11 de dezembro de 2014

As Três Espadas da Dor

"Mora na filosofia 
Pra que rimar 
Amor e dor".

Monsueto





















Dor. A dor de amor. A rima é pobre, mas multiplica-se exponencialmente em dobrões de ouro no baú da arte: música, poesia, literatura. Um tesouro de metáforas, sons e tintas. Dá ibope porque todo mundo já sentiu, sente ou sentirá um dia (e por longas noites, noites que parecem não ter fim) o coração trespassado pelas Três Espadas. “Do meu coração ela fez almofada furadinha de alfinetes”, acerta na mosca Dalton Trevisan.

Eu não queria falar sobre o assunto porque recordar é viver, mas a enxurrada de consulentes nos últimos meses com a mesma questão (de sempre) vinha me encasquetando. Quando isso acontece acabo achando que preciso me deparar com o assunto de forma mais profunda. Mas não estava nem um pouco a fim, juro pra vocês. Medo de escutar todas aquelas musicas bregas de novo; depois, todas aquelas outras lindas de morrer. Então deixei quieto até que vi uma imagem que não conhecia do arcano menor. E lembrei do coração que, um dia, desenhei em uma árvore. Tarde demais, já havia acionado a máquina do tempo. E um filme pulou do arquivo.





















Brilho eterno de uma mente sem lembranças. Para se livrar das memórias amorosas, uma máquina que tudo apaga. Fantasia constante na dor de cotovelo. Você quer esquecer imediatamente, uma piscadela de Jeannie, uma fórmula mágica para recomeçar a viver, chega de sofrimento. Mas não adianta. A engenhoca não existe. E depois, a questão pode ser bem mais complicada do que parece: apaixonar-se pela Tristeza. Manter a dor é manter alguma coisa da história que se foi. E o que mais dói são as boas lembranças. 

Hajo Banzhaf, ao interpretar o 3 de espadas frisa que essa imagem, comumente vista como uma tradução da dor emocional causada por sofrimento amoroso, ofusca o significado principal do arcano menor: a decisão tomada contra este sentimento. Aceito que toda carta traga em si sua solução, vamos explorá-la. Concordo também que é impossível fazer uma leitura de Tarot sem que se tenha em mente que o significado de uma carta é modulado por aquelas que a rodeiam, já que o Tarot é uma linguagem. O 3 de espadas em alguns contextos pode significar apenas alguma tristeza passageira ou uma dor antiga que ficou encalacrada.

No entanto, o impacto da imagem é revelador. Não há quem não identifique o coração trespassado como uma tradução vívida da dor emocional. Quem nunca desenhou um um coração ferido por uma flecha? Cupido sacana, garoto irresponsável. E quando da flechada se esvaiem gotas, uma poça de sangue? E precisava flechar três vezes?





















A Espada Branca do Abandono

O coração foi atingido por um vazio devastador. Um deserto de areias claras que nasce de uma nódoa, uma mágoa profunda. Poderia ser negra a espada? Sim, negra como Saturno, todos os nossos filhos devorados, um buraco. Estamos na fossa, negra pela ausência de cor. Mas branca como os cabelos brancos, branca como um tremendíssimo Nada. Nada que até desejaríamos escuro, pois aí então seria a Morte. É pela morte que clamamos quando começa a crise de abstinência, a angústia do aniquilamento. Mas o problema no auge da dor é que não estamos mortos. Pelo contrário. Acordamos e dormimos com a ausência. E a vida fica em branco, desintegrada. Desalento, abandono. A criança que perdeu a mãe. E o único colo possível se levantou apressado. Vulneráveis, estamos sozinhos e desabrigados no frio, na chuva. E sentimos Medo.

A Espada Branca do Abandono é a espada crucial, acerta no meio do coração. Vai ditar o tempo real em que permaneceremos na fossa. Tudo depende da sua autoestima. Da sua capacidade de nutrição. Do valor que tem perante a si e, mesmo que seja difícil admitir, perante aos outros. Do apoio que recebe. Do carinho amoroso que pode embalá-lo agora. A ternura salva. Mas não se esqueça que a Dor, assim como a Alegria, faz parte do caminho. Encare a dor da perda, viva o luto por tempo determinado. Combater a dor imediatamente  com remédios não é a saída. 

A carta que ressignifica a Espada do Abandono é o 3 de copas. O que não cabe na cabeça, o que a cabeça rejeita, pode caber perfeitamente no coração. As águas quentes de Copas podem derreter o gelo de Espadas, o frio egoísta do amante rejeitado. E o deserto transforma-se em um espaço de liberdade. 


A Espada Vermelha da Raiva

"Talvez as lágrimas não sejam mais do que isso, o alívio de uma ofensa", diz José Saramago. A tristeza confunde-se facilmente com a raiva. Para não chorar, gritamos, lançamos impropérios às estrelas. É o espaço da birra. Do ciúme, da vingança, os planos que arquitetamos para que aquele (a) que nos fez sofrer arda no inferno do merecimento. As armações, inevitavelmente prejudicadas por uma chama que coloca toda estratégia a perder. Não se pensa bem quando baixa o pano vermelho. Única cor quente entre as Espadas da Dor e também a mais perigosa. Um sopro de vida nos coloca em pé de guerra. O estado passivo dá lugar à ação. A raiva toma o lugar do tesão e da alegria. A agressividade como impulso vital em meio ao gelo do abandono. A Espada dos Inconformados. E dos assassinos. Gotas de sangue sobre a neve. Me disse uma vez um amigo sobre a raiva: "Você fica com o original e manda a cópia". Ou seja, a primeira vítima do veneno destilado é você mesmo. 

A Espada Vermelha da Raiva mostra que a energia existe. Está ao seu dispor. E que você pode transmutá-la em ânimo. Que depois de esmurrar travesseiros, dar um pique (vários) de bike e tomar um (diversos) banhos ultra especiais, aquele vestido ainda está no armário e os batons vermelhos, no prazo de validade. Só não caia na velha armadilha de tomar um porre. Assim, a volta da Espada Branca será inevitável. 

A carta que ressignifica a Espada da Raiva é o 3 de Bastões, A Virtude. Ultrapasse os limites que o mantém preso em espaços torturantes. Desmonte a área de conforto desconfortável. Transmute o fogo da Espada Vermelha explorando o desconhecido. O mundo está aí, em suas mãos. 


A Espada Azul da Saudade

O passado se mistura ao fluxo do presente e se lança no futuro. Nenhuma outra espada tem o poder de acionar a máquina do tempo como a espada azul. Na bruma blues da palavra, paira o monstro da esperança e da alienação. O retorno do ser amado, a volta ao paraíso, os planos traçados para quando ele perceber que sem você a vida não tem graça. A Espada Azul da Saudade pode apagar a ideia de abandono e também da raiva situado-se em um ideal que obinubila a realidade, agora azul-clara como os olhos de um cego. Cria-se um mundo de fantasia em que podemos habitar na hora em que nos der na telha. É espada que não se tira da pedra. A única que vingará para um amor vivido em techinicolor. Temos total liberdade para sonhar. Como a Hidra de Lerna e sua cabeça imortal! Lembram que Hércules destrói todas as cabeças da Hidra menos uma? Aquela que mesmo enterrada pode voltar à vida a qualquer minuto? Manhosa, esse espada.

A Espada Azul da Saudade exige que depois da choradeira, depois de escutar a mesma música por três (ou mais) dias inteiros, depois de lembrar do corpo dele (a) em seus menores detalhes com uma disciplina que faria inveja a um monge, a recorrência ao mesmo motivo seja lentamente deslizada para o trabalho. Cabeça vazia (cheia de lembranças) é a Oficina do Diabo. "Um passarinho/ volta para a árvore/ que não mais existe// meu pensamento voa até você/ só para ficar triste". Poema belíssimo que nos faz visualizar a imagem da saudade, de Alice Ruiz. Mas agora deu. Faça com que o passarinho pouse na árvore que está aí fora da sua casa, aquela árvore que você consegue ver. Se não isso não vai acabar nunca!

A carta que ressignifica a Espada da Saudade é o 3 de Pentáculos, o Trabalho. Reuna suas forças (mente, corpo e espírito em uma só direção) e lance-se em um projeto. Tome atitudes concretas para diminuir o tempo do devaneio.





















Nada deu certo?  Não é bolinho mesmo, ninguém disse que ia ser fácil (a decepção amorosa é o reino dos clichês). Mas eu ainda tenho algumas cartas na manga. Essa foi a que funcionou comigo. Vamos lá:

Imagine um monstrinho negro e peludo. Gordinho, redondo. Ele paira à esquerda da sua cabeça, um pouco mais para o alto. Ele se alimenta da sua autocomiseração, da sua raiva, dos seus pensamentos saudosos. Vamos emagrecer o bichinho. Mas antes o visualize (aqueles livros de imaginação ativa que você leu escondido de seus amigos intelectuais precisam servir para alguma coisa).

(...)

Pronto? Visualizou? Pois bem. Você poderia matá-lo com uma espada astral, mas iria dar um trabalho tão monstruoso quanto o próprio monstro. Então vamos pelo caminho mais simples, mas não menos efetivo. A inanição da forma-pensamento sangue-suga. Pare de alimentá-lo lentamente, com requintes de crueldade.  Quando ele estiver morrendo de fome vai ficar louco, sedento. Os pensamentos dos quais quer se livrar vão voltar com tudo e você vai dizer que essa tal de Zoe de Camaris está de estória. Calma, esse é o momento mais difícil. Mantenha a imagem. Veja o monstro peludo diminuindo de tamanho. Do negro vibrante azulado, ao cinza empalidecido. Não, não corra escutar Alone Again de novo, por favor. Você vai conseguir. 





















Talvez a alma de borboleta azul do bicho peludo nunca suma por completo. Mas a pior parte já passou. Você está livre para respirar, para trocar os espelhos de casa, os seus olhos voltarão a brilhar. Uma casca de cebola retirada é retirada para sempre. Você já deu vários passos. A projeção, o risco da dor, a beleza de amar estarão aí nessa vida de idiossincrasias sempre, ao alcance de sua mão. Porque é o que nos resta depois dessa experiência maravilhosamente horrível, não é? Crescer. 

Eu não inventei a magia do monstrinho. Está em um livro de magia prática que tem o Tarot como mote. Apenas a adaptei sem alterar a essência. Enquanto escrevia esse artigo, contei para minha irmã como funcionava. Ela gostou, mas disse ter uma bem melhor e de própria autoria. Vou colocá-la aqui porque no fundo ainda acho que só o Tempo, esse senhor que deve ser respeitado, é que dá jeito na dor de amor. E se você já tentou tudo, sais de banho, academia, psicanálise, meditações ativas; já rasgou as fotos, já roeu todas as unhas, encantamentos para cortar os fios, vale a marmelada antes da morte. Agora, só para mulheres:

Coloque uma roupa de príncipe encantado no seu príncipe. Meias rosadas, sapatos que viram na ponta com fivelas douradas, calçonetes bufantes, blusa idem (com algumas listras), pluma escandalosa no chapéu medieval. Imagine ele com um corte chanel, com as pontas dos cabelos escapando pelas orelhas. Escolha então um apelido "daqueles". Apelido que deve ser mantido em segredo e só usado em petit comite

E agora, por favor, ria um pouco!



Zoe de Camaris

P.S.: Agradeço ao amigo Marcelo Bueno, tarólogo de fino trato, por ter me acompanhado em aspectos teóricos e práticos enquanto formulava esse artigo. 


24 de setembro de 2014

FLASH TAROT




O Flash Tarot é uma modalidade de leitura das cartas enviada para você em pequenos arquivos de voz pelo WhatsApp. A tiragem utilizada é a Mandala Astrológica. A Mandala apresenta um panorama da sua vida agora e cobre diferentes áreas como amor, trabalho, carreira, amigos, projetos, família, estudos, sexo, saúde, etc. As cartas indicam as oportunidades e os desafios. 

A Mandala é como um retrato, um instantâneo do momento presente e que contém em si a semente do que está por vir. Qualquer aprofundamento em um ou mais setores poderá ser tratado em uma consulta específica, on-line ou presencial. 

O trabalho funciona da seguinte forma: você me envia uma foto sua. Uma foto que de alguma forma o represente neste exato momento de sua vida. Vou precisar também que escolha um número de 1 a 36 e me deixe saber qual é. Sobre as cartas serão dispostos amuletos e talismãs retirados de uma bolsa de apetrechos criada especialmente para este projeto pela artista e astróloga Vanessa Panambi. A ideia é que estes objetos reforcem ou amenizem os efeitos de determinados padrões energéticos que influenciam o seu presente. 

Uma foto da sua Mandala será enviada em seguida, assim que a leitura se encerre. O valor da consulta é de 152 reais depositados no Banco do Brasil. Assim que depósito for verificado, sua leitura gravada e a foto chegarão em seu celular num prazo de 48 horas (excetuando o fim de semana). Para qualquer esclarecimento adicional ou marcação de um jogo, entre em contato pelo e-mail zoedecamaris@gmail.com.

Suporte gráfico: Café Tarot

23 de setembro de 2014

O Tarot e a Arte de Imaginar

Jake Baddley/The Messenger



































O Tarot é um conjunto de imagens formado por 78 cartas que nos apresenta a junção de dois sistemas articulados. Os 22 Arcanos Maiores, intitulado de baralho filosófico; e os 56 Arcanos Menores, composto por quatro naipes de cartas numeradas de 1 (Ás) a 10, mais as Cartas da Corte - Rei, Rainha, Cavaleiro e Pajem.

Não se sabe quando os dois sistemas foram associados. O que se verifica, na prática, é que há uma interpenetração entre as duas estruturas, criando um grande leque de possibilidades combinatórias.

Há várias idéias para uma só imagem, o que obedece a um eixo paradigmático de interpretação, mas as várias imagens constituem também uma só idéia, um eixo sintagmático. E esse eixo sintagmático traduz um processo de desenvolvimento do imaginário humano, lido em uma escala composta por imagens motrizes, os Trunfos, e que revela um caminhar do inconsciente coletivo da humanidade assim como uma possível trajetória do desenvolvimento subjetivo e individual.

Mas o que importa mesmo é que o Tarot é um magnífico exemplo da arte de imaginar. Lâminas que condensam a matéria fluida da psique em um acordo poético que escapa à interpretação literal. A Imaginação resiste à Hermenêutica, como afirma Bachelard. E aí reside o poder do Tarot  - persistir pelo mistério. Seduzir por não se deixar agarrar facilmente. Depois de conhecida a estrutura, a gaiola, tenta-se capturar o passarinho. E dependendo da sua habilidade em caçar, ele até canta em suas mãos. Mas quando se vai colocá-lo na gaiola, desaparece no ar.

E assim funciona a imagem. Não se deixa capturar. É verdade que a lexicalização, ou seja, a tradução de imagens em palavras torna a imagem de certa forma dependente das palavras. O nome da coisa não é a coisa, mas como falar das coisas senão através palavra?

Podemos exprimir sim, o que sentimos com relação às imagens, animando-as. Ou criando outras imagens. Traduzindo-as no corpo, na dança, num canto. Envolvendo-se, ao invés de “interpretá-las”. Construir um olhar. Perceber que os limites que desenham o pássaro estão borradas, que é um pássaro vindo do mundo do devaneio e não pode ser agarrado com suas mãos físicas.

Restituir o Tarot a sua categoria de mistério e deixar um pouco de lado os manuais. Aproximar-se das cartas humildemente, ingenuamente.  Esquecer as redes de segurança, a razão. Não simplificar, pois a simplificação paralisa a imaginação. Deixar que as imagens apareçam, voem, voltem a parecer. Esquecer a forma. O que importa é a força contida em cada imagem.

Envolver-se para depois desenvolver. A imagem fala por si.

Creio que, cada vez mais, é necessário que o estudante e/ou praticante do Tarot se torne realmente sensível para as imagens subjetivas, antes de cair matando nos manuais. Não digerir de pronto as palavras dadas. Buscar as inferências, esquecer a prática cientificista na estante de livros.

O Tarot é uma Arte da Imaginação. E para enxergar sua alma é necessário abrir-se para a Alma do Mundo.


Zoe de Camaris

1 de dezembro de 2013

O Ciclo do Segredo


SEGREDO


A razão do Segredo é a sua revelação. Mas o momento que antecede o seu sentido sempre será secreto. Há algo no Segredo que o prende às profundezas originais. É certo que o mistério permanecerá misterioso. A sibila habita um sono profundo na substância dos sonhos. Quando um dragão dorme é porque seus olhos estão abertos. Faz parte da anatomia do Segredo.

Dentro do Templo existe um livro. Na caverna, uma taça de leite e sangue. No centro do botão da rosa, um ovo. Na concha, caracol. A casca fina de Babushka sofisticada é véu que não se descerra. Só quando se está morto.

A Papisa/ Scapini Tarot

A GRÃ-SACERDOTISA - II

A Sacerdotisa, Arcano 2 do Baralho Maior, traduz a a noite, o passado, o movimento lento que propicia à germinação em contraponto à ação fertilizadora do Arcano 1. No entanto, ela mesma se duplica e reduplica no claro e no escuro. É duas dentro de duas de duas dentro. A Sacerdotisa, tradução de Entropia, é o fundo infinito da fechadura. Para uma fechadura existe uma entre 7 chaves. Que é possível encontrar se você não se perder no espelho.


SILÊNCIO


O decifrador está nos limites do esconderijo. Ele o Dono do Silêncio, o único que pode se aproximar do Segredo. Só se decifra um código em um minuto branco, extenso e calado. O fotógrafo possui o instantâneo. Uma carta escondida embaixo de sua larga manga, o ciciar da cigarra. O Eremita sabe. Coleciona informações, capta sinais, enxerga pegadas no escuro. Ele só existe no tempo presente, é o Agora. Aquele que percorre o caminho por vielas escuras. O conspirador solitário com a habilidade de decodificar o emaranhado dos signos. O leitor. A serpente que se esgueira e se enrola nas joias da arca. O Silêncio concentrado no Segredo olha para o Sigilo.

 O Eremita/ Alchemical Tarot

O ERMITÃO - IX

A carta 9 do Baralho Maior fecha um ciclo na organização numérica do Tarot. O Eremita é o Velho Sábio, O Louco que criou Juízo. Sua capa abriga a Ciência e o Conhecimento. Amoral, pode usar o que sabe da forma que bem entender. O Silêncio conhece a anatomia do Segredo. Mas não pode ou não deve revelá-lo. Até que cada um por si, Deus por todos.


REVELAÇÃO

Na infância minha mãe me deu um livro ilustrado que mostrava Deus nas nuvens, dono do Céu e da Terra. O Grande Olho. Sim, é a mesma imagem que se formou frente aos seus olhos agora. Aquele-que-Tudo-Vê, o chato de galochas que não nos deixa brincar em paz. O que descobre a cena antes do desfecho. Do olho imenso do anjo vazam raios, o som da revelação. Alarde, gritos e confusão. Um bando de pássaros revoa atabalhoadamente. A porta foi aberta. Agora não tem mais jeito. O Futuro está acontecendo. As cartas voam da mesa. Vamos ver a foto.



 O Julgamento/ Kazanlar Tarot

O JUÍZO - XX


Chama atenção a diferença iconográfica entre o arcano 20 nos baralhos de Marselha e no Rider-Waite em contraponto ao Aeon de Harris-Crowley. As razões que levaram Crowley a alterar a imagem já foram bem exploradas, mas cabe aqui uma observação que cai bem neste Ciclo do Segredo. Se nos primeiros o Anjo é um escancarado, no segundo leva o dedo de enfermeira à boca e refaz o Silêncio. Devolverá o Anjo/Hórus a decifração ao Rei dos Enigmas? E o Eremita, por sua vez pedirá perdão à Sacerdotisa/Nut por sua curiosidade? O Universo continuará a seguir o caminho da Entropia? Aguardem as cenas dos próximos capítulos. A chave você sabe onde está. 

Zoe de Camaris


* Hoje cedo li uma publicação da taróloga (e fotógrafa) Giane Portal sobre a A Sacerdotisa. Lembrei-me imediatamente de uma ideia que rabisquei nas paredes da área de serviço e que continuei a escrever na minha imaginação. Ela é a autora das imagens que ilustram esse pequeno artigo. Grata, Giane, pelo mote. 

9 de setembro de 2012

21 de maio de 2012

O mundo de cabeça para baixo





"Não a entendo", disse Alice. "É horrivelmente confuso!”
“É isso que dá viver às avessas", disse a Rainha com doçura: "sempre deixa a gente um pouco tonta no começo...”
"Viver às avessas!" Alice repetiu em grande assombro. "Nunca ouvi falar de tal coisa!"
"...mas há uma grande vantagem nisso: a nossa memória funciona nos dois sentidos."
"Tenho certeza de que a minha só funciona em um", Alice observou. "Não posso lembrar coisas antes que elas aconteçam.”
“É uma mísera memória, essa sua, que só funciona para trás", a Rainha observou.

Alice através do Espelho- Lewis Carroll




          ZOE NO PERSONARE !

16 de maio de 2012

Basta um peteleco


O processo criativo é algo enigmático. Cada um de nós têm sua forma, seu momento, sua esquisitices, facilidades e dificuldades na hora de parir uma ideia, seja um projeto, um poema, uma pintura, uma nova receita de bolo.

O lampejo pode surgir do caos: Plim! Em seguida é necessário que pequeno gérmen fale com o que lhe vai  fundo na alma. Dialogue com seus desejos. Aí é preciso que se materialize primariamente, momento em que muitas vezes, a ideia escorre e se perde para sempre. Já dizia o escritor Jack Kerouac: "Considere uma ideia perdida como irremediavelmente perdida", sugerindo que a memória cria peças e que um bloco de notas faz toda a diferença. 

Lembro-me que li em algum lugar sobre as etapas do processo criativo relacionado com os naipes, se é que é possível separar em partes o que funciona em harmonia... Bem, vale como tentativa de estudo. O insight seria Espadas (1); a indispensável empatia pela ideia, Copas (2); a energia dispendida para realizá-la, Paus (3); e sua realização propriamente dita, em Ouros (4). Se era isso mesmo, não sei. Mas minha memória concorda efetivamente com as etapas Copas/Ouros. Quanto a Paus/Espadas, podemos pensar também que o lampejo poderia estar em Paus e a energia intelectual dispendida na terceira etapa, em Espadas. 

Creio que a ordem da dupla masculina Fogo/Ar dependa do que está em jogo. 

Se é uma obra sujeita à organização racional das idéias, teríamos Paus/Espadas. Exemplo: Tive uma "sacada" boa para um projeto. A luz acende. A partir do momento em que  percebo que a ideia faz sentido para mim (sim, porque posso ter uma nova ideia mas não "gostar" ou não ter "ferramentas" para fechar o processo) sento e escrevo. 


Se é uma obra que depende de soltura e profusão energética, sem maior interferências organizadoras, a ordem seria diferente. A ideia nasceria em Espadas e depois de fundamentada nos meus sentimentos, Copas, precisaria me desligar do processo racional e dar vazão através de Paus, o Fogo. A escrita de um poema surrealista se daria assim. Ou então a pintura de um abstrato.

Percebam que ainda restam dúvidas na diferenciação da primeira etapa do processo criativo. Qual a diferença entre um lampejo de Paus para um lampejo de Espadas? Além do mais, é claro que estamos falando de algo que não é dividido assim, bonitinho. É só a velha mania cartesiana de Jack, O Estripador...

Gostaria de opiniões sobre a questão dos naipes e o processo criativo. O que vocês acham? 
Eu tenho as minhas delicadezas quando crio. Preciso de paz, silêncio, de que o burburinho do dia-a-dia se aquiete. Conheço pessoas que tem o fantástico poder da redoma de cristal. Conseguem abstrair. Invejável, a capacidade de bem-tecer em qualquer ocasião. Para concluir esse texto, por exemplo, devo ter sido interrompida e também me interrompido umas mil vezes: criança chorando, telefone & interfone, visitas... Enfim, boas interrupções que não atrapalharam um texto que não precisa ser "inspirado". Porque quando é assim, meus amigos, só com minha filha pequena na casa do pai, telefone desligado e minha mãe avisada de que não morri. Pelo contrário: Estou viva, vivíssima. 

Tem horas também que não dá para bancar a Eremita. Existem prazos, o famoso deadline. É aí que me lembro deste trecho da Clarissa Pínkola Estes, no capítulo sobre o sustento das águas criativas (em Mulheres que correm com os lobos) que deveria ser enviado para filhos, marido, ex-maridos, amigas novidadeiras, porteiros, e ainda colocado na secretária do telefone:

"Pode também acontecer de o processo criador da mulher ser mal compreendido ou desrespeitado pelos que a cercam. Cabe a ela informar-lhes que, quando ela está com 'aquela expressão' nos olhos, isso não quer dizer que ela seja um terreno baldio à espera de que o ocupem. Quer dizer que ela está equilibrando um grande castelo de cartas de idéias na ponta de um único dedo, que está unindo cuidadosamente todas as cartas usando minúsculos ossos cristalinos e um pouquinho de saliva e que, se ao menos conseguir levar tudo até a mesa sem que caia ou se desmorone, ela poderá trazer à luz uma imagem do mundo invisível. Falar com ela nesse momento equivale a criar um vento de Harpia que, com um sopro, destrói toda a estrutura. Falar com ela nesse momento equivale a partir seu coração".


Ei, não parta meu coração!


Zoe de Camaris

14 de maio de 2012

FASHION TAROT






Quando comecei trabalhar como professora na Universidade Federal de Ouro Preto, onde também cursei minha especialização em Letras, lembro-me que quando falava do Tarot sempre causava um estranhamento, quando não uma risadinha de canto de boca. Me irritava muito que as pessoas não percebessem o seu potencial como um sistema de linguagem visual e relacionassem o Tarot apenas ao seu conteúdo esotérico e oracular.  Mesmo o seu viés misterioso era abafado pela imagem do charlatão, da cartomante de fundo de quintal, da tenda de estrelinhas, enfim, parte de um universo brega. 

Italo Calvino já havia escrito o seu Castelo dos destinos cruzados e isso me ajudou um pouco, afinal Calvino sempre foi e é considerado um autor de ponta para os estudos literários. Mesmo assim a desconfiança continuava e eu cada vez mais imbuída da minha pretensiosa missão de revalidar o Tarot como uma das mais profícuas máquinas de imaginar já criadas pela sensibilidade humana. E a gente começa, sempre, na beira do rio que corre em nossa aldeia...

Hoje, vejo com alegria que, independente das minhas pequenas vitórias e derrotas, o Tarot  não precisa mais de revalidação. Sua qualidade em propulsionar o ato criativo é reconhecida universalmente e cada dia que passa fascina mais adeptos. 

Pesquisando imagens que guardo nos meus arquivos, dei de cara com uma modelo desfilando para o Fashion Week de Nova Iorque um traje inspirado nas imagens de Frida Harris. E resolvi então pesquisar um pouco sobre o mundo fashion e o Tarot. Uau! O Tarot faz festa em Milão, Nova Iorque e Paris.



























O ensaio fotográfico é da René Oliver Production e se chama Visionary Fashion. Não entendo nada de moda mas gosto particularmente da ideia proposta para a Torre e da beleza delicada da carta da Justiça. Curiosamente são as duas imagens que guardam uma maior semelhança com o conteúdo original das lâminas.




E esta máscara/cabelo então? É maravilhosa. Frida H. na veia.





Essa produção é para o Harper's Bazaar, 1953, por Louise Dahl Wolfe. Vintage total.





E este traje de Christian Lacroix para a Grã, Alta, Super Sacerdotisa? Alucinante. 

Bem, aí estão alguns poucos exemplos do Tarot fazendo moda. E para quem quer um oráculo fashionista, clique aqui e tire suas cartas com o Vogue Tarot.

Agora lá vou eu tomar um banho e dar de cara com meu guarda-roupinha. Ai ai, é para quem pode, não para quem quer... Snif.


Zoe de  Camaris

12 de maio de 2012

OS LIMITES DA INTERPRETAÇÃO




















O Tarot é um sistema imagético de linguagem que permite uma gama variada de interpretações, tanto na sua sintaxe, sua sequência linear, como nas inúmeras relações paradigmáticas, ou eixos associativos, permitidas por sua estrutura combinatória. Aí reside sua grande riqueza, gerar possibilidades inimagináveis de leitura em diversos níveis de interpretação. No entanto, assim como em nossas qualidades residem nossos piores defeitos, com o Tarot não é diferente. Para quem não percebe a especificidade dos ingredientes de uma receita o que temos como resultado é a famosa gororoba: - Mas eu segui a receita certinho, diz o iniciante. Pois é. No açafrão há uma distância considerável entre a raiz e o pistilo da flor. 

No que se refere aos arcanos maiores sabemos que existem certos conceitos norteadores fixos. Não podemos, por exemplo, interpretar a aparição da Imperatriz como um "momento de retirada", assim como não é possível ler na carta do Julgamento, uma fase de estabilidade. 

Os arcanos menores apresentam uma maior variedade interpretativa, dependendo do sistema com o qual se trabalha ou deck escolhido. Os menores de um Tarot Egípcio nem sempre encontrarão eco nos arcanos menores do Tarot Waite, por exemplo. É possível, inclusive, criar um Tarot que respeite os símbolos e significados dos arcanos maiores e inovar nos arcanos menores, desde que se mantenha o mesmo número de lâminas e também a sua estrutura.  O Tarot Mitológico, nesse sentido, é exemplar.

Do momento em que o Tarot "fala" com você, novos insigths interpretativos se abrem e isso é mágico. As possibilidades relacionais são incontáveis. Isso no que se refere aos conceitos pertinentes a cada carta. Estamos tratando de Arte e não de Ciência. E quando se fala da leitura de cinco ou mais arcanos dispostos ao acaso, viajamos então para um céu repleto de estrelas.

Com isso quero dizer que apoio e defendo a liberdade de interpretação. Embora não consiga evitar uma rejeição natural às maioneses interpretativas e confesso que, neste "novo mundo do Tarot" com o qual me deparo depois de alguns anos tratando de outros assuntos, há mais salmonela que a quase inócua maionese. Maionese ainda vaí, mas com salmonela pode ser letal.

O susto se deve, principalmente, quando vejo as imagens do Tarot sendo interpretadas ao pé da letra, de forma rasa e com psicologismos de botequim. E me assusto ainda mais quando vejo estas informações divulgadas em blogs e sites que se dizem sérios e por "tarólogos" que de Tarot não entendem lhufas.

Também não vou dar nomes aos bois porque tenho percebido mais um outro dado estarrecedor: o mundo do Tarot virou um ringue. Até uns cinco anos atrás existiam divergências tratadas com elegância e pontualidade, o que é profícuo. Mas elegância não pode ser confundida com hipocrisia pois é detestável o reino das concordâncias vazias, do puxa-saquismo e dos elogios faca-de-dois-gumes. O que tenho visto agora, além da arena das vaidades, é uma apelação que beira o ridículo. Pessoas que não compreendem metáforas, que não identificam ironia e que, por consequência, não estão habilitadas para interpretar símbolos, alegorias, emblemas.

Aí virão me dizer, mas Zoe, quem pira interpretando cartas é você que ilustra poemas com imagens, que procura o significado das cartas no cinema, nas artes plásticas! Sim, essa é a Zoe eterna estudante. A estudante que sempre estará buscando vieses interpretativos, novas possibilidades de sentido. A estudante que antes de relacionar uma imagem do Tarot com qualquer outro sistema coisa lê no mínimo três livros sobre o assunto e que pesquisa incansavelmente.

MAS, quando se trata de ler o Tarot, de dar de encontro com um consulente que, via de regra estará aberto para as palavras e ideias que leio nas minhas cartas, a coisa toda é bem diferente. Reconheço os limites. Tenho um enorme respeito pelo meu trabalho e mais respeito ainda pelas pessoas que se consultam comigo até porque, quando era adolescente, fui vítima de uma cartomante terrível que me deixou na cabeça uma questão que não tinha nada a ver por mais de trinta anos. A responsabilidade é muito grande. Não temos e sempre achei que não deveríamos ter uma instituição reguladora. Hoje sou obrigada a rever minha opinião. 

Então, caros leitores do meu blog, ao relacionar uma carta a um poema ou a um filme, trata-se de criatividade, busca de conhecimento e diletantismo. Agora, quando são criados significados fixos para as cartas, significados estes que podem (infelizmente) ser usados em leituras "PROFISSIONAIS" de Tarot, a porca torce o rabo. 

Cuidado. 

Goroboba esotérico-psicológica já é péssimo. Mas salmonela mata.













Zoe de Camaris






18 de fevereiro de 2012

A FLOR AZUL (1)




Li em algum lugar, talvez colhida do grande cabedal imaginário que habita a alma do mundo, talvez nas histórias da avó de um tal de João, que no passado acontecia das bruxas enamorarem-se pelos homens e que em muitas ocasiões, os pobres mortais se apaixonavam pela bruxas.

No segundo caso, a consequência de não poder culminar esses amores impulsionava os pobres moços abduzidos e encantados pelas feiticeiras a buscar a imortalidade tranformando-se em astutos políticos ou em algo ainda mais nobre, pobres poetas.

De vez em quando acontecia do rapaz ser um pobre poeta. Se perseverava em sua fidalguia, podia conseguir romper o coração da bruxa. Ela então, mais racional do que seu enamorado, sentindo-se presa por um amor mortal, chorava sua eterna amargura com uma só lágrima. Dizia a lenda que se a lágrima caísse no chão próxima a um choupo, daria origem a uma roseira da qual brotariam rosas azuis. Há muitos e muitos anos, ao pé de quatro choupos no rosal asturiano de Olviedo,  floresciam rosas azuis no solstício de verão.

Por algum motivo que desconheço, determinados símbolos nos percorrem alma como se estivessem grudados nas enzimas do sangue. Por que o que me significa não é "a" mas sim "b"? Por que não arregalo os olhos frente a idéia de um cavalo alado mas sinto meus olhos fluirem só em pensar em uma flor azul? Muito antes de me deparar com as horríveis rosas pintadas de anelina, grito do "kitsch", já reconhecia a flor azul como um símbolo do impossível. Efeito sessão da tarde, sem dúvida, já que não li românticos alemães na infância. E ao conhecer a obra de Novalis apenas me certifiquei do que já sabia: "O que desejo ver é a flor azul. Sua imagem não me abandona". E fui percorrendo histórias. Para não deixar barato, ainda a poesia de Samuel Coleridge: "E se você dormisse? E se você sonhasse? E se, em seu sonho, você fosse ao Paraíso e lá colhesse uma flor bela e estranha? E se, ao despertar, você tivesse a flor entre as mãos? Ah, e então?" 

A flor azul seria a encarnação da perfeição, do amor impossível, da raridade, da pureza máxima, da inocência, da cura, da imaginação criativa, da utopia e da imortalidade. Há uma certa tristeza nela e alguma solidão. Flor líquida e aérea, azul da água e do céu. A graça da flor azul é sua impossibilidade natural. Uma rosa azul seria o Santo Graal das flores.

A imagem é reiterada poeticamente por Pablo Neruda, que a cita em pelo menos em uns cinco poemas. Em Batman Begins, da flor azul é feito o alucinógeno que desperta em Bruce Wayne os seus maiores medos - substância que, mais tarde, será derramada no abastecimento de água de Gotham City para despertar as fobias da população. Seria a flor azul de Batman, uma papoula?


No filme O Labirinto de um Fauno, de Guillermo del Toro, ei-la novamente:


"Há muitos e muitos anos, em um país longínquo e triste, existia uma enorme montanha de pedra negra e áspera. Ao cair da tarde, em cima dessa montanha, florescia todas as noites uma rosa que concedia a imortalidade. Uma rosa azul. Seu espinhoso caule cobria e rodeava toda a volta da escarpada ponta negra da montanha de granito. Os espinhos cresciam ao redor da rocha como serpentes que a sufocavam. Mas nada nem ninguém se atrevia a aproximar-se dela, pois seus numerosos espinhos estavam envenenados.  Entre os homens só se falava do medo da morte e da dor, mas nunca da promessa de imortalidade. E todas as tardes a rosa murchava sem poder outorgar seus dons a nenhuma pessoa. Esquecida e perdida em cima da montanha de pedra fria, sozinha até o final dos tempos. "

Inventaram então os japoneses, esses loucos, a tal rosa azul, por mutação genética. Ah, dirão alguns, mas é só um experimento, como outros que estão aí. Clones, dolllys.... Mas não. A criação da rosa azul altera e alcança a dimensão do simbólico. Seria o mesmo se amanhã ao abrir a janela, me deparasse com um unicórnio atravessando o jardim.

Até porque de azul, basta a beleza dos miosótis e seu anil de estrelas. A Rosa Azul. A única flor azul no topo de uma montanha.


Zoe de Camaris