14 de fevereiro de 2007

SYMPATHY FOR DEVIL


Alleged Tarot

É sempre quando você menos espera. Tá tudo muito bom, tá tudo muito bem, e você lá, lépida, bonita, feliz, espirituosa. Se arriscar, faz até sol. Ele é o pai da alegria e seu artifício mais hábil, nas palavras de Baudelaire, é fazer de conta que não existe. Armadilha armada, arapuca disfarçada. Seduz você com a beleza, puxa de mansinho. E claro, você está entre amigos. Amigos. Imagine se não fossem amigos. E bem sabe, ora, que a inocência... quem é assim tão inocente frente ao pai das aparências? Ele gargalha empunhando o gás hilariante e você sorri junto - vai, vai rindo. Divertidíssimo.




Engata a primeira no tranco, a segunda, a terceira desliza e quando se dá conta, está a mil por hora. Percebe que tem algo errado. Esboça uma reação. Mas aí é tarde demais, princesa, você já não tem como lutar porque depôs as armas faz tempo. E continua sorrindo e sorrindo e sorrindo. E roda e roda e roda... até cair.




Se, além disso, ele simpatizar muito com você (independente de quanto você simpatize com ele, embora o costume é que seja recíproco), espere pelo pior na hora em que acordar. Você pode escutar histórias inacreditáveis. E mergulhar com força no lado escuro da lua. Eu tenho certeza que no limbo (ou seria no purgatório?), todos se sacodem com Pink Floyd. I Hate Pink Floyd diz Johnny Rotten. Me too. O inferno é uma jaca gigante e a essas alturas, você já enfiou os pés pelas mãos.




A iconografia é clara: O Diabo age nas suas costas. Você não o vê. Parece que há um momento só de lucidez, como se ele dissesse: - Você pode, mas agora não quer mais escapar. E aí, é você que faz de conta que ele não está lá. Está presa por sua única e exclusiva vontade. Seus amigos sorriem de novo, mais pra lá do que pra cá. As iscas, as de sempre - ele nem se dá ao luxo da originalidade. Sexo, drogas e rock'n roll. Para alguns, o dinheiro também funciona.


Xul Solar Tarot

Só há uma forma de escapar. A memória. Memória que ele também apaga. Você conhece o lado escuro da rua, baby? Se ao menos lá no Érebo tocasse Lou Reed... Mas já faz tempo, tanto tempo... como é mesmo a cara do lobo mau? Você esqueceu o profile do predador? Então não foi tão mal assim, não é mesmo? Ainda se recorda das noites que não acabam nunca, do silêncio que aterroriza? Da vergonha do espelho, dos pensamentos obsessivos, da culpa que bate insistente a campainha, pior que revendedora da Avon? Do alarme disparando? Do balanço das folhas? Esqueceu da insônia? Do cocô do cavalo do bandido perdido no Arizona? Hum, doçura, então você não viveu. Porque não se lembra.

O quê? Vai atirar a primeira pedra, leitor? Cuidado: pode ser um bumerangue.


Psychotic Tarot

Talvez exista uma segunda forma de escapar. A intuição. Aquela leve nota de enxofre que pode ser capturada na profusão da lança- perfume. É hora de afastar. Se afaste. Encosto tem até na maionese, dizem. Tinha maionese onde você esteve, Pepe Legal? Ah, então tá tudo explicado...

Taí. É Carnaval, seu reinado. Fique ligado. Porque não é qualquer um que pode brincar em paz. Espero de coração, que você seja um deles. Eu, por minha vez, vou trabalhar. Com um olho nas costas.

Zoe de Camaris

p.s.: presentinho de um cara que entendia do riscado:



Ao Leitor


A tolice, o pecado, o logro, a mesquinhez
Habitam nosso corpo e o espírito viciam,
E adoráveis remorsos sempre nos saciam,
Como o mendigo exibe a sua sordidez.

Fiéis ao pecado, a contrição nos amordaça;
Impomos alto preço à infâmia confessada,
E alegres retornamos à lodosa estrada,
Na ilusão de que o pranto as nódoas nos desfaça.

Na almofada do mal é Satã Trismegisto
Quem docemente nosso espírito consola,
E o metal puro da vontade estão se evoca
Por obra deste sábio que age sem ser visto.

É o diabo que nos move e até nos manuseia!
Em tudo que repugna, uma jóia encontramos;
Dia após dia, para o Inferno caminhamos,
Sem medo algum, dentro da treva que nauseia.

Assim como um voraz devasso beija e suga
O seio murcho que lhe oferta uma vadia,
Furtamos ao acaso uma carícia esguia
Para espremê-la qual laranja que se enruga.

Espesso, a fervilhar, qual um milhão de helmintos,
Em nosso crânio um povo de demônios cresce,
E, ao respirarmos, aos pulmões a morte desce,
Rio invisível, com lamentos indistintos.

Se o veneno, a paixão, o estupro, a punhalada
Não bordaram ainda com desenhos finos
A trama vã de nossos míseros destinos,
É que nossa alma arriscou pouco ou quase nada.

Em meio às hienas, às serpentes, aos chacais,
Aos símios, escorpiões, abutres e panteras,
Aos monstros ululantes e às viscosas feras,
No lodaçal de nossos vício ancestrais,

Um há mais feio, mais iníquo, mais imundo!
Sem grandes gestos ou sequer lançar um grito,
Da Terra, por prazer, faria um só detrito
E num bocejo imenso engoliria o mundo;

É o Tédio! - O olhar esquivo à mínima emoção,
Com patíbulos sonha, ao cachimbo agarrado.
Tu o conheces, leitor, ao monstro delicado
- Hipócrita leitor, meu igual, meu irmão.


Charles Baudelaire
tradução de Ivan Junqueira e Jamil Haddad

8 de fevereiro de 2007

As Núpcias Falhas


Fernanda Guedes

Catarina comia bife a cavalo, eu comia bife a pé. Catarina andava de bicicleta, eu andava a pé. Catarina dispunha de um enorme armário onde arrumava todos os seus pertences, eu dispunha de uma cômoda anã. Catarina depilava a axila com uma lâmina gilete, eu fazia a barba no salão Veneza. Catarina torcia pelo Botafogo, eu não torcia por clube nenhum. Catarina era Tom Mix, eu era Greta Garbo. Catarina tinha um amigo sobressalente, eu não tinha amiga sobressalente nenhuma. Catarina babava-se por doce de leite, eu, por compota de caju. Catarina gostava de farda, eu gostava de short. Catarina jogava tênis, eu jogava bilboquê. Catarina sonhava tecnicolor, eu sonhava em preto e branco.

·

Depois de onze meses de agridoce convivência, persuadidos da diversidade de nossos gostos e temperamentos, ajudados por uma cartomante resolvemos destruir o noivado. Consolei-me pensando no caso de Kierkegaard que, embora por outros motivos, resolveu também destruir o seu.


Murilo MendesPoliedro (1972)

20 de janeiro de 2007

MAIS UM TOQUE DE PERFUME



Acabei relendo O Perfume. O livro caiu em minhas mãos no dia seguinte à postagem anterior. Eu estava aqui angustiada com a minha conclusão. Será mesmo O Enamorado o arquétipo central do filme, como afirmei? Qual é afinal o papel do Amor no romance de Patrick Suskind? E fui buscar justificativas para minha impressão, já que vivo contra-argumentando comigo mesma. E como ninguém discordou...

Antes, alguns comentários. Sim, o filme é uma boa adaptação do livro. A crítica que diz que seria impossível passar para as telas sensações olfativas através de imagens é um disparate. Se assim fosse, a literatura também não o conseguiria. Diz Suskind: "... a rigor não havia sequer coisas no universo interior de Grenouille, mas apenas odores de coisas (por isso falar desse universo como uma paisagem é um façon de parler, certamente um modo adequado e o único possível, pois nossa linguagem não serve para descrever o mundo olfativo)". Se o diretor Tom Tykwer conseguiu o intento, se foi tão hábil nas imagens quanto foi Suskind ao traduzir aromas em linguagem, aí é uma outra questão.



O ator inglês, Ben Whishaw, que não corresponde às características físicas da personagem do romance, é um colírio para os olhos. Antes assim. Mantém a desumana indiferença de Grenouille em uma pontual interpretação e seu olhar dá todas as coordenadas. Antes ele que Johnny Deep, que roubaria todas as atenções.



Mas vamos ao que interessa. Grenouille é abandonado à morte pela mãe no meio do lixo. Ao invés de amor, ser envolvido pelos braços e abraços maternos, o que ele tem é o mau cheiro e as escamas dos peixes - e essa é sua referência de contato. A mãe, depois de um desmaio, não se lembra que deu à luz. E aí começa a saga de insignificância do protagonista, que o leva a desejar ser amado mais do que qualquer outra coisa. Diz Suskind que Grenouille sobrevive porque diz um não ao amor e um sim à vida.

Mas qual é o desejo que faz com que Grenouille mantenha a vida?

É isso que dorme no fundo da sua vontade de poder, vingar-se da continuada rejeição. Apropriar-se do aroma do amor, vindo do corpo (da alma?) de jovens mulheres. Aquelas poucas pessoas que poderiam inspirar o amor e que todos achavam que era um efeito da aparência. Grenouille sabia que a embriaguez vinha através perfume. Ali estava a beleza, a verdadeira beleza. Mas ele mesmo não tinha nenhuma beleza, assim como era incapaz de sentir amor. Ele não tem cheiro. Não tem em si aquilo que tanto busca. A sua referência de amor, algo vago e etéreo, é o aroma.

No fim da história, quando se questiona sobre o momento em que é tomado de frenesi no encontro com a primeira ruiva, mesmo assim sabe que seu único desejo é arrancar o aroma da moça. Não, não era amor o que ele havia sentido. No entanto, seria a sensação mais próxima ao amor que sentiria em toda sua vida.

O Enamorado está presente no romance in absentia, fluido como um perfume. Perpassa o livro do começo ao fim. Grenouille busca sintetizar o amor em um frasco. E consegue seu intento. Sabe que tem o poder para enganar a todos – reis, papas, imperadores. Mas também sabe que isso é falso, que a verdadeira motivação, a razão do desejo que poderiam sentir por ele, permaneceria sempre em segredo. Que ele jamais seria amado pelo que era. Poderia insuflar o desejo, que tomaria o lugar do verdadeiro amor como num passe de mágica. Um filtro de amor, como em Tristão e Isolda.

Parece-me uma metáfora perfeita para o enamoramento. O outro tem algo indizível, algo que sustém sua imagem num lugar cativo do coração e nada explica diretamente o desejo. Não se sabe dizer se é a voz da pessoa que nos encanta. Se é a cor dos cabelos, o corpo, a inteligência. Se são atributos visíveis ou invisíveis. Resume-se dizendo que é um conjunto, um conjunto daquilo que não é reconhecido em si e que é visto e desejado no outro. Uma projeção de sentidos.

Daí que saber do que se trata o "verdadeiro amor" é função de uma sensibilidade hercúlea e não raro, tarefa inglória. Parece que estamos fadados, como Grenouille, a padecer da flecha de Eros eternamente sem saber direito o que nos toma. Um doce engano, volátil como um perfume.

Mantenho minha opinião. É o Amor, esse nosso desconhecido e que, no entanto, move o mundo, o tema principal da história. Alguém discorda?


Zoe de Camaris

15 de janeiro de 2007

TAROT E CINEMA (2)





O Perfume

Domingo fui à pré-estréia do filme "O Perfume", aqui em Curitiba. Só soube que o romance homônimo de Patrick Suskind havia sido filmado porque li um artigo comentando a já famosa cena da orgia – realmente apoteótica.

E lembrei na mesma hora da época em que li O Perfume. Aliás, li duas vezes. Simplesmente genial. Gostaria de tê-lo em mãos agora, mas aí esse artigo não ia sair é nunca. Então, vou me ater ao filme.

O olfato é o sentido que bate nas nossas áreas mais primitivas, no tal do sistema límbico. Uma loucura. Quem tem olfato apurado sabe bem o que é isso. Cenas inteiras brotam com intensidade total quando um cheiro se repete, ao acaso. Os sentidos ficam todos seduzidos perante o poder do olfato. Chega a tontear (escrevi sobre isso uma vez, quem quiser ler, está aqui. E tem um poema do Rumi que cabe certinho).

Eu curti a película. Se faz jus ao romance, é uma outra questão. O Cinema dificilmente passa a perna na Literatura. Edgar Allan Poe nunca se deu bem nas telas, por exemplo. O único filme que superou um livro, em minha opinião, foi A Insustentável leveza do ser. Drácula, do Copolla, também não fica atrás. Ou a versão de Orson Welles para Macbeth. Então, deixemos pra lá a crítica, que tá descendo a lenha no filme.

Fiquei fazendo o de sempre, lendo tarot no cinema. Mas dessa vez não vou caprichar, estou com preguiça e com pressa. Se você não tiver lido o livro e nem visto o filme, corre o sério risco de não entender nada. Aí vai o site oficial para dar uma força e a direção de duas resenhas.



Grenouille é abandonado pela mãe na Paris do século XVII - uma nojeira, Paris naquele tempo. Sua mãe limpa peixes e é no meio deles que deixa o recém nascido para morrer. É adotado por uma mulher que explora crianças e é quase assassinado por sufocamento pelos adoráveis monstrinhos ainda no berço. As crianças percebem logo de cara que existe algo errado com ele.





Então, Jean-Baptiste Grenouille, o sapo, nasce com referências fortes: o abandono pela mãe, os cheiros fortes e o sufocamento. Sua vida segue rente a esses 3 acontecimentos. E montam as recorrências e decorrências. É um cara tosco. O que é apurado mesmo, a inenarráveis proporções, é seu olfato.

Grenouille é o Mago. Sua maior inspiração, o perfume de jovens mulheres. Imperatrizes, com aromas que superam as flores. Parece que virgens ruivas ganham disparado no quesito "perfume natural". Pelo menos para o nosso protagonista.

O desejo aparece na sua vida quando fareja a primeira ruiva. Seu aroma evoca algo que Grenouille irá perseguir obsessivamente. Extrair o perfume de tudo. De todas as coisas do mundo, porque todas cheiram. A menina grita quando vê que o rapaz está atrás dela, completamente fascinado pelo seu cheiro. E é morta sufocada enquanto passa um casal de namorados.



Taí o Enamorado, arcano VI. Primeiro, por causa da sensação de enamoramento pela qual Grenouille é tomado. O aroma da beleza. Segundo, por que é ali que ele decide e sela seu destino.

E é também a primeira morte (arcano XIII) provocada intencionalmente. Sim, cabe a questão: e se ela não tivesse gritado? Mas aí entramos no perigoso território do "como seria se fosse".

O rapaz consegue ir trabalhar para um perfumista famoso, Baldini, depois de passar sua adolescência praticamente como escravo de um curtume. Com Baldini está o laboratório da Temperança, todas as possibilidades de alquimia. Ele aprende com o mestre as questões técnicas. Mas sobre cheiros, ninguém sabe tanto quanto o próprio rapaz.



Grenouille tem também a estranha capacidade de esterminar tudo que deixa pra trás. Sempre que alguém sai de perto dele ou ele sai de perto de alguém, a pessoa morre. Baldini não é exceção. A casa cai literalmente sobre o homem que dormia quando Grenouille vai embora. O perfumista estava orgulhoso e feliz. Com a ajuda do rapaz havia recuperado o renome. A Torre cai sobre a cabeça do Papa, o Mestre, em um desmoranamento.

É quando Grenouille se retira para uma montanha, no melhor estilo Eremita. Em profunda meditação e sossego, percebe que ele mesmo não tem cheiro. Inodoro, aquele que poderia vir a ser o melhor de todos os perfumistas – essa é a grande ironia. Depois de tempo suficiente para a barba crescer (no livro, são 7 anos), segue o seu caminho. E chega em uma nova cidade, Grasse, a Meca dos aromas. Vai para conhecer a técnica da enflourage, processo que seu mestre não havia sabido ensinar e que poderia facilitar o seu objetivo.

Em Grasse, fareja uma outra ruiva que, protegida pelo pai (O Imperador), não será uma presa fácil. Sabendo que precisa, para criar um perfume, de uma paleta com 13 essências, começa a matar as mulheres da região. Sendo inodoro, consegue se aproximar com facilidade das suas vítimas, não deixando qualquer tipo de rastro.



A primeira é uma prostituta que está sempre com seu cachorrinho (A Força, óbvio). O mesmo cachorro que irá revelar no decorrer da trama que ele é o assassino, desencavando as roupas e cabelos das mulheres assassinadas. Depois de passar banha pelo corpo da mulher e envolvê-la em tecidos por tempo suficiente para que a alma do perfume se solte do corpo, retira com uma pequena foice negra (instrumento da Morte) a matéria desejada.



Depura e extrai das mulheres o seu perfume. Depois, é feita a essência e colocada em um vidrinho. E ele precisa de mais 12 mulheres. O Mago começa a perseguir os instrumentos necessários para a magia final.

E a cidade passa a caçar o monstro, o demônio que está assassinando as belas moças. O que Grenouille persegue é a alma da beleza. A beleza sublime de uma essência, impregnada de amor.

Com bastante afinco, busca sua última vítima enquanto o tribunal da cidade entra em pânico. A Justiça é insuficiente. Mata a última ruivinha quase que sob os olhos do pai. A décima-terceira essência.



Quando termina sua mistura fatal - o perfume mais poderoso de todos, a mescla equilibrada de 13 aromas, gerando um décimo-quarto (A Temperança, figura da perfeita alquimia) o perfume com a qual será capaz de dominar o mundo, é pego e vai para a prisão. Lá é torturado de cabeça para baixo. De Mago a Enforcado. Enforcado que está presente desde o começo do filme, na sua vida tão sacrificada. Sofrimentos que, no entanto, ele supera e reforçam sua obsessão.



Um imenso público aguarda a execução. Grenouille, com uma gota do seu perfume demoníaco, acaba com os guardas e veste as roupas de um nobre. Sobe ao patíbulo para ser crucificado. O carrasco cai de joelhos frente a ele. O carrasco, o bispo (o representante do Papa) e todos que estão presentes. O que mais resiste é O Imperador, pai da última moça. Ele só sucumbe quando chega muito próximo ao assassino e aí então, rendido, lhe chama de filho, de anjo, pedindo perdão.

À medida que é aplaudido e ovacionado por todos, tomados por um transe absoluto, encantados com o aroma, o rapaz faz o gesto mágico extremo. O Mago, o anjo, em ação no Juízo Final. O confronto. Mais perfume evola-se no ar e a multidão começa a tirar a roupa e fazer amor. Grenouille atingiu algo próximo ao Amor Universal, o Mundo. Uma dança de amor coletivo (que no livro, é bem mais punk que no filme...)



E vai embora. Mas no caminho descobre que ele nunca sentiria o que é o Amor. Que da mesma forma que ele mesmo não tinha cheiro algum, o amor jamais entraria em seu coração. Procura o lugar onde nasceu, derrama o perfume sobre si mesmo e é trucidado por mendigos.

Eu diria que é um filme em que O Mago, O Eremita, O Enforcado, A Morte, A Temperança, O Diabo, O Julgamento e O Mundo, vencem todos os outros arcanos. E mais uma vez O Enamorado é a carta central. Invertida?

O Amor é sempre maior do que a Morte.
Assim como o perfume.


Zoe de Camaris

31 de dezembro de 2006

A Força


potnia therion (creta)

Depois dos rituais coletivos de Ano Novo, desejo que A Feiticeira propicie a todos nós uma conversa com a natureza de nossos leões, panteras, serpentes e pássaros internos, através da compreensão do magnetismo e do sentido de dignidade.

Que haja carinho, inteligência, coragem, soberania, vitalidade e muita motivação na hora da Domadora abrir a jaula.

Às nossas feras, um perfeito 2007.


Zoe

17 de dezembro de 2006

SETE MIL VIDAS




"A tarefa não é a sua individuação, mas a individuação do anjo" 
- Corbin



Sete ‘Mil Vezes’ de Copas. A lâmina chama muita atenção, principalmente no baralho Waite-Smith.

Um homem de costas com roupas negras olha para sete taças envolvidas em nuvens acinzentadas. De dentro delas, um castelo, uma serpente, um dragão, jóias, uma coroa de louros, o rosto de um anjo e uma imagem fantasmática com o rosto coberto. A Musa, a Virgem.  É uma imagem de sonho, talvez de pesadelo, se observarmos as mãos negras da figura que admira impactada o conteúdo das taças. 


São diversas as opções, inúmeras as possibilidades. É quase impossível dividir um círculo em 7 partes. Um desafio coordenar a ordem do ternário, mental ou espiritual, em harmonia com a ordem do quaternário, terrena (3+4=7). Netzah

Então o 7 de copas é chamado de O Senhor do Êxito Ilusório. Ou, a “Vitória da Mulher”, o que é bem curioso. O predomínio da Anima. De Maia, a ilusão. Uma imagem venusiana, netuniana, lunar. 

Via Úmida. Ordem da Grã Sacerdotisa. 

Se relacionarmos a numeração das cartas menores com os arcanos maiores, chegamos ao Carro. O condutor precisa saber usar as rédeas do invisível, senão a carroça desembesta. O Carro é corpo do Condutor. Quem o dirige é o espírito atuante.


No entanto,  me parece estranho que esta carta tenha um significado considerado “difícil”, mesmo quando bem dignificada. Diz Waite: “Belos favores, imagens de reflexão, sentimento, imaginação, coisas vistas no espelho da contemplação; algumas consecuções nesses graus, mas nada é sugerido de permanente ou substancial”. Perfeito. Mas praticamente todas as interpretações posteriores parecem fixar-se na última parte da reflexão de Edward Waite.

O surgimento do 7 de copas numa leitura é interpretado como um indício da diversidade de opções. De alternativas ilusórias. Enganos. Excesso de expectativas. Do possível uso de alteradores de consciência, intoxicação. Mesmo que o número 7 signifique vitória, controle. O Poder Mágico em toda sua força, a Teurgia (atuar sobre os deuses). A dominação da matéria pelo espírito. E a matéria é considerada feminina, no que concordo. Mas sempre negativada? É claro que inverter a ordem dos fatores não dá certo. Porque esta carta não fala do domínio da matéria sobre o espírito. Mas de uma forma aquática e aérea, portanto, da ALMA, agindo sobre a matéria.

A alma rege a orquestração. A sua e a do mundo.
E alma tem o corpo de uma mulher.




“Perigo, Will Robinson, perigo!” – diz o robô. Perdidos no Espaço. Compreendo perfeitamente, ainda mais depois que Aleister Crowley denominou como “Deboche” o 7 de copas, melando (literalmente) a imagem logo de saída. Vênus em Escorpião. Plutão na jogada.

Contudo, entretanto, todavia.... Será que não deveríamos observar esta carta sob uma perspectiva menos positivista? Perdido no espaço, o robô conceitua: "Positivismo é o sistema criado por Augusto Comte (1798-1857) que se propões a ordenar as ciências experimentais consideradas o modelo por excelência do conhecimento humano, em detrimento do que seriam especulações, como a Metafísica ou a Teologia".

Lembremo-nos que muitas das interpretações fixadas com relação ao Tarot são do século XIX, começo do XX. E que os magistas desta época, queiram ou não, são signatários do discurso cientificista. Quem sabe, no intuito de “validar” o Tarot tenham sido bastante racionalistas ao interpretar as imagens. Os comentadores que se seguiram pouco acrescentam aos significados dados a esta carta numa perspectiva menos comprometida.

Há que se ler Gaston Bachelard (o noturno),  James Hillman, As Estruturas Antropológicas do Imaginário, obra prima de Gilbert Durand. E para entrar mesmo no mundo da imaginação e do devaneio, só mesmo com os poetas. Deixar a imaginação colorir todas as asas, mesmo aquilo que não voa. Renomear o mundo. Intoxicar-se de música. Caminhar sem destino, observar sem conclusões. A imaginação é um território de suprema liberdade do espírito.

Para compreender o Tarot talvez seja uma boa saída esquecer os manuais de interpretação.




São 7 as Maravilhas do Mundo, os anões da Branca de Neve. Sete os portais de Tebas, 7 léguas para as botas. Sete mares nunca d'ante navegados, 7 chacras, 7 dias da semana. Sete cabeças da Hidra de Lerna. São quatorze (são infinitas) as portas do labirinto de Asterión, em Borges. Mise em abysme. Tudo existe muitas vezes no plano da imaginação. Imagine, diz John Lennon.

E se a realidade, a realidade “ordinária” é complexa - simular idealmente a estabilidade não seria a real fantasia? Até que ponto o conselho: “coloque os pés no chão e dedique-se a reflexões fundamentadas” faz sentido? E se estivermos frente a uma pessoa enredada nas malhas cruéis da realidade e que não consegue ver na sua frente nada além de compromissos, cobranças, expectativas internas e alheias? Não seria este o momento de recriar seu mundo? E como recriá-lo sem soltar as rédeas que entre muitas voltas nos levam sempre pelas mesmas estradas e que acabam em becos sem saída?



O Tarot é uma arte da “imaginação”. É através das imagens e do poder de desvincular-se da realidade ordinária que se torna possível iluminar conflitos.

Sim, é uma arte paradoxal.

O plano racional é comunicado por palavras. O inconsciente comunica-se por imagens. E se as imagens não podem emergir, como reconhecer a verdade do inconsciente?

E que é a “verdade” em tempos de panvirtualismo?

Convém definir, diferenciar, a palavra imaginação da palavra fantasia. Diz Rachel Pollack, citando o poeta S.T. Coleridge, que ambas as noções afastam a mente das percepções comuns. A imaginação nos levaria a uma percepção da verdade subjacente vinda do inconsciente enquanto a fantasia produziria imagens mentais que podem excitar, mas às quais faltaria um significado real, pois procederiam do ego.

Pollack debruça-se aqui sobre o Príncipe de Copas, aquele que olha para uma taça vazia, ou seja, para si mesmo. Ao falar do seu companheiro Pajem, aponta que este vê um peixinho saindo de sua taça. E que ali sim a imaginação estaria no seu devido lugar. A infantilidade, a inocência do Pajem justificaria um tempo em que a fantasia e a contemplação seriam adequadas.




Embora goste da diferenciação de Coleridge, me dou ao desplante de discordar de Pollack quando relaciona a imaginação e a fantasia à imaturidade.

A imaginação sempre foi considerada “a louca da casa”, disso sabem os franceses. É uma palavra vilipendiada. É vero que a imaginação excessiva e/ou a perda dos limites pode levar alguém à loucura. Mais isso é hipostasiar um dos pratos da balança. Pesar a mão. Pensemos na justa medida. O excesso de imaginação nos enlouquece, nos torna inadequados socialmente, dificulta o discernimento. Torna-se delírio. A falta de imaginação nos faz parvos, secos, tolhidos de graça e matizes.

É bom não esquecer, como nos diz Neil Gaiman, que o primeiro nome de Delirium é Deleite - ainda na infância dos Perpétuos.



É impossível lançar as cartas e ser razoavelmente bem sucedido sem o poder de imaginar, sem se colocar aberto às infinitas possibilidades do 7 de copas. E não é seu título, a Imaginação?

“Cair na real” nem sempre é uma boa.



Agora vou para minha varanda deitar na rede rosa-choque entre as flores, numa bela tarde de domingo, depois de uma semana punk. E olhar para o céu, namorar o vento, chamar todos os meus amiguinhos imaginários e fazer uma festa daquelas. Se Sorte sorrir pra mim, aparece um beija-flor.

Mas aí já é Desejo.



Zoe de Camaris

Sete mil vezes




Sete mil vezes
Eu tornaria a viver assim
Sempre contigo
Transando sobre as estrelas
Sempre cantando a música doce
Que o amor pedir para eu cantar
Noite feliz
Todas as coisas tão belas





Sete mil vezes
E em cada uma outra vez querer
Sete mil outras
Em progressão infinita
Quando uma hora grande e bonita assim
Quer se multiplicar
Quer habitar
Todos os canto do ser





Quarto crescente para sempre
Um constante quando
Eternamente o presente você me dando
Sete mil vidas
Sete milhões e ainda um pouco mais
É o que desejo e o que deseja esta noite
Noite de calma e vento
Momento de prece e de carnavais
Noite de amor
Noite de fogo e de paz



Caetano Veloso

3 de dezembro de 2006

Sobre Profecias (APOLLINAIRE)




Conheço umas profetisas por aí
Madame Salmajour aprendeu na Oceania a arte da taromancia
Foi lá também que teve a chance de participar
De uma deliciosa cena de antropofagia
Claro que ela não espalhou pra todo mundo
Mas sobre o futuro nunca errava uma

Uma cartomante ceterana* Margarida etcetera e tal
É talentosa também
Mas já Madame Delroy é mais inspirada
Mais precisa
Tudo que disse sobre meu passado era verdade e o que ela
Predisse no tempo aconteceu no tempo que indicou
Conheço um sciomântico* mas não queria que interrogasse minha sombra
Conheço um adivinhador de água o pintor norueguês Diriks
Espelho quebrado banho de sal migalhas de pão
Que esses deuses sem figura sempre me poupem
E ao mesmo tempo não acredito mas olho e reparo
Acho que leio mãos muito bem
Pois não acredito mas mesmo assim reparo e escuto e olho

Todo mundo é profeta caro amigo André Billy
Mas por tanto tempo as pessoas foram levadas a crer
Que não tinham futuro e ficariam pra sempre ignorantes
E idiotas de nascença
Que eles acabam se resignando e nunca mais ninguém se lembra
De especular sobre se ele conhece ou não o futuro
Não tem nada de religioso nisso

Nem nas superstições nem nas profecias
Nem em nada que as pessoas chamam de ocultismo
O que existe acima de tudo é um jeito de observar a natureza
De interpretar a natureza
Que é completamente legítimo



Guillaume Apollinaire
Tradução: Rodrigo Garcia Lopes



* Nascida em Céter, (nos Pirineus orientais). De Ceretani, "antigo povo da Espanha, da Terraconaise, ao pé dos Pirineus".
* Forma primitiva de necromacia, relativo à adivinhação através de comunicação com as sombras (espíritos) dos mortos; também relacionado com a evocação de reflexos astrais para adivinhar eventos futuros.


18 de novembro de 2006

Madonna - Hollywood


Achei interessante o clip da Madonna, didático até. Bem na linha da abertura da série de TV Carnivàle, um passeio tridimensional pelas imagens.

Sempre imaginei um Tarot Holográfico, uma exposição com os arcanos maiores em movimento. As imagens projetadas seriam um pouco maiores do que a dimensão do corpo humano. Poderíamos atravessá-las, se assim quiséssemos.

Qual seria o primeiro gesto do Louco? Daria meia volta? Chutaria o cachorro? Cairia mesmo assim no abismo? Tiraria uma pequena flauta de dentro do seu saco de viagem e tocaria a música de Pã provocando o espírito do precipício?

A Sacerdotisa fecharia seus olhos e cairia em profunda meditação? Ou se levantaria, cansada do eterno trono? A Imperatriz sem dúvida o faria e sairia dançando entre as flores do jardim. O Imperador vociferaria um brado de comando, agitando irritado o seu cetro. O Hierofante, eu não sei. Nunca sei. O Enamorado caíria fulminado, antes de escolher? O Carro finalmente entraria em movimento? A Justiça ataria seus olhos para não ver o que se passa? A luz do Eremita se apagaria e ele tropeçaria no escuro? Ou a luz se ampliaria cada vez mais e mais e mais até que se transformasse no sol branco do Louco e as feições do Eremita voltassem a ser aquelas da juventude?

Cada um verá um movimento diferente em cada carta, de acordo com suas experiências, com seu momento de vida.

E afinal, a Dama da Força abre ou fecha a boca do Leão? Alguns me respondem que ela apenas o acaricia.


Zoe de Camaris

11 de novembro de 2006

GOROROBA "ESOTÉRICA"



Outro dia, muito bem acomodada no banco de trás do carro do meu pai, atravessando a Barão do Cerro Azul e indo sei lá pra onde, minha mãe me chamou a atenção: - Ei, filha, olha ali aquela faixa. Levantei os olhos e vi um enorme banner branco com dizeres em vermelho: TARÓLOGA. Abaixo, o número do telefone.

Anotei o número. E comecei a pensar sobre a divulgação do meu trabalho. Já havia, em priscas eras, cogitado uma placa bem linda (da cor do mar com todos seus peixinhos + azul do céu com todas suas estrelinhas), aqui na frente de casa mas desisti. Eu, que sou uma espécie de Eremita com Bela Adormecida (me apraz acreditar nisso), não ficaria à vontade. Se têm dias que nem atender o telefone atendo, quem dirá correr para a porta ou instalar uma campainha. Leituras, só com recomendação e hora marcada.

Me lembrei também daquele anúncio em papelão escrito com caneta pilot que se vê tanto por aí dizendo: JOGO DE BÚZIOS E CARTAS CIGANAS. E também daqueles "santinhos" pregados em postes em que se promulga a solução de todas as pendengas: "curo impotência, resolvo seus problemas financeiros e trago de volta seu amor perdido em 7 dias", etc. - leia-se, nas entrelinhas, pela módica quantia de 5 mil reais. Cierto, se o bicho pegar, viro a Madame Zoe (risos, por favor). Pagar vintão numa cartomante pode sair bem mais caro do que se imagina.

Chegando em casa, telefonei para a taróloga:
- Boa tarde, por gentileza, é você quem trabalha com o Tarot?
- Sim, a voz do outro lado respondeu.
- E qual Tarot você usa?
- As cartas.
- Sim, as cartas. Mas quais cartas?
- As cartas do baralho.
- Perfeito, compreendi, mas acho que não me fiz entender. Gostaria de saber que tipo de cartas a senhora usa - se é o Marselha, Waite ou Crowley.
- Não, eu faço Tarot. O Tarot é jogar búzios e cartas ao mesmo tempo.

(pausa para uma enorme surpresa)

- Senhora, eu estudei esse assunto um pouquinho e pelo que me recordo, o Tarot é um sistema de imagens composto por 78 cartas, sendo que 22 delas são os arcanos maiores e as outras 56, os arcanos menores.
- Hum, respondeu a mulher, visivelmente contrariada. Achei melhor não insistir e perguntei quanto era a consulta, ao que ela me respondeu:
- Trinta reais.
Agradeci às informações e desliguei o telefone.

Atenção: nada contra "cartomantes", muito pelo contrário. Se usamos as cartas somos todos cartomantes, obviamente. E, não raro, a intuição pura ou mesmo o dom da vidência pode se adaptar perfeitamente às necessidades de alguém. Falta de estudo não significa falta de inteligência ou de sabedoria, escuso dizer. Nada contra o uso das cartas comuns ou do Petit Lenormand, um belo conjunto de lâminas divinatórias. Mas péra aí: o Tarot agora é um mix de búzios com cartas de baralho??? Fico imaginando a cena: as pequenas conchas em uma peneira - acrescenta-se as cartas, sacode-se com força e joga-se tudo sobre um belo tecido dourado rodeado de velas. Oxumaré que traz o Ás de Copas que é o Santo Graal responde que sim.

Talvez a moça que me atendeu ao telefone seja uma fera, digo isso agora sem ironia. Talvez possa fornecer informações que não estariam ao meu alcance, mesmo com meus anos de estudo. Mas daí a se intitular taróloga...pode não.
Outra: questiono também a postura dos que mais parecem ser "shoppings centers esotéricos ambulantes". Fulano lança as runas, faz mapa astral, lê bola de cristal e, de quebra, ainda rola um "trabalhinho". Pô... eu poderia passar a vida inteira estudando o Tarot e ainda assim teria o que estudar. Porque estudar o Tarot não é só estudar o Tarot.

Não sou a favor da institucionalização do nosso trabalho porque não acredito que a lida com as artes da imaginação (que vivem de um estado "nascente") possa ser enquadrada cientificamente. Creio na necessidade de cursos de iconologia, iconografia, do conhecimento das convergências simbólicas, da arquetipologia. Que grupos de estudo são enriquecedores. Que o questionamento sobre a ética também é imprescindível. Mas não consigo me imaginar com uma "carteirinha de taróloga". Posso vir a mudar de opinião, é claro. Por ora, acredito que informações acertadas são sempre bem vindas e que é preciso, quando se procura uma consulta, que o sujeito saiba o que vai encontrar.

E a "taróloga" em questão me forneceu rapidamente as dicas de que eu precisava.


Zoe de Camaris

18 de outubro de 2006

A RAINHA DE ESPADAS





A Majestade dos Tronos do Ar. Sendo Rainha, é da Água. Por empunhar a espada, do Ar. Água do Ar. Naturalmente aspectada pelo feminino, desempenha uma função do masculino. Mas não há perfeita interação entre estes elementos mesmo tendo em conta a atração das polaridades opostas.

A Água fala de sensibilidade, emotividade e expressão dos sentimentos ao passo que o Ar transporta a racionalidade e a lógica. A Água é substancial enquanto o Ar é abstrato. Sua compatibilidade encontra-se na Umidade. A Água pode tornar o Ar visível: nuvem, bruma, nevoeiro. Em harmonia na umidade, criam o símbolo máximo do sonho e do devaneio. É a soma da memória (Água) e da imaginação (Ar). Contudo, por criarem juntos a matéria dos sonhos, não podem permanecer.

Se o Ar estiver feliz, pode gaseificar a Água. Fazer espuma. Mas não raro se ressente ao ver-se privado de transparência. Distancia-se da matéria aquosa que tudo amálgama. Precisa respirar e mata a Água por expulsão. Não suporta a lamúria da sereia.

E a Água, mesmo que essencialmente rebelde à modelagem, não se contém diante da evasão aérea – fuga, dissipação, inconstância, vacuidade. Mata o Ar por dilúvio.

A Água é fértil, o Ar é estéril. A Água quer unir-se, o Ar quer ser livre. É uma combinação difícil a que preside a Rainha de Espadas.



Tem o apelo aquático na sua essencialidade feminina, mas está orientada pelo Ar. Por isso é de uma dramaticidade gelada. Esconde suas emoções ou as transforma em facas afiadas. É ríspida, fria, uma crítica severa. Sua mobilidade é a do vento, onde opera.

Nos manuais cartomânticos é a Viúva, a dominadora. Soma sabedoria e pesar. Talvez invejosa. E por falar em “talvez”, advérbios de dúvida não fazem parte do seu repertório. Um belo exemplo é o texto da ensaísta americana Camille Paglia. Seco, claro, sempre afirmativo. A Rainha de Espadas sofre sozinha, e quando aparece é como dona da verdade. Lisa. Mordaz. Jamais irá expor seus sentimentos em público sem antes passarem pelo crivo nervoso mesmo que os fluxos aquáticos estejam lá, submersos sob a capa dura. E ela os evitará sempre.



A Rainha de Espadas liquida. Aproxima-se de Atena. De Iansã pela sua assertividade, se esta não fosse tão quente. Usa um adorno vermelho no braço, um presente do fogo, como ilustra o Tarot Waite. Proteção. Pode então agir no escuro. É hábil. A tática é a estratégia. Razão que esclarece o caos. Nunca subestime sua perspicácia. Ela sempre tem uma carta na manga.

Ganhou o inverno porque conhece os enganos da primavera. Do céu o verão, da folha o outono. Sabe e executa. Articula. Doma pela palavra. Cada letra é um arreio. Sua língua é um punhal. Tem uma dor cravada no peito. Uma armadura para arrancar do centro. Uma Medusa na égide. Austera.



No fabulário, é a “morena do mal", madrasta da Branca de Neve. As lágrimas serão pedras de gelo vertidas num cálice (talvez, com veneno). Neil Gaiman inverte genialmente a tradição no conto “Neve, Vidro e Maçãs” e a malvada, agora é a Branca de Neve. Interessante também é a releitura cinematográfica do conto de fadas, em que a história é narrada do ponto de vista da madrasta. "Floresta Negra" (Snow White: A Tale of Terror), estrelado por Sigourney Weaver, que arrepia no papel. O filme caminha bem até determinado ponto e no final o diretor consegue estragar tudo com uns zumbis que saem do nada. Mas não importa. Vale assistir a Tenente Ripley, de Aliens, maltratar a pentelha-electra da Branca de Neve. Ninguém merece!



Embora a tez da Rainha de Espadas seja secularmente representada por uma mulher com os cabelos negros, também aparece como loura gelada, impávida. Fatal feito ponta de relâmpago. Palavra-cruzada que veio do frio. Estóica, monta o quebra-cabeça da morte. Essa é a idéia de Andersen, em "A Rainha da Neve". E captada em pastiche por C.S.Lewis para vestir Jadis, a Feiticeira Branca, em "Crônicas de Nárnia". O País do Eterno Inverno. Há que se aplaudir a perfeita escolha da atriz. A Feiticeira Branca resplandece na androgenia de Tilda Swinton. Feminino e masculino em perfeita sintonia. Não é a toa que foi escolhida para representar o anjo Gabriel em "Constantine" e protagonizar "Orlando, A Mulher Imortal", baseado em obra de Virginia Woolf.



Aliás, quem tem medo de Virgínia Woolf?

A Rainha de Espadas gosta do branco e do negro. Não é adepta das cores. Em dias mais sensíveis, veste azul. Cinza nas tempestades. Espadas não costuma presentear a mulher com a sinuosidade das curvas (há controvérsias). Nada da luz fogosa de Bastões e suas cores quentes. A sexualidade é controlada para não parecer “emocionada”. É bom não esquecer que é do seu repertório confundir pela aparência de pureza. Dissimulada sim. Mas quem disse que a dissimulação não é uma maneira de se revelar?

Com os sentimentos equilibrados é uma Sílfide - sabe ser leve e ágil, a dançarina.



Não traduz padrões usuais de beleza e nada tem a ver com a delicadeza de traços de Copas, nem com a explosão de vivacidade de Paus e muito menos com a robustez profícua de Ouros. Há um equilíbrio enigmático em suas formas. Seduz pela extrema elegância. Uma papisa da moda, como Constanza Pascolato. Chic, so chic. Ela não se dará ao luxo de perder a linha, não fará escândalos. Mas arrancará a sua cabeça antes que você possa dizer “cucamonga”. Vai pegá-lo (a) desprevenido(a).

E lembrando aqui de algo nada elegante, o desvario da Rainha de Copas em "Alice no País das Maravilhas"... bem, é um tilti por pura raiva do branco nas rosas. Uma histeria de Espadas numa Rainha de Copas. Da pureza nas rosas e em Alice (a Rainha de Espadas não aguenta a Rainha de Copas. Não tem paciência com sua beleza doce, com seu romantismo, destesta os perfumes florais que ela usa). A contumaz jogadora de cricket faz o maior escarcéu, mas não corta nada. A lâmina estava quente. Alice acordou. O sonho virou pesadelo. Seria a porção de uma futura Rainha de Espadas em Alice no Espelho?



É difícil encontrar uma Rainha de Espadas em estado "puro". É um arquétipo (às vezes, apenas um estereótipo). Assim como nos tipos psicológicos de Jung, há sempre uma função predominante. Espadas é o Pensamento, Copas o Sentimento, Paus a Intuição e Ouros a Sensação. Entre extrovertidos e introvertidos, todos possuímos as quatro funções, sendo que uma é sempre mais desenvolvida, a função principal. A segunda função ajuda a principal, a terceira é rudimentar e a quarta fica na sombra e por isso é chamada de função inferior.

Hibridismos. Em "Kill Bill", a Noiva, transformada em Mamba Negra, é uma Rainha de Copas que vinga sua maternidade, tornando-se Rainha de Espadas ou despertando a fera rápida e milimetricamente perfeita que existe em toda mulher. Com o pique e a beleza de uma Rainha de Paus em suas vestes amarelas. Só se torna Rainha de Ouros, completa, quando leva a cabo sua vingança. Mas o que faz o sucesso do filme é a implacável vingadora. Cortem-lhe as cabeças!!!



Por falar em cabeças decepadas me lembrei da Dama de Ferro, Margaret Thatcher que, antes de ocupar o cargo de primeira ministra do Reino Unido, foi eleita como presidente do Partido Conservador Britânico. A eleição aconteceu na noite 11 de fevereiro de 1975 e passou para a história britânica como “a noite das facas longas”, pois o improvável acontecia: Thatcher (uma mulher) venceu seus rivais assim como Hitler, em junho de 1934, acabou com a SA.

“Facas longas”. Considerada como uma das pessoas mais insensíveis da Inglaterra, Iron Lady obedecia a princípios de rigor e patriotismo. Recuperou as Falklands (Ilhas Malvinas) para o povo inglês e foi considerada uma heroína nacional. É sua a seguinte fala: “Os homens na política são responsáveis pelos pronunciamentos, as mulheres, ao contrário, pelas ações”.



Só mesmo uma Rainha de Espadas. Uma libriana feita de ferro - segundo Aleister Crowley a Rainha de Espadas rege do 21º de Virgem ao 20 º de Libra, o que a relaciona naturalmente com o arcano VIII, O Ajustamento (A Justiça). Mas pelo jeito, Vênus (regente de Libra) não tem nada a ver com isso...No Tarot, a figura da Balança é seca, distante, fria. Separa e equilibra. É uma junção perfeita de Virgem e Libra. Sua função apaziguadora cria beleza pela harmonia. Mas não se relaciona interamente por que é Virgem - separa. Não é uma beleza essencial, mas uma beleza aparente. Afrodite não quer saber de nada disso, mesmo que seja uma Afrodite Urânia. Passa longe. Apolo, que cuida da manutenção das formas, seria um arquétipo mais adequado. Por isso é necessário algum cuidado quando se fala de correspondências entre os dois sistemas. Há convergências no que se refere à hipocrisia, por exemplo. Libra é o signo mais hipócrita do zodíaco. E a Justiça, mal dignificada, cai no mesmo lugar. Os dois arquétipos fazem qualquer negócio para manter tudo bonitinho, mesmo que por dentro reine um tremendo caos. Margaret Thatcher na cabeça.

Thatcher renuncia em 1990 e em 92 recebe o título de Baronesa. Em 2002 a Dama de Ferro vira Dama de Mármore (de Carrara). Uma estátua de dois metros e meio de altura e 1,8 toneladas destinada ao Parlamento Britânico. Mas antes que chegasse à Câmera dos Comuns, ainda na galeria de arte onde estava exposta, um produtor teatral decepa a cabeça da estátua com um golpe desferido por uma barra de ferro. O produtor (de teatro) declarou que este foi um ato político. Mas não é a Rainha que decepa cabeças? Curioso como a vida imita a ficção. Voltemos a ela. Ou nem tanto.



Um ótimo exemplo no cinema é Joan Crawford. As sobrancelhas mais atrozes da tela, em cinemascope e technicolor. Não teve filhos e adotou 4 crianças. E parece que sua postura "Rainha de Espadas" ultrapassa os papéis que fazia no cinema. Contam à boca pequena que Betty Davies faz a mesma linha. E Betty Davies lhe despreza, nunca se esqueça disso. Aliás, as duas arrasaram juntas. O que terá acontecido a Baby Jane?

Segundo Cristina Crowford, a filha mais velha, a mãe era mesmo A Malvada. Mamãezinha Querida.




Encontrei uma série de televisão que não passou aqui no Brasil intitulada "Rainha de Espadas". Tem 22 capítulos (!!!) é a atriz principal é um Zorro feminino. Elenquei aqui por curiosidade, por que deve ser ruim pra dedéu, é só ver as fotos.

E partindo do brega para o erudito, da imagem para a música, há a ópera em 3 atos de Tchaikovsky, "A Rainha de Espadas" (1890), baseada em conto homônimo do russo Alexander Pushkin.

O protagonista da ópera, Herman, um oficial do exército, é uma figura de natureza destrutiva, um adicto. Ele manipula a ingênua Lisa, neta da Condessa que é conhecida como a Rainha de Espadas. A Condessa-Rainha conhece o mistério das três cartas e revelou os dois primeiros mistérios para dois homens. Se revelá-lo a um terceiro, ele morrerá. Herman se torna obcecado pelo terceiro segredo e isso custa a vida de Lisa e a dele mesmo. As Rainhas e as Cartas do Baralho.

Não fica distante da idéia do delicioso blues chamado "Little Queen of Spades", de autoria de Robert Johnson e magnificamente interpretado por Eric Clapton em "Me and Mr. Johnson".



Mr. Johnson diz em sua música que ela é uma mulher hábil com as cartas. Que toda vez em que ela joga, ele sente arrepios. Uma mulher que sabe apostar e que nunca vai levar todo seu dinheiro por que tem “mojo”, jogo de cintura. E que se ele é o Rei e ela, a Rainha, podem juntar suas cabeças e fazer o dinheiro se tornar “verde”. Alguém duvida que existem casais imbatíveis? Eu não.

Será ele um...Rei de Paus? Um Principe de Copas não dá conta. Quem é o cara da Rainha de Espadas? Bem por hoje chega. Gatos é um outro departamento.


Zoe de Camaris
o.p.s.: quem é a Rainha de Espadas em Sex and City? Moleza....aliás as 4 rainhas estão muito bem representadas, intencionalmente. Alguém se habilita?




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Referências Bibliográficas

RAVIGNANT, Patrick. Os Presságios. São Paulo: Editora Martins Fontes, 1986.
CROWLEY, Aleister. El Libro de Thoth. Madrid: Luis Carcamo Editor, 1985.
Artigo de Nise da Silveira sobre os Tipos Psicológicos - Jung

17 de outubro de 2006

Maat



O olhar impenetrável que afasta, o coração e pluma compensadas. Ó Lustitia, irmã de Nêmesis ética, alimento de Rá que funda seus olhos. Que Seth desfaleça no Palácio das Duas Verdades, antes do julgamento final - 42 vezes. Que eu pese o que lhe equivale, pois é de meu coração que sai a voz de escaravelho e que não me levantará falso testemunho. Eu a conservo em reverência, pássaro que não quer padecer da excessiva luz. E se meu destino for Ammut, leve da irreverência o juízo. A verdade existirá no alto de seu toucado. Sabem Thot e Anúbis que eu apenas amei no horizonte de Aton. Aquela que reina na terra do silêncio.

Num ponto de Ra
Maat Hotep
Eu te saúdo
Nas três pétalas da Rosa Eterna
Em torno de Ankh

Amen Hotep
Ahum Rah /Maaah Ahum Rah
Ahum Ra / Ahum Ra
Maat Hotep


Teu ser alado
Anela
Em torno de Ra
Pelo coração-chave de Ankh

Maat Hotep
Maat Hotep


Teu Fogo
Vivifica todos os Planos
Pela espiral
De
Ra

Maat Hotep
Maat Hotep


Oh Serpente
Oh Chave da Eternidade

Tuas raízes
Na Terra
Dançam pela coluna de Ankh


Maat Hotep
Maat Hotep

Teus véus são lançados
Para quem
É impuro para Ra

Maat Hotep
Maat Hotep

Men Kheper Ra
Men Kheper Ra

Ahum Ahum

(maat)

15 de outubro de 2006

A Raiz dos Poderes do Ar




“A imagem é mais verdadeira que a verdade."
(Jean Baudrillard)


Inteligência é afrodisíaco, diz-se por aí. É vero. No amor, amizade ou trabalho aplaudimos sua arguta e bela égide. Uma afinada composição entre Atena e Afrodite. Também é senso comum que "inteligência" em excesso, atrapalha. Não raro é vista como a gênese das eternas punhetas mentais. Problemas de recorrência, círculos viciosos, obsessões, sofrimento. A manutenção de catálogos - frases feitas que fulminam a fluência, e o excesso nas categorizações.

Borboletas presas em alfinetes assinalam o fim das asas. É bom observá-las voando. Ou mudar a metáfora: que sejam lençóis delicados pelo vento sobre corda de metal, finíssima.

Mas aí vem a observação: "a mente é a uma armadilha" etc e tal. E a conversa termina drasticamente quando alguém diz, conformado, que a "ignorância é a verdadeira felicidade". Mas inteligência não tem nada a ver com confusão. Tem a ver com a forma com que se prendem os lençóis.

A inteligência emocional, por exemplo, não partiria de uma decisão do sujeito em encarar de frente as esquinas pontudas do coração, as sensações primeiras, o exagero e a falta? Tudo passa pela mente, “o grande filtro". O corpo, não teria sua "inteligência"? E não parte de uma decisão da mente deixar que o corpo fale? Desatados os nós inconscientes, é claro...

O pensamento vai do vento a uma chapa de alumínio. E assim, sucessivamente, até o ferro - pesada ferradura. Pode virar uma bigorna. Não necessariamente nessa ordem. É bom lembrar da justa medida - aquecer o aço até que se torne vermelho-cereja. Mergulhar a lâmina em água límpida. Cravá-la na terra. Lustrar a espada, sempre, com a disciplina de um samurai. Afiar a faca.

Deixar com que escoem numa complexa peneira com maior ou menor grau de retratibilidade na sua trama. As emoções (água) as sensações (terra) as intuições (fogo). Lavar a talha, limpar o filtro. Todos os dias. Os resíduos? Antes, procurar os diamantes.

Isso tudo é do escopo das Espadas.

Mas aí vem você (?) e diz: - "Há exagero nas imagens, a abstração pressupõe uma postura não-imagística. Por que tantas metáforas?” Hum, eu retrucaria: - "Onde está escrito isso? Vem com certificado de validade? "

A força do Tarot não está nos seus conceitos, mas nas imagens. E partindo desse pressuposto, não seria o naipe de Espadas um injustiçado na trama do Tarot?

Quando Waite orienta Pamela Smith em seus desenhos ou quando Crowley o faz de maneira bastante pessoal com Frieda Harris, a que lógica estruturante obedeciam além da ordenação esotérica, iniciática? Como eles falaram do seu tempo? Que idéia de mundo traziam à tona?

É só olhar para as cartas, estendê-las. Deixar a tabelinha da cabala onde estava - se é que você usa uma - e junto com ela, tudo que tinha lido antes. Ver com os olhos livres cada imagem sendo narrada.

É possível piorar a situação: estenda as cartas de pintas do Marselha, originalmente abstratas, ao lado do Crowley e do Waite. E depois guarde na caixinha os dois últimos. E me diga o que aconteceu. Talvez o palo de espadas devesse vir sem imagens, então.

Conta a lenda que as figuras de Espadas são as mais terríveis, as mais rebeldes. Pensando na seqüência de 1 a 10, o que se salvaria da selvageria mental? O Ás? O Seis? Os significados divergentes da lâmina de número Dois, chamada ora de Paz, ora de Guerra íntima? Uma engenhosa aliança.

A meu ver o Dois fala do paradoxo. Oxímoros. Por uma lado, a mente cria o estado perfeito para analisar com critério um determinado fato, por outro bloqueia o contato com as emoções. Enquanto isso, em Gotham City, ou melhor, em San Diego, as espadas cruzadas falam sobre o embate. Um encontro marcado, duelo. Colisões intelectuais podem ser extremante frutíferas. Ou não. Afinal há um mar de emoções, e são tantas as emoções...e depois, todos os cretenses sempre mentem, é bom não esquecer.

Quero dizer o óbvio: se o palo de Espadas é naturalmente mal-dignificado em seus significados mais literais, não valeria uma outra "visada"? Uma visão menos comprometida com a forma de pensar o mundo no século XIX?

Exemplos, exemplos, exemplos.



Eu desejava mesmo era falar sobre a Rainha de Espadas,
mas fiquei com o lençol agarrado na perna do Ás.

Tá valendo.
Já volto.


Zoe,
num belo domingo de primavera