11 de maio de 2005

O Início


mise en scène du tarot, tout près de chez moi
Poya TAROT by Marie-Claude Purro



Tudo começou em 1984 - ano em que as Teletelas só ousavam existir na utopia de Orwell. Eu trabalhava em uma agência de propaganda chamada Stephen Dedalus. Lembro que quando conheci o tarot, viajava nos Paraísos Artificiais de Baudelaire e na dicção estonteante de Augusto dos Anjos. Já arriscava um ou outro poema na IBM elétrica (com esferas e corretivo) no fim do expediente.

Numa manhã de sol, o poeta e redator Jaques Brand entrou na agência e jogou sobre a mesa uma revista Planeta, edição especial: - Olha só que interessante. Talvez eu já tivesse ouvido falar, tivesse alguma referência, não sei. Sei que foi um encontro magnético, eu e minha caneta fosforecente amarela com as páginas da revista. Com aquelas figuras estranhas e falantes. Coupe de foudre com direito a bolinhas coloridas caindo do alto da Torre, figura que mais me espantava. E fiquei feliz como o Rei e o Arquiteto, dando cabriolas. Muito legal esse negócio de ler Tarot.

Na época, tive que me virar com a revista e duas publicações em português, salvo a atenção paciente do dono da única livraria esotérica de Curitiba que me conseguia uns livros em espanhol. Descolei rapidamente várias cobaias que iam felizes para o matadouro experimental. Quando a fila aumentou, passei a pedir um regalo, um objeto, um símbolo de troca. Demorei muito para conseguir cobrar pelo meu trabalho. É dificil dimensionar o valor de um trabalho tão subjetivo. Mais difícil ainda adquirir relativa confiança nas suas percepções.

Minha mãe queria morrer: - Era só o que me faltava, uma filha cartomante. Minha turma achava aquilo tudo muito exótico e meio brega. Eu não sei o que achava, sei que me atraia muito. E o Tarot continua exercendo sobre mim um grande fascínio.

Tenho sido taróloga desde então. Alterno tiragens com estudos, procurando as imagens desta galeria em outras galerias. Em igrejas, no cinema, na literatura, nos quadrinhos. Nas pessoas que passam na rua. Nos outdoors. Nos muros da cidade.

E já estava mais do que na hora de apresentar resultados, depois tantos anos de trabalho. Planos abertos e impressões sobre uma das mais fantásticas máquinas de imaginar que a humanidade já inventou.

Zoe de Camaris

Sobre a artista: Marie-Claude Purro, autora da imagem acima apresentada, é de Friburg-Suiça, nascida em 1962. Inicia seus em artes plásticas trabalhos em 1987. Em 1993/94, pinta os 22 arcanos maiores do Tarot e os expõe na pequena cidade Praia de Mira, em Portugal, e também na Suiça no Espace Galerie Placette e no Café des Grand-Places.

3 comentários:

Analu Menezes disse...

Oi Zoe,
prestigiando as imagens, a sensibilidade e principalmente o imaiginário que se descortina à sua, à minha frente.

gianks disse...

Oi Zoé,
Minha história com o tarô também é curiosa. Para resumir, tudo surgiu com uma inexplicável pedrada, dando abertura a uma série de fenômenos psíquicos (isso, nos meus 13 anos). Um dia, passando em frente a uma banca de revistas, vi uma publicação da Planeta, que vinha com o baralho de Marselha. Na época (83), não havia material algum além de meia dúzia de livros da Pensamento, todos ocultistas. Me lembro também de um pequeno baralho que era vendido em Ervanários (vulgo, casa de artigos de umbanda) e uma publicação que se baseava no Kier (baralho dito egípcio), sem cores. Bem, me virei com o que pude na época e somente em 87 é que comecei a atender publicamente. A gente passa por cada uma, não?!
Beijosss!!!

Anônimo disse...

Mauro Lima indicou-me seu endereço. Valioso... Continue seu caminho iluminado, pois certamente este é o seu norte. Voltarei sempre para renovar o prazer de hoje. Parabéns!