21 de maio de 2005

O Dia em que Marlon Brando virou Carta de Tarot



Sol aceso, sala arejada, revendo aqui concentrada a interpretação de Aleister Crowley para as Cartas de Figura quando tive um vislumbre: - Goddess, esse Príncipe de Copas é a cara do Marlon Brando! Os lábios relaxados, o corpo bem composto, a atitude. A calma assombrosa com que se sustenta, a energia, a tensão líquida.

O Príncipe de Copas transmite uma impressão reservada. Máscara bem moldada que esconde paixões intensas, é o que diz Crowley. Um peso tremendo, ativo e crítico, traduzido em capacidade de comoção. E o destino marcado.

Brando inspira brandura densa, onda na superfície do veludo. Marlon - o nome desliza que nem marshmallow, é de uma sensualidade magnética, porque envolve. Uma sensação de água quente, de entorpecimento. Impossível pensar nele a não ser com paixão, algo mais quente do que a cor azul estampada no Príncipe de Copas, matiz que domina esta Figura da Corte.


Frieda Harris/Aleister Crowley
O aspecto aéreo da água. Ar da Água. Águia das Águas.

Cismada, lançei mão do deus Google, Mercúrio moderno (Mercúrio é sempre moderno porque chega antes). Acionei a pesquisa de imagens e dei de cara com o O Selvagem Johnny Strabler, pousado em sua 1950 Triumph Thunderbird 6T Motorcycle. E aí começa uma seqüência de correspondências curiosas.

Olha só: uma alternativa de nomeação para as cartas do tarô é a palavra “Triunfos”. E lá está o Príncipe sentado no seu “carro” triunfante, como as personagens dos Triunfos petrarquianos. E o que significa “Thunderbird”? Pássaro-Trovão. De novo, a Águia.

A indumentária de Brando nessa foto virou mito. Comenta-se que a família do ator depois de sua morte, briga na justiça pela patente do visual que inspirou James Dean, Elvis Presley, Paul Newman, Steve Mc Quenn, Travolta, os Beatniks e diversas gerações muito além dos anos 50: boné, camiseta branca, jaqueta de couro, calça apertada.



O Selvagem, clássico de 1953, é um filme baseado em fatos reais ocorridos na Califórnia em 1947. Narrado em primeira pessoa pelo próprio Brando, conta a história de um motoqueiro e seu bando chegando em um vilarejo. Johnny Strabler traz consigo, amarrado com correias ao guidão da sua moto, um troféu, uma taça - prêmio de segundo lugar em uma competição. A taça foi roubada e é entregue ao líder dos Black Rebels Motorcycle Club , Johnny, depois de serem eliminados em um concurso de velocidade.

A voz de Brando narra a trama, assim como o Príncipe de Copas parece falar em um microfone hermético – uma taça da qual sai uma serpente e que toma toda a atenção do protagonista do Arcano. Ele está inebriado, contemplando-a ensimesmado, hipnotizado.

O troféu de Johnny Strabler traz a imagem de um homem sobre uma moto. Ora, nas imagens desenhadas por Frieda Harris para o Thot Tarot, observamos, em diversas cartas da Corte, a imagem do animal/carro que conduz ou acompanha a figura central reproduzida em miniatura no elmo, assim como podemos observar no Príncipe de Copas.

Essas informações já seriam suficientes para colorir meu insight mas, ainda não satisfeita, dei curso à minha árdua pesquisa, sendo obrigada por minha incorrigível curiosidade a ver inúmeras fotos de Marlon Brando (meu namorado se vingou adequadamente fazendo o mapa astrológico de Marlyn Monroe, tendo que passar, pobrezinho, pelo mesmo tipo de provação).

E achei mais uma imagem reveladora, mas antes vejamos novamente a Carta: O Príncipe de Copas rege do 21° grau de Libra até o 22°de Scorpio. Aparece montado em uma Águia e ostenta a miniatura do pássaro no capacete. A Águia simboliza o aspecto volátil do signo de Escorpião, o seu poder de transmutação. A Serpente seria uma imagem intermediária entre os outros dois animais. Crowley comenta que o Escorpião não aparece na carta porque os processos de putrefação regidos pelo signo são altamente secretos – desnecessário dizer que a essência do Escorpião é o segredo.

E aí está Johnny Strabler, frente a um monumento no qual observamos a águia, como se ela pousasse, tranqüilamente sobre seu boné.



Mais algumas observações:

Gerd Ziegler, em sua bem intencionada interpretação para o Tarot de Aleister Crowley, diz que a flor de Lótus que pende da mão direita do Príncipe de Copas representa o Amor. E que o Amor só habitará o Príncipe quando ele puder agregá-Lo ao poder da serpente, ou seja, quando conseguir integrar em si mesmo a força do desejo que o propulsiona. Nesse momento, a flor de Lótus poderá apontar novamente para cima.

É exatamente o que acontece no filme. Johnny se apaixona por Kathy, a filha do delegado de Wrightsville. E o prêmio que J. Strabler carrega aparece sempre entre os dois, uma brincadeira de gato e rato - primeiro ele quer impressionar Kathy oferecendo-lhe a taça, e depois, quando ela deseja recebê-la, Johnny recusa, mostrando orgulho e arrogância. Johnny é acusado de tentar estuprar a moça e, em seguida, de um crime que não cometeu. No fim do filme Johnny acaba entregando a taça para Kathy, a mulher que desperta seus melhores sentimentos. O que era produto de um roubo, vira presente de amor.

É a taça que simboliza a transmutação do selvagem Johnny Strabler em alguém mais consciente de seus sentimentos. Não é à toa que seu rival, Chino (O Louco) representado por Lee Marvin, diz, ao desafiar ironicamente Johnny no início do filme, que o troféu não significa nada. Mas passa a significar tudo. É a cerveja do copo de Johnny que transborda, junto com toda a confusão de emoções – o carinho pela moça, o imperativo da violência. A frase basilar de O Selvagem é:
- Hey, Johnny, contra o que você se revolta?
- O que é que você tem com isso?

Vale lembrar que Marlon Brando recusou a mais famosa taça do mundo, o Oscar de Melhor Ator em 1972 pelo filme The Godfather. E quem a recebe no seu lugar é uma mulher vestida de índia - um sinal de protesto de Brando contra o descaso do governo dos EUA para com os povos indígenas norte americanos. Lembro bem disso. Eu era pequenina, assistindo o Oscar em casa com meus pais. Recusar o prêmio mais cobiçado do cinema não é para qualquer um.

Afinal, tanto Marlon Brando como o Príncipe de Copas só se movem quando estão prontos.

Zoe de Camaris

3 comentários:

lila disse...

adoro teu blog, posso linkar no meu?

Giancarlo disse...

Excelentes observações, Zoe, como diria: "Príncipe de Copas, um amor em cada porto..."
Parabéns pelo trabalho!
Abraços!!!

Emanuel disse...

Trucidou e reconstruiu, deglutiu o referido.
Mas como diria Florence, tem coisas que ele guarda só para ele.
Fiquei sem palavras com a leitura.