31 de dezembro de 2006

A Força


potnia therion (creta)

Depois dos rituais coletivos de Ano Novo, desejo que A Feiticeira propicie a todos nós uma conversa com a natureza de nossos leões, panteras, serpentes e pássaros internos, através da compreensão do magnetismo e do sentido de dignidade.

Que haja carinho, inteligência, coragem, soberania, vitalidade e muita motivação na hora da Domadora abrir a jaula.

Às nossas feras, um perfeito 2007.


Zoe

17 de dezembro de 2006

SETE MIL VIDAS




_____________________________ “A tarefa não é a sua individuação
___________________________________mas a individuação do anjo”
__________________________________________Corbin


Sete ‘Mil Vezes’ de Copas. A lâmina que chama atenção, principalmente no baralho Rider-Waite.

Um homem olha para sete taças envolvidas em nuvens. De dentro delas, um castelo, uma serpente, um dragão, jóias, uma coroa de louros, o rosto de um anjo e uma imagem fantasmática com o rosto coberto. A Musa, a Virgem.

São diversas as opções, inúmeras as possibilidades. É quase impossível dividir um círculo em 7 partes. Um desafio coordenar a ordem do ternário, mental ou espiritual, em harmonia com a ordem do quaternário, terrena (3+4=7). Netzah. Então o 7 de copas é chamado de O Senhor do Êxito Ilusório. Ou, a “Vitória da Mulher”, o que é bem interessante. O predomínio da Anima. E de Maia, a ilusão. Uma imagem venusiana, netuniana, lunar. Via Úmida. Ordem da Grã Sacerdotisa. 


Se relacionarmos a numeração das cartas menores com os arcanos maiores, chegamos ao Carro. O condutor precisa saber usar as rédeas do invisível, senão a carroça desembesta. O Carro é corpo do Condutor. Quem o dirige é o espírito atuante.

No entanto,  é curioso que esta carta tenha um significado considerado “difícil”, mesmo quando bem dignificada. Diz Waite: “Belos favores, imagens de reflexão, sentimento, imaginação, coisas vistas no espelho da contemplação; algumas consecuções nesses graus, mas nada é sugerido de permanente ou substancial”. Perfeito. Mas as interpretações posteriores parecem fixar-se na última parte da reflexão de Edward Waite.

O surgimento do 7 de copas numa leitura é interpretado como um indício da diversidade de opções. De alternativas ilusórias. Enganos. Excesso de expectativas. Do possível uso de drogas, intoxicação. Mesmo que o número 7 signifique vitória, controle. O Poder Mágico em toda sua força, a Teurgia (atuar sobre os deuses). A dominação da matéria pelo espírito. E a matéria é considerada feminina, no que concordo. Mas sempre negativada? É claro que inverter a ordem dos fatores não dá certo. Porque esta carta não fala do domínio da matéria sobre o espírito. Mas de uma forma aquática e aérea, portanto, da ALMA, agindo sobre a matéria.

A alma rege a orquestração. A sua e a do mundo.
E alma tem o corpo de uma mulher.




“Perigo, Will Robinson, perigo!” – diz o robô. Perdidos no Espaço. Compreendo perfeitamente, ainda mais depois que Aleister Crowley denominou como “Deboche” o 7 de copas, melando (literalmente) a imagem logo de saída. Vênus em Escorpião. Plutão na jogada.

Contudo, entretanto, todavia.... será que não deveríamos observar esta carta sob uma perspectiva menos positivista?

Lembremo-nos que muitas das interpretações fixadas com relação ao Tarot são do século XIX, começo do XX. E que os magistas desta época, queiram ou não, são signatários do discurso cientificista. Quem sabe, no intuito de “validar” o Tarot tenham sido bastante racionais ao interpretar as imagens. Os comentadores que se seguiram pouco acrescentam aos significados dados a esta carta numa perspectiva menos comprometida.

Há que se ler Gaston Bachelard, James Hillman, Gilbert Durand. E para entrar mesmo no mundo da imaginação e do devaneio, só mesmo com os poetas. Deixar a imaginação colorir todas as asas, mesmo aquilo que não voa. Renomear o mundo. Intoxicar-se de música. Caminhar sem destino, observar sem conclusões. A imaginação é a suprema liberdade do espírito.

Para compreender o tarot talvez seja uma boa saída esquecer os manuais de interpretação.




São 7 as Maravilhas do Mundo, os anões da Branca de Neve. Sete os portais de Tebas, 7 léguas para as botas. Sete mares nunca d'ante navegados, 7 chacras, 7 dias da semana. Sete cabeças da Hidra de Lerna. São quatorze (são infinitas) as portas do labirinto de Asterión, em Borges. Mise em abysme. Tudo existe muitas vezes no plano da imaginação. Imagine, diz John Lennon.

E se a realidade, a realidade “ordinária” é complexa - simular idealmente a estabilidade não seria a real fantasia? Até que ponto o conselho: “coloque os pés no chão e dedique-se a reflexões fundamentadas” faz sentido? E se estivermos frente a uma pessoa enredada nas malhas cruéis da realidade e que não consegue ver na sua frente nada além de compromissos, cobranças, expectativas internas e alheias? Não seria este o momento de recriar seu mundo? E como recriá-lo sem soltar as rédeas que entre muitas voltas nos levam sempre pelas mesmas estradas e que acabam em becos sem saída?



O tarot é uma arte da “imaginação”. É através das imagens e do poder de desvincular-se da realidade ordinária que se torna possível iluminar conflitos.

Sim, é uma arte paradoxal.

O plano racional é comunicado por palavras. O inconsciente comunica-se por imagens. E se as imagens não podem emergir, como reconhecer a verdade do inconsciente?

E que é a “verdade” em tempos de panvirtualismo?

Convém definir, diferenciar, a palavra imaginação da palavra fantasia. Diz Rachel Pollack, citando o poeta S.T. Coleridge, que ambas as noções afastam a mente das percepções comuns. A imaginação nos levaria a uma percepção da verdade subjacente vinda do inconsciente enquanto a fantasia produziria imagens mentais que podem excitar, mas às quais faltaria um significado real, pois procederiam do ego.

Pollack debruça-se aqui sobre o Príncipe de Copas, aquele que olha para uma taça vazia, ou seja, para si mesmo. Ao falar do seu companheiro Valete, aponta que este vê um peixinho saindo de sua taça. E que ali sim a imaginação estaria no seu devido lugar. A infantilidade do Valete justificaria um tempo em que a fantasia e a contemplação seriam adequadas.




Embora goste da diferenciação de Coleridge, me dou ao desplante de discordar de Pollack quando relaciona a imaginação e a fantasia à imaturidade.

A imaginação sempre foi considerada “a louca da casa”, disso sabem os franceses. É uma palavra vilipendiada. É vero que a imaginação excessiva e/ou a perda dos limites pode levar alguém à loucura. Mais isso é hipostasiar um dos pratos da balança. Pesar a mão. Pensemos na justa medida. O excesso de imaginação nos enlouquece, nos torna inadequados socialmente. Torna-se delírio. A falta de imaginação nos faz parvos, secos, tolhidos de graça e matizes.

É bom não esquecer, como nos diz Neil Gaiman, que o primeiro nome de Delirium é Deleite - ainda na infância dos Perpétuos.



É impossível lançar as cartas e ser razoavelmente bem sucedido sem o poder de imaginar, sem se colocar aberto às infinitas possibilidades do 7 de copas. E não é seu título, a Imaginação?

“Cair na real” nem sempre é uma boa.



Agora vou para minha varanda deitar na rede rosa-choque entre as flores, numa bela tarde de domingo, depois de uma semana punk. E olhar para o céu, namorar o vento, chamar todos os meus amiguinhos imaginários e fazer uma festa daquelas. Se Sorte sorrir pra mim, aparece um beija-flor.

Mas aí já é Desejo.



Zoe de Camaris

Sete mil vezes




Sete mil vezes
Eu tornaria a viver assim
Sempre contigo
Transando sobre as estrelas
Sempre cantando a música doce
Que o amor pedir para eu cantar
Noite feliz
Todas as coisas tão belas





Sete mil vezes
E em cada uma outra vez querer
Sete mil outras
Em progressão infinita
Quando uma hora grande e bonita assim
Quer se multiplicar
Quer habitar
Todos os canto do ser





Quarto crescente para sempre
Um constante quando
Eternamente o presente você me dando
Sete mil vidas
Sete milhões e ainda um pouco mais
É o que desejo e o que deseja esta noite
Noite de calma e vento
Momento de prece e de carnavais
Noite de amor
Noite de fogo e de paz



Caetano Veloso

3 de dezembro de 2006

Sobre Profecias (APOLLINAIRE)




Conheço umas profetisas por aí
Madame Salmajour aprendeu na Oceania a arte da taromancia
Foi lá também que teve a chance de participar
De uma deliciosa cena de antropofagia
Claro que ela não espalhou pra todo mundo
Mas sobre o futuro nunca errava uma

Uma cartomante ceterana* Margarida etcetera e tal
É talentosa também
Mas já Madame Delroy é mais inspirada
Mais precisa
Tudo que disse sobre meu passado era verdade e o que ela
Predisse no tempo aconteceu no tempo que indicou
Conheço um sciomântico* mas não queria que interrogasse minha sombra
Conheço um adivinhador de água o pintor norueguês Diriks
Espelho quebrado banho de sal migalhas de pão
Que esses deuses sem figura sempre me poupem
E ao mesmo tempo não acredito mas olho e reparo
Acho que leio mãos muito bem
Pois não acredito mas mesmo assim reparo e escuto e olho

Todo mundo é profeta caro amigo André Billy
Mas por tanto tempo as pessoas foram levadas a crer
Que não tinham futuro e ficariam pra sempre ignorantes
E idiotas de nascença
Que eles acabam se resignando e nunca mais ninguém se lembra
De especular sobre se ele conhece ou não o futuro
Não tem nada de religioso nisso

Nem nas superstições nem nas profecias
Nem em nada que as pessoas chamam de ocultismo
O que existe acima de tudo é um jeito de observar a natureza
De interpretar a natureza
Que é completamente legítimo



Guillaume Apollinaire
Tradução: Rodrigo Garcia Lopes



* Nascida em Céter, (nos Pirineus orientais). De Ceretani, "antigo povo da Espanha, da Terraconaise, ao pé dos Pirineus".
* Forma primitiva de necromacia, relativo à adivinhação através de comunicação com as sombras (espíritos) dos mortos; também relacionado com a evocação de reflexos astrais para adivinhar eventos futuros.