribuída dentro de nós, antes de qualquer outra ação. Precisa correr por nossas veias. Precisa ser vivida e devidamente emanada.

Depois dos rituais coletivos de Ano Novo, desejo que A Feiticeira propicie a todos nós uma conversa com a natureza de nossos leões, panteras, serpentes e pássaros internos, através da compreensão do magnetismo e do sentido de dignidade.

Que haja carinho, inteligência, coragem, soberania, vitalidade e muita motivação na hora da Domadora abrir a jaula.

Às nossas feras, um perfeito 2009.



Zoe de Camaris
artigo publicado originalmente na Revista Personare: www.personare.com.br

8 de janeiro de 2009

O Vestido



Hoje revi meu trabalho sobre Frida Kahlo. Escrevi (há uns bons posts atrás) uma interpretação de seus quadros sob a ótica do Tarot e foi um trabalho que me deu muito prazer. Fiquei um bom tempo olhando as reproduções, principalmente as que não havia analisado. Uma dentre elas me chamou mais atenção "O Meu vestido está ali pendurado" em que Frida pendura seu vestido tehuana em meio a uma simbologia diversa. Xeretei na rede e encontrei um artigo muito bacana.

Foi quando percebi que estava usando o meu indefectível vestido azul, antigo companheiro de dias de sol. Sabe aquele vestidinho gostoso, de malha geladinha, que há muito deixou de sair de casa? Pois é. Tenho carinho pelo meu vestido azul. Me cai muito bem. E não foi sem saudade que me lembrei da casa antiga e do dia em que pendurei-o para secar na varanda. Essas coisas bobas me deixam nostálgica. Coisinhas simples, corriqueiras mas que de repente, revestem-se de uma importância que não compreendo direito.

Parece que a cancerianas tem um apreço por vestidos pendurados. Frida também tinha. Só que danada arrasava...





Zoe

7 de janeiro de 2009

10 de Copas



Ontem tivemos um dia 10 de Copas, com direito a um lindo arco-íris no céu. Eu, meu marido e minha bebê curtimos a chuva e o sol, tiramos fotos e demos muita risada na frente da nossa casa nova. É sabido que o número 10 nos arcanos menores fala de uma culminação, uma totalidade cumprida e anuncia o próximo ciclo: hora de colocar a mão na massa. Se aqui está tudo bem, o momento é perfeito para aproveitar a maré e começar algo de novo. Pois então, aí está o AudioTarot, que espero converter rapidamente para ZoePodcast.
Espero que vocês suportem meu sotaque de curitibana...


abraço,

Zoe

16 de dezembro de 2008

A Favorita





Hoje acordei de cara. Sonhei que estava na casa de Gonçalo, da novela A Favorita. Eu esticava um fio da casa dele até a casa ocupada por Flora. O fio permitiria que as conversas entre Flora e Silverinha fossem gravadas. O movimento do meu inconsciente foi de revolta frente aos absurdos que fazem com que uma novela seja uma novela. Afinal, se a família Fontini tivesse tomado a simples providência de colocar uma escuta (simples uma ova, vocês não imaginam o trabalho que eu tive no sonho) as más intenções da vilã seriam descobertas antes de janeiro e a trama, interrompida.

Sonhar com novela é o ó. Meu inconsciente deve estar oco, não é possível. Prevendo a situação, um dia antes comecei a reler Kafka. Mais especificamente, "A Metamorfose". Nada como Kafka ou Proust quando a gente tá se sentindo meio burra.

Este seria o conselho da taróloga Cilene pra mim: "Criança, pare de assitir novela. Se agarre à Kafka. Senão, no próximo despertar você acordará virada numa barata".


Zoe

14 de dezembro de 2008

PERSONARE


A Revista Personare está no ar, sou uma das colaboradoras.

Vale a pena conferir o caprichoso trabalho da equipe.
Congratulações a todos!

Zoe


10 de dezembro de 2008

ERRAR PODE DAR CERTO


Recomecei a atender há poucos dias. E em uma das leituras aconteceu algo curioso. A consulente fez uma pergunta sobre a condução da sua vida espiritual. Saquei o Crowley da estante e o dispus numa arrumação por sete. Na sexta posição, “maior medo e maior desejo”, para minha surpresa e espanto da cliente, saiu uma das cartas extras de divulgação da O.T.O, Ordo Templi Orientis. Para quem não sabe, quando um tarot é impresso, via de regra, possui 80 cartas. 78 Arcanos, maiores e menores, mais duas lâminas que contém a marca pessoal do autor do deck e geralmente a propaganda da editora que o imprimiu.

Putz, pensei. Mas rapidamente lembrei que tudo o que acontece do momento em que o consulente entra no seu consultório faz parte da questão principal e da resposta. É uma carta que cai no chão, a forma que o consulente embaralha e escolhe as cartas e também, em um leque possível de ocorrências, o tarólogo que, distraído, não tomou o devido cuidado de conferir seu baralho. Meu caso, nesse dia.

Nem vou perder tempo dizendo que a vida de uma recém mamãe de um recém nascido é muito atribulada. Que você, como sempre, pensa em todos os detalhes, mas que nunca é perfeita. E que o destino, na casa de uma taróloga, sempre acena com suas contribuições, nem sempre facilmente decodificáveis.

Lembro-me de um amigo falando sobre o oráculo de Mercúrio. Sabem como funciona? Você está andando na rua pensando naquela questão para qual não há uma solução fácil quando duas ou mais pessoas passam conversando e você escuta uma palavra, uma frase que revela o vaticínio: a palavra "arrisque", por exemplo. Cai como uma luva. Responde a questão.

O mundo é oracular para quem sabe ou tenta lê-lo. É a Macro Geomancia. O vôo dos pássaros, uma folha que cai, uma porta que bate. Uma carta que não deveria estar no maço.

Interessante que a pergunta da minha consulente se referisse à vida espiritual. Ela é budista. Queria saber se estava dedicando tempo suficiente à prática. Se deveria cortar impulsos da sua vida mundana. Se poderia, um dia, morar no templo. Boba seria eu se não tivesse aproveitado o recado contido na lâmina que traz a simbologia da Ordo Templi Orientis.

Errar pode dar certo.
É bom não esquecer este ensinamento.


Zoe

21 de novembro de 2008

A RODA DA FORTUNA




O homem que disse "prefiro ter sorte a ser bom" entendeu o sentido da vida. As pessoas temem ver como grande parte da vida depende da sorte. É assustador pensar que boa parte dela foge do nosso controle. Há momentos em que a bola bate no topo da rede e por um segundo ela pode ir para ao outro lado e voltar. Com sorte, ela cai do outro lado e você ganha. Ou talvez não caia e você perca.


Woody Allen
in Match Point

11 de outubro de 2008

Canção de uma gueixa anônima


Ferenc Pinter / Anima Mundi

Tu e eu vivemos no interior de um ovo
e eu, eu sou a clara
envolvo-te e embalo-te dentro do meu corpo.

20 de junho de 2008

Bruxursinha



Dorme em paz, Bru. Você não me deixou outra opção se não dizer "té té" no fim. Mas juro que é a última vez.


Com Amor,
Zoe

23 de abril de 2008

ERRATA

A ordem dos arcanos O Mundo e O Louco no post anterior não está inversa mas sim na ordem normal.

10 de abril de 2008

Caso Isabella



Mistérios sempre deixam pulgas atrás da orelha. Não costumo fazer especulações sobre casos de domínio público, mas dessa vez a curiosidade venceu. Perguntaram na TV porque este crime mobilizou o País. Pensar que um pai possa matar desta forma sua filha... Mas sobre "comoção", quero falar num artigo posterior. Agora, aí está a minha leitura.

Perguntei o que as cartas tinham a dizer sobre a morte de Isabella. Lancei um Péladan com os arcanos maiores cobertos pelos menores.

A favor do crime, na posição esquerda, O Imperador, o "Pai do Tarot" em combinação com o Cavaleiro de Espadas - nervoso, frio, insensível, vingativo, objetivo. Contra, A Imperatriz, a nossa direita. Primeiro, o IV, depois o III. Ordem inversa. No Tarot marselhês, o Imperador estaria de costas para a Imperatriz sendo que esta olha para a direita. No Waite, a Imperatriz também lhe dá as costas, de onde é possível concluir que este casal, além de ocupar postos antagônicos não está em situação harmônica, pelo contrário.

Ao arcano III, segue o 3 de espadas, carta da dor, do coração partido. Alguns comentadores do Tarot dizem que essa dor pode ser causada por um triângulo amoroso e no caso Isabella isso parece claro. A primeira parelha de maiores e menores mostra um homem decidido e uma mulher com o plano mental comprometido pela emoção.

No espaço reservado para a discussão da questão proposta, o topo da cruz, vemos O Mundo seguido do 5 de paus, a carta da Luta. A lâmina que coroa o Tarot, arcano XXI, nos fala sobre conclusão, fechamento. Mostra uma mulher, uma dançarina, dentro de um "ovo" (o têmeno sagrado). É uma imagem de arrebatamento, de êxtase, que tanto pode nos mostrar uma atitude ativa, ao espraiar sua energia pulsante, como nos apontar uma ação passiva, de recebimento. Buscando semelhanças iconográficas entre o crime e a carta, temos a tela de proteção da janela, cortada em formato oval.

Abaixo, no pé da cruz, temos O Louco seguido do 5 de copas, a carta da Decepção. A visão do tarólogo Alejandro Jodorowsky sobre a parelha 0/XXI é bastante esclarecedora, já que considera essencial a ordem das cartas. Assim como o par Imperador/Imperatriz está fora da ordem (4-3), o par Mundo/Louco (21-0), também está. Nesse caso, a carta do Mundo mostra uma energia encerrada, que nada realiza. Uma prisão, um começo difícil, um "parto" que não vai bem. A mulher olha para um passado vazio, sem futuro. Há uma obsessão pelo passado e nenhum impulso em buscar o seu futuro em algum outro lugar. A mulher aqui representa algo demasiado grande para o homem. Assim vista, a carta do Mundo, seguida pela carta da Luta, se esclarece. Uma situação limite que não parece ter saída e uma briga, uma discussão. O Louco e 5 de copas, na posição que soluciona a questão, mostra o ato insano, inconsequente, seguido imediatamente pelo arrependimento e pesar, a reação emocional à perda.

No centro da cruz, mostrando a síntese da pergunta feita, está A Estrela e A Rainha de Espadas. O destino da mulher é estar separada do homem. Novamente a mulher/Rainha de Espadas dá as costas ao homem/Imperador/Cavaleiro de Espadas. E volta-se em direção à Imperatriz. Curiosamente, o triângulo está formado na linha horizontal, já que o caso envolve o pai, a madrasta e a mãe.

Cabe perguntar aqui: seria a mulher representada pela Rainha de Espadas, a mesma mulher representada pela Imperatriz? Estaria A Imperatriz indicando a maternidade e/ou a mãe de Isabella com o coração partido? Seria, indo pelo caminho mais fácil, a Rainha de Espadas a madrasta malvada, montando o triângulo fatal na linha horizontal? Mas nesse caso, o que representaria A Estrela, carta da inocência e da liberdade, sintetizando a questão? A criança, a inocente? Quem é o culpado? Mal dignificada a Estrela nos fala de arrogância, compactua com a insensatez do Louco, aponta para a leviandade.

Tenho a impressão que as coisas se desenrolaram sem planejamento (O Louco e A Estrela) embora a idéia já estivesse plantada na mente da cada um (Cavaleiro de Espadas, Rainha de Espadas).

Parece-me claro, como a quase todos aqueles que estão seguindo as notícias sobre o caso, que se trata de um assassinato movido por uma questão passional. O Tarot confirma a questão. No mais, por ora, tudo é conjectura.


Zoe de Camaris

21 de fevereiro de 2008

A RODA


The Wheel of a Fortune by Degare



Habito numa roda.
Dou-me conta disso
segundo as árvores.
Sempre que olho pela janela
vejo-as:
quando, as folhas no céu,
quando, as folhas na terra.


E segundo os pássaros,
que voam
com uma asa para o sul
e com uma asa para o norte.


E segundo o sol,
que me nasce
hoje no olho esquerdo,
amanhã no direito.


E segundo eu,
que ora sou,
ora não sou mais.


Marin Sorescu

13 de fevereiro de 2008

De Copas para o Mundo


Etruscan Tarot
Sempre tive dificuldades com a Rainha de Ouros, porque não a conhecia. Como vocês sabem, ela é o resultado da integração da Rainha de Bastões (Paus), Taças (Copas) e Gládios (Espadas). É Ouros que se faz ver no mundo físico. Sou, essencialmente, Copas. Bate primeiro na emoção ou então não funciona. Os sentimentos acionam Espadas, preciso escrever sobre o que sinto. Então afio minhas lâminas.


Bastões é minha persona. Minha máscara é solar, acesa, intensa. Mas trabalhar a Rainha de Bastões é beeeeem diferente do que aparentá-la. Por fora é rubi, por dentro é prata.


Pois bem. Em torno de agosto de 2007, a Rainha de Bastões chegou valendo. A sensação era a de estar tomada. De dentro pra fora, de fora pra dentro. As Espadas imediatamente arrefeceram, o que me assustou bastante. Como ficar sem escrever? Esquecer meus livros, os estudos, as anotações ao pé das páginas, a rotina? Bachelard, a imaginação? Você está tomada. Corri no homeopata. Tomei phosphorus e fosfosol. Geléia real. Mas geléia foi o que virou minha cabeça. Demorei para me conformar, confortando-me com a fala de meu amigo Alexsander: - Calma, pantera. Você está vivendo outro momento, colhendo experiências."Cê já volta".

Não tenho como escrever no piloto automático. Como disse, sou de Copas. Só escrevo se sinto. Mas sentia e sentia muito. Só não atingia a magia que opera percepções em palavras. A libido escorregou todinha para outro lugar. Aí alguém pode me perguntar, mas e os textos técnicos? Sim, preciso uma fisgada no coração. Ou não acontece nada que possa transmutar-se em pensamentos, algo que me sustente. Algo que se sustente. Assim, depois de meses em debate com a ausência repentina da Rainha de Espadas, resolvi relaxar e deixar então que a Senhora de Bastões dissesse ao que veio. E ela me disse. Se disse.


A vida ficou mais intensa. As artérias começaram a pulsar de outra forma. A tal Mulher Selvagem da Clarissa Pinkola Estés. Não foi dificil começar a enxergar no escuro mesmo com todo astigmatismo. Potnia Therion na linha. Vibrações diferentes. Semi-tons que eu nunca tinha vivido. Arrepios. Nossa Senhora. Cada poro foi acionado. Os perfumes ficaram mais fortes, as cores idem. O paladar apurado anunciava que a mais poderosa das Rainhas me espiava, detrás de alguma montanha.


Gradativamente, a Senhora de Ouros se aproximou como quem não quer nada. Devagarinho, para não assustar. Mesmo mãe de duas filhas, Deméter nunca foi minha praia. Essa coisa de excesso de vegetação. De opulência. Resisto. Minha saida para Deméter sempre foi Perséfone, a Virgem, aquela amiguinha de Plutão. Mas maturidade é um fato, mesmo com a resistência moleca - chega uma hora, olha-se a palmatória. Mesmo que você não dê sua mão a ela. Ou foi ela que não lhe deu a mão?


O ápice rolou numa trilha, o (inumano) Caminho do Itupava. Copas reclamou, Espadas torceu o nariz (mesmo!), mas a força de Bastões estava lá. E a Rainha de Ouros foi trilhando ao meu lado sobre as pedras, atenta a cada passo, a cada poça de lama, a cada flor. Yellow brick road com brilhantinhos para o meu amor. Terra. E fui recompensada por um banho de cachoeira onde não havia mais nenhuma Rainha.


Só eu mesma. E a água.




Zoe
p.s.: se alguém disser que o pensamento é o que aciona o sentimento, eu posso concordar. posso aceitar também que é necessário uma fagulha para acender o coração. mas em se tratando de palavras, pra mim é diferente.

28 de dezembro de 2007

Boas festas?



Ano Novo não existe. Se existir é em Março. No entanto, as convenções funcionam e todo mundo passa a comemorar - parece ser o que basta.

31 de dezembro é o começo do fim.

90 dias é Tempo para preparar a guinada marciana, a entrada do belo espírito de ferro, o filho de uma flor.


Mars, só em Março. Beleza e Perigo.
Fogo no London Eye.

Quando começa o seu ano? Em que parte da Roda está?
Reina, reinou, reinará ou não tem Reino?
Em cima, abaixo, ao lado...

Burlamos o giro para vencer o destino.
Mas a ousadia só é uma virtude quando se conhece a coreografia.

Meu voto de Revirada é que você tome o seu lugar na Roda.
Que a Fortuna lhe sorteie a coragem sensata. Força e Inteligência.
Como nunca, vencerão os melhores. No olho da tempestade.



Divinatrix

29 de novembro de 2007

Fellini, Buñuel, Dali e Cocteau que me desculpem - Jodorowsky é supra-surreal. Nunca vi nada parecido no cinema. E hoje, além de curtir, "El Topo", rola a SoberbaCaravanaTropoMitológica do Tarot no Rio, Centro Cultural Banco do Brasil. Comemorando o Jodô na área, uma palestra e um documentário sobre o Tarot, e o aniversário de Alexsander Lenormando. YES!


SANTA SANGRE:



A MONTANHA SAGRADA:

25 de novembro de 2007

Um Dado sobre o Grão



Ovos. Perfeito quando se vê o inscrito ao invés do escrito. Ou quando se lê a cor da página antes do código. A arte da memória, uma mera recordação da verdade?

O implícito, a gélida mão sobre o livro, a Sibila. Resignação. O Sagrado prevê sacrifício. O olho que aceite o que vê.

A cabeça de colméia só vira mel e natureza quando nasce Imperatriz.

Há um azul na reconstrução do Tarot de Marseille que me agrada, fosforecente que é. As cartas ficam acordadinhas, céleres. Contrapõe-se ao ocre medieval de Jean Payen a que estou acostumada.

Jodorowsky explicita, lá com o hospitaleiro Camoin, a Grã-Sacerdotisa. E vai da habilidade do desenhista e do tarólogo em concerto concluir que só o aparente é possível e que aqui há de se ocultar a saga, o signo.

O Grão é feito Véu, proposto inconteste.
Quanto mais transparente, melhor. Lady Frieda Harris o fez com precisão milimétrica.

É assim que eu a chamo e vejo: Grã-Sacerdotisa.

Nem Papisa, nem só Sacerdotisa.
Um Germe, um Ovo antes ainda.
Um Grão.

É a mulher refeita do Arcano XXI. O Mundo, A Suprema-Bailarina. Outra, e assim mesmo, a mesma. Há muito da Estrela e da Força, da Temperança na Moça. Aquela que sabe ser Velha.

Um pouco de todas as Rainhas no Arcano II. O Reino de de Copas, o músculo da água.
A Gênese do que sempre esteve.

E há o ovo.



Zoe

Se seus olhos ainda não viram, a Reconstrução do Tarot de Marseille.

23 de novembro de 2007

A Taróloga e seu Amante


Jodorowski aos 19 anos


Conta Alejandro Jodorowsky que quando era jovem, em Santiago do Chile, conheceu no Parque Florestal uma francesa de 60 anos chamada Marie Lefèvre. Marie tinha um amante de 18 anos, Nene. Era uma mulher pobre mas mantinha sempre, fervendo, uma sopa feita dos restos de comida que recebia em troca de leituras de tarot nos restaurantes vizinhos.

Enquanto seu namorado dormia nu, Marie servia para Alejandro e seus amigos o magma escaldante. E depois, sobre o ventre de Nene, que trazia sobre a virilha uma cinta de rosas escondendo seu sexo, Marie lia gratuitamente o Tarot.

Diz Jodorowsky que esse exemplo de amor, poesia e generosidade marcou sua relação com o Tarot para sempre.

E que os deuses aplaudam Marie Lefèvre...

Zoe

22 de novembro de 2007

JODOROWSKY NO BRASIL



One man show. Expressão perfeita para Alejandro Jodorowsky - cineasta, roteirista de HQ, tarólogo, ator, escritor, poeta. E psicomago, seja lá do que se trate. Material na rede para pesquisar não falta mas estou a fim de conferir ao vivo o Festival que já começou no Rio de Janeiro e depois segue para São Paulo e Brasília. Imperdível. Para os amantes de cinema, de quadrinhos e claro, de Tarot.

Confira:


Zoe

6 de novembro de 2007

SONHO DE CONSUMO



Fico só imaginando: sair de Curitiba, seguir para SP pegar o Alexey (será que a Erika topa?) rumo a Jaboticabal sequestrar o Leo Chioda. No Rio, um mega alô para o Ivanovitch que não conheço, mais 78 figurinhas lingüísticas com Nei somado a um belo almoço com música na orla. No fim da tarde juntar o Alexsander de surpresa e depois subir rápido para Petrópolis girando todos os amigos com o Gian e curtindo um friozinho na Serra.

Bacana a Vera junto - significa fumar em paz e a companhia feminina do pão-de- queijo, mais tricot & tarot básico. Eia, todas as Veras! Quem pode com elas? Tudo lá fora e também O Mundo, tão pertinho.

Aí todos nós, digo a moçada toda, a SoberbaCaravanaTropoMitológica, talvez quiçá à quatro e quimera às raias do Nordeste - mais precisamente em Campina Grande do Sul, estaríamos felizes e, portanto, trupe em grande estilo.

Depois de muito sol e poeira, o respiro prometido em Natal - banho de piscina, cheiro azul de mar e palpitar tarots e decks com a Sônia. Sonhar é permitido. Pedras Negras e fim o da tarde. A viagem continua, e dessa vez, sabe-se lá pra onde.

Quem puxa O Carro?

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Caravana Holiday

The Tarot Tour

07/08

coming soon
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Zoe

p.s.: a foto é um achado do Leo, pesquisa também merece crédito. A chamada para a Caravana parte do mesmo BatCanal.

20 de setembro de 2007

A TORRE DE PLATH



A Casa de Deus, A Torre Abatida pelo Raio, ou simplesmente A Torre. Terrível arcano XVI. Terrível sim, porque poucos querem se desiludir. Poucos querem deixar de acreditar que as velhas formas de lidar com a vida já deram o que tinham que dar. Dizem que o Diabo revela uma prisão do instinto. Pois a Torre revela uma prisão do intelecto. Normas internas, construções mentais, uma arcabouço de procedimentos cravados na memória, o moto-contínuo dos gestos viciados. E aí, zaz-traz! lá vem o raio. Joga você no chão e você levanta, juntando os destroços e colocando a culpa no relógio, no outro, na fome, na falta. Ou então o raio ilumina. E como um xamã, você retorna "outro" para a vida. Ou seja, você mesmo. Como era antes. Mas aí já é A Estrela.

Silvia Plath, poeta americana, parece ter usado leit-motivs do Tarot em diversos poemas. É uma especulação. Mas basta ler seus poemas. Silvia lia o Tarot ou o Tarot estava em Silvia Plath?

Zoe


CANÇÃO DE AMOR DA JOVEM LOUCA



Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro
Ergo as pálpebras e tudo volta a renascer
(Acho que te criei no interior da minha mente)

Saem valsando as estrelas, vermelhas e azuis,
Entra a galope a arbitrária escuridão:
Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro.

Enfeitiçaste-me, em sonhos, para a cama,
Cantaste-me para a loucura; beijaste-me para a insanidade.
(Acho que te criei no interior de minha mente)

Tomba Deus das alturas; abranda-se o fogo do inferno:
Retiram-se os serafins e os homens de Satã:
Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro.

Imaginei que voltarias como prometeste
Envelheço, porém, e esqueço-me do teu nome.
(Acho que te criei no interior de minha mente)

Deveria, em teu lugar, ter amado um falcão
Pelo menos, com a primavera, retornam com estrondo
Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro:
(Acho que te criei no interior de minha mente.)



Silvia Plath
tradução de Maria Luíza Nogueira
in A REDOMA DE VIDRO

21 de agosto de 2007

FIGOS




"...Vi minha vida se desenrolar diante de mim como uma figueira de um conto que havia lido. Da ponta de cada ramo, um gordo figo roxo acenava e me seduzia com um futuro maravilhoso. Um figo significava um marido e um lar feliz com filhos, outro era uma poetisa famosa, outro uma professora, outro era Esther Greenwood, a surpreendente editora, outro era a Europa, a África e a América do Sul, outro Constantin e Sócrates e Átila, um bando de amantes com nomes esquisitos e profissões originais, outro ainda era uma campeã olímpica, e acima de todos esses figos havia muitos outros que eu não conseguia entender. Vi-me sentada sob essa figueira, morrendo de fome, só porque não conseguia decidir qual figo escolheria. Queria-os todos, e escolher um siginificava perder o resto. Incapaz de me decidir, os figos começavam a murchar e apodrecer, e um a um caiam no chão a meus pés..."


Sylvia Plath
A Redoma de Vidro

13 de agosto de 2007


AS SETE FACES DO DR. LAO
Charles Finney

(no qual a senhora Cassan, cidadã do município de Abalone, vai ao encontro de Apolônio de Tiana)

Uma viúva, a senhora Howard T. Cassan, leu o anúncio do circo do dr. Lao às dez e quinze. "...haverá um adivinho... protegido pelo véu do mistério... profecias invariavelmente exatas..." A senhora Cassan estava sempre à procura de videntes. Quando não havia nenhum ela mesma deitava cartas ou fazia sessões mediúnicas com um copo virado de cabeça para baixo. Havia pedido que lhe lessem a sorte tantas vezes que a fim de cumprir todas as previsões ela teria de viver mais noventa e sete anos e conhecer e enfeitiçar todo um regimento de homens altos e morenos. – Vou lá perguntar a esse homem... vamos ver... é, vou lá perguntar a ele sobre aquele poço de petróleo com que sonhei – disse consigo a senhora Howard T. Cassan.

(...)

A viúva Howard T. Cassan chegou ao circo com seu frívolo vestido marrom e seus sapatos baixos e encaminhou-se diretamente para a tenda do vidente. Pagou a entrada e sentou-se para escutar seu futuro. Apolônio de Tiana avisou-a de que ela ficaria desapontada.

- Não hei de ficar, se o senhor me disser a verdade – disse a senhora Cassan. – O que desejo saber, antes de mais nada, é quando vai jorrar petróleo naquele meu alqueire no Novo México.

- Nunca – respondeu o vidente.

- Bem... então, quando vou me casar outra vez?

- Nunca.

- Muito bem. Que espécie de homem vai surgir em minha vida?

- Não haverá mais homens em sua vida – disse o vidente.

- Bem, então do que me adianta viver, se não vou ficar rica, não vou me casar outra vez, nem vou conhecer novos homens?

- Não sei – confessou o profeta – Só leio o futuro. Não o julgo.

- Bem, eu paguei. Leia meu futuro.

Apolônio leu:

- Amanhã será como ontem e depois de amanhã como anteontem – disse Apolônio. – Vejo o resto dos seus dias como uma tediosa coleção de horas. A senhora não viajará a nenhum lugar. Não terá pensamentos novos. Não experimentará nenhuma nova paixão. Sua idade aumentará, mas não sua sabedoria. Crescerá seu formalismo, mas não sua dignidade. A senhora não tem na juventude, daquela curiosa simplicidade que no passado atraiu alguns homens, nada resta, nem a senhora as poderá reconquistar. As pessoas lhe falarão ou visitarão por pena ou solidariedade. Não porque a senhora tenha qualquer coisa a lhes oferecer. Já viu uma velha haste de milho que amarelece e definha, mas se recusa a morrer, na qual alguns passarinhos pousam de vez em quando, quase sem notar sobre o que estão pousados? Isso é a senhora. Não consigo imaginar qual seja seu lugar na organização da vida. Uma coisa viva deveria criar ou destruir, segundo sua capacidade ou capricho, mas a senhora não faz uma coisa nem outra. Vive a sonhar com coisas bonitas que gostaria que lhe acontecessem, mas que nunca acontecem; e imagina vagamente por que as jovens vidas ao seu redor, às quais ocasionalmente censura por uma suposta impropriedade, nunca lhe dão ouvidos e parecem fugir à sua aproximação. Quando a senhora morrer, será sepultada e esquecida, somente isso. Os agentes funerários a fecharão num ataúde à prova de vermes, com o que lacrarão, para a própria eternidade, a argila da sua inutilidade. A julgar por todo o bem e todo o mal, toda a criação e toda a destruição que sua vida pudesse haver provocado, a senhora poderia perfeitamente jamais ter existido. Não vejo propósito em tal
vida. Só vejo nela um desperdício chocante, vulgar.

- Eu entendi o senhor dizer que não julgava vidas – disse a senhora Cassan rispidamente.

- Não estou julgando. Estou apenas divagando. Hoje, por exemplo, a senhora está sonhando em achar petróleo num alqueire de terra que possui no Novo México. Não existe petróleo lá. A senhora sonha com um homem alto, moreno e belo que venha a cortejá-la. Não virá homem algum, nem moreno, nem alto, nem de qualquer espécie. No entanto, a senhora continuará a sonhar, apesar do que lhe digo. Continuará a sonhar durante a pequena ronda de suas horas, costurando, balançando-se, mexericando e sonhando. E o mundo gira, gira, gira. Crianças nascem, crescem, casam-se, adoecem e morrem, mas a senhora fica em sua cadeira de balanço, cose, mexerica e leva a vida. E a senhora tem voz ativa no governo, e um número suficiente de pessoas votando igual poderia mudar a face do mundo. Há algo terrível nessa idéia. Mas sua opinião pessoal sobre qualquer assunto no mundo é absolutamente desprezível. Não, não consigo atinar com a razão da sua existência.

- Não lhe paguei para atinar com coisa alguma. Diga apenas meu futuro e pronto.

- Estive dizendo seu futuro! Por que não ouve? Deseja saber quantas vezes ainda comerá alface ou ovos cozidos? Quer que eu enumere as vezes em que gritará bom dia para a vizinha sobre a cerca? Devo dizer-lhe quantas vezes mais a senhora comprará meias, irá à igreja, assistirá a filmes? Deverei fazer uma lista mostrando quantos litros de água a senhora ferverá no futuro para o chá, quantas combinações de cartas receberá no bridge, quantas vezes o telefone tocará nos anos que lhe restam? Deseja saber quantas vezes voltará a censurar o jornaleiro por não deixar o jornal no lugar que menos a irrita? Devo dizer-lhe quantas vezes mais a senhora se aborrecerá por chover ou deixar de chover, segundo seus caprichos? Devo calcular quantas moedas há de poupar regateando no mercado? Deseja saber tudo isso? Pois nisso, senhora Cassan, se resume seu futuro: fazer as mesmas coisas inúteis que tem feito nos últimos cinqüenta e oito anos. A senhora se defronta com uma repetição do seu passado, uma recapitulação dos algarismos na máquina de calcular de seus dias. Há apenas um algarismo brilhante, talvez: houve um pouco de amor em seu passado; mas não haverá nenhum em seu futuro.

- Bem, devo dizer uma coisa: o senhor é o adivinho mais estranho que já vi em minha vida.

- É minha cruz só ser capaz de dizer a verdade.

- O senhor já amou?

- Naturalmente. Mas por que a senhora pergunta?

- Há um fascínio estranho em sua franqueza brutal. Eu imagino uma moça, ou melhor, uma mulher experiente, lançando-se a seu pés.

- Houve uma moça, mas ela nunca se lançou a meu pés. Eu me lancei aos dela.

- O que ela fez?

- Ela riu.

- Ela o magoou?

- Sim. Mas depois disso nada me magoou muito.

- Eu sabia! Sabia que um homem com sua terrível crueldade mental devia ter sido ferido por uma mulher, em alguma época. As mulheres são capazes de fazer isso a um homem, não é?

- Creio que sim.

- Pobre homem, pobre homem! O senhor não é muito mais velho do que, não é? Eu também fui magoada. Por que não poderíamos ser amigos, ou mais que amigos, quem sabe, e juntos remendar os farrapos de nossas vidas? Acho que eu seria capaz de compreendê-lo, consolá-lo e tomá-lo sob meus cuidados.

- Minha senhora, eu tenho quase dois mil anos de idade, e sempre fui solteiro. É tarde demais para começar.

- Ah, como o senhor é engraçado! Eu adoro brincadeiras! Nós nos daríamos esplendidamente, os dois, tenho certeza!

- Sinto muito. Eu lhe disse que não haveria mais homens em sua vida. Não tente me fazer com que eu me desdiga, por favor. A consulta terminou. Boa tarde.

A senhora Cassan começou a dizer alguma coisa, mas não havia mais ninguém com quem falar. Apolônio havia desaparecido com aquela presteza dominada apenas pelos mágicos de maior experiência. A senhora Cassan saiu para o clarão da tarde ensolarada. Lá fora encontrou Luther e Kate. Isso foi exatamente dez minutos antes da petrificação de Kate pela Medusa.

- Querida – disse a senhora Cassan a Kate – esse adivinho é o homem mais magnético que já vi. Vou falar com ele de novo hoje à noite!

- O que foi que ele disse sobre o petróleo? – perguntou Luther.

- Ah, ele me encorajou muitíssimo!!!

31 de julho de 2007

EM SÃO PAULO




Acabei de chegar em casa, ainda tentando colocar minhas cartas internas em ordem. Demoro uma semana para conseguir isso, mesmo que seja uma viagem curta. Tem horas que me surpreendo como posso ser tão rápida em certas coisas e devagar em outras. Em São Paulo, como sempre, tudo maravilhoso. A palestra na Gaia (grata, Robson!), Diálogos com a Modernidade, cumpriu seu objetivo. Conheci a visão do Alexey sobre o Tarot e os Quadrinhos e a assisti de camarote a estréia do Leo "Café Tarot" Chioda. Sem contar que passei quase uma semana só lendo H.Q., coisa que não fazia há tempos. Tem coisa melhor que travesseiro, cobertas e Neil Gaiman?

Isso sem contar o nosso maluquíssimo experimento do "Tarot à Três". Pressupõe-se que uma leitura de Tarot não deva ser interpretada posteriormente por outro tarólogo, com o risco de perder o felling, a linha sutil que faz com que uma interpretação seja adequada. Que a leitura exige uma interação delicada entre consulente e tarólogo. Que a presença de mais de duas pessoas numa sala de atendimento possa colocar em risco o trabalho. Acredito nisso. Tanto que tive a idéia, Alexey exultou e eu, imediatamente, me coloquei a questionar. Mas gostei da experiência. Uma "junta tarológica" pode ser de grande valia em casos muito difíceis. E pelo menos nas sessões que fizemos, tudo deu certo. Teríamos que testar mais.

O blog anda abandonadinho. Mas eu já volto. Estou pilhada com um filme novo que acabei de assistir e quero interpretar. Alguém adivinha?


besos,
Zoe

psiu 1: notinha no blog da Revista Marie Claire.

psiu 2: criei uma lista de divulgação (ainda em fase de "testes") no Google Groups. Se deseja receber os comunicados de novos cursos, palestras, works e etc, inscreva-se!

24 de junho de 2007

IMAGEM & CONCEITO


Valie Export


São inúmeros os significados contidos no arquétipo da “Mãe”. A fertilidade, a concepção, a gestação, o parto. Em seu bojo, cornucópia, a grandiosa idéia da Natureza e a mudança das estações. É a eclosão de flores na primavera, os frutos maduros no verão, os tapetes de ouro quando caem as folhas, a geada no inverno. Sua correspondência mitológica mais conhecida é Ceres-Deméter, a que traz em si Kore e desdobra-se em Perséfone. É a tradução dos ciclos e, portanto, intemporal. Intemporal como o inconsciente, de onde brotam as imagens arquetípicas.

Na carta da Imperatriz subjaz o modelo ancestral da Mãe-Natureza. Há um diálogo direto, imanente. Seu cetro, o trono, a coroa, o escudo que contém a águia lhe entroniza o poder do feminino. A beleza e a maternidade, a regência venusiana e lunar.

O poder de expressão, o estalo criativo, talvez ainda sem direção definida. Alguns autores afirmam que o processo de gestação estaria mais explícito na Sacerdotisa e que só eclodiria na Imperatriz. O arcano 3 contém o arcano 2, se nos detivermos na idéia de “trunfo” – o arcano seguinte combate e vence seu predecessor.

Ali está a idéia de Amor, da generosidade. Mal aspectada pode indicar a face negra, a Mãe Terrível, o abuso do poder então matricêntrico - a manipulação, a frivolidade e a vaidade exarcebada. Intensa como a Natureza. É a tempestade e o cataclisma, literal e metafórico. Há ambigüidades, enigmas na imagem da Senhora dos Tempos, assim como em todas as cartas que foram pintadas e idealizadas pelo lampejo de um mestre e a pena de uma mulher.


Thoth Tarot
Quando pensamos em um outro elemento da carta, o número, e temos em mente que o 1 é o princípio criativo e masculino e o 2 o passivo e o feminino, o 3 nos traz, imediatamente, a idéia de nascimento, da união realizada, de uma realidade nascente - o fruto, a criança. Para Crowley, para Waite, para diversos comentadores do Tarot de Marseille, na explanação de G.O Medes, entre outros, para economizar citação.

O que poderia indicar que o fruto no arcano III não está disponível seriam as cartas com que a Imperatriz dialoga e a referência tomada da pergunta feita. Nunca só ela mesma. Pois não há “tempo”, como assim o conhecemos, em uma carta de Tarot. Não há presente, passado e futuro no inconsciente. Nós, tarólogos, somos quem o delimita.

No Carro há o homem que decide ir, mas que talvez ainda não tenha ido. Posso ver também Aquiles correndo em sua biga. E posso observar também os cavalos de força desgovernados. Quem dirá se o Condutor da Carruagem foi bem sucedido, será quem dialogará com ela. Há sintaxe no Tarot. Como há paradigmas.

Estávamos discutindo Arcanos Menores. A Imperatriz só compareceu aqui porque a afirmação de que no arcano III o fruto não está disponível me soou estranha. A Imperatriz sabe que o fruto acontece em todos os tempos.



Em uma carta de Tarot está contida, em símbolos, uma parte do mundo. Ali não há um só conceito. Assim como na Confeitaria das Famílias em Curitiba. A decoração em estilo espanhol não traduz um conceito mas sim um apanhado de memórias da proprietária: cheiros, cores, clima. Sua Espanha particular. Não UM conceito.

Se o conceito é o que norteia a imagem... Será o Tarot uma obra de Arte Conceitual? Legal a idéia.


Como o Tarot é um código aberto dentro de uma estrutura fixa, podemos criá-lo. Não seria possível resumir e transformar arquétipos em conceitos? Creio que, no mínimo, quase tudo se perderia.

Na definição de Sol LeWitt, “na Arte Conceitual,a idéia ou o conceito é o aspecto mais importante da obra. Quando um artista usa uma forma conceitual de arte, significa que todo planejamento e decisões são tomadas antecipadamente, sendo a execução um assunto secundário. A idéia torna-se na máquina que origina a arte”.

O resultado final na arte conceitual é dispensável. Vale a idéia, que deve gritar de dentro da obra de arte. Que poderia ser traduzido facilmente em palavras com o recurso de metáforas e da ironia. Mas o suporte aqui não importa.

Uma carta de Tarot não pode ser captada assim. Arquétipos não podem ser contidos em palavras. Ou melhor, não num só recado. A imagem, com sua abertura sincrônica, talvez capture melhor o modelo ancestral pela sua intrínseca simultaneidade.

Definitivamente, Tarot não é Arte Conceitual. Mas está imerso até a cabeça na cultura pop. Nada há o que fazer quanto a isso, só lançar mão de nossos critérios para escolher o que nos agrada ou não - Kelly Key não destruirá os futuros amantes de ópera. O pagode não invalida a música clássica. Quadros de pinheiro pegando fogo, o grito do kitsh, não abolem a existência do Museu do Louvre. O Horóscopo não invalida a Astrologia. Por isso não temo o Tarot das Fadinhas, do Papai Noel, dos Gnomos Coloridos e de Outras Realidades.

Certos tarots são brinquedos e não armas. É a diferença entre um revólver de sabão e a nitroglicerina pura.

O que eu também não entendo é o seguinte: porque usar Tarots de casais transando e crianças correndo se a imagem, nesses casos, se colocam contra o “conceito” no qual se valida, se crê, se acredita?
Se render-se a imagem é coisa de tarólogo dionisíaco, sou dionisíaca. Mas reconheço as divisas: não concebo ler o Housewives num templo, assim como não leria o Thoth numa mesa de bar. Limites. Sou dionisíaca, não surrealista.
Conceitos, imagens, arquétipos, símbolos, números estão fundidos em cada carta de Tarot. Só são separados para que se possa estudar o fenômeno, no melhor estilo século XIX. Os de vertente holística achariam isso um absurdo já que a imagem deveria ser apreendida integralmente, de um só golpe. Não deixa de fazer sentido. Imagens podem ser a mola propulsora de conceitos. Imaginemos o pintor que divaga frente ao mar e deixa sua mente livre para que o pincel traduza emoções, sentimentos e percepções em uma imagem única e intransferível. A imagem (não estou falando do símbolo, que é motivado) não nasce necessariamente de um conceito.

Diz Ernst Cassirer que a gênese das palavras vem de imagens que iluminam, deuses fugazes e instantâneos.

Definir essências pode ser um sinal de agonia. Foi isso que Jor-El fez quando Krypton ia acabar. Há que se saber quando colocar borboletas em caixinhas. Mitos são destruídos porque seu tempo acabou e não há mais quem os transmita. A estabilidade é mantida pelo câmbio, lembrando Crowley e também o chavão básico da Roda da Fortuna: a única coisa que permanece é a mudança. Sem a troca, o ponto que aumenta o conto, acabou-se a história.



Sue Williams


E a História do Tarot é uma história de transformações. Quem tem a razão? Aliette, o maluquete, Eliphas Levi, o monstro da magia, Crowley e seu novo Aeon? Cadê ela, a verdade? Eu acho que vi um gatinho...


O que seria então desconstituir imagens num universo de imagens? Houaiss: desconstituir é desfazer, tirar os “poderes outorgados”. Em bom português, tirar o poder da imagem. Um ato ousado. Que relevo tanto que estou aqui escrevendo uma terceira postagem - não há como desconsiderar essa idéia, no mínimo, polêmica.


A arena, Marcelo, possivelmente não foi bem escolhida - no que me desculpo. Talvez o debate caísse melhor numa lista de discussão ou no orkut, como dita a silenciosa regra que desobedeci. Assim, eu não teria causado a impressão de estar jogando um colega iniciante (que não é iniciante) na cova dos leões. O fato de ter colocado a minha opinião no blog também pode ter sugerido que eu tentei me promover em cima de sua idéia ou detonar contigo. Pra quem não me conhece.

Primeiro, que não estou com essa bola toda – estamos equiparados em idade e conhecimento. Troca de iguais. Segundo, que não estou participando de nenhuma lista e de nenhuma comunidade, nem mesmo as minhas.

Este é o meu espaço, o único em que encontro tempo para escrever e assim mesmo de vez em quando. Então, talvez tenha sido um ato leviano transportar uma discussão que rolava no messenger para o meu espaço. OK. Perdoem-me todos, minha idéia não foi expor a pessoa do Kirtan, mas sim as idéias, nossas velhas conhecidas. E me senti no direito de fazê-lo porque houve aquiescência entre as partes.

Acredito, e sempre irei acreditar no debate de idéias de forma transparente e construtiva, tão importante quanto as próprias idéias. Assim aprendemos, tanto no sentido de conhecer o que não sabíamos, como de reconhecer o que já sabíamos. O problema é que eu me animo com a contenda e entro valendo. É a minha forma de expressão - quanto a isso, não há nada a fazer. Ou se aprecia ou se lamenta.

E é claro que o Marcelo considera a imagem. Nossa conversa e os insights que teve ao analisar o jogo de posturas presente na imagem do Enamorado, foi esclarecedora. Um tarólogo precisa ser apaixonado por imagens, condição sine qua non para o trabalho. Isso é inquestionável. E Kirtan usa bem a imagem, o que se percebe claramente através do flyer que montou para seu Workshop, uma crítica sutil e muito bem montada ao meu post sobre o tédio. Me senti feliz por inspirar o desenvolvimento de um WS – e podem ter certeza que não estou sendo irônica, mas sincera. O cara é bom, não vou dar murro em ponta de faca. Desafios me inspiram e me incitam. E há o direito de resposta.

Reconsideremos então, Marcelo e todos os envolvidos na discussão, a montagem da arena. Parece que a montamos juntos. Não há cova dos leões.

Só para finalizar e voltando às questões teóricas, pois são elas que aqui importam, quando o Kirtan usa o título “Desconstituir Imagens”, quando afirma que “quando se trata de menores só existem conceitos” e que na Imperatriz o fruto não está disponível, eu continuo discordando e argumentando. Lembrando que objetivo de uma discussão não é convencer ninguém a nada, apenas espraiar diferentes pontos de vista que podem vir esclarecer questões importantes sobre esse baralho enigmático, sempre surpreendente e perplexo chamado Tarot.

Abraços para todos,
Zoe de Camaris