17 de maio de 2005

Tarot e Alquimia


Arcano XIV - A Temperança

Giancarlo Schmid, tarólogo, editor do tema no Sobresites, postou um comment falando sobre a impressionante riqueza do Tarot e pontuando sua relação com as pranchas alquímicas. Me parece mesmo que os arquétipos presentes em diversos sistemas iconográficos conversam entre si. Visitam uns aos outros, tomam cafezinho, trocam presentes que modificam e acrescentam algo ao vizinho e se despedem amigavelmente. E isso acaba fazendo toda a diferença no momento de uma abordagem iconológica. Há uma interpenetração simbólica que é visível ao olhar mais atento. Esta conversa arquetípica entre imagens continua acontecendo e tende a persistir ad infinitum.

Quanto à Alquimia, Gian, um dado bacana, talvez você conheça: a estrutura subjacente às 22 pranchas do Splendore Solis proposta por Adam Mclean (1989) em que o autor identifica um padrão passível de relacionamento com o caminho proposto pelos 22 arcanos do Tarot, se observada a essência do processo:

Nas imagens 1,2,3,4 do Splendore Solis teríamos o "Material Primal do Trabalho"; 5,6,7,8,9,10,11, "As Sete Fases no Processo de Alegoria"; 12,13,14,15,16,17,18, "As Sete Retortas da Transformação" e nas imagens 19,20,21,22, "O Fim do Trabalho".

Parece congruente, não?

São muito interessantes as possibilidades de correlação estrutural, como no trabalho de Mclean, ou ainda os estudos de Cabala e Tarot, Astrologia e Tarot, etc. Vale tudo o que possa nos auxiliar a obter mais insights. No entanto, me fascinam muito mais as semelhanças individuais entre os Arcanos e outras imagens, até porque o Tarot é uma estrutura que se basta, no que concordo com diversos outros tarólogos.

Encontrei algumas figuras da Alquimia nas quais percebo relações com o arcano alquímico por excelência, A Temperança.

Aí estão:


in Aurora Consurgens, final do século XIV

Esta imagem faz parte do livro O Museu Hermético - é uma alegoria ao Caos dos elementos e a decorrente necessidade de harmonização. O texto relativo à imagem afirma que se deve prestar atenção à Temperantia (ver p.187), à moderação, de forma que nenhum dos elementos da Obra assumam predominância. Aqui se ilustrada exatamente a desarmonia.

A Serpente nas mãos da figura simiesca nos remete imediatamente ao fluxo e refluxo da água no Arcano da Temperança. Serpente esta, que no trabalho de restauração feito por Caimon e Jodorowiski (observar a primeira imagem deste post) encontra-se aos pés do Anjo.


Maria Prophetissa, in Symbola aureae mensae, 1617

Na figura acima, temos Maria, a Prophetissa (será essa a alquimista chamada de Maria, a Judia - a mesma que teria inventado o "banho-maria"?), apontando para o fluxo contínuo entre dois vasos, simbolizando a união do superior com o inferior.



Sophia, in Aurora Consurgens, sec XIV

Eis a negra Sophia, a Sabedoria. Representada alada como o anjo do Arcano XIV , traz nas mãos um escudo com a serpente das transformações na mesma altura em que o anjo da Temperança desempenha seu elástico trabalho. Importante lembrar que a retorta humana é o abdômen, o centro energético e vital do Chi. Não é essa a região governada pelo signo do equilíbrio, Libra, na Astrologia?

E agora, deixando um pouco de lado as imagens alquímicas, não será também a mãe desempenhando a nobre função de temperar a mamadeira de seu filho na pia da cozinha, uma imagem muito nítida da Temperança? É, porque o bebê chora, a gente fica nervosa e a tendência é derramar tudo...

Abraços, Gian.
E para todos.

Zoe

3 comentários:

Mari Monici disse...

Zoe, está muito interessante aqui! Depois de 2 anos e meio, que achei que o tarot me "passou a perna" e não vi coisas direito, estou voltando a me ligar a ele, e esta semana tive boas surpresas, como sou totalmente leiga, achei tudo muito bom aqui! Luz pra ti!
Beijão
Mari

gianks disse...

Oi Zoé,
Obrigado por suas considerações. O processo simbólico é dotado de alta plasticidade, isso significa que, quando há um rico conjunto de expressões arquetípicas presentes e há uma interelação direta entre elas, é possível encontrar parâmetros e ou analogias com outras vertentes simbólicas, assim como se faz, a exemplo, quando procuramos associar coisas ao número 07 (sete): sete dias da semana, sete notas musicais, sete cores do arco íris, etc. O potencial que está por trás dessa linguagem, abriga a contextualização da vida e todos seus significados. Daí, a riqueza mítica que acompanha os homens desde os primórdios, repetindo-se incessantemente em todas culturas, apenas revestindo-se da sintomática cultural.
Podemos usar a própria Temperança como exemplo mesmo. Há, na maioria das culturas, a imagem de anjos e demônios. O culto aos anjos ganhou força no período final da Idade Média e início da fase Renascentista, podemos perceber claramente isso na arte dos períodos. Anjos são intermediários entre Deus e o homem, segundo alguns conceitos teológicos, podendo ou não exercer influência sobre os mesmos.
Nos processos alquímicos, os anjos simbolizam a volatilidade da matéria e a sublimação da mesma, bem como os estados intermediários da Opus. Anjos ilustrados segurando objetos, tem sempre suas particularidades, assim como os Arcanjos (Miguel segura a espada e Gabriel, o lírio). Mas, o que significa esse anjo segurando as urnas? A urna é um antigo vaso funerário, usado para encerrar as cinzas dos mortos. Nota-se que ele aparece como estivesse sendo "lavado", eliminando impurezas do processo anterior (A Morte). Notemos, através do simbolismo cristão, a analogia entre o Arcanjo Rafael e essa figura: ele carrega nas mãos um frasco de ouro, próximo do simbolismo da urna, ânfora, jarro ou vaso do Arcano. Ele é um curador, logo, essa lâmina também evoca "a cura das velhas feridas". Em analogia, no mito do Graal, o rei pescador (Fisher King) só pode se libertar de sua ferida se um homem "puro de coração" souber responder algumas charadas. E há também a cura de Arthur a partir do Graal. A taça e a jarra, tem suas analogias. E o termo Temperança, uma das quatro virtudes cardeais. É a moderação, o domínio do desejo e a medida. O Arcano está relacionado à adaptação das forças contrárias entre si, sugerindo a harmonização. Uma das procuras maiores dos alquimistas, era, por exemplo, a combinação perfeita entre o fogo e a água. Registrarei aqui uma passagem de um texto meu para complemento de minhas observações:
"(...)Analisando a primeira oposição simbólica dos Arcanos, a ânfora (presentes nos Arcanos 14 e 17) simbolizará o receptáculo anímico, que encerra as experiências humanas. No tocante à Temperança, o processo de alternância da água de um lugar a outro representa a mistura para encontrar a combinação ideal. Temos aí a imagem do processo alquímico, da mistura de substâncias para se obter a matéria perfeita. Porém, o fluxo mantêm-se inalterado, dando-nos uma idéia de repetição de um processo. Nesse caso, a água entra como elemento de transmutação, representando uma espécie de “transfusão espiritual” e ablução. É comum ao tentarmos eliminar certas impurezas de um recipiente, que joguemos água dentro dele e a sacudamos para eliminá-la a seguir. Tornamos a encher novamente de água para repetir o processo. Fazemos isso até nos certificarmos que o recipiente está limpo. A água da Temperança tem a função de remover resquícios de uma putrefação registrada anteriormente (Arcano “A Morte”) e com isso preparar o “recipiente pra receber uma nova substância”. Essa água se mantém serena, imutável, destilado para novamente voltar ao seu recipiente de origem. Essa não é uma água boa de beber, já que o ato de mantê-la presa nas ânforas a torna salobra. Partimos do princípio que a água da Temperança é exclusivamente para limpeza e purificação, a água do banho, da lavagem (apropriadamente referente ao corpo físico). Não é desperdiçada uma gota sequer dos recipientes, dando-lhe uma importância especial e raridade. Por que deve-se utilizar a mesma água no processo ? Porque a água deve preservar traços originários do processo de transmutação, que não devem ser perdidos. O anjo do Arcano preserva de alguma forma a experiência primordial que não deve ser perdida no desenvolvimento. Espera-se para se obter pacientemente uma nova ordem ou equilíbrio.(...)"

Bem, acho que temos mais algum material para se pensar, não?! Um forte abraço, Zoé, e em todos visitantes!

P.S.(1) * Há nesse site, uma riqueza de figuras alquímicas, e encontrei na primeira, traços do Arcano:
http://www.levity.com/alchemy/amcl_thurn.html
* A prancha 13 deste link também evoca:
http://www.levity.com/alchemy/amcl_val_azoth.html
* Splendoris Solis em ilustrações:
http://www.levity.com/alchemy/amcl_splendor_solis.html
(observemos as pranchas 08 e 09)
E tem muitas mais...

P.S.(2) na figura do anjo que você descreve "segurando um escudo com uma serpente", na verdade, é o ventre do anjo sendo aberto e mostrando a serpente lá dentro. É uma alegoria antiga alquímica.

Mike disse...

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