26 de março de 2007

O menino


celeuma
onde se lê uma
leiam-se duas


p. leminski

Ele pode ter 19, 35, 46 ou 54 – não importa. Seu impasse é o mesmo. Está entre três chamados: o da Beleza, que é sua Arte; o da Mãe, que é de onde ele veio e sempre tende a voltar; e o da Mulher, que é para onde ele deseja ir e de quem costuma fugir. Seu movimento é um eterno vai-e-vem mental, confuso entre os estímulos diversos.

Para tornar-se um Homem, precisa, antes de mais nada, assegurar-se da sua Arte e reconhecer naquilo que o sustenta o seu grande e primeiro amor. A Arte nunca irá abandoná-lo. Propicia ao Enamorado um sentido ético para a jornada. Aí então, o menino confuso pode encontrar o fio de Ariadne, tomar seu Carro e colocar-se a caminho de uma solução. Fundamental, o primeiro passo.

Alguns, peterpânicos, nunca saem do impasse. Repetem-no por toda vida, mudando as personagens. Uma mulher, aquela que não ocupa seu desejo romântico, no papel de esteio. A Mãe, a Mestra, a Esposa (leia-se aí, alguns casamentos falidos em que a relação homem/mulher mais parece uma relação filho/mãe). Um pilar cimentado pela necessidade de alguma segurança. Laços de família ou laços religiosos bem atados. Religiosos sim, porque não raro os laços estão amarrados no sentimento de culpa com nó cego.

A Outra é aquela que ocupa o lugar de risco, a namorada-novidade sem a qual ele não vive - nem que seja num movimento imaginário. Sua idéia erotizada de mulher lhe traz a ilusão de movimento. E ele sempre troca de revistinha. Uma hora é loira, depois é morena. Desiste ao primeiro sinal de dificuldade ou encara a situação apenas como mais um desafio.

Para escapar do desespero inaugural o menino tem sua Arte, onde se lança com energia. Alguns mais, outros menos. Aos que a Arte não toca, ao invés do Anjo-Menino, têm o Anjo-Diabo. E ele os domina através de seu riso entorpecente. Aqueles que reconhecem sua Arte sobem o Himalaia, praticam esportes radicais, são admiráveis e admirados pelo seu trabalho mas ainda assim, continuam meninos. Alguns ainda, no melhor estilo “O Louco”, caminham pela borda de viadutos completamente ébrios.

Diz-se que depois de feita uma escolha, não se deve olhar para trás. Que o caminho rejeitado nunca mais deve ser sequer cogitado. Isso soa assustador: - Quer dizer então, que não vou poder voltar?
Camile Paglia, em Personas Sexuais, é de uma clareza impressionante quando diz que o homem obedece ao caminho ditado pela direção do falo – sempre em frente, quando rijo. Ao perder a rigidez, volta para o lugar de onde veio. O eterno vai-e-vem masculino, uma metáfora do ato sexual.

Essa trama que triangula o menino é onde algumas mulheres se enredam. Por não compreenderem o mecanismo, perdem o entendimento. E se o entendem intelectualmente, não significa que o tenham introjetado. A mulher, que até aí também é só uma menina, ou está ocupando temporariamente o lugar de uma menina, só se liberta da teia quando encontra um homem. Um homem que tenha superado o imperativo do impasse biológico. Que tenha assumido seu lugar no Carro, que saiba para onde se encaminha. Que possa granjear-lhe a admiração pela sua força de vontade.

Talvez essa força masculina tão desejada pelas mulheres precise ser, antes de tudo, encontrada dentro delas próprias. E que este encontro lhes permita, num segundo momento, reconhecer as diferenças entre um homem e um menino.

O menino, que num primeiro momento traz a graça de Eros, em pouco tempo mostra que não sabe para onde ir. Seria a confusão, admirável? E sobrevive o amor, ou mesmo a paixão, sem a admiração? Talvez a compaixão, não o amor. Ou talvez a ilusão de amor ainda perdure por um bom tempo na insistência da alma feminina e faça com que mulheres aparentemente maduras percam o sono. Não entendem “aonde ele quer chegar” por que ele mesmo não sabe “aonde” quer chegar. O menino emite sinais confusos. De um lado mostra que gosta, e é real. De outro, que não lhe interessa. E também é real. Sabedoria do cancioneiro popular: a verdade mesmo é que ele não sabe o que quer.
Um homem não anda em zigue-zagues. Coordena seus cavalos de força na direção da sua vontade mais íntima. Pelo menos, descobriu o que deseja e deixou de se iludir com o que “pensa” desejar. Pode optar também por eleger a sua dúvida como verdade. E aí, num sentido romântico, dá-se como perdido. Se for um forte, assumirá sua opção pela dúvida com todas as letras. Sem medo. E quem gostar dele, gostará mesmo assim. Um ato de coragem a que meninos não se dispõe.

Outro dia, comentei com um colega tarólogo sobre o excesso de questões que nos são trazidas com relação a assuntos sentimentais. Brinquei ao propor que criássemos uma tiragem complexa e destinada, exclusivamente, a responder a pergunta básica, feita por mulheres dos 15 aos 70: “Ele vai voltar pra mim”?

A tiragem complexa funcionaria como forma de reflexão e mais nada. Porque a resposta é sempre mesma:- Você está envolvida na rede do sexto arcano. Se a questão se referisse a um homem e não a um garoto, a pergunta não precisaria ser feita. Pois a mulher teria em mãos sua resposta clara e certa.


Um homem sabe para aonde está indo. Mesmo que seus cavalos de força oscilem vez ou outra, ele sempre lhe deixará muito clara sua direção.

Meninos são adoráveis. Mas apenas para as meninas.


Zoe de Camaris
madrugada de 25 de janeiro de 2007


Algumas observações:

1 - O teor do artigo supõe a existência de distinções básicas que pontuam o comportamento dos dois sexos. Não que a mulher não sofra com dilemas, obviamente, apenas os vivencia de forma diferente. A mulher não precisa afirmar que é mulher. O homem sofre essa pressão constantemente. Andrógino é o anjo.

2 - Tive um diálogo intenso sobre esse artigo com o tarólogo Marcelo Bueno, que me deu permissão para "editar" a nossa conversa. Isso será feito futuramente - é bacana ter um opinião masculina sobre o assunto. O ponto de vista do artigo é feminino - não pretendo ser científica, graças aos deuses.

21 de março de 2007

DIVINATRIX NO AR!




Divinatrix é o nome do site que estou lançando hoje no seguinte endereço: www.zoedecamaris.com. Visitem e coloquem aqui seus comentários!

abraços,
e um feliz começo de outono para todos nós,
Zoe

14 de março de 2007

Mais acordes de Violino



Há alguns detalhes que ficaram faltando na análise do Violino Vermelho, postagem anterior. Não satisfeita com a falta de informações sobre as fontes do Tarot apresentadas no filme, continuei na minha insana fúria de pesquisa.

Pois bem. Há 3 questões relevantes: 1) Não há nada na internet que revele o autor das cartas; 2) Há mudanças estruturais importantes em quatro das cinco imagens apresentadas se comparadas ao padrão marselhês; 3) E uma gafe - o Tarot não teria sido usado como prática divinatória na época em que o filme é ambientado.

Quanto ao primeiro tópico, agradeço a quem descobrir alguma coisa. Me parece que manter o autor no anonimato faz parte de uma aura de mistério intencionalmente provocada.

Com relação ao segundo ítem, percebe-se claramente que na lâmina do Diabo falta uma personagem, um dos "escravos". A vítima do encanto é uma só, Frederik Pope. Na carta da Justiça, há a inclusão de um navio e da bandeira chinesa, além de umas figurinhas que nos remetem aos cardeais presentes no desenho original do Papa, no Tarot marselhês. No Enforcado, falta meio cepo de uma das árvores laterais. Na carta da Morte, há uma cidade ao fundo. Observem as imagens no post anterior. Não consegui reproduções de qualidade mas é nítido que foram inspiradas no Tarot de Marselha.

Sobre a questão histórica, afirma-se que o Tarot não teria sido usado antes 1781, século XVIII, como prática divinatória. Eteilla teria sido o responsável pelo uso do Tarot para a adivinhação, alavancado por Court de Gébelin, em Monde primitif. O filme é ambientado em 1681, século XVII. Temos aí então um hiato de 100 anos. Como a história do Tarot não é minha melhor praia, recorri a quem saca do riscado - minha amiga Erika Hirs.

Erika me diz que as pesquisas mais recentes afirmam o mesmo - antes de 1781, nada de Tarot adivinhatório. O máximo que podia existir seria a leitura de uma carta, como na bibliomancia, mas nada de adivinhações estruturadas.

Antes disso, as cartas de Tarot eram utilizadas como jogo e também como método mnemônico, didático. O Sola Busca, por exemplo, um Tarot militar, era usado para ensinar a história de Roma. Também existiam os tarocchi appropriati, composições feitas com base nas cartas, como as de Boiardo. Se houve uso divinatório antes de Eteilla, é provável que uma carta fosse retirada do maço para conselhos, como a prática de abrir saltérios e bíblias.

Raciocino: quer dizer então que antes de 1770 existia uma prática correlata à "carta do dia"? Curioso. Se as cartas comuns já eram usadas para a adivinhação e se existia o costume de se tirar uma carta do Tarot como conselho, será mesmo que o Tarot não teria sido usado para adivinhação, mesmo que de forma não-sistematizada, antes de 1780?

Erika me responde que em 1519 existe o registro de um "ritual mágico" que Rolando - de Orlando Furioso - teria feito com cartas de baralho comuns para descobrir os inimigos de Carlos Magno. E no século XV, um livro alemão oracular que acompanhava as cartas comuns. Em 1540 sabe-se de um método de divinação usando só as cartas de moedas.

Eu e Erika concordamos que seria possível que as cartas de Tarot fossem utilizadas ainda antes de Eteilla. Mas como não há provas, considera-se que só após 1780 as cartas teriam sido realmente deitadas com intuito divinatório. Esperemos as novas descobertas.

Enquanto isso não acontece, é bom levar em consideração que uma obra de ficção, apesar do imperativo da verossimilhança, é uma obra de ficção. E a beleza do filme Violino Vermelho, na minha opinião, supera suas possíveis gafes.




Zoe de Camaris

psiu: se você quer conferir as informações, verifique os seguintes endereços

3 de março de 2007

TAROT E CINEMA (3)




O Violino Vermelho


Magia, Amor, Paixão, Arte, Imortalidade - temas que o filme O Violino Vermelho aborda com maestria, organizados através do sistema imagético mais bem articulado da humanidade: o Tarot.

Não sei quem forneceu consultoria - não consta dos créditos. Revirei a rede sem sucesso, nenhum tarólogo ligado à produção do filme. De qualquer forma, sendo o resultado de estudo e sensibilidade dos roteiristas, ou fruto de um trabalho especializado, é inegável que os arcanos maiores do Tarot foram utilizados com graça e pontualidade. Não se perderam no labirinto, na miríade de possibilidades interpretativas característica do sistema. Arriscaria dizer que é a primeira vez que o Tarot é tão bem aproveitado no cinema. Não raro, sua presença é estereotipada, de acordo com parte do senso comum. Em O Violino Vermelho é feito jus ao biscoito fino – o Tarot reencontra toda a sua versátil potência, o seu mistério e poder de sugestão nas mãos de Cesca, uma cozinheira do século XVII (1681).

Antes de entrar nas relações entre o Tarot e o filme, algumas questões:

Cesca ocupa na história o papel de Grã-Sacerdotisa, arcano II do Tarot. Sabedora das ervas, talismãs e feitiços, deita o Tarot para Anna, esposa do mestre luthier Nicolo Bussoti. Anna está grávida e, embora não demonstre a vitalidade típica do arcano III, encarna a figura da Imperatriz. A primeira cena em Cremona (Itália) mostra o encontro entre estas duas mulheres na cozinha. Cesca vem chegando da horta, enquanto Anna acaricia sua barriga e canta. A relação de reconhecimento e respeito é estabelecida imediatamente: Anna pergunta se poderia estar ali, já que a cozinha é parte de sua casa, ao que Cesca responde afirmativamente. Os limites e as diferenças entre a Sacerdotisa e a Imperatriz são resguardados. Cesca tem seu santuário, seu laboratório alquímico, enquanto Anna impera no resto da casa. E é este encontro entre as duas que irá delinear o transcorrer da trama.

Cesca impede que a Senhora coma o peixe que está sobre a mesa, dizendo que isso causará no seu filho lentidão na aprendizagem e lhe oferece amuletos sobre os quais ela e o marido deveriam cuspir. A força mágica da saliva é conhecida por bruxas e curandeiras. A energia incorreta é retirada do objeto. Sabe-se que, antigamente, uma cuspida de um superior ou um sábio era muito bem vista, os demônios sairiam da pessoa em questão. Toda secreção humana era tratada com muito respeito e sempre coberta ou enterrada – havia (e ainda há) a crença de que cabelos, unhas, saliva podem ser usadas por algum inimigo para prejudicar seu vizinho. No caso que o filme apresenta, Anna e seu marido deveriam cuspir sobre os amuletos para impregná-los com a sua força. É bom lembrar que um destes amuletos é uma chave - para facilitar a expulsão do bebê? Provavelmente. Todos os cuidados eram tomados em uma época em que o parto era um fator de alta mortalidade. No entanto, parece que o destino é mais forte e se faz valer. Contra ele, não há orações e nem amuletos realmente eficazes. O simbolismo da chave é forte e vastíssimo - uma das imagens do baralho de Madame Lenormand: abrir o que está fechado, iniciar processos e desvendar mistérios.

Anna pergunta a Cesca se ela ainda lê a sorte e pede que o faça para seu filho, ainda na barriga. Cesca diz que não, já que os humores da criança estavam misturados aos da mãe. Mas diz que lerá para Anna o seu futuro, desconsiderando o fato de que a mãe também teria seus humores ligados ao da criança.

Enquanto isso, Nicolo Bussoti faz seu melhor violino para oferecer ao primogênito que, cumprindo as expectativas do pai, seria um grande musicista.

O violino, verdadeiro protagonista da história, é que tem seu destino deslindado na sorte de Cesca. No objeto que se torna mágico, estarão misturados os humores da mãe e da criança e mais tarde saberemos a razão. Como não sou estraga-prazeres, peço aos que ainda não viram o filme que parem a leitura aqui e voltem depois de assistirem O Violino Vermelho.

A Senhora tem medo em saber o que o destino lhe reserva ao que Cesca responde: “É apenas o futuro”. Estende magnificamente seu baralho sobre a mesa tosca da cozinha, ao lado de seus amuletos, pedras, ossos e chaves, e pede que Anna tire 5 cartas. A Senhora questiona Cesca: -“E se o futuro for ruim?" Cesca diz então que “fingirá que que não viu”.

Aqui entramos em uma questão polêmica e que evoca uma discussão interminável sobre o destino e o livre-arbítrio, sobre o Tarot adivinhatório e o Tarot auto-reflexivo. Penso que estas formas de abordagem convivem e que só devemos “separá-las” no intuito de estudá-las, ou talvez, para delimitar posturas. As coisas acontecem, obviamente, ao mesmo tempo. Tendo-se em conta o abuso de charlatões em leituras de Tarot, que além de dizer asneiras ainda exploravam (exploram!) monetariamente suas vítimas, criou-se na contemporaneidade o que eu chamo de uma “ditadura do livre-arbítrio”. As coisas ficam sem graça, assim. Tudo é "holístico" e alternativo demais. Auto-reflexivo demais. Até parece que destino não faz parte do jogo como faz parte da vida. Há situações que podem ser modificadas, outras não. O Tarot não é apenas o “Espelho da Alma”, mas também o indicador de um futuro possível. Ora, não é preciso ser adivinho para perceber em alguém que se senta à sua frente para uma leitura, qual é a disposição interna para promover mudanças. O Tarot alerta, mas nem sempre é escutado.

Na minha prática a opto muitas vezes pelo uso da linguagem figurada para que a inserção criativa do consulente possa se estabelecer, para que ele possa compreender, à luz de suas experiências, as respostas do Tarot. Mas há coisas que não se explicam em se tratando de oráculos. Cesca lê o destino do violino. Cesca conta o filme através de suas cartas. E o que parece ser incompreensível no destino de uma mulher grávida, casada com um mestre luthier na Itália do século 18, passa a fazer todo sentido.
Se Gerd Zigler (sim, eu sei que isso é um anacronismo) deitasse as cartas para Anna Bussoti, o filme seria muito chato. A arte depende de máquinas do tempo.

Penso que não devemos, no papel de tarólogos, discutir com o Tarot. O consulente não nos procura para saber a nossa"opinião". Podemos sim entabular uma gentil conversação que sempre estará marcada pela configuração apresentada pelas cartas. É uma questão de honestidade ideológica respeitar e transmitir aquilo que o Tarot fala com a maior dose de isenção possível, dando espaço para que o processo intuitivo da leitura se estabeleça. O consulente não está à procura de um psicólogo quando busca o Tarot. Se ele deseja ou necessita de um psicólogo, um analista, irá atrás dele. O que não equivale a dizer que não seja de extrema valia para um tarólogo a sabedoria em lidar com o outro, qualidade que o estudo da Psicologia poderá (ou não) conferir àquele que se dispõe a ler as cartas. Sabemos que as cartomantes do passado e mesmo do presente representam este papel na vida de algumas pessoas. Mas estamos falando de Tarot e não de Psicologia.


Voltemos ao Violino.


A LUA - Cremona (Itália)
A História de Anna Bussotti

"Terá uma vida longa, cheia, rica... e eu vejo uma viagem. Vejo uma longa viagem”. Assim começa a predição de Cesca. A cena em que Anna e Nicolo estão na janela olhando para lua, converge simbolicamente ao arcano XVIII. A Lua no Tarot fala sobre uma viagem da Alma. Um caminho escuro e enevoado onde os limites estão borrados. Uma passagem difícil - perigosa, inclusive. Um enigma, um desafio. Anna pergunta ao marido se ele tem ciúmes da sua relação com a lua ao que o marido responde que não, que sabe que ela, Anna, sempre voltará para ele. A imagem lunar voltará a aparecer em diversos momentos cruciais do filme.

Mas Anna Bussoti não volta para Nicolo. Perde a criança no parto e falece. Há quatro personagens no quarto: O padre, o médico, a parteira e o astrólogo. E Cesca, a bruxa-cozinheira. Nada, nem ninguém, é mais forte que o destino. A predição de Cesca – que falou sobre vida longa - parece, num primeiro momento, não fazer nenhum sentido.

Há uma relação entre a lua e o sangue - as lágrimas da Lua que observamos no Arcano XVIII. Sangue que reencontramos nos panos que estão pelo quarto, onde Anna dá à luz. A Lua, no Tarot, suga a energia, ao invés de promovê-la.


O ENFORCADO - Vienna (Áustria)
A História de Kaspar Weiss

Diz Cesca: “Há uma maldição sobre a senhora. Perigo para quem ceder ao seu encanto. E muitos cederão... muitos. É uma carta poderosa: O Enforcado. Vejo perigo... enfermidade... doença... Lamento senhora, não sei que doença. Há muitos tipos de doença”.

O tempo transcorre, cinco gerações. O Violino Vermelho passa pelas mãos de diversas crianças em um orfanato. A última é um virtuose, menino delicado e com o coração frágil. É levado para Vienna por um tutor que percebe seu inato talento. Quer transformá-lo em um violinista de sucesso. O menino não fala francês - a língua da música - só o alemão. O tutor só se exprime em francês, forçando para que Kaspar entenda a nova língua. Esse é o primeiro sacrifício de Kaspar Weiss.
Apresenta ao pupilo um metrônomo, marcador de ritmo que oscila no compasso das batidas do coração. O tutor aumenta o ritmo e pede ao menino que acompanhe o metrônomo, tocando o violino no máximo de sua rapidez. Assim a execução se tornará perfeita. Kaspar tem uma apresentação marcada, uma audição para um nobre. Se for aprovado, poderá começar sua carreira de violinista. O tutor, apesar de amoroso, é rígido, principalmente quando descobre que a criança dorme com o violino. E esconde o instrumento, no intuito de preservá-lo. Culminando a série de sacrifícios e superações, a criança não suporta a falta do violino e tem um ataque cardíaco. Mas se recupera. O violino volta para sua cama e o tutor aventa a possibilidade de que Kaspar não se apresente na audição. Nesse momento, o menino responde, pela primeira vez em francês, que irá se apresentar sim e que fará um grande sucesso. Supera suas dificuldades. Frente ao nobre, e correndo o risco de perder novamente seu tão ambicionado violino, a pressão é muito grande e ele tem um segundo ataque. O instrumento é mais do que um objeto transacional, é seu único amigo. Exerce uma força mágica sobre o garoto. Desta vez, Kapar Weiss não resiste, cai morto como um beija-flor. E é enterrado com o seu violino.

Perfeita a ligação da história com os significados do arcano XII, O Enforcado. Imagem de superação e sacrifício, de aceitação e também dificuldade na lida com pressões sociais. O Arcano XII pode indicar um processo iniciático, uma prova difícil, e também a submissão a ideais superiores. Há um ideal utópico no Enforcado. A criança se sacrifica pela música e pelo desejo do tutor, que o pressiona. O Enforcado também denota fragilidade física e possibilidade de doenças, aquelas que Cesca prediz.

O túmulo do menino é saqueado por ciganos. A vida do violino continua de acampamento em acampamento, atravessando mares e países, até chegar aos Estados Unidos.


O DIABO - Oxford (EUA)
A História de Frederik Pope

Diz Cesca: “E vejo depois uma época para a vida, para a luxúria e a energia livre do outro lado das montanhas, no mar... no tempo”. Sei que é confuso, Senhora, mas vejo isso e não me engano. A sua alma é como a de Lázaro. (...) Depois entrará na sua vida um homem, um homem bonito, inteligente, que seduzirá a senhora com seu talento e com coisas piores. Em resumo: O Diabo”.

Num bosque, um homem ruivo vestindo uma longa capa é atraído pelo som do violino. Há um acampamento em festa e o instrumento está sendo tocado por uma jovem cigana.

Ele é o dono do território ocupado pelo povo nômade. E troca a estadia do grupo em suas terras pela posse do Violino Vermelho.

Seu nome é Frederik Pope, um violinista que tem uma curiosa forma de compor. Cria ao fazer sexo com sua mulher. Em seguida, frente a uma platéia absorta, apresenta o violino novo e sua nova composição, em frenesi. Faz amor, agora, com o instrumento. Algumas pessoas dizem ser capazes de compor sem envolver o empenho da alma. Outros, não a conhecem. Mas os grandes músicos mostram, em sua expressão comovida e absorta, que há algo maior ali.

Victoria Byrd, sua esposa, é escritora. A ligação entre o casal não só sexual, mas também intelectual. Música letra e dança sempre deram bons casamentos. No entanto, o violonista não respeita os momentos de concentração criativa de Victoria, interrompendo-a. Ele quer amá-la e tocar o violino ao mesmo tempo. Percebendo que se ficasse ali, não conseguiria mais escrever (o que é compreensível mas completamente insano), Victoria vai para a União Soviética, em busca de um norte para seu novo livro. Inicia-se aí uma intensa correspondência entre o casal, até que ele, atormentado pela saudade e usando ópio, resolve parar de escrever. E também não abre mais as cartas que recebe. Começa a cair em letargia. Ela se dá conta da situação e volta. Mas quando chega, o encontra com outra mulher na cama, a cigana que tocava o violino. Desesperada, xingando-o de selvagem, depravado, grosseiro e cruel, acusando-o de estar usando uma musa qualquer, aponta uma arma para ele, depois para a cigana. Mas ninguém era culpado de coisa nenhuma. E ela atira no violino. Pope, arrependido e abandonado, escreve para Victoria, comunicando que irá se matar. E deixa para a esposa todos os seus bens.

O Diabo nos fala de riqueza, talento, paixão, depravação, sexo, luxúria, frenesi, emoções fora de controle, poder criativo, obsessão, confusão, virilidade. De amor por tudo que embriaga, entorpece. De magnetismo e magia.

E tudo isso tem a ver com o violino, instrumento que apareceu na Itália em meados do século XVI e alcançou sua popularidade em XVII. O violino desenvolveu a reputação de uma ferramenta mágica por causa do arco fálico que evoca os sons de um instrumento curvilíneo. Uma metáfora para o ato de criação que combina o masculino e o feminino. Seu valor simbólico não pode ser desvinculado das tradições musicais dos judeus europeus e dos romenos. Não era só um instrumento musical, mas trazia consigo a alma, a essência dessas culturas. Nas lápides e tetos de sinagogas encontram-se desenhos de violinos que trazem motivos astrológicos. As cordas foram usadas como amuletos pelos romenos, enrolados em torno do pulso ao invés do laço vermelho. Era indispensável na magia romântica e nos casamentos. O violino parece servir ao Amor.

E desde então a mítica cristã creditou ao instrumento um caráter diabólico, personagem de uma trama folclórica complexa. Quando é tocado, a comunicação imediata com o Diabo se estabelece.

Uma das profissões do Diabo é a de professor de violino e os mestres violinistas eram acusados de obter sua sabedoria através do demônio. Aulas particulares eram ministradas em encruzilhadas. Uma superstição européia é a de que quando se dança ao som de um violinista desconhecido, a alma está em perigo. Conta-se que uma linda jovem, inocente e solteira, encontrou um grupo de mulheres dançando em torno de um homem que tocava violino. Vestia-se com uma longa capa preta e era belíssimo. A garota junta-se ao grupo e descobre no final da dança que havia sido iniciada como bruxa sem saber e num process incontornável. O Diabo toca para que as bruxas possam dançar. E nós dançamos.

O personagem Pope em O Violino Vermelho, faz eco à mítica de Niccolò Paganini (o compositor genovês também empresta seu primeiro nome ao marido de Anna, Nicolo Bussoti). O Diabo teria concedido ao músico a desenvoltura e habilidade que o levou à fama. Paganini tornou-se conhecido como o Morcego da Bruxa (Hexensohn) por causa do pretenso pacto com o Diabo. Ao invés de refutar os rumores, Paganini os alimentava, cada vez mais famoso. Chegava aos concertos em uma carruagem puxada por cavalos negros e vestido com uma negra capa. Demorava para entrar em cena e quando chegava, uivava. Uma de suas composições mais conhecidas se chama Strega (bruxa, em italiano, como bem sabem). Uma vez, Paganini foi forçado a publicar cartas de sua mãe para provar que tinha os pais humanos. As cordas do seu violino teriam sido feitas com os cabelos de Satã. O pacto não teria terminado na hora de sua morte, já que se negou a receber a extrema-unção. Seu corpo não foi enterrado em solo sagrado e permaneceu durante cinco anos em um porão, até que, através de uma petição, a família conseguiu que fosse enterrado.

As lendas que relacionam os intrumentos de corda aos pactos demoníacos tiveram continuidade através do gênio de Robert Johnson, o famoso bluesman americano. Quem não se lembra do famoso duelo de Steve Vai e Ry Cooder no filme A Encruzilhada (Crossroads, 1986) com a versão para guitarra de Caprice 5#, - sim, ele de novo - de Paganini? Coisas do canhoto, Kokomo ou Stradivarius. E já que não posso dizer pra ele nem uma palavra ... Kind Hearted Woman Blues é uma boa forma de tergisversar.

A violinista americana Rachel Barton explorou a mítica e as associações literárias entre as bruxas, o diabo e o violino em seu CD Instruments of the Devil, de2003. Ainda não consegui escutar.


A JUSTIÇA - Shangai (China)
A História de Xiang Pei

Diz Cesca: “Haverá um processo, um grande processo diante de um juiz poderoso e a senhora será a culpada. Cuidado. Cuidado com a cor do fogo”.

O criado de Pope, um chinês, atravessa o mar em direção a sua terra natal. Quando olha através da escotilha (que lembra a lua cheia), levanta-se e vai pegar o violino que agora lhe pertence. Chegando a Shangai, vende o violino a uma loja de antiguidades. O tempo passa. Um dia, uma mulher se interessa pelo instrumento e o dá de presente à filha pequena.

É interessante notar que ao confeccionar seu instrumento, Nicolo incrusta um rubi na cabeça do braço do violino, gema que é retirada pelo dono da loja de antiguidades. E o rubi, que agora falta no violino, é da cor do fogo, do sangue e do regime maoísta.

O tribunal a que a leitura de Tarot se refere é encarnado por partidários de Mao julgando um professor de música que ousa ensinar a música estrangeira, fruto da cultura capitalista. Há a interferência de uma moça integrante do partido, Xiang Pei, que habilmente evita que o professor precise parar de lecionar, mas que não pode impedir que seu violino não seja queimado. De novo, a cor vermelha, o fogo – a fogueira onde arde o violino.

Xiang Pei vai para casa e quebra seus discos de música ocidental. Reconhecemos nela, neste momento, a menina chinesa que ganhou o Violino Vermelho de sua mãe, ainda na época imperialista. Ela pega com carinho no seu violino. Nesse momento, seu filho pequeno entra na sala. Pedindo segredo para a criança, toca o Violino Vermelho. A criança, em sua inocência, comenta com o pai (que está num comício esperando por Xiang Pei), que ele e mãe têm um segredo. Junto com outros companheiros de partido, o pai invade a própria casa. A mulher não está mais lá. Foi procurar o velho professor, que depois de muito hesitar, com medo, aceita guardar o Violino Vermelho e protegê-lo.

A Justiça é no Tarot é tudo que o Diabo não é. Na Justiça reina a ordem, a economia, o radicalismo em nome da lei, de uma verdade socialmente aceita. Fala da responsabilidade, da inocência e da culpa. De divisão. Em seu melhor vestido, a Justiça é a harmonia entre forças opostas. A moral, que ela defende, é vista como uma função da alma humana. Trata da lealdade àquilo que foi eleito como uma verdade maior, mesmo que do âmbito pessoal – é quando o sentimento preside o ato de julgar. No entanto, a Justiça no filme aparece como uma força severa, inflexível. O fanatismo e a violência da Revolução cultural de Mao Tse-Tung. É a Justiça favorável a uma ideologia. Isso pode ser explicado pela presença da Lua, O Diabo e a Morte (invertida). A Justiça está mal aspectada.

A MORTE (invertida) – Montreal (Canadá)
A História de Moritz

Quando Cesca tira a última carta, a Senhora se impressiona vivamente. Mas Cesca diz que, por esta se mostrar invertida, pode representar uma boa notícia: “Sinto o ar soprando velozmente sobre a senhora... transportando-a... um vento furioso e mais nada. A sua viagem terminará sem dúvida... eu vejo isso. De uma maneira ou outra, suas viagens terminarão. Aqui também há um erro, como sempre. Mas a senhora... está forte agora... forte como uma árvore na floresta. A senhora não está sozinha. Um mar de rostos de pessoas amigas, inimigas, de amantes... A senhora levará consigo muitos admiradores que lutarão para possuí-la.. E dinheiro! Muito! Não, senhora. Não tenha medo. Nesta carta eu vejo... vejo um renascimento”.

Agora estamos na atualidade, em Montreal. Mortiz, um especialista em violinos vindo de Nova Iorque, chega à cidade para avaliar um lote vindo da China. Quando vê o Violino Vermelho desconfia que seja o famoso instrumento confeccionado por Nicolo Bussoti em 1681. Manda fazer testes diversos com o instrumento, tendo a ajuda de um restaurador, e guarda segredo da sua desconfiança. Compra uma cópia do violino feita por Pope para compará-los e espera o resultado dos testes. O restaurador diz que nunca viu uma máquina tão perfeita, no que Moritz concorda, dizendo que é o casamento perfeito entre a arte e a ciência.

Agora voltamos à oficina de Bussotti e ao desfecho do filme. Nicolo Bussoti leva o corpo da mulher falecida para seu atelier e o deita sobre a mesa. Corta os cabelos de Anna e faz o pincel do violino. Tira seu sangue e mistura com o verniz e os outros preparados. Pinta o violino de vermelho.

A equipe da casa de leilões Duval descobre que o Violino Vermelho é “O Violino Vermelho” e Moritz confirma. Diz não ter avisado antes porque desejava assegurar-se da verdade. Moritz já estava tomado pela magia do violino e pelo mistério de Anna. E disposto a conhecer sua história. Recebe os exames que confirmam que a pintura do violino contém sangue.

No leilão encontram-se um representante da fundação Pope e o filho de Xiang Pei. Padres da mesma ordem do antigo orfanato alemão fazem contato com a casa Duval pelo telefone. A peça é arrematada por um regente ambicioso pela quantia de dois milhões e quatrocentos mil dólares. Mas o instrumento arrematado é a cópia, pois, nesse ínterim, Moritz conseguiu trocar o verdadeiro pelo falso. E vai embora com o verdadeiro. Telefona para mulher e depois, conversando com a filha, avisa-lhe que vai ganhar um presente.

Assim o violino cumpre sua sina e volta para as mãos de uma criança. O ciclo recomeça. Passou pelas mãos de um menino, de um homem, de uma mulher. As cartas da corte.

Se tomarmos como verdade que o Tarot desempenhava função oracular, ainda mais dentro do contexto de época apresentado pelo filme, a Morte dignificada teria sido interpretada como uma morte física. Não é hoje outra a razão que faz com que diversas pessoas tenham medo da carta e, por extensão, medo do Tarot. Cesca lê a Morte vinda mal-dignificada, invertida. O que poderia significar que é possível fugir da Morte, de alguma forma. Alcançar a Imortalidade na Arte.

Anna Bussoti não foge à morte física. Perpetua-se ao dividir-se em humores: a genialidade de Nicolo, a alma de seu filho e ao fluxo de seu sangue - tudo tornado Música.

Cesca, a vidente, acerta sua predição.



Zoe de Camaris

_________________________

Ficha Técnica e
Soundtrack


BIBLIOGRAFIA:

ILLES, Judika. The Element Encyclopedia of Witchcraft. London: HarperElement, 2005.

26 de fevereiro de 2007

Encontro para a Nova Consciência


carangueja forever no ferro de engomar


Nem sempre o blog, com seu destino confessional, retrata o estado de espírito de quem posta. Por exemplo, o poema de Plath, aí embaixo, não tem nada a ver com nada - é só pra cumprir o que tinha começado a fazer antes de viajar. Tédio, nem em sonho - nem na vida onírica descansei. Há tempos que não me divertia tanto. E trabalhando.

Escrever sobre o que foi o XVI Encontro para a Nova Consciência é uma tarefa hercúlea para quem ainda está imersa nos encantos do Nordeste - então, não nem vou tentar. Tá tudo muito a flor da pele - os amigos, os novos colegas, a profusão de cores, os livrinhos de cordel, D. Marinete do Fiteiro, cafés que despencam fervendo sobre vestidos, o indefectível arquétipo da kombi rondando, a rede cor-de-folha, um vento de inocência, sol com chuvas e noites com sol, paisagens rendadas em cobre e azul da janela do avião - lembranças que ficarão marcadas como as incrições na pedra de Ingá.

Gente de todos os jeitos e todas as cores. Gente de turbante na cabeça, de saia cigana, de túnica branca, de terno comportado, de cabelo voador, de colares surpreendentes, de canto curioso. Uma festa de planetas, cartas de tarot, florais, xamãs, rezadeiras, áfricas, telões, música, literatura e, como não poderia deixar de ser, uns malucos de deus querendo atrapalhar. Bem, foi o décimo-sexto encontro, tinha que rolar uns raios senão a coisa não se cumpria. A Casa de Deus ou a Torre Abatida pelo Raio. Um Encontro de libertações. O raio de sol petrificado no meio da praça não foi deixado em paz.

Depois de Campina Grande, cidade ícone do São João, rumei para Natal com dois colegas. Sim, eu deveria ter ido então para a Ilha de Páscoa mas resolvi deixar quieto porque já era muita festividade pra minha cabeça. Que sonho de cidade é Natal! Que paraíso é o recanto da Sônia! A cor do mar me alucinou. Alfinetes de pedras negras cravadas na areia rosada. A lua crescendo soltinha no céu.

Em 10 dias, vivi mais de mil emoções diferentes. Fortes, delicadas, hilárias, líricas, intensas. Entusiasmo é mesmo estar repleta de deuses. E a gente só pode mesmo é ficar grata pela existência. E pelos amigos que encontra no caminho.


Zoe de Camaris


da esquerda para direita: Alexsander Lepletier, Arhan,
Zoe, Nei Naiff, Vera Chrystina e Giancarlo Schmit.

Tédio


Fantastical Tarot


Folhas de chá, frustrando anseios de desastre,
Propõem futuros nos quais nada ocorrerá:
malgrado a palma de sua mão e seu bocejo,
Nem a cigana vê perigo ainda a vencer.
Estéril toda ameaça, o cavaleiro ingênuo
não sabe de dragões e acha ogres obsoletos,
enquanto, hoje blasées, princesas consideram
ridículo enfrentar terrores em torneios.

Feras, no bosque de Henry James, não surgirão,
pondo a carreira vã do herói em crise; e quando
anjos tranqüilos soprem a divina trompa
a um público entediado e, enfim, talvez sequioso
de horror – pedir, premiar não farão sair, pela
porta enfadonha da ruína, a dama ou o tigre.


Sílvia Plath
Tradução de Nelson Ascher
(poema inédito - o original em inglês está aqui)

Celtic Dragon/Quatro de Copas

14 de fevereiro de 2007

SYMPATHY FOR DEVIL


Alleged Tarot

É sempre quando você menos espera. Tá tudo muito bom, tá tudo muito bem, e você lá, lépida, bonita, feliz, espirituosa. Se arriscar, faz até sol. Ele é o pai da alegria e seu artifício mais hábil, nas palavras de Baudelaire, é fazer de conta que não existe. Armadilha armada, arapuca disfarçada. Seduz você com a beleza, puxa de mansinho. E claro, você está entre amigos. Amigos. Imagine se não fossem amigos. E bem sabe, ora, que a inocência... quem é assim tão inocente frente ao pai das aparências? Ele gargalha empunhando o gás hilariante e você sorri junto - vai, vai rindo. Divertidíssimo.




Engata a primeira no tranco, a segunda, a terceira desliza e quando se dá conta, está a mil por hora. Percebe que tem algo errado. Esboça uma reação. Mas aí é tarde demais, princesa, você já não tem como lutar porque depôs as armas faz tempo. E continua sorrindo e sorrindo e sorrindo. E roda e roda e roda... até cair.




Se, além disso, ele simpatizar muito com você (independente de quanto você simpatize com ele, embora o costume é que seja recíproco), espere pelo pior na hora em que acordar. Você pode escutar histórias inacreditáveis. E mergulhar com força no lado escuro da lua. Eu tenho certeza que no limbo (ou seria no purgatório?), todos se sacodem com Pink Floyd. I Hate Pink Floyd diz Johnny Rotten. Me too. O inferno é uma jaca gigante e a essas alturas, você já enfiou os pés pelas mãos.




A iconografia é clara: O Diabo age nas suas costas. Você não o vê. Parece que há um momento só de lucidez, como se ele dissesse: - Você pode, mas agora não quer mais escapar. E aí, é você que faz de conta que ele não está lá. Está presa por sua única e exclusiva vontade. Seus amigos sorriem de novo, mais pra lá do que pra cá. As iscas, as de sempre - ele nem se dá ao luxo da originalidade. Sexo, drogas e rock'n roll. Para alguns, o dinheiro também funciona.


Xul Solar Tarot

Só há uma forma de escapar. A memória. Memória que ele também apaga. Você conhece o lado escuro da rua, baby? Se ao menos lá no Érebo tocasse Lou Reed... Mas já faz tempo, tanto tempo... como é mesmo a cara do lobo mau? Você esqueceu o profile do predador? Então não foi tão mal assim, não é mesmo? Ainda se recorda das noites que não acabam nunca, do silêncio que aterroriza? Da vergonha do espelho, dos pensamentos obsessivos, da culpa que bate insistente a campainha, pior que revendedora da Avon? Do alarme disparando? Do balanço das folhas? Esqueceu da insônia? Do cocô do cavalo do bandido perdido no Arizona? Hum, doçura, então você não viveu. Porque não se lembra.

O quê? Vai atirar a primeira pedra, leitor? Cuidado: pode ser um bumerangue.


Psychotic Tarot

Talvez exista uma segunda forma de escapar. A intuição. Aquela leve nota de enxofre que pode ser capturada na profusão da lança- perfume. É hora de afastar. Se afaste. Encosto tem até na maionese, dizem. Tinha maionese onde você esteve, Pepe Legal? Ah, então tá tudo explicado...

Taí. É Carnaval, seu reinado. Fique ligado. Porque não é qualquer um que pode brincar em paz. Espero de coração, que você seja um deles. Eu, por minha vez, vou trabalhar. Com um olho nas costas.

Zoe de Camaris

p.s.: presentinho de um cara que entendia do riscado:



Ao Leitor


A tolice, o pecado, o logro, a mesquinhez
Habitam nosso corpo e o espírito viciam,
E adoráveis remorsos sempre nos saciam,
Como o mendigo exibe a sua sordidez.

Fiéis ao pecado, a contrição nos amordaça;
Impomos alto preço à infâmia confessada,
E alegres retornamos à lodosa estrada,
Na ilusão de que o pranto as nódoas nos desfaça.

Na almofada do mal é Satã Trismegisto
Quem docemente nosso espírito consola,
E o metal puro da vontade estão se evoca
Por obra deste sábio que age sem ser visto.

É o diabo que nos move e até nos manuseia!
Em tudo que repugna, uma jóia encontramos;
Dia após dia, para o Inferno caminhamos,
Sem medo algum, dentro da treva que nauseia.

Assim como um voraz devasso beija e suga
O seio murcho que lhe oferta uma vadia,
Furtamos ao acaso uma carícia esguia
Para espremê-la qual laranja que se enruga.

Espesso, a fervilhar, qual um milhão de helmintos,
Em nosso crânio um povo de demônios cresce,
E, ao respirarmos, aos pulmões a morte desce,
Rio invisível, com lamentos indistintos.

Se o veneno, a paixão, o estupro, a punhalada
Não bordaram ainda com desenhos finos
A trama vã de nossos míseros destinos,
É que nossa alma arriscou pouco ou quase nada.

Em meio às hienas, às serpentes, aos chacais,
Aos símios, escorpiões, abutres e panteras,
Aos monstros ululantes e às viscosas feras,
No lodaçal de nossos vício ancestrais,

Um há mais feio, mais iníquo, mais imundo!
Sem grandes gestos ou sequer lançar um grito,
Da Terra, por prazer, faria um só detrito
E num bocejo imenso engoliria o mundo;

É o Tédio! - O olhar esquivo à mínima emoção,
Com patíbulos sonha, ao cachimbo agarrado.
Tu o conheces, leitor, ao monstro delicado
- Hipócrita leitor, meu igual, meu irmão.


Charles Baudelaire
tradução de Ivan Junqueira e Jamil Haddad

8 de fevereiro de 2007

As Núpcias Falhas


Fernanda Guedes

Catarina comia bife a cavalo, eu comia bife a pé. Catarina andava de bicicleta, eu andava a pé. Catarina dispunha de um enorme armário onde arrumava todos os seus pertences, eu dispunha de uma cômoda anã. Catarina depilava a axila com uma lâmina gilete, eu fazia a barba no salão Veneza. Catarina torcia pelo Botafogo, eu não torcia por clube nenhum. Catarina era Tom Mix, eu era Greta Garbo. Catarina tinha um amigo sobressalente, eu não tinha amiga sobressalente nenhuma. Catarina babava-se por doce de leite, eu, por compota de caju. Catarina gostava de farda, eu gostava de short. Catarina jogava tênis, eu jogava bilboquê. Catarina sonhava tecnicolor, eu sonhava em preto e branco.

·

Depois de onze meses de agridoce convivência, persuadidos da diversidade de nossos gostos e temperamentos, ajudados por uma cartomante resolvemos destruir o noivado. Consolei-me pensando no caso de Kierkegaard que, embora por outros motivos, resolveu também destruir o seu.


Murilo MendesPoliedro (1972)

20 de janeiro de 2007

MAIS UM TOQUE DE PERFUME



Acabei relendo O Perfume. O livro caiu em minhas mãos no dia seguinte à postagem anterior. Eu estava aqui angustiada com a minha conclusão. Será mesmo O Enamorado o arquétipo central do filme, como afirmei? Qual é afinal o papel do Amor no romance de Patrick Suskind? E fui buscar justificativas para minha impressão, já que vivo contra-argumentando comigo mesma. E como ninguém discordou...

Antes, alguns comentários. Sim, o filme é uma boa adaptação do livro. A crítica que diz que seria impossível passar para as telas sensações olfativas através de imagens é um disparate. Se assim fosse, a literatura também não o conseguiria. Diz Suskind: "... a rigor não havia sequer coisas no universo interior de Grenouille, mas apenas odores de coisas (por isso falar desse universo como uma paisagem é um façon de parler, certamente um modo adequado e o único possível, pois nossa linguagem não serve para descrever o mundo olfativo)". Se o diretor Tom Tykwer conseguiu o intento, se foi tão hábil nas imagens quanto foi Suskind ao traduzir aromas em linguagem, aí é uma outra questão.



O ator inglês, Ben Whishaw, que não corresponde às características físicas da personagem do romance, é um colírio para os olhos. Antes assim. Mantém a desumana indiferença de Grenouille em uma pontual interpretação e seu olhar dá todas as coordenadas. Antes ele que Johnny Deep, que roubaria todas as atenções.



Mas vamos ao que interessa. Grenouille é abandonado à morte pela mãe no meio do lixo. Ao invés de amor, ser envolvido pelos braços e abraços maternos, o que ele tem é o mau cheiro e as escamas dos peixes - e essa é sua referência de contato. A mãe, depois de um desmaio, não se lembra que deu à luz. E aí começa a saga de insignificância do protagonista, que o leva a desejar ser amado mais do que qualquer outra coisa. Diz Suskind que Grenouille sobrevive porque diz um não ao amor e um sim à vida.

Mas qual é o desejo que faz com que Grenouille mantenha a vida?

É isso que dorme no fundo da sua vontade de poder, vingar-se da continuada rejeição. Apropriar-se do aroma do amor, vindo do corpo (da alma?) de jovens mulheres. Aquelas poucas pessoas que poderiam inspirar o amor e que todos achavam que era um efeito da aparência. Grenouille sabia que a embriaguez vinha através perfume. Ali estava a beleza, a verdadeira beleza. Mas ele mesmo não tinha nenhuma beleza, assim como era incapaz de sentir amor. Ele não tem cheiro. Não tem em si aquilo que tanto busca. A sua referência de amor, algo vago e etéreo, é o aroma.

No fim da história, quando se questiona sobre o momento em que é tomado de frenesi no encontro com a primeira ruiva, mesmo assim sabe que seu único desejo é arrancar o aroma da moça. Não, não era amor o que ele havia sentido. No entanto, seria a sensação mais próxima ao amor que sentiria em toda sua vida.

O Enamorado está presente no romance in absentia, fluido como um perfume. Perpassa o livro do começo ao fim. Grenouille busca sintetizar o amor em um frasco. E consegue seu intento. Sabe que tem o poder para enganar a todos – reis, papas, imperadores. Mas também sabe que isso é falso, que a verdadeira motivação, a razão do desejo que poderiam sentir por ele, permaneceria sempre em segredo. Que ele jamais seria amado pelo que era. Poderia insuflar o desejo, que tomaria o lugar do verdadeiro amor como num passe de mágica. Um filtro de amor, como em Tristão e Isolda.

Parece-me uma metáfora perfeita para o enamoramento. O outro tem algo indizível, algo que sustém sua imagem num lugar cativo do coração e nada explica diretamente o desejo. Não se sabe dizer se é a voz da pessoa que nos encanta. Se é a cor dos cabelos, o corpo, a inteligência. Se são atributos visíveis ou invisíveis. Resume-se dizendo que é um conjunto, um conjunto daquilo que não é reconhecido em si e que é visto e desejado no outro. Uma projeção de sentidos.

Daí que saber do que se trata o "verdadeiro amor" é função de uma sensibilidade hercúlea e não raro, tarefa inglória. Parece que estamos fadados, como Grenouille, a padecer da flecha de Eros eternamente sem saber direito o que nos toma. Um doce engano, volátil como um perfume.

Mantenho minha opinião. É o Amor, esse nosso desconhecido e que, no entanto, move o mundo, o tema principal da história. Alguém discorda?


Zoe de Camaris

15 de janeiro de 2007

TAROT E CINEMA (2)





O Perfume

Domingo fui à pré-estréia do filme "O Perfume", aqui em Curitiba. Só soube que o romance homônimo de Patrick Suskind havia sido filmado porque li um artigo comentando a já famosa cena da orgia – realmente apoteótica.

E lembrei na mesma hora da época em que li O Perfume. Aliás, li duas vezes. Simplesmente genial. Gostaria de tê-lo em mãos agora, mas aí esse artigo não ia sair é nunca. Então, vou me ater ao filme.

O olfato é o sentido que bate nas nossas áreas mais primitivas, no tal do sistema límbico. Uma loucura. Quem tem olfato apurado sabe bem o que é isso. Cenas inteiras brotam com intensidade total quando um cheiro se repete, ao acaso. Os sentidos ficam todos seduzidos perante o poder do olfato. Chega a tontear (escrevi sobre isso uma vez, quem quiser ler, está aqui. E tem um poema do Rumi que cabe certinho).

Eu curti a película. Se faz jus ao romance, é uma outra questão. O Cinema dificilmente passa a perna na Literatura. Edgar Allan Poe nunca se deu bem nas telas, por exemplo. O único filme que superou um livro, em minha opinião, foi A Insustentável leveza do ser. Drácula, do Copolla, também não fica atrás. Ou a versão de Orson Welles para Macbeth. Então, deixemos pra lá a crítica, que tá descendo a lenha no filme.

Fiquei fazendo o de sempre, lendo tarot no cinema. Mas dessa vez não vou caprichar, estou com preguiça e com pressa. Se você não tiver lido o livro e nem visto o filme, corre o sério risco de não entender nada. Aí vai o site oficial para dar uma força e a direção de duas resenhas.



Grenouille é abandonado pela mãe na Paris do século XVII - uma nojeira, Paris naquele tempo. Sua mãe limpa peixes e é no meio deles que deixa o recém nascido para morrer. É adotado por uma mulher que explora crianças e é quase assassinado por sufocamento pelos adoráveis monstrinhos ainda no berço. As crianças percebem logo de cara que existe algo errado com ele.





Então, Jean-Baptiste Grenouille, o sapo, nasce com referências fortes: o abandono pela mãe, os cheiros fortes e o sufocamento. Sua vida segue rente a esses 3 acontecimentos. E montam as recorrências e decorrências. É um cara tosco. O que é apurado mesmo, a inenarráveis proporções, é seu olfato.

Grenouille é o Mago. Sua maior inspiração, o perfume de jovens mulheres. Imperatrizes, com aromas que superam as flores. Parece que virgens ruivas ganham disparado no quesito "perfume natural". Pelo menos para o nosso protagonista.

O desejo aparece na sua vida quando fareja a primeira ruiva. Seu aroma evoca algo que Grenouille irá perseguir obsessivamente. Extrair o perfume de tudo. De todas as coisas do mundo, porque todas cheiram. A menina grita quando vê que o rapaz está atrás dela, completamente fascinado pelo seu cheiro. E é morta sufocada enquanto passa um casal de namorados.



Taí o Enamorado, arcano VI. Primeiro, por causa da sensação de enamoramento pela qual Grenouille é tomado. O aroma da beleza. Segundo, por que é ali que ele decide e sela seu destino.

E é também a primeira morte (arcano XIII) provocada intencionalmente. Sim, cabe a questão: e se ela não tivesse gritado? Mas aí entramos no perigoso território do "como seria se fosse".

O rapaz consegue ir trabalhar para um perfumista famoso, Baldini, depois de passar sua adolescência praticamente como escravo de um curtume. Com Baldini está o laboratório da Temperança, todas as possibilidades de alquimia. Ele aprende com o mestre as questões técnicas. Mas sobre cheiros, ninguém sabe tanto quanto o próprio rapaz.



Grenouille tem também a estranha capacidade de esterminar tudo que deixa pra trás. Sempre que alguém sai de perto dele ou ele sai de perto de alguém, a pessoa morre. Baldini não é exceção. A casa cai literalmente sobre o homem que dormia quando Grenouille vai embora. O perfumista estava orgulhoso e feliz. Com a ajuda do rapaz havia recuperado o renome. A Torre cai sobre a cabeça do Papa, o Mestre, em um desmoranamento.

É quando Grenouille se retira para uma montanha, no melhor estilo Eremita. Em profunda meditação e sossego, percebe que ele mesmo não tem cheiro. Inodoro, aquele que poderia vir a ser o melhor de todos os perfumistas – essa é a grande ironia. Depois de tempo suficiente para a barba crescer (no livro, são 7 anos), segue o seu caminho. E chega em uma nova cidade, Grasse, a Meca dos aromas. Vai para conhecer a técnica da enflourage, processo que seu mestre não havia sabido ensinar e que poderia facilitar o seu objetivo.

Em Grasse, fareja uma outra ruiva que, protegida pelo pai (O Imperador), não será uma presa fácil. Sabendo que precisa, para criar um perfume, de uma paleta com 13 essências, começa a matar as mulheres da região. Sendo inodoro, consegue se aproximar com facilidade das suas vítimas, não deixando qualquer tipo de rastro.



A primeira é uma prostituta que está sempre com seu cachorrinho (A Força, óbvio). O mesmo cachorro que irá revelar no decorrer da trama que ele é o assassino, desencavando as roupas e cabelos das mulheres assassinadas. Depois de passar banha pelo corpo da mulher e envolvê-la em tecidos por tempo suficiente para que a alma do perfume se solte do corpo, retira com uma pequena foice negra (instrumento da Morte) a matéria desejada.



Depura e extrai das mulheres o seu perfume. Depois, é feita a essência e colocada em um vidrinho. E ele precisa de mais 12 mulheres. O Mago começa a perseguir os instrumentos necessários para a magia final.

E a cidade passa a caçar o monstro, o demônio que está assassinando as belas moças. O que Grenouille persegue é a alma da beleza. A beleza sublime de uma essência, impregnada de amor.

Com bastante afinco, busca sua última vítima enquanto o tribunal da cidade entra em pânico. A Justiça é insuficiente. Mata a última ruivinha quase que sob os olhos do pai. A décima-terceira essência.



Quando termina sua mistura fatal - o perfume mais poderoso de todos, a mescla equilibrada de 13 aromas, gerando um décimo-quarto (A Temperança, figura da perfeita alquimia) o perfume com a qual será capaz de dominar o mundo, é pego e vai para a prisão. Lá é torturado de cabeça para baixo. De Mago a Enforcado. Enforcado que está presente desde o começo do filme, na sua vida tão sacrificada. Sofrimentos que, no entanto, ele supera e reforçam sua obsessão.



Um imenso público aguarda a execução. Grenouille, com uma gota do seu perfume demoníaco, acaba com os guardas e veste as roupas de um nobre. Sobe ao patíbulo para ser crucificado. O carrasco cai de joelhos frente a ele. O carrasco, o bispo (o representante do Papa) e todos que estão presentes. O que mais resiste é O Imperador, pai da última moça. Ele só sucumbe quando chega muito próximo ao assassino e aí então, rendido, lhe chama de filho, de anjo, pedindo perdão.

À medida que é aplaudido e ovacionado por todos, tomados por um transe absoluto, encantados com o aroma, o rapaz faz o gesto mágico extremo. O Mago, o anjo, em ação no Juízo Final. O confronto. Mais perfume evola-se no ar e a multidão começa a tirar a roupa e fazer amor. Grenouille atingiu algo próximo ao Amor Universal, o Mundo. Uma dança de amor coletivo (que no livro, é bem mais punk que no filme...)



E vai embora. Mas no caminho descobre que ele nunca sentiria o que é o Amor. Que da mesma forma que ele mesmo não tinha cheiro algum, o amor jamais entraria em seu coração. Procura o lugar onde nasceu, derrama o perfume sobre si mesmo e é trucidado por mendigos.

Eu diria que é um filme em que O Mago, O Eremita, O Enforcado, A Morte, A Temperança, O Diabo, O Julgamento e O Mundo, vencem todos os outros arcanos. E mais uma vez O Enamorado é a carta central. Invertida?

O Amor é sempre maior do que a Morte.
Assim como o perfume.


Zoe de Camaris

31 de dezembro de 2006

A Força


potnia therion (creta)

Depois dos rituais coletivos de Ano Novo, desejo que A Feiticeira propicie a todos nós uma conversa com a natureza de nossos leões, panteras, serpentes e pássaros internos, através da compreensão do magnetismo e do sentido de dignidade.

Que haja carinho, inteligência, coragem, soberania, vitalidade e muita motivação na hora da Domadora abrir a jaula.

Às nossas feras, um perfeito 2007.


Zoe

17 de dezembro de 2006

SETE MIL VIDAS




"A tarefa não é a sua individuação, mas a individuação do anjo" 
- Corbin



Sete ‘Mil Vezes’ de Copas. A lâmina chama muita atenção, principalmente no baralho Waite-Smith.

Um homem de costas com roupas negras olha para sete taças envolvidas em nuvens acinzentadas. De dentro delas, um castelo, uma serpente, um dragão, jóias, uma coroa de louros, o rosto de um anjo e uma imagem fantasmática com o rosto coberto. A Musa, a Virgem.  É uma imagem de sonho, talvez de pesadelo, se observarmos as mãos negras da figura que admira impactada o conteúdo das taças. 


São diversas as opções, inúmeras as possibilidades. É quase impossível dividir um círculo em 7 partes. Um desafio coordenar a ordem do ternário, mental ou espiritual, em harmonia com a ordem do quaternário, terrena (3+4=7). Netzah

Então o 7 de copas é chamado de O Senhor do Êxito Ilusório. Ou, a “Vitória da Mulher”, o que é bem curioso. O predomínio da Anima. De Maia, a ilusão. Uma imagem venusiana, netuniana, lunar. 

Via Úmida. Ordem da Grã Sacerdotisa. 

Se relacionarmos a numeração das cartas menores com os arcanos maiores, chegamos ao Carro. O condutor precisa saber usar as rédeas do invisível, senão a carroça desembesta. O Carro é corpo do Condutor. Quem o dirige é o espírito atuante.


No entanto,  me parece estranho que esta carta tenha um significado considerado “difícil”, mesmo quando bem dignificada. Diz Waite: “Belos favores, imagens de reflexão, sentimento, imaginação, coisas vistas no espelho da contemplação; algumas consecuções nesses graus, mas nada é sugerido de permanente ou substancial”. Perfeito. Mas praticamente todas as interpretações posteriores parecem fixar-se na última parte da reflexão de Edward Waite.

O surgimento do 7 de copas numa leitura é interpretado como um indício da diversidade de opções. De alternativas ilusórias. Enganos. Excesso de expectativas. Do possível uso de alteradores de consciência, intoxicação. Mesmo que o número 7 signifique vitória, controle. O Poder Mágico em toda sua força, a Teurgia (atuar sobre os deuses). A dominação da matéria pelo espírito. E a matéria é considerada feminina, no que concordo. Mas sempre negativada? É claro que inverter a ordem dos fatores não dá certo. Porque esta carta não fala do domínio da matéria sobre o espírito. Mas de uma forma aquática e aérea, portanto, da ALMA, agindo sobre a matéria.

A alma rege a orquestração. A sua e a do mundo.
E alma tem o corpo de uma mulher.




“Perigo, Will Robinson, perigo!” – diz o robô. Perdidos no Espaço. Compreendo perfeitamente, ainda mais depois que Aleister Crowley denominou como “Deboche” o 7 de copas, melando (literalmente) a imagem logo de saída. Vênus em Escorpião. Plutão na jogada.

Contudo, entretanto, todavia.... Será que não deveríamos observar esta carta sob uma perspectiva menos positivista? Perdido no espaço, o robô conceitua: "Positivismo é o sistema criado por Augusto Comte (1798-1857) que se propões a ordenar as ciências experimentais consideradas o modelo por excelência do conhecimento humano, em detrimento do que seriam especulações, como a Metafísica ou a Teologia".

Lembremo-nos que muitas das interpretações fixadas com relação ao Tarot são do século XIX, começo do XX. E que os magistas desta época, queiram ou não, são signatários do discurso cientificista. Quem sabe, no intuito de “validar” o Tarot tenham sido bastante racionalistas ao interpretar as imagens. Os comentadores que se seguiram pouco acrescentam aos significados dados a esta carta numa perspectiva menos comprometida.

Há que se ler Gaston Bachelard (o noturno),  James Hillman, As Estruturas Antropológicas do Imaginário, obra prima de Gilbert Durand. E para entrar mesmo no mundo da imaginação e do devaneio, só mesmo com os poetas. Deixar a imaginação colorir todas as asas, mesmo aquilo que não voa. Renomear o mundo. Intoxicar-se de música. Caminhar sem destino, observar sem conclusões. A imaginação é um território de suprema liberdade do espírito.

Para compreender o Tarot talvez seja uma boa saída esquecer os manuais de interpretação.




São 7 as Maravilhas do Mundo, os anões da Branca de Neve. Sete os portais de Tebas, 7 léguas para as botas. Sete mares nunca d'ante navegados, 7 chacras, 7 dias da semana. Sete cabeças da Hidra de Lerna. São quatorze (são infinitas) as portas do labirinto de Asterión, em Borges. Mise em abysme. Tudo existe muitas vezes no plano da imaginação. Imagine, diz John Lennon.

E se a realidade, a realidade “ordinária” é complexa - simular idealmente a estabilidade não seria a real fantasia? Até que ponto o conselho: “coloque os pés no chão e dedique-se a reflexões fundamentadas” faz sentido? E se estivermos frente a uma pessoa enredada nas malhas cruéis da realidade e que não consegue ver na sua frente nada além de compromissos, cobranças, expectativas internas e alheias? Não seria este o momento de recriar seu mundo? E como recriá-lo sem soltar as rédeas que entre muitas voltas nos levam sempre pelas mesmas estradas e que acabam em becos sem saída?



O Tarot é uma arte da “imaginação”. É através das imagens e do poder de desvincular-se da realidade ordinária que se torna possível iluminar conflitos.

Sim, é uma arte paradoxal.

O plano racional é comunicado por palavras. O inconsciente comunica-se por imagens. E se as imagens não podem emergir, como reconhecer a verdade do inconsciente?

E que é a “verdade” em tempos de panvirtualismo?

Convém definir, diferenciar, a palavra imaginação da palavra fantasia. Diz Rachel Pollack, citando o poeta S.T. Coleridge, que ambas as noções afastam a mente das percepções comuns. A imaginação nos levaria a uma percepção da verdade subjacente vinda do inconsciente enquanto a fantasia produziria imagens mentais que podem excitar, mas às quais faltaria um significado real, pois procederiam do ego.

Pollack debruça-se aqui sobre o Príncipe de Copas, aquele que olha para uma taça vazia, ou seja, para si mesmo. Ao falar do seu companheiro Pajem, aponta que este vê um peixinho saindo de sua taça. E que ali sim a imaginação estaria no seu devido lugar. A infantilidade, a inocência do Pajem justificaria um tempo em que a fantasia e a contemplação seriam adequadas.




Embora goste da diferenciação de Coleridge, me dou ao desplante de discordar de Pollack quando relaciona a imaginação e a fantasia à imaturidade.

A imaginação sempre foi considerada “a louca da casa”, disso sabem os franceses. É uma palavra vilipendiada. É vero que a imaginação excessiva e/ou a perda dos limites pode levar alguém à loucura. Mais isso é hipostasiar um dos pratos da balança. Pesar a mão. Pensemos na justa medida. O excesso de imaginação nos enlouquece, nos torna inadequados socialmente, dificulta o discernimento. Torna-se delírio. A falta de imaginação nos faz parvos, secos, tolhidos de graça e matizes.

É bom não esquecer, como nos diz Neil Gaiman, que o primeiro nome de Delirium é Deleite - ainda na infância dos Perpétuos.



É impossível lançar as cartas e ser razoavelmente bem sucedido sem o poder de imaginar, sem se colocar aberto às infinitas possibilidades do 7 de copas. E não é seu título, a Imaginação?

“Cair na real” nem sempre é uma boa.



Agora vou para minha varanda deitar na rede rosa-choque entre as flores, numa bela tarde de domingo, depois de uma semana punk. E olhar para o céu, namorar o vento, chamar todos os meus amiguinhos imaginários e fazer uma festa daquelas. Se Sorte sorrir pra mim, aparece um beija-flor.

Mas aí já é Desejo.



Zoe de Camaris

Sete mil vezes




Sete mil vezes
Eu tornaria a viver assim
Sempre contigo
Transando sobre as estrelas
Sempre cantando a música doce
Que o amor pedir para eu cantar
Noite feliz
Todas as coisas tão belas





Sete mil vezes
E em cada uma outra vez querer
Sete mil outras
Em progressão infinita
Quando uma hora grande e bonita assim
Quer se multiplicar
Quer habitar
Todos os canto do ser





Quarto crescente para sempre
Um constante quando
Eternamente o presente você me dando
Sete mil vidas
Sete milhões e ainda um pouco mais
É o que desejo e o que deseja esta noite
Noite de calma e vento
Momento de prece e de carnavais
Noite de amor
Noite de fogo e de paz



Caetano Veloso

3 de dezembro de 2006

Sobre Profecias (APOLLINAIRE)




Conheço umas profetisas por aí
Madame Salmajour aprendeu na Oceania a arte da taromancia
Foi lá também que teve a chance de participar
De uma deliciosa cena de antropofagia
Claro que ela não espalhou pra todo mundo
Mas sobre o futuro nunca errava uma

Uma cartomante ceterana* Margarida etcetera e tal
É talentosa também
Mas já Madame Delroy é mais inspirada
Mais precisa
Tudo que disse sobre meu passado era verdade e o que ela
Predisse no tempo aconteceu no tempo que indicou
Conheço um sciomântico* mas não queria que interrogasse minha sombra
Conheço um adivinhador de água o pintor norueguês Diriks
Espelho quebrado banho de sal migalhas de pão
Que esses deuses sem figura sempre me poupem
E ao mesmo tempo não acredito mas olho e reparo
Acho que leio mãos muito bem
Pois não acredito mas mesmo assim reparo e escuto e olho

Todo mundo é profeta caro amigo André Billy
Mas por tanto tempo as pessoas foram levadas a crer
Que não tinham futuro e ficariam pra sempre ignorantes
E idiotas de nascença
Que eles acabam se resignando e nunca mais ninguém se lembra
De especular sobre se ele conhece ou não o futuro
Não tem nada de religioso nisso

Nem nas superstições nem nas profecias
Nem em nada que as pessoas chamam de ocultismo
O que existe acima de tudo é um jeito de observar a natureza
De interpretar a natureza
Que é completamente legítimo



Guillaume Apollinaire
Tradução: Rodrigo Garcia Lopes



* Nascida em Céter, (nos Pirineus orientais). De Ceretani, "antigo povo da Espanha, da Terraconaise, ao pé dos Pirineus".
* Forma primitiva de necromacia, relativo à adivinhação através de comunicação com as sombras (espíritos) dos mortos; também relacionado com a evocação de reflexos astrais para adivinhar eventos futuros.