4 de maio de 2006

"Recuerdos" do Tarot em Frida Kahlo


Quyen Tieu Dinh


Frida é demais. Literalmente "demais". Visceral, exuberante, opulenta, colorida, trágica, escancarada, tosca, sangrenta. Frida Kahlo, uma deusa asteca - Coaticlue. Nada escapa da sua pena de obsidiana, é Vênus grudada em Plutão. Diversa, porque em gêmeos. Exuberante expressando leão, seu signo ascendente. Coragem é uma palavra essencial para compreendê-la. Mas o núcleo de Frida é canceriano. Cativa de uma sina de dor, de sacrifício, de sensibilidade exagerada - lágrimas de pérolas barrocas.

Kahlo é toda adjetivos. E assusta. Todo mundo adora, mas quem penduraria na sala de estar? O entorno precisaria ser muito delicado para suportar uma Frida Kahlo.

Sendo assim tão essencial não é difícil identificar “recurdos” do tarot - este baralho de lembranças fixas - na obra da artista mexicana. A morte, o sacrifício, a transformação, a paixão, a dor, o amor, a dúvida, a força, a religião, são seus motes.

A idéia que procuro desenvolver aqui (de maneira sumária) é de um tarot “em Frida”. Como, de que forma, estas memória ancestrais estão representadas em suas obras. E não uma insistência em meter à ferro e fogo, Frida no Tarot. A artista não precisaria ter conhecido o baralho na França, entre os surrealistas, e nem na sua México Dourada. Ela conta sua própria história em uma linguagem pictórica com léxico e sintaxe próprias. Frida é uma H.Q. viva.

Vou trabalhar de forma aleatória, como deve ser num jogo. Peço à Frida uma dica e ela me mostra A Imperatriz. “The Frames”, um auto-retrato. A primeira obra de uma artista mexicana do século XX adquirida pelo Museu do Louvre. Sua consagração. O retrato e o fundo azul foi pintado sobre folhas de alumínio. A borda, decorada com dois pássaros e flores, é sobreposta em vidro sobre o retrato.


Auto Retrato "The Frame", 1938


O terceiro arcano maior do tarot, A Imperatriz, nos fala sobre A Mãe Terra. A dona da fertilidade, a que traz proventos da natureza. O carinho, a maternidade, o nascimento, a cornucópia, a abundância. A Sensualidade, a Beleza. É Afrodite e Deméter.

Frida procurou compensar, sempre, suas dores físicas e emocionais simbolizando suas dificuldades ou buscando a sua transcendência em imagens. Não pôde ter filhos - foram três abortos, conseqüências do seu trágico acidente na adolescência. O lado negro das Deusas-Mães, Frida conheceu muito bem. Seu desejo de maternidade é uma constante, seja retratando seus sentimentos em relação aos abortos, seja transformando essa sua necessidade em cores, em opulência, na fauna e flora profícua que aparece em auto-retratos e outras obras da artista.


A Imperatriz no Tarot Waite/Smith

A amamentação é um dos atributos da Imperatriz. Relaciono-a também com a Temperança, um estado de conforto da alma, de plenitude e mistura de líquidos, leite e saliva. Frida não foi amamentada por sua mãe - teve uma ama de leite. No filme estrelado por Salma Hayek, a relação de Frida com a mãe é mostrada de forma meio avessa. Parece que sua referência de carinho e de maior contato físico era seu o pai.


my nana y yo o yo mamando, 1937

A Imperatriz está num jardim. É uma Rainha de Ouros, da Terra. Frida tem seu amor pelo México nas veias, o sangue índio e espanhol que herdou de suas de suas raízes maternas. E Imperatriz também representa a alegoria da Caridade. Frida dedicou sua vida ao partido comunista e à imperiosa necessidade de auxiliar aos menos favorecidos. Sua arte, o engajamento político e seu casamento com o muralista Diego Riviera levaram Frida à América do Norte e à Europa, tornando-a uma cosmopolita bastante crítica do primeiro mundo. Frida nunca desceu do trono nem se rendeu aos atrativos de outros países. O México fazia parte de sua alma.

A Imperatriz traz no seu escudo uma águia negra (na versão marselhesa). Frida, não raro, retrata um pássaro negro sobre o seu colo. E se representa entronizada, ao exemplo da Imperatriz. Frida também compartilha outra característica do arcano três, uma sexualidade vívida, intensa. Teve diversos amantes, homens e mulheres. Conhecia a sedução, a feminilidade e seus enfeites. Suas cicatrizes não a impediram de viver seus desejos e quebrar tabus de uma sociedade conservadora.




Vou incomodar Frida de novo e pedir outra imagem. A Morte, tema constante e cativo da cultura pré-colombiana e colonial do século XIX. O Dia dos Mortos no México não é uma ocasião de luto, mas um dia de festa. Esqueletos e máscaras que para nós soam tão assustadores são constantes na arte popular e no cotidiano. A Morte é encarada como um processo de transição para uma outra vida e assim é comemorada, forma como é normalmente intepretado O arcano sem nome no Tarot.
Pensando en la muerte 1943

Na sua cama, no forro do dossel, Frida fez deitar um esqueleto, onde já havia estado um espelho. A Morte era sua companheira constante, um de seus reflexos. Ficar deitada foi uma posição que Frida nunca pôde evitar. O que não a impediu, na sua primeira exposição individual no México, quando se encontrava já muito doente, de transportar-se deitada em sua cama para o espaço da mostra. O ciclo morte-vida era uma certeza de Kahlo.

El sueño o La cama, 1940
A cama de Frida

No Tarot é visto um esqueleto, com sua foice. No chão, cabeças, mãos, um pé, restos humanos. Elementos heteróclitos, soltos, sem aparente conexão estão em diversas obras da artista. Fragmentos. Frida é signatária da arte votiva e religiosa do seu tempo. Os ex-votos, peças de cera ou madeira que simulam partes do corpo e que são colocados pelos fiéis em capelas ou igrejas para agradecer graças alcançadas, frequentemente marcam presença em suas obras. Frida, no filme, pinta borboletas no gesso que envolvia seu tronco. E borboletas são símbolos da transformação. A imagem abaixo é de um colete ortopédico em que Frida retrata sua própria coluna partida, em 1944. Em um outro colete pintado pela artista, vemos a imagem de uma foice e um martelo, símbolos do partido comunista.

Há uma dúvida sobre a morte de Kahlo. Falece dia 13 de julho de 1954, oficialmente, vítima de uma embolia pulmonar. Na noite anterior Frida entregou para seu marido, Diego Riviera, um presente adiantado de bodas de prata. Diz a ele que lhe dava o presente por saber que o deixaria muito em breve. Segundo anotações em seu diário, é sugerido que ela teria acabado com a própria vida - "Espero a partida com alegria ...e espero nunca mais voltar...Frida".
As dores de Frida Kahlo eram atrozes. A amputação de sua perna até a altura do joelho lançou-a em uma terrível depressão. Foram mais de 35 operações, segundo a própria artista. Frida terá sido vencida, afinal?
........
(continua em breve - Frida e Diego Riviera / Os Amantes, arcano VI;
O Suícido de Dorothy Hale / A Torre abatida pelo raio, arcano XVI;
O Abraço amoroso / O Mundo, arcano XXI )


Zoe de Camaris
p.s. em Palavra de Pantera, um poema de Frida para Diego Riviera.

5 comentários:

ricardo disse...

minha nossa! você consegue ser reamente ótima!

Pq vc não colocar seu blog em rss?

parabéns

Nalu disse...

Adorei o blog, e esse texto então achei uma coisa linda, eu amo tarô e amo Frida Kahlo, e que reflexão mais interessante você fez!!!Abraços.

Erika disse...

Zoe,

ninguém mais pra captar em cartas essa força colorida e escura da beleza da Kahlo.
Valeu esperar a reformulação, e vê se solta logo a outra parte.

Stela Gomensoro disse...

ZOE!
Como sempre voce foi demais,esbanjando bom gosto, sensibilidade e poesia.
Parabéns! Continue porque são maravilhosos seus textos e analogias com o Tarot.
Beijos...

bia disse...

caramba, essa cat caverna dá bons frutos mesmo, não????