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31 de julho de 2007
EM SÃO PAULO
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24 de junho de 2007
IMAGEM & CONCEITO
Valie Export
Na carta da Imperatriz subjaz o modelo ancestral da Mãe-Natureza. Há um diálogo direto, imanente. Seu cetro, o trono, a coroa, o escudo que contém a águia lhe entroniza o poder do feminino. A beleza e a maternidade, a regência venusiana e lunar.
O poder de expressão, o estalo criativo, talvez ainda sem direção definida. Alguns autores afirmam que o processo de gestação estaria mais explícito na Sacerdotisa e que só eclodiria na Imperatriz. O arcano 3 contém o arcano 2, se nos detivermos na idéia de “trunfo” – o arcano seguinte combate e vence seu predecessor.
Ali está a idéia de Amor, da generosidade. Mal aspectada pode indicar a face negra, a Mãe Terrível, o abuso do poder então matricêntrico - a manipulação, a frivolidade e a vaidade exarcebada. Intensa como a Natureza. É a tempestade e o cataclisma, literal e metafórico. Há ambigüidades, enigmas na imagem da Senhora dos Tempos, assim como em todas as cartas que foram pintadas e idealizadas pelo lampejo de um mestre e a pena de uma mulher.
O que poderia indicar que o fruto no arcano III não está disponível seriam as cartas com que a Imperatriz dialoga e a referência tomada da pergunta feita. Nunca só ela mesma. Pois não há “tempo”, como assim o conhecemos, em uma carta de Tarot. Não há presente, passado e futuro no inconsciente. Nós, tarólogos, somos quem o delimita.
Estávamos discutindo Arcanos Menores. A Imperatriz só compareceu aqui porque a afirmação de que no arcano III o fruto não está disponível me soou estranha. A Imperatriz sabe que o fruto acontece em todos os tempos.
Se o conceito é o que norteia a imagem... Será o Tarot uma obra de Arte Conceitual? Legal a idéia.
Na definição de Sol LeWitt, “na Arte Conceitual,a idéia ou o conceito é o aspecto mais importante da obra. Quando um artista usa uma forma conceitual de arte, significa que todo planejamento e decisões são tomadas antecipadamente, sendo a execução um assunto secundário. A idéia torna-se na máquina que origina a arte”.
O resultado final na arte conceitual é dispensável. Vale a idéia, que deve gritar de dentro da obra de arte. Que poderia ser traduzido facilmente em palavras com o recurso de metáforas e da ironia. Mas o suporte aqui não importa.
Uma carta de Tarot não pode ser captada assim. Arquétipos não podem ser contidos em palavras. Ou melhor, não num só recado. A imagem, com sua abertura sincrônica, talvez capture melhor o modelo ancestral pela sua intrínseca simultaneidade.
Definitivamente, Tarot não é Arte Conceitual. Mas está imerso até a cabeça na cultura pop. Nada há o que fazer quanto a isso, só lançar mão de nossos critérios para escolher o que nos agrada ou não - Kelly Key não destruirá os futuros amantes de ópera. O pagode não invalida a música clássica. Quadros de pinheiro pegando fogo, o grito do kitsh, não abolem a existência do Museu do Louvre. O Horóscopo não invalida a Astrologia. Por isso não temo o Tarot das Fadinhas, do Papai Noel, dos Gnomos Coloridos e de Outras Realidades.
Certos tarots são brinquedos e não armas. É a diferença entre um revólver de sabão e a nitroglicerina pura.
O que eu também não entendo é o seguinte: porque usar Tarots de casais transando e crianças correndo se a imagem, nesses casos, se colocam contra o “conceito” no qual se valida, se crê, se acredita?
Diz Ernst Cassirer que a gênese das palavras vem de imagens que iluminam, deuses fugazes e instantâneos.
Definir essências pode ser um sinal de agonia. Foi isso que Jor-El fez quando Krypton ia acabar. Há que se saber quando colocar borboletas em caixinhas. Mitos são destruídos porque seu tempo acabou e não há mais quem os transmita. A estabilidade é mantida pelo câmbio, lembrando Crowley e também o chavão básico da Roda da Fortuna: a única coisa que permanece é a mudança. Sem a troca, o ponto que aumenta o conto, acabou-se a história.
E a História do Tarot é uma história de transformações. Quem tem a razão? Aliette, o maluquete, Eliphas Levi, o monstro da magia, Crowley e seu novo Aeon? Cadê ela, a verdade? Eu acho que vi um gatinho...
O que seria então desconstituir imagens num universo de imagens? Houaiss: desconstituir é desfazer, tirar os “poderes outorgados”. Em bom português, tirar o poder da imagem. Um ato ousado. Que relevo tanto que estou aqui escrevendo uma terceira postagem - não há como desconsiderar essa idéia, no mínimo, polêmica.
A arena, Marcelo, possivelmente não foi bem escolhida - no que me desculpo. Talvez o debate caísse melhor numa lista de discussão ou no orkut, como dita a silenciosa regra que desobedeci. Assim, eu não teria causado a impressão de estar jogando um colega iniciante (que não é iniciante) na cova dos leões. O fato de ter colocado a minha opinião no blog também pode ter sugerido que eu tentei me promover em cima de sua idéia ou detonar contigo. Pra quem não me conhece.
E é claro que o Marcelo considera a imagem. Nossa conversa e os insights que teve ao analisar o jogo de posturas presente na imagem do Enamorado, foi esclarecedora. Um tarólogo precisa ser apaixonado por imagens, condição sine qua non para o trabalho. Isso é inquestionável. E Kirtan usa bem a imagem, o que se percebe claramente através do flyer que montou para seu Workshop, uma crítica sutil e muito bem montada ao meu post sobre o tédio. Me senti feliz por inspirar o desenvolvimento de um WS – e podem ter certeza que não estou sendo irônica, mas sincera. O cara é bom, não vou dar murro em ponta de faca. Desafios me inspiram e me incitam. E há o direito de resposta.
Reconsideremos então, Marcelo e todos os envolvidos na discussão, a montagem da arena. Parece que a montamos juntos. Não há cova dos leões.
Só para finalizar e voltando às questões teóricas, pois são elas que aqui importam, quando o Kirtan usa o título “Desconstituir Imagens”, quando afirma que “quando se trata de menores só existem conceitos” e que na Imperatriz o fruto não está disponível, eu continuo discordando e argumentando. Lembrando que objetivo de uma discussão não é convencer ninguém a nada, apenas espraiar diferentes pontos de vista que podem vir esclarecer questões importantes sobre esse baralho enigmático, sempre surpreendente e perplexo chamado Tarot.
Abraços para todos,
Zoe de Camaris
3 de junho de 2007
LIBERDADE PARA OS MENORES

Em resposta aos comentários feitos à postagem anterior pelo Gian, Marcelo e Vera, tenho mais algumas reflexões. Antes, quero assinalar que não vou me esforçar em florear palavras, certa de que todos os colegas aqui envolvidos certamente concordam que uma discussão teórica dispensa mesuras e melindres. O que nos une aqui é o Tarot.
Só há um ponto de discordância: Marcelo Kirtan defende que o conceito sobrepuja a imagem. E eu discordo com veemência. Não pode. Se assim fosse, teríamos outra coisa, não um Tarot, sistema de linguagem essencialmente imagética que é. Reafirmo que gosto da contribuição de uma linha de compreensão teórica e unificadora para os arcanos menores. Mas que essa é só mais um função referencial e não o cerne da coisa.
Quanto ao que foi colocado pelo Gian e pela Vera nos comentários, tenho a acrescentar que o Tarot não é uma língua morta. É uma linguagem vivíssima e praticada em todo o mundo. Parece-me que não percebê-lo desta forma é cair na besteira de achar que processos de mudança indicam decadência, assim como acreditam os puristas da língua culta - fazendo aqui uma relação com a palavra escrita. Em todos os campos da vida humana mudança significa avanço, desenvolvimento. Deveríamos bater palmas para todos os artistas que se dedicam a repensá-lo. Milhares de tarots sendo publicados no mundo todo indicam evolução, pensamento em ação, troca de idéias. Fico feliz que o Tarot seja mote para a literatura, para as artes plásticas, para música, para arte. Ele nunca perderá sua aura, por mais que seja reproduzido e alterado. Não vejo nenhum problema que certos decks atendam grupos específicos ou demandas de mercado. Assim como o Tarot possui seu lado esotérico, pode ser usado exotericamente. Implico sim com certas saladas de gosto duvidoso, pretensamente herméticas, mas creio que seu potencial criativo não se limite ao que o nosso gosto ou crivo pessoal qualifiquem de bom ou de mau, verdadeiro ou falso. Dialetos, idioletos, linguagem de guetos, gírias, não modificam o nosso modo de falar?
Convenhamos: qual é regra que rege os arcanos menores? Primeiro, as interpretações foram criadas por cartomantes e os significados, compilados com acréscimos de outros. Depois Waite e Crowley lançam mão do Picatrix, antigo manuscrito árabe, da Astrologia e da Cabala para CRIAREM um universo de possíveis correspondências para os arcanos menores. Ou seja, não existe uma “tradição” propriamente dita. Existem tarots mais antigos que outros e também “leituras” sobre os arcanos menores. Pamela Smith foi buscar inspiração no 3 de espadas do Sola Busca, por exemplo. E o que tem no Tarot que explica a história de Roma que seja fundamental para o “conhecimento secreto”?
Digamos que ao contrário dos maiores, onde podemos identificar a simbologia tradicional (as virtudes cardeais, por exemplo), os arcanos menores são um prato cheio para a criação e diversidade. Nesse sentido, a palestra do Kirtan é um acréscimo: uma proposta estrutural e básica de entendimento dos menores. Mas assim como todas as leituras, é apenas mais uma possibilidade de interpretação que elege a Cabala como regra fundamental - aquela que preservaria uma possível essência das cartas. Mas conseguiria a Cabala preservar a essência das imagens? Tem como conceitos deterem a explosão de idéias que espocam a partir de uma imagem? Sim, de alguma forma, se elas fossem redesenhadas a partir desta idéia motriz. Mas assim como estão, no Waite e no Crowley, não é o que acontece. Cada um fez como lhe pareceu e essa é a única regra, mesmo que tenham lançado mão de estudos da ordem a que pertenciam.
Se os arcanos maiores e os menores fazem parte de estruturas e sistemas distintos, se existem regras para os maiores que estão inscritas na tradição, o mesmo não parece acontecer com os menores. Ainda não me mostraram nenhum pergaminho que consiga absorver e traduzir toda essa diversidade. Crowley explica Crowley, Waite explica Waite, Manara explica Manara e Osho explica Osho.
O que dita a regra é o baralho escolhido. Ou então cria-se um tarot que traduza o que você pensa do Tarot (esotericamente ou artisticamente) e ele será, melhor ou pior, apenas mais um conjunto de cartas que será escolhido por pessoas que pensam concordam com o seu modo de ver a vida.
Por isso não uso Tarots que considero apenas como peças de coleção para as leituras. Escolho os baralhos que falam comigo. E respeito o que eles dizem. Segundo o que entendi da palestra do Kirtan, a idéia estaria "sobre" a imagem e não subjacente a ela. E se a imagem lhe disser algo que não corresponde ao que ele reconhece como sendo a essência ideal de cada carta, o que valeria é o conceito. Eis aí mais uma vez, o ponto fulcral de discordância.
Se assim fosse, ao invés de darmos um passo para frente daríamos um passo para trás. Reduziríamos o Tarot a conceitos. Para tanto, bastaria um conjunto de cartas com números de 0 a 22, mais um de conjunto de 4 séries de 1 a 10 e também de pajem a rei, estes só com o nome estampado. Para que serve a imagem se podemos dispensá-la?
Não, Kirtan, não dou um tiro no pé como professora, pois minha função não é ditar regras mas sim demonstrar um processo de compreensão do tarot que julgo bastante eficiente, apresentar as melhores bibliografias e discuti-las, e faciltar aos alunos a escolha de um deck adequado. Recomendo o que considero mais confiável mas também apresento conjuntos curiosos. Para que eles exercitem antes de qualquer coisa a sua imaginação e se abram para o processo intutivo, pois, sem ele, não se lê o Tarot.
Livrinhos de regras têm um monte por aí. Zil cartilhas. A gente só aprende a escrever depois que sabe falar. E só aprende a estudar depois que aprendeu a escrever. Manter a ordem dos fatores aqui, garante o produto final.
E depois, acho engraçado que você, Marcelo, na defesa de uma postura mais racional de entendimento dos menores, peque exatamente num total não-entendimento da prática do discurso científico quando diz: "Zoe, não tenho a menor intenção de “convertê-la” para o que eu imagino ser a forma correta de se interpretar as cartas, até porque, se dá certo para você, o que eu tenho a ver com isso?".
Puxa, Marcelo, achei que estaríamos debatendo um assunto teórico para o qual são necessárias boas doses de isenção e de abertura para discussão, além de interesse por outros pontos de vista. Por isso pedi que argumentasse. Em nenhum momento compreendi que você estava tentando "converter-me" a algo, que coisa absurda. Viagem de Hierofante.
E eu tenho a ver com o que você pensa sobre o Tarot sim, porque o considero capaz e talentoso. Não discuto com quem não admiro. O que nos interessa é sempre o que nossos pares pensam. O rio que corre perto da nossa aldeia. Espero que a recíproca seja verdadeira e desconfio que sim, senão meus artigos não poderiam ter servido nem para lhe inspirar algumas sacadas sobre o mesmo assunto. Portanto, é claro que você tem a ver com que eu penso sobre o Tarot. Eu, Gian, Vera, Alexsander, Alexey, e por aí vai. Somos profissionais discutindo. Caramba, não estou “atacando” seu trabalho. Só mostrando claramente que discordo quando se coloca o conceito "antes" da imagem.
E eu não disse que o conceito deve morrer. Apenas que não se deve partir dele quando se tem frente aos olhos uma torrente de estímulos que acionam diversos sentidos e conteúdos. Conceito não tem cor, carta de Tarot tem. Conceito não tem contorno, conceito não tem cenário, conceito não tem personagem.
A importância dos conceitos é inegável. Esquecê-los, um passo para ignorância ou para uma mera leitura de "salão". Nós, como professores, devemos facilitar a vida do sujeito, apontar os caminhos, abrir possibilidades de analogia e paralelos. Mas cada coisa na sua hora. Não só no processo de aprendizagem como também no processo prático de leitura das cartas.
Quanto às papisas sensuais e aos leões estrangulados, compreendo perfeitamente. Não uso Tarots com papisas sensuais e nem leões estrangulados. Mas se o meu aluno eleger esse tarot como aquele que lhe fala à alma, está no seu direito. Ele foi apresentado e conhece o que se considera como tradicional.
Ontem, experimentei uma leitura com o Tarot de Mantegna que foge radicalmente da estrutura tradicional, embora seja "tradicionalíssimo". Perfeito para quem não gosta de diabos e torres incendiadas. Foi levíssimo extrair significados de Vênus, da Poesia ou do Gentil Homem. E os números ali, fazem algum sentido?
Ganhei de uma consulente há alguma semanas o Tarot do Senhor dos Anéis, em alemão. Ok, já teria como seduzir adolescentes loiros na porta do Instituto Gothe. Mas por mais que tenha achado legal, jamais irei usá-lo em uma leitura. No máximo, ver se a Jornada do Herói se encaixa nos arcanos maiores. No entanto, a generosidade de minha consulente também me brindou com um Visconti-Sforza com o laminado dourado e um tarotée esplendoroso. Já sei que vou passar dias e dias com ele e quando menos esperar, estará na minha mesa de leitura. E nessa hora gostaria muito de ter estado na palestra do Kirtan pois ela me ajudaria diretamente com os menores de padrão abstrato.
Impossível ler uma grande diversidade de Tarots? Bem, ouso dizer que pra mim não, desde que o desafio elegesse algum tarot razoável e que ele resolvesse falar comigo. Conheço a simbologia dos maiores e os menores me ditariam, segundo suas imagens, o complemento da história. Ou eu teria que ficar pensando em outra coisa? Hum, esse três de espadas tá muito lindinho, cheio de florzinhas, mas eu sei que no fundo ele é triste...ferrou.
Quanto a questão hipotética proposta: "Se alguém perguntar no Orkut o que significa um Papa com um 7 de Espadas eu devo perguntar qual baralho ela usou para dar uma resposta? Se ela usa um baralho que eu não conheço, devo abrir mão de interpretar a jogada?" lhe respondo sinceramente, Marcelo, que não gosto disso, tanto é que não participo ativamente. Primeiro porque o momento em que a leitura acontece dita parte do jogo. Há uma série de questões envolvidas, inclusive a escolha do baralho. A interpretação dada por um tarólogo é única. Um outro tarólogo reinterpretá-la pode ser um caminho certo para o erro.
Lanço então uma questão hipotética também: Marcinha vai jogar para Joaninha. Joaninha abre seu coração para Marcinha. Mas Joaninha não sabe que Marcinha teve um caso com seu namorado na semana passada. Podemos levar em conta a leitura de Marcinha para Joaninha e interpretá-la seriamente? Nós não sabemos que Marcinha é fim do namorado da Joaninha... Portanto, colegas, quando vejo essas interpretações sempre penso que elas contribuem para a discussão acerca dos significados das cartas, mas que talvez não ajudem adolescentes ansiosos. Não se sabe se houve uma concentração mínima na hora de deitar as cartas, não se sabe que baralho foi usado, não se sabe de nada. Só temos uma combinação de cartas e uma enorme vontade de acertar.
Com relação ao exemplo do 9 de ouros não vou nem entrar no mérito da questão. Primeiro que, embora não me faça a cabeça, nada impede que uma relação a três seja madura. Segundo que se Frieda Harris associou esta idéia ao 9 de ouros através das égides dos amantes, o significado está lá para que possamos lançar mão, se assim a nossa intuição indicar.
"Um símbolo evoca uma idéia, o que os ilustradores pintam são imagens que orbitam ao redor do símbolo que podem ter mil e uma significações. Retratando apenas uma parte desta órbita o conhecimento fica reduzido e foge-se totalmente da profundidade inerente ao símbolo". Sim, Vera, concordo. Por isso gosto dos maiores de Marselha, tão ubíquos e misteriosos. Parece que tudo está lá, naquelas imagens toscas. Sempre que o comparo ao Waite por exemplo, vejo o quanto o marselhês é infinitamente melhor embora não tão bonito e colorido.
No entanto, certas idéias quase esquecidas e contidas nos arcanos menores podem saltar à vista como no 3 de copas do Housewives Tarot. E não é que o 3 de copas pode significar o nascimento de uma criança? Seja como for, não usaria o Housewives para nada, a não ser para brincar num chá de entre amigas. Mas fico felicíssima que esse produto exista: bem bolado, um projeto gráfico delicioso, e apesar da tiração de sarro, algo bem feito e com base em estudos, dá pra sacar que eles pesquisaram uma boa quantidade de tarots. E ele continuará enfeitando minha estante e saltará de lá sempre que eu queira "exibir" minha coleção. Só me serve à vaidade.
Quando a arte, a beleza estética, supera a simbologia, ESTANTE. Curiosidade. Esse é o lugar do meu Housewives e outros artigos de coleção. Então, falando agora com o Gian, quero que todos os artistas do mundo soltem enlouquecidamente sua libido no Tarot, criem seus universos paralelos, aproveitem o código aberto dos menores para suas viagens lisérgicas, demoníacas, malucas, absurdas. Pois este é o paraíso da Arte. Em se tratando da escolha do Tarot, devemos ser parcimoniosos, no que parece haver concordância.
Mas discordo quanto à redundância das discussões, Gian. Se não discutirmos estes pontos tão fundamentais para o entendimento da matéria, aí sim é que não chegaremos a lugar algum. A escolha é sempre de cada um, a liberdade nunca estará em discussão.
abraços apertados para todos,
Zoe
19 de maio de 2007
RECONSTITUINDO IMAGENS

Pois bem. Há centos decks inspirados em Pamela Smith. Outros voam ao bel-prazer de seus criadores, como o Tarot Mitológico, por exemplo, que rompe duplamente com o que até então era conhecido. As imagens do Mitológico e de diversos outros Tarots modernos evocam aspectos e interpretações que fazem parte do universo pessoal de cada autor, da sua forma de ver o mundo e da cultura em que estão inseridos.
A proposta de Marcelo é que se atendo ao significado simbólico da numeração, e percebendo-se como esta ordem numérica evolui em cada naipe, teríamos uma ferramenta "descondicionante" da ditadura da imagem. Estratégia perfeita para se manter a coerência. Imagine só você, tarólogo, vagando por uma ilha deserta e só tendo em mãos para saber quando vai sair dali o Tarot de Milo Manara.
Considero a possibilidade também válida para que se aprofunde o conhecimento dos arcanos menores. Mas partir de conceitos se torna um fator complicante quando se trata de ler um Tarot composto de 78 cartas ilustradas com padrões figurativos.
Eu sempre digo aos meus alunos - atenham-se às imagens. É a imagem que comunica no Tarot. É um alfabeto ilustrado, uma linguagem pictórica. É partindo da imagem que se constrói a vistada do tarólogo frente à "arrumação". É assim que as significações vão sendo traduzidas com a delicadeza de quem costura. Se os arcanos maiores, o baralho filosófico, faz parte de um sistema diferente dos arcanos menores; se os dois foram construídos em momentos díspares da história e com finalidades outras, não deveríamos então separá-los por completo? Sim, por que com um sistema eu procederia de uma forma, com outro sistema, eu procederia de outro.
Complica o meio de campo. Afinal, que veio antes, o conceito ou a imagem? Podemos separar forma de conteúdo? Significante de significado, plano de expressão de plano de conteúdo? O ovo da galinha? Para estudar sim. Para ler o Tarot, não.
Entendo que o conceito subjaz à imagem. Mesmo que a figura tenha sido criada a partir de um conceito, se me compreendem.
A diferença entre apreender um dado universo pictórico e a linearidade de uma frase é que a imagem espoca em uma pluralidade de sentidos que se espalham em todas as direções, todos ao mesmo tempo - uma bomba de percepções simultâneas. Como diz Gadamer, a pintura é um presente absoluto. Já a frase só pode acontecer no tempo, no eixo das sucessões. Só posso ler uma palavra de cada vez. E só posso pensar os números um em relação ao outro – o valor do número depende do quem vem antes e do que vem depois.
A análise numerológica requer o plano do conceito imediatamente, o que é muito abstrato se comparado à materialidade das imagens significantes. E evoca um estado diferente de percepção.
Pensar a evolução numérica nos naipes seria correto quando se trabalha com as cartas de pintas, quando temos nas mãos um Tarot como o de Marseille. A iconografia assim o indica, conceitos abstratos advindo de padrões abstratos. Se estamos falando de um sistema imagético, e isso me parece claro e certo, primeiro a imagem.
Aleister Crowley ao inserir nas cartas cores diversas, planos geométricos hipnóticos, títulos que induzem a intepretação e correspondências astrológicas, cabalistiscas e mágicas, altera magnificamente nossa forma de intepretar o baralho, possibilitando um estado alterado de consciência que exige do tarólogo um mergulho profundo. Mas só cria essa sensação porque a habilidade de Frieda Harris o permitiu. Com a imagem.
Então, acho a idéia de Kirtan bacana desde que ao se nortear pela ordenação numérica, o tarólogo use um baralho que apresente as cartas de pintas. Mas não acredito na possibilidade de transportarmos este conhecimento teórico in presentia quando trabalhamos com imagens ilustradas.
Em minha opinião, isso atrapalharia o estímulo número 1 do Tarot que é o poder de sugestão das imagens, o gatilho intuitivo.
O que fazer se a imagem evocar algo diferente do conceito numérico, idealmente correta? O que se privilegia? Pronto, disparou-se a bala errada. Foi-se o gatilho. Neguinho parou pra pensar no meio da leitura, perdeu o fluxo intuitivo.
Sim, é válido termos um tipo de leitura para cada baralho que se usa. E isso é verdadeiro inclusive para os Arcanos Maiores, onde o consenso entre os comentadores do Tarot é bem maior. Quando tiro a Força no Marseille minha sensação é uma. Se for a Lascívia de Crowley, minha percepção é bem diferente embora tanto uma como a outra imagem estejam presas ao que compreendo integralmente sobre o arcano XI.
Tenho em mente também que os arcanos maiores se esclarecem em linha diacrônica e também na ordem paradigmática. Mas o valor numerólogico da imagem pra mim é uma informação de segunda ordem, uma "ancoragem" da carta. Um índice de fundo estrutural. Uma função referencial.
O que é necessário numa aula nem sempre é interessante numa consulta. A estrutura conceitual é um conhecimento integrado que deve ser introjetado e depois esquecido. A informação pulará na hora certa de um dos nossos arquivos. Disparados pelo gatilho das imagens.
Gosto muito das invencionices dos artistas. Criam-se novas formas de ver o mundo. Outros estímulos. Maiores possibilidades interpretativas que podem fazer jus a SUA forma de ver o mundo. Se fulana é uma frequentadora de cartomantes e gosta de leituras divinatórias, talvez não se sinta à vontade com um saniasyn interpretando o Tarot do Osho (ou talvez um novo mundo se descortine pra ela, sei lá). Mas com certeza a leitura do Tarot do Crowley via Gerd Ziegler se adequará completamente a alguém que esteja na India, passando férias na Osholândia.
Não sou dogmática no que se refere ao Tarot, embora só utilize baralhos tradicionais nas minhas leituras. Digamos que sou uma taróloga conscienciosa na hora de interpretar as cartas, sabendo da responsabilidade que envolve a prática do meu trabalho. Leve e concentrada. Em contrapartida, sou uma comentadora de Tarot que estimula com veemência a idéia de que o Tarot é um sistema aberto às mais inimagináveis percepções e traduções artísticas. Não poderia ser diferente.
E como professora, repito: atenha-se aquilo que você vê. Pois se no momento da leitura, ao invés de dar asas à imaginação (não é o Tarot uma arte da imaginação?) estivermos lembrando de conceitos evolutivos, não estaremos mais jogando Tarot. Estaremos fazendo uma outra coisa. O que as cartas têm para dizer a você é exatamente o que aparece à sua frente. Cabe ao tarólogo interpretar o que tem em mãos, pelo tempo que durar aquele eterno presente.
Pena, Kirtan, eu gostaria de ter estado aí com vocês para defender meu ponto de vista. Provavelmente discutiríamos a questão à exaustão e chegaríamos a uma conclusão (ou não). Sejam gentis com uma dama ausente e retruquem, por gentileza.
Zoe de Camaris
13 de maio de 2007
EL MAGO

É o Mago que aciona águas e ventos, que seduz céus e terra com seu gesto imperativo. O eterno iniciado. A nasciturna ordem no caos.
Traz, em primeira mão, a idéia de potência, de algo que ainda não se realizou, arcano 1 que é. Hora em que ainda não se sabe se o movimento está nele ou nós, como num espelho. Há que se olhar o Tarot com perplexidade. A carta instaura a idéia de uma primeira visada. O que fará o rapaz de cabelos dourados com a ânsia da ação? Tudo ou nada. O poder de criação está em suas mãos.
E quando o Mago erra a mão? Ou fica com as mãos atadas? Problemas...
Coisa que verifiquei ontem. Sentindo que esta que vos escreve precisava de uma azeitada nos ombros e uma geral nas costas chamei um amigo de minha filha, masso e fisioterapeuta. Genial. Foi o melhor presente que me dei nos últimos tempos, me colocar em boas mãos.
Ele começou pela direita. Ficou um tempão ali massageando cada centímetro, cada pedacinho. Aquela dorzinha gostosa sabe? Mas que em certos pontos, doía pra caramba. Aí ele passou para a mão esquerda e como senti uma dor mais aguda, observei que possivelmente a esquerda estava pior do que a direita. Ele não concordou. E falou assim:
- Tem algo que você deseja muito. Com todo fervor, com todas suas forças. Mas que não pode fazer. Não tem meios de acionar o gesto porque aí reside uma série de implicações. Toda essa vontade está aqui, contida, deixando sua mão dura, tensa. Presa. Você reteve tudo com as mãos postas.
Eu só não caí pra trás com o diagnóstico porque estava deitada. É exatamente a situação em que me encontro. Via de mão única com uma pedra na frente. E uma teimosia enorme em trocar de caminho. Não quero e por isso não posso. Quero o desejo do outro que, não necessariamente, deseja aquilo que desejo. No tempo em que desejo. E esta impossibilidade me torna inflexível, me tolhe todo o movimento. O Mago invertido. O Feiticeiro me deixou na mão. O Enforcado é o Mago preso no espelho?
Há que se dar a mão à palmatória. Não há como manipular, nem prestidigitar certas situações. O jeito é largar mão. Colocar a mão na consciência, aceitar os fatos e entregar de mão aberta o desejo, meu tão forte desejo, ao universo. Dona Esperança que pare de passar a mão na minha cabeça e disfarçar seu assalto à mão armada porque é isso que ela faz. Finge que te dá uma mãozinha. Faz com as mãos e desmancha com os pés. E a água te escorre pelos dedos.
Agora, de duas uma: ou tenho um insight e a minhas mãos me guiam sem fazer força para o acalentado objetivo e o Mago se colocará de pé novamente, ou então elas vão endurecer de novo. Porque fiz o movimento contrário - liberei no corpo o que ainda não está liberto na mente. E talvez nunca vá estar liberto no coração. O Mago fala de controle. Mas tem coisas que a gente não pode controlar e por isso se controla tanto. Taí a liberdade - bolinhas de prana.

Ainda não tenho a solução, nem conheço o gesto certo. Porque não quero nem iludir nem acenar. Tenho o movimento mas não posso fazê-lo. Queria que o Valete me segurasse pela mão, saindo da manga. Aí então, eu teria asas. Como Cupido para Psiquê.
E nada de jogar as mãos para o céu - seria um ato forçado e de segunda mão, como esta frase. Mas também não vou colocar minhas mãos no fogo e assisti-las queimando. Seja como for, vi claramente a situação em que me meti. Porque um Mago me tocou. Fez o gesto certo e conhecia a palavra. Abriu a mão. E de lá cairam todas as moedas que eu guardava nas orelhas. E essa sorte, essa grande sorte, me foi dada de mão beijada.

29 de abril de 2007
DUAS ESPADAS

Então, pra não deixar meus leitores sem o artigo de final de semana, recomendo o texto do Leonardo Chioda sobre o 2 de espadas - O Silêncio entre duas lâminas. Excelente! No Café Tarot.
15 de abril de 2007
4 de Copas
"Deus, livra-me dos chatos!" - Dalton Trevisan
As imagens falam. Como estoy aburrida, não tenho muita vontade de tecer comentários, mas vamos lá. Prometo que farei o possível. E não me chateiem - lembrem-se! Eu moro em Curitiba, cidade onde tudo funciona. Céu azulzinho de outono, ônibus por um real que te leva aonde você quiser aos domingos (saco, hoje é domingo) - já abri as janelas faz tempo, já fiz café, já coloquei comida pro gatinho e pro cachorrinho... ó céus, ó vida, ó destino! Como é que o tempo ousa se arrastar desse jeito?
Bem. Calvin repete, na tirinha, o mesmo gesto do rapaz na imagem de Pamela Smith, do Universal Waite. Parece óbvio e é. A imagem do tédio - cruzar os braços em total empatia consigo mesmo já que nada do outro lado parece funcionar de agrado. Tudo uniforme, a expressão da indiferença. Tédio inclui ironia, algumas vezes cinismo. O mundo pode cair que você não está nem aí. Mas, com certeza, ele não cairá. Faz parte do tédio a desesperança. Digamos que o tédio não é grave como a angústia. Na angústia, há movimento. No tédio, tudo pára de fazer sentido. E há uma inflação egóica, claro. O entediado é um príncipe, cansado de suas riquezas e dos cachorros de raça que o distraem, vez ou outra. Tédio é para poucos, digamos assim. Há uma nobreza no tédio que é típica daqueles que são excessivamente mimados. E que pode ser confundido com "estilo".
Causa, inclusive, a exasperação alheia. Sim, os chatos que não se cansam de repetir: - mas olhe como a vida é linda! Humpft. Tédio. Aqui, não se toma conhecimento do que a vida, generosamente, entrega. Nenhuma gratidão. Certo mesmo está é o Olavo Bilac, outro porre: "Sobre minh'alma, como sobre um trono,/ Senhor brutal, pesa o aborrecimento./ Como tardas em vir, último outono,/ Lançar-me as folhas últimas ao vento!".
Se fosse tédio mesmo, o poema não teria tantas exclamações. Aliás, como o tédio tem a ver com uma certa preguiça, os marcadores sem dúvida seriam as reticências.
Tremenda mesmice. Um bocejo imenso vai engolir o mundo. Nada do que lhe é oferecido faz alguma diferença. A palavra-chave é indiferença. Vantagens? Sim. Para Baudelaire, de quem acabei de roubar a frase do bocejo, o esvaziamento da dimensão simbólica da existência seria uma necessidade para a subversão crítica da realidade. Mas esse ensaio que estou lendo é um saco, passemos a algo menos chato, senão, que nem a Rê Bordosa, vou estourar de tédio junto com meus leitores que, a essas alturas, espero, já tenham fechado a janela. Ninguém merece esse texto. Não hoje.
E dêem graças a deus os que estão vivos, porque acabei de achar um poema de J.G. de Araújo Jorge perfeito para o momento e aí então, não sobraria pedra sobre pedra. Vou poupá-los de tamanho aborrecimento.
Ai ai. Voltemos então ao Tarot. Crowley agora. Se você ainda estiver de olhos abertos, observe a imagem:

O nome da carta é Luxúria. Exuberância. Hum? Lúxuria é bom? É, né? Dizem que é, não sei. Parece que a palavra "luxúria" dentro do contexto crowleyano quer dizer mais coisas, tem seu sentido estendido. Excesso de prazeres. No meu caso, excesso de chocolates.
E quando há exagero, obviamente, há tédio. Faz parte da natureza humana "sentir falta". Se algo não me falta, se não me falta nada, o estado é de prostração. Hazo Banhaf é bacana ao interpretar a carta. Bonzinho. Eu prefiro as aulas do Veet Vivarta em que a seguinte expressão reveladora nunca mais me saiu da cabeça: "amor de grude". A Lua está em Câncer, o que equivale a dizer que está em casa. Mas tem coisa mais chata que a Lua em Câncer e em casa? Chicletes. Amor & chicletes. Gente que fica abraçando e beijando o tempo todo, telefonando, dizendo que ama, agarrando no pescoço. Eu não gosto de melação - há quem goste, claro. Minha Lua é clean, virginiana. Carinho é bom. Pegação no pé é um saco.
Há um conformismo que pode significar conforto. Bem dignificada, a carta significa ternura, aceitação do amor entregue. Você está sendo mimado. Cuidado (nos dois sentidos). É claro que para que isso resvale no ciúme, no zelo excessivo, é apenas um pequeno passo.
A seqüência explicita: Ás de Copas - transbordamento amoroso como estado inicial; Dois de Copas - amor compartilhado; Três de Copas - festa, amor vivaz, lua-de-mel; Quatro de Copas - cansaço (depois do orgasmo?) seguido de tédio e do...Cinco de Copas, claro, desapontamento.
Outro dia, li numa comunidade sobre Tarot que o 4 de copas poderia significar traição. Sorri com o canto da boca. A "traição" está é no 3 de copas. No quatro, só há acomodamento.
As nuvens no fundo da lâmina começam a ficar escuras. Nimbus recheada. O tédio é cinzento como uma tarde de domingo.
Ok, vou parar de cansar vocês e almoçar na casa da minha mãe. Se eu der sorte, não vai ter macarrão. Mas eu SEI que vai ter macarrão.
Zoe de Camaris

William Butler Yeats
Medo não tem, nem esperança,
Um animal a agonizar:
Aguarda um homem o seu fim,
Tudo a temer, tudo a esperar;
Já muitas vezes morreu ele,
As muitas vezes retornando.
Em seu orgulho, um grande homem,
Homens que matam enfrentando,
Sobre a substituição da vida
Atira um menosprezo forte;
sabe ele a morte até os ossos
- Foi o homem quem criou a morte.
tradução de Péricles Eugênio da Silva Ramos
____________________________
Morte
Nem temor nem esperança assistem
Ao animal agonizante;
O homem que seu fim aguarda
Tudo teme e espera;
Muitas vezes morreu,
Muitas vezes de novo se ergueu.
Um grande homem em sua altivez
Ao enfrentar assassinos
Com desdém julga
A falta de alento;
Ele conhece a morte até ao fundo —
O homem criou a morte.
tradução de José Agostinho Baptista
_______________________
Death
Nor dread nor hope attend
A dying animal;
A man awaits his end
Dreading and hoping all;
Many times he died,
Many times rose again.
A great man in his pride
Confronting murderous men
Casts derision upon
Supersession of breath;
He knows death to the bone —
Man has created death.
W. B. Yeats
6 de abril de 2007
XIII
Ver a Morte em vida. Solução para a fama aziaga do décimo-terceiro arcano do Tarot? Creio que não. Morrer, quando se está vivo, é uma constante ou pelo menos deveria ser. Livrar-se do velho para que o novo apareça. O processo é complicado porque há fatos morimbundos. Aqueles que moram dentro da gente em estado de coma, velharias que insistimos em manter vitalizadas - como se isso fosse possível sem que tudo no entorno apodrecesse.
Ano passado, suicidei-me. Não, não foi uma tentativa de suicídio. Suicidei-me mesmo. Estava tão envolvida em uma situação, tão agarrada a ela, tão identificada com algo que não me pertencia que não tive outra alternativa. Ter total consciência do processo é fundamental. Cada etapa minuciosamente analisada e só depois ritualizada pelo instinto de vida. Buscar o entendimento dos meandros, das vielas, das esquinas em que a depressão se instala. Buscar a verdade. Perguntar sempre: - por quê? Não importa se a resposta vem. Continuar inquerindo, sempre. Em determinado momento a solução eclode, vinda sabe-se lá de onde.
Quando vi minha imagem de esqueleto no espelho, algo dentro de mim começou a se mexer como as serpentes na cabeça da Medusa. Eu não tinha mais como conviver com o que estava agonizando dentro de mim. Mas para que a Morte pudesse pegar sua foice e realizar seu trabalho no jardim, precisei permitir a sua presença ao meu lado.
Era uma tarde chuvosa, como deveria ser. Um cenário propício. Eu estava sozinha e muito triste. Minhas leituras, na época, muito pesadas. Uma lassidão, um amortecimento, um cansaço de todas as tristezas. O corpo pesado no colchão. Exaurida. Lembro-me que escutei as folhas da amoreira gritarem que não. Mas não lhes dei ouvidos. Peguei o primeiro papel que vi no criado-mudo e escrevi o poema que contava a minha morte etapa por etapa. Auto-comiseração? Não. Um gesto libertador. Cada célula do meu corpo gritava de dor à medida que as palavras eram escritas no rascunho. Hipostasia romântica? Não. A solução, o resumo, a essência de sofrimentos acumulados durante muito tempo. Escrevi o poema a seco. Tomei um comprimido para dormir. E a escuridão veio.
Uma penumbra adocicada, sem sonhos. Não sei quanto tempo isso durou. Não sei o que aconteceu enquanto eu dormia. Se à minha volta, dançavam todos os meus fantasmas de mãos dadas com aqueles que já se foram; se um anjo salvador erguia suas mãos sobre minha alma e me libertava; se a imagem da Morte no espelho se desgrudava lentamente e tomava o caminho da amoreira.
Bem, é claro que história tem um final feliz. Cada célula que antes gritava de dor estava possuída por uma nova força. Cada fio de cabelo tinha passado pelo salão de beleza dos deuses com sua queratina de néctar. Eu, era eu novamente. Graças a mim mesma que permiti, finalmente, a visita do arcano Sem Nome - em Vida.

Zoe de Camaris
26 de março de 2007
O menino
onde se lê uma
leiam-se duas
p. leminski
Ele pode ter 19, 35, 46 ou 54 – não importa. Seu impasse é o mesmo. Está entre três chamados: o da Beleza, que é sua Arte; o da Mãe, que é de onde ele veio e sempre tende a voltar; e o da Mulher, que é para onde ele deseja ir e de quem costuma fugir. Seu movimento é um eterno vai-e-vem mental, confuso entre os estímulos diversos.
Para tornar-se um Homem, precisa, antes de mais nada, assegurar-se da sua Arte e reconhecer naquilo que o sustenta o seu grande e primeiro amor. A Arte nunca irá abandoná-lo. Propicia ao Enamorado um sentido ético para a jornada. Aí então, o menino confuso pode encontrar o fio de Ariadne, tomar seu Carro e colocar-se a caminho de uma solução. Fundamental, o primeiro passo.
Alguns, peterpânicos, nunca saem do impasse. Repetem-no por toda vida, mudando as personagens. Uma mulher, aquela que não ocupa seu desejo romântico, no papel de esteio. A Mãe, a Mestra, a Esposa (leia-se aí, alguns casamentos falidos em que a relação homem/mulher mais parece uma relação filho/mãe). Um pilar cimentado pela necessidade de alguma segurança. Laços de família ou laços religiosos bem atados. Religiosos sim, porque não raro os laços estão amarrados no sentimento de culpa com nó cego.
A Outra é aquela que ocupa o lugar de risco, a namorada-novidade sem a qual ele não vive - nem que seja num movimento imaginário. Sua idéia erotizada de mulher lhe traz a ilusão de movimento. E ele sempre troca de revistinha. Uma hora é loira, depois é morena. Desiste ao primeiro sinal de dificuldade ou encara a situação apenas como mais um desafio.
Para escapar do desespero inaugural o menino tem sua Arte, onde se lança com energia. Alguns mais, outros menos. Aos que a Arte não toca, ao invés do Anjo-Menino, têm o Anjo-Diabo. E ele os domina através de seu riso entorpecente. Aqueles que reconhecem sua Arte sobem o Himalaia, praticam esportes radicais, são admiráveis e admirados pelo seu trabalho mas ainda assim, continuam meninos. Alguns ainda, no melhor estilo “O Louco”, caminham pela borda de viadutos completamente ébrios.
Diz-se que depois de feita uma escolha, não se deve olhar para trás. Que o caminho rejeitado nunca mais deve ser sequer cogitado. Isso soa assustador: - Quer dizer então, que não vou poder voltar?
Camile Paglia, em Personas Sexuais, é de uma clareza impressionante quando diz que o homem obedece ao caminho ditado pela direção do falo – sempre em frente, quando rijo. Ao perder a rigidez, volta para o lugar de onde veio. O eterno vai-e-vem masculino, uma metáfora do ato sexual.
Essa trama que triangula o menino é onde algumas mulheres se enredam. Por não compreenderem o mecanismo, perdem o entendimento. E se o entendem intelectualmente, não significa que o tenham introjetado. A mulher, que até aí também é só uma menina, ou está ocupando temporariamente o lugar de uma menina, só se liberta da teia quando encontra um homem. Um homem que tenha superado o imperativo do impasse biológico. Que tenha assumido seu lugar no Carro, que saiba para onde se encaminha. Que possa granjear-lhe a admiração pela sua força de vontade.
Talvez essa força masculina tão desejada pelas mulheres precise ser, antes de tudo, encontrada dentro delas próprias. E que este encontro lhes permita, num segundo momento, reconhecer as diferenças entre um homem e um menino.
O menino, que num primeiro momento traz a graça de Eros, em pouco tempo mostra que não sabe para onde ir. Seria a confusão, admirável? E sobrevive o amor, ou mesmo a paixão, sem a admiração? Talvez a compaixão, não o amor. Ou talvez a ilusão de amor ainda perdure por um bom tempo na insistência da alma feminina e faça com que mulheres aparentemente maduras percam o sono. Não entendem “aonde ele quer chegar” por que ele mesmo não sabe “aonde” quer chegar. O menino emite sinais confusos. De um lado mostra que gosta, e é real. De outro, que não lhe interessa. E também é real. Sabedoria do cancioneiro popular: a verdade mesmo é que ele não sabe o que quer.
Um homem não anda em zigue-zagues. Coordena seus cavalos de força na direção da sua vontade mais íntima. Pelo menos, descobriu o que deseja e deixou de se iludir com o que “pensa” desejar. Pode optar também por eleger a sua dúvida como verdade. E aí, num sentido romântico, dá-se como perdido. Se for um forte, assumirá sua opção pela dúvida com todas as letras. Sem medo. E quem gostar dele, gostará mesmo assim. Um ato de coragem a que meninos não se dispõe.
Outro dia, comentei com um colega tarólogo sobre o excesso de questões que nos são trazidas com relação a assuntos sentimentais. Brinquei ao propor que criássemos uma tiragem complexa e destinada, exclusivamente, a responder a pergunta básica, feita por mulheres dos 15 aos 70: “Ele vai voltar pra mim”?
A tiragem complexa funcionaria como forma de reflexão e mais nada. Porque a resposta é sempre mesma:- Você está envolvida na rede do sexto arcano. Se a questão se referisse a um homem e não a um garoto, a pergunta não precisaria ser feita. Pois a mulher teria em mãos sua resposta clara e certa.
Um homem sabe para aonde está indo. Mesmo que seus cavalos de força oscilem vez ou outra, ele sempre lhe deixará muito clara sua direção.
Meninos são adoráveis. Mas apenas para as meninas.
Algumas observações:
1 - O teor do artigo supõe a existência de distinções básicas que pontuam o comportamento dos dois sexos. Não que a mulher não sofra com dilemas, obviamente, apenas os vivencia de forma diferente. A mulher não precisa afirmar que é mulher. O homem sofre essa pressão constantemente. Andrógino é o anjo.
2 - Tive um diálogo intenso sobre esse artigo com o tarólogo Marcelo Bueno, que me deu permissão para "editar" a nossa conversa. Isso será feito futuramente - é bacana ter um opinião masculina sobre o assunto. O ponto de vista do artigo é feminino - não pretendo ser científica, graças aos deuses.
21 de março de 2007
DIVINATRIX NO AR!
Divinatrix é o nome do site que estou lançando hoje no seguinte endereço: www.zoedecamaris.com. Visitem e coloquem aqui seus comentários!
abraços,
e um feliz começo de outono para todos nós,
Zoe
14 de março de 2007
Mais acordes de Violino

Pois bem. Há 3 questões relevantes: 1) Não há nada na internet que revele o autor das cartas; 2) Há mudanças estruturais importantes em quatro das cinco imagens apresentadas se comparadas ao padrão marselhês; 3) E uma gafe - o Tarot não teria sido usado como prática divinatória na época em que o filme é ambientado.
Quanto ao primeiro tópico, agradeço a quem descobrir alguma coisa. Me parece que manter o autor no anonimato faz parte de uma aura de mistério intencionalmente provocada.
Com relação ao segundo ítem, percebe-se claramente que na lâmina do Diabo falta uma personagem, um dos "escravos". A vítima do encanto é uma só, Frederik Pope. Na carta da Justiça, há a inclusão de um navio e da bandeira chinesa, além de umas figurinhas que nos remetem aos cardeais presentes no desenho original do Papa, no Tarot marselhês. No Enforcado, falta meio cepo de uma das árvores laterais. Na carta da Morte, há uma cidade ao fundo. Observem as imagens no post anterior. Não consegui reproduções de qualidade mas é nítido que foram inspiradas no Tarot de Marselha.
Sobre a questão histórica, afirma-se que o Tarot não teria sido usado antes 1781, século XVIII, como prática divinatória. Eteilla teria sido o responsável pelo uso do Tarot para a adivinhação, alavancado por Court de Gébelin, em Monde primitif. O filme é ambientado em 1681, século XVII. Temos aí então um hiato de 100 anos. Como a história do Tarot não é minha melhor praia, recorri a quem saca do riscado - minha amiga Erika Hirs.
Erika me diz que as pesquisas mais recentes afirmam o mesmo - antes de 1781, nada de Tarot adivinhatório. O máximo que podia existir seria a leitura de uma carta, como na bibliomancia, mas nada de adivinhações estruturadas.
Raciocino: quer dizer então que antes de 1770 existia uma prática correlata à "carta do dia"? Curioso. Se as cartas comuns já eram usadas para a adivinhação e se existia o costume de se tirar uma carta do Tarot como conselho, será mesmo que o Tarot não teria sido usado para adivinhação, mesmo que de forma não-sistematizada, antes de 1780?
Erika me responde que em 1519 existe o registro de um "ritual mágico" que Rolando - de Orlando Furioso - teria feito com cartas de baralho comuns para descobrir os inimigos de Carlos Magno. E no século XV, um livro alemão oracular que acompanhava as cartas comuns. Em 1540 sabe-se de um método de divinação usando só as cartas de moedas.
Eu e Erika concordamos que seria possível que as cartas de Tarot fossem utilizadas ainda antes de Eteilla. Mas como não há provas, considera-se que só após 1780 as cartas teriam sido realmente deitadas com intuito divinatório. Esperemos as novas descobertas.
Enquanto isso não acontece, é bom levar em consideração que uma obra de ficção, apesar do imperativo da verossimilhança, é uma obra de ficção. E a beleza do filme Violino Vermelho, na minha opinião, supera suas possíveis gafes.
Zoe de Camaris
3 de março de 2007
TAROT E CINEMA (3)

Não sei quem forneceu consultoria - não consta dos créditos. Revirei a rede sem sucesso, nenhum tarólogo ligado à produção do filme. De qualquer forma, sendo o resultado de estudo e sensibilidade dos roteiristas, ou fruto de um trabalho especializado, é inegável que os arcanos maiores do Tarot foram utilizados com graça e pontualidade. Não se perderam no labirinto, na miríade de possibilidades interpretativas característica do sistema. Arriscaria dizer que é a primeira vez que o Tarot é tão bem aproveitado no cinema. Não raro, sua presença é estereotipada, de acordo com parte do senso comum. Em O Violino Vermelho é feito jus ao biscoito fino – o Tarot reencontra toda a sua versátil potência, o seu mistério e poder de sugestão nas mãos de Cesca, uma cozinheira do século XVII (1681).
Cesca ocupa na história o papel de Grã-Sacerdotisa, arcano II do Tarot. Sabedora das ervas, talismãs e feitiços, deita o Tarot para Anna, esposa do mestre luthier Nicolo Bussoti. Anna está grávida e, embora não demonstre a vitalidade típica do arcano III, encarna a figura da Imperatriz. A primeira cena em Cremona (Itália) mostra o encontro entre estas duas mulheres na cozinha. Cesca vem chegando da horta, enquanto Anna acaricia sua barriga e canta. A relação de reconhecimento e respeito é estabelecida imediatamente: Anna pergunta se poderia estar ali, já que a cozinha é parte de sua casa, ao que Cesca responde afirmativamente. Os limites e as diferenças entre a Sacerdotisa e a Imperatriz são resguardados. Cesca tem seu santuário, seu laboratório alquímico, enquanto Anna impera no resto da casa. E é este encontro entre as duas que irá delinear o transcorrer da trama.
Cesca impede que a Senhora coma o peixe que está sobre a mesa, dizendo que isso causará no seu filho lentidão na aprendizagem e lhe oferece amuletos sobre os quais ela e o marido deveriam cuspir. A força mágica da saliva é conhecida por bruxas e curandeiras. A energia incorreta é retirada do objeto. Sabe-se que, antigamente, uma cuspida de um superior ou um sábio era muito bem vista, os demônios sairiam da pessoa em questão. Toda secreção humana era tratada com muito respeito e sempre coberta ou enterrada – havia (e ainda há) a crença de que cabelos, unhas, saliva podem ser usadas por algum inimigo para prejudicar seu vizinho. No caso que o filme apresenta, Anna e seu marido deveriam cuspir sobre os amuletos para impregná-los com a sua força. É bom lembrar que um destes amuletos é uma chave - para facilitar a expulsão do bebê? Provavelmente. Todos os cuidados eram tomados em uma época em que o parto era um fator de alta mortalidade. No entanto, parece que o destino é mais forte e se faz valer. Contra ele, não há orações e nem amuletos realmente eficazes. O simbolismo da chave é forte e vastíssimo - uma das imagens do baralho de Madame Lenormand: abrir o que está fechado, iniciar processos e desvendar mistérios.
Anna pergunta a Cesca se ela ainda lê a sorte e pede que o faça para seu filho, ainda na barriga. Cesca diz que não, já que os humores da criança estavam misturados aos da mãe. Mas diz que lerá para Anna o seu futuro, desconsiderando o fato de que a mãe também teria seus humores ligados ao da criança.
Enquanto isso, Nicolo Bussoti faz seu melhor violino para oferecer ao primogênito que, cumprindo as expectativas do pai, seria um grande musicista.
O violino, verdadeiro protagonista da história, é que tem seu destino deslindado na sorte de Cesca. No objeto que se torna mágico, estarão misturados os humores da mãe e da criança e mais tarde saberemos a razão. Como não sou estraga-prazeres, peço aos que ainda não viram o filme que parem a leitura aqui e voltem depois de assistirem O Violino Vermelho.
A Senhora tem medo em saber o que o destino lhe reserva ao que Cesca responde: “É apenas o futuro”. Estende magnificamente seu baralho sobre a mesa tosca da cozinha, ao lado de seus amuletos, pedras, ossos e chaves, e pede que Anna tire 5 cartas. A Senhora questiona Cesca: -“E se o futuro for ruim?" Cesca diz então que “fingirá que que não viu”.
Aqui entramos em uma questão polêmica e que evoca uma discussão interminável sobre o destino e o livre-arbítrio, sobre o Tarot adivinhatório e o Tarot auto-reflexivo. Penso que estas formas de abordagem convivem e que só devemos “separá-las” no intuito de estudá-las, ou talvez, para delimitar posturas. As coisas acontecem, obviamente, ao mesmo tempo. Tendo-se em conta o abuso de charlatões em leituras de Tarot, que além de dizer asneiras ainda exploravam (exploram!) monetariamente suas vítimas, criou-se na contemporaneidade o que eu chamo de uma “ditadura do livre-arbítrio”. As coisas ficam sem graça, assim. Tudo é "holístico" e alternativo demais. Auto-reflexivo demais. Até parece que destino não faz parte do jogo como faz parte da vida. Há situações que podem ser modificadas, outras não. O Tarot não é apenas o “Espelho da Alma”, mas também o indicador de um futuro possível. Ora, não é preciso ser adivinho para perceber em alguém que se senta à sua frente para uma leitura, qual é a disposição interna para promover mudanças. O Tarot alerta, mas nem sempre é escutado.
Na minha prática a opto muitas vezes pelo uso da linguagem figurada para que a inserção criativa do consulente possa se estabelecer, para que ele possa compreender, à luz de suas experiências, as respostas do Tarot. Mas há coisas que não se explicam em se tratando de oráculos. Cesca lê o destino do violino. Cesca conta o filme através de suas cartas. E o que parece ser incompreensível no destino de uma mulher grávida, casada com um mestre luthier na Itália do século 18, passa a fazer todo sentido.
Penso que não devemos, no papel de tarólogos, discutir com o Tarot. O consulente não nos procura para saber a nossa"opinião". Podemos sim entabular uma gentil conversação que sempre estará marcada pela configuração apresentada pelas cartas. É uma questão de honestidade ideológica respeitar e transmitir aquilo que o Tarot fala com a maior dose de isenção possível, dando espaço para que o processo intuitivo da leitura se estabeleça. O consulente não está à procura de um psicólogo quando busca o Tarot. Se ele deseja ou necessita de um psicólogo, um analista, irá atrás dele. O que não equivale a dizer que não seja de extrema valia para um tarólogo a sabedoria em lidar com o outro, qualidade que o estudo da Psicologia poderá (ou não) conferir àquele que se dispõe a ler as cartas. Sabemos que as cartomantes do passado e mesmo do presente representam este papel na vida de algumas pessoas. Mas estamos falando de Tarot e não de Psicologia.
Voltemos ao Violino.
A LUA - Cremona (Itália)
A História de Anna Bussotti

"Terá uma vida longa, cheia, rica... e eu vejo uma viagem. Vejo uma longa viagem”. Assim começa a predição de Cesca. A cena em que Anna e Nicolo estão na janela olhando para lua, converge simbolicamente ao arcano XVIII. A Lua no Tarot fala sobre uma viagem da Alma. Um caminho escuro e enevoado onde os limites estão borrados. Uma passagem difícil - perigosa, inclusive. Um enigma, um desafio. Anna pergunta ao marido se ele tem ciúmes da sua relação com a lua ao que o marido responde que não, que sabe que ela, Anna, sempre voltará para ele. A imagem lunar voltará a aparecer em diversos momentos cruciais do filme.
Mas Anna Bussoti não volta para Nicolo. Perde a criança no parto e falece. Há quatro personagens no quarto: O padre, o médico, a parteira e o astrólogo. E Cesca, a bruxa-cozinheira. Nada, nem ninguém, é mais forte que o destino. A predição de Cesca – que falou sobre vida longa - parece, num primeiro momento, não fazer nenhum sentido.
Há uma relação entre a lua e o sangue - as lágrimas da Lua que observamos no Arcano XVIII. Sangue que reencontramos nos panos que estão pelo quarto, onde Anna dá à luz. A Lua, no Tarot, suga a energia, ao invés de promovê-la.
O ENFORCADO - Vienna (Áustria)
A História de Kaspar Weiss

Diz Cesca: “Há uma maldição sobre a senhora. Perigo para quem ceder ao seu encanto. E muitos cederão... muitos. É uma carta poderosa: O Enforcado. Vejo perigo... enfermidade... doença... Lamento senhora, não sei que doença. Há muitos tipos de doença”.
O tempo transcorre, cinco gerações. O Violino Vermelho passa pelas mãos de diversas crianças em um orfanato. A última é um virtuose, menino delicado e com o coração frágil. É levado para Vienna por um tutor que percebe seu inato talento. Quer transformá-lo em um violinista de sucesso. O menino não fala francês - a língua da música - só o alemão. O tutor só se exprime em francês, forçando para que Kaspar entenda a nova língua. Esse é o primeiro sacrifício de Kaspar Weiss.
Perfeita a ligação da história com os significados do arcano XII, O Enforcado. Imagem de superação e sacrifício, de aceitação e também dificuldade na lida com pressões sociais. O Arcano XII pode indicar um processo iniciático, uma prova difícil, e também a submissão a ideais superiores. Há um ideal utópico no Enforcado. A criança se sacrifica pela música e pelo desejo do tutor, que o pressiona. O Enforcado também denota fragilidade física e possibilidade de doenças, aquelas que Cesca prediz.
O túmulo do menino é saqueado por ciganos. A vida do violino continua de acampamento em acampamento, atravessando mares e países, até chegar aos Estados Unidos.
O DIABO - Oxford (EUA)
A História de Frederik Pope

Diz Cesca: “E vejo depois uma época para a vida, para a luxúria e a energia livre do outro lado das montanhas, no mar... no tempo”. Sei que é confuso, Senhora, mas vejo isso e não me engano. A sua alma é como a de Lázaro. (...) Depois entrará na sua vida um homem, um homem bonito, inteligente, que seduzirá a senhora com seu talento e com coisas piores. Em resumo: O Diabo”.
Num bosque, um homem ruivo vestindo uma longa capa é atraído pelo som do violino. Há um acampamento em festa e o instrumento está sendo tocado por uma jovem cigana.
Ele é o dono do território ocupado pelo povo nômade. E troca a estadia do grupo em suas terras pela posse do Violino Vermelho.
Seu nome é Frederik Pope, um violinista que tem uma curiosa forma de compor. Cria ao fazer sexo com sua mulher. Em seguida, frente a uma platéia absorta, apresenta o violino novo e sua nova composição, em frenesi. Faz amor, agora, com o instrumento. Algumas pessoas dizem ser capazes de compor sem envolver o empenho da alma. Outros, não a conhecem. Mas os grandes músicos mostram, em sua expressão comovida e absorta, que há algo maior ali.
Victoria Byrd, sua esposa, é escritora. A ligação entre o casal não só sexual, mas também intelectual. Música letra e dança sempre deram bons casamentos. No entanto, o violonista não respeita os momentos de concentração criativa de Victoria, interrompendo-a. Ele quer amá-la e tocar o violino ao mesmo tempo. Percebendo que se ficasse ali, não conseguiria mais escrever (o que é compreensível mas completamente insano), Victoria vai para a União Soviética, em busca de um norte para seu novo livro. Inicia-se aí uma intensa correspondência entre o casal, até que ele, atormentado pela saudade e usando ópio, resolve parar de escrever. E também não abre mais as cartas que recebe. Começa a cair em letargia. Ela se dá conta da situação e volta. Mas quando chega, o encontra com outra mulher na cama, a cigana que tocava o violino. Desesperada, xingando-o de selvagem, depravado, grosseiro e cruel, acusando-o de estar usando uma musa qualquer, aponta uma arma para ele, depois para a cigana. Mas ninguém era culpado de coisa nenhuma. E ela atira no violino. Pope, arrependido e abandonado, escreve para Victoria, comunicando que irá se matar. E deixa para a esposa todos os seus bens.
O Diabo nos fala de riqueza, talento, paixão, depravação, sexo, luxúria, frenesi, emoções fora de controle, poder criativo, obsessão, confusão, virilidade. De amor por tudo que embriaga, entorpece. De magnetismo e magia.
E tudo isso tem a ver com o violino, instrumento que apareceu na Itália em meados do século XVI e alcançou sua popularidade em XVII. O violino desenvolveu a reputação de uma ferramenta mágica por causa do arco fálico que evoca os sons de um instrumento curvilíneo. Uma metáfora para o ato de criação que combina o masculino e o feminino. Seu valor simbólico não pode ser desvinculado das tradições musicais dos judeus europeus e dos romenos. Não era só um instrumento musical, mas trazia consigo a alma, a essência dessas culturas. Nas lápides e tetos de sinagogas encontram-se desenhos de violinos que trazem motivos astrológicos. As cordas foram usadas como amuletos pelos romenos, enrolados em torno do pulso ao invés do laço vermelho. Era indispensável na magia romântica e nos casamentos. O violino parece servir ao Amor.
E desde então a mítica cristã creditou ao instrumento um caráter diabólico, personagem de uma trama folclórica complexa. Quando é tocado, a comunicação imediata com o Diabo se estabelece.
Uma das profissões do Diabo é a de professor de violino e os mestres violinistas eram acusados de obter sua sabedoria através do demônio. Aulas particulares eram ministradas em encruzilhadas. Uma superstição européia é a de que quando se dança ao som de um violinista desconhecido, a alma está em perigo. Conta-se que uma linda jovem, inocente e solteira, encontrou um grupo de mulheres dançando em torno de um homem que tocava violino. Vestia-se com uma longa capa preta e era belíssimo. A garota junta-se ao grupo e descobre no final da dança que havia sido iniciada como bruxa sem saber e num process incontornável. O Diabo toca para que as bruxas possam dançar. E nós dançamos.
O personagem Pope em O Violino Vermelho, faz eco à mítica de Niccolò Paganini (o compositor genovês também empresta seu primeiro nome ao marido de Anna, Nicolo Bussoti). O Diabo teria concedido ao músico a desenvoltura e habilidade que o levou à fama. Paganini tornou-se conhecido como o Morcego da Bruxa (Hexensohn) por causa do pretenso pacto com o Diabo. Ao invés de refutar os rumores, Paganini os alimentava, cada vez mais famoso. Chegava aos concertos em uma carruagem puxada por cavalos negros e vestido com uma negra capa. Demorava para entrar em cena e quando chegava, uivava. Uma de suas composições mais conhecidas se chama Strega (bruxa, em italiano, como bem sabem). Uma vez, Paganini foi forçado a publicar cartas de sua mãe para provar que tinha os pais humanos. As cordas do seu violino teriam sido feitas com os cabelos de Satã. O pacto não teria terminado na hora de sua morte, já que se negou a receber a extrema-unção. Seu corpo não foi enterrado em solo sagrado e permaneceu durante cinco anos em um porão, até que, através de uma petição, a família conseguiu que fosse enterrado.
As lendas que relacionam os intrumentos de corda aos pactos demoníacos tiveram continuidade através do gênio de Robert Johnson, o famoso bluesman americano. Quem não se lembra do famoso duelo de Steve Vai e Ry Cooder no filme A Encruzilhada (Crossroads, 1986) com a versão para guitarra de Caprice 5#, - sim, ele de novo - de Paganini? Coisas do canhoto, Kokomo ou Stradivarius. E já que não posso dizer pra ele nem uma palavra ... Kind Hearted Woman Blues é uma boa forma de tergisversar.
A violinista americana Rachel Barton explorou a mítica e as associações literárias entre as bruxas, o diabo e o violino em seu CD Instruments of the Devil, de2003. Ainda não consegui escutar.
A JUSTIÇA - Shangai (China)
A História de Xiang Pei

Diz Cesca: “Haverá um processo, um grande processo diante de um juiz poderoso e a senhora será a culpada. Cuidado. Cuidado com a cor do fogo”.
O criado de Pope, um chinês, atravessa o mar em direção a sua terra natal. Quando olha através da escotilha (que lembra a lua cheia), levanta-se e vai pegar o violino que agora lhe pertence. Chegando a Shangai, vende o violino a uma loja de antiguidades. O tempo passa. Um dia, uma mulher se interessa pelo instrumento e o dá de presente à filha pequena.
É interessante notar que ao confeccionar seu instrumento, Nicolo incrusta um rubi na cabeça do braço do violino, gema que é retirada pelo dono da loja de antiguidades. E o rubi, que agora falta no violino, é da cor do fogo, do sangue e do regime maoísta.
O tribunal a que a leitura de Tarot se refere é encarnado por partidários de Mao julgando um professor de música que ousa ensinar a música estrangeira, fruto da cultura capitalista. Há a interferência de uma moça integrante do partido, Xiang Pei, que habilmente evita que o professor precise parar de lecionar, mas que não pode impedir que seu violino não seja queimado. De novo, a cor vermelha, o fogo – a fogueira onde arde o violino.
Xiang Pei vai para casa e quebra seus discos de música ocidental. Reconhecemos nela, neste momento, a menina chinesa que ganhou o Violino Vermelho de sua mãe, ainda na época imperialista. Ela pega com carinho no seu violino. Nesse momento, seu filho pequeno entra na sala. Pedindo segredo para a criança, toca o Violino Vermelho. A criança, em sua inocência, comenta com o pai (que está num comício esperando por Xiang Pei), que ele e mãe têm um segredo. Junto com outros companheiros de partido, o pai invade a própria casa. A mulher não está mais lá. Foi procurar o velho professor, que depois de muito hesitar, com medo, aceita guardar o Violino Vermelho e protegê-lo.
A Justiça é no Tarot é tudo que o Diabo não é. Na Justiça reina a ordem, a economia, o radicalismo em nome da lei, de uma verdade socialmente aceita. Fala da responsabilidade, da inocência e da culpa. De divisão. Em seu melhor vestido, a Justiça é a harmonia entre forças opostas. A moral, que ela defende, é vista como uma função da alma humana. Trata da lealdade àquilo que foi eleito como uma verdade maior, mesmo que do âmbito pessoal – é quando o sentimento preside o ato de julgar. No entanto, a Justiça no filme aparece como uma força severa, inflexível. O fanatismo e a violência da Revolução cultural de Mao Tse-Tung. É a Justiça favorável a uma ideologia. Isso pode ser explicado pela presença da Lua, O Diabo e a Morte (invertida). A Justiça está mal aspectada.
A MORTE (invertida) – Montreal (Canadá)
A História de Moritz

Quando Cesca tira a última carta, a Senhora se impressiona vivamente. Mas Cesca diz que, por esta se mostrar invertida, pode representar uma boa notícia: “Sinto o ar soprando velozmente sobre a senhora... transportando-a... um vento furioso e mais nada. A sua viagem terminará sem dúvida... eu vejo isso. De uma maneira ou outra, suas viagens terminarão. Aqui também há um erro, como sempre. Mas a senhora... está forte agora... forte como uma árvore na floresta. A senhora não está sozinha. Um mar de rostos de pessoas amigas, inimigas, de amantes... A senhora levará consigo muitos admiradores que lutarão para possuí-la.. E dinheiro! Muito! Não, senhora. Não tenha medo. Nesta carta eu vejo... vejo um renascimento”.
Agora estamos na atualidade, em Montreal. Mortiz, um especialista em violinos vindo de Nova Iorque, chega à cidade para avaliar um lote vindo da China. Quando vê o Violino Vermelho desconfia que seja o famoso instrumento confeccionado por Nicolo Bussoti em 1681. Manda fazer testes diversos com o instrumento, tendo a ajuda de um restaurador, e guarda segredo da sua desconfiança. Compra uma cópia do violino feita por Pope para compará-los e espera o resultado dos testes. O restaurador diz que nunca viu uma máquina tão perfeita, no que Moritz concorda, dizendo que é o casamento perfeito entre a arte e a ciência.
Agora voltamos à oficina de Bussotti e ao desfecho do filme. Nicolo Bussoti leva o corpo da mulher falecida para seu atelier e o deita sobre a mesa. Corta os cabelos de Anna e faz o pincel do violino. Tira seu sangue e mistura com o verniz e os outros preparados. Pinta o violino de vermelho.
A equipe da casa de leilões Duval descobre que o Violino Vermelho é “O Violino Vermelho” e Moritz confirma. Diz não ter avisado antes porque desejava assegurar-se da verdade. Moritz já estava tomado pela magia do violino e pelo mistério de Anna. E disposto a conhecer sua história. Recebe os exames que confirmam que a pintura do violino contém sangue.
No leilão encontram-se um representante da fundação Pope e o filho de Xiang Pei. Padres da mesma ordem do antigo orfanato alemão fazem contato com a casa Duval pelo telefone. A peça é arrematada por um regente ambicioso pela quantia de dois milhões e quatrocentos mil dólares. Mas o instrumento arrematado é a cópia, pois, nesse ínterim, Moritz conseguiu trocar o verdadeiro pelo falso. E vai embora com o verdadeiro. Telefona para mulher e depois, conversando com a filha, avisa-lhe que vai ganhar um presente.
Assim o violino cumpre sua sina e volta para as mãos de uma criança. O ciclo recomeça. Passou pelas mãos de um menino, de um homem, de uma mulher. As cartas da corte.
Se tomarmos como verdade que o Tarot desempenhava função oracular, ainda mais dentro do contexto de época apresentado pelo filme, a Morte dignificada teria sido interpretada como uma morte física. Não é hoje outra a razão que faz com que diversas pessoas tenham medo da carta e, por extensão, medo do Tarot. Cesca lê a Morte vinda mal-dignificada, invertida. O que poderia significar que é possível fugir da Morte, de alguma forma. Alcançar a Imortalidade na Arte.
Anna Bussoti não foge à morte física. Perpetua-se ao dividir-se em humores: a genialidade de Nicolo, a alma de seu filho e ao fluxo de seu sangue - tudo tornado Música.
Cesca, a vidente, acerta sua predição.
Zoe de Camaris
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Ficha Técnica e
Soundtrack
BIBLIOGRAFIA:
ILLES, Judika. The Element Encyclopedia of Witchcraft. London: HarperElement, 2005.











