28 de maio de 2006

O ENIGMA




Numa certa vez incerta, um cidadão que por pura coincidência se chamava Édipo foi consultar o Oráculo, que por pura coincidência era o de Delfos.

Aí, por pura coincidência, o cidadão Édipo chegou para uma muito sedutora pitonisa que vivia por lá e perguntou: “Qual é a resposta do Enigma?”

E a pitonisa, muito sedutora: “É uma face imaginária enquadrada numa circunferência.”

Então Édipo percebeu que não sabia qual era a pergunta do Enigma.

E assim tudo ficou por isso mesmo.


Ivan Santana

18 de maio de 2006

"Recuerdos" do Tarot em Frida Kahlo II


Suzanne Mir / colagem

Por ter encontrado praticamente todos os arcanos de um "tarot em Frida", fiquei pensando como apresentá-los. Por um momento, imaginei a ordem cronológica - me pautar pela sua biografia, mas a idéia não me satisfez. Ordenar numericamente as imagens segundo a estrutura do tarot, tão pouco. Acabei optando por mostrá-los segundo o que tenho a dizer, afinal, a bibliografia que tenho aqui disponível não é farta como gostaria. Num segundo momento, reedito tudo, de outra forma. E vou parar de pedir a Frida que me oriente - no último post os livros começaram a cair no chão, as portas a bater sozinhas... :)

Começo pelo arcano IV, Os Amantes, passando pelo Diabo, o 10 de espadas, O Mago e finalizo com O Mundo.

A obra de Frida não pode ser separada do seu relacionamento com Diego Riviera. Quando o filme "Frida" foi lançado, um dos comentários era de que o filme se detinha mais na relação entre os dois do que na trajetória da artista. Bem, não é possível esquecer que estamos frente a um produto de mídia norte-americano e que histórias de amor dão mais ibope que documentários. E que a vida e a obra de Frida estão fundidas intimamente.


salma hayek e alfred molina in "Frida" (2002)

Outro dado que registrei ainda antes de assistir ao filme, foi uma conversa entre amigos que se referia ao quanto Diego Riviera teria feito Frida sofrer. Discutimos semelhanças com as histórias de Silvia Plath e Ted Hughes e também de Rodin e Camile Claudel. É fato que Diego Riviera era um mulherengo compulsivo. Mas também é fato o amor intenso, obcecado, que Frida nutria por ele. Seus quadros o demonstram largamente. Não é possível esquecer da seguinte frase de Frida, sob o impacto da separação: ''Acho que é melhor nos separarmos e eu ir tocar minha música em outro lugar com todos os meus preconceitos burgueses de fidelidade''. É fácil extrair deste dito que, para a comunista atuante, uma mulher que chocou a moralidade do seu tempo, a fidelidade (ao menos em tese), era um procedimento anacrônico, descontextualizado do meio sócio-cultural em que vivia. Há uma cena em que os amantes fazem um pacto. Diego diz a Frida que não lhe seria fiel. Ela pede então ao futuro marido, lealdade, sinceridade. Estes acertos são fundadores e marcam um relacionamento, seja entre quem for, enquanto dure. Um sempre irá lembrar ao outro o que foi combinado num clima de cumplicidade. Imagino o quanto deve ter sido contraditório para a canceriana Frida, de tenaz forte, aceitar as escapadas de Diego. Mas trato é trato, pacto de confiança.


"Frida Kahlo e Diego Riviera" (1931)

Escrever as analogias imagéticas do arcano VI com a obra de Frida, é desnecessário porque óbvio. Mas para quem acha as imagens do Tarot demasiadamente fortes ... Frida Kahlo, nesse sentido dá de dez no Tarot. É verdade que o delicado trabalho de Pamela Smith, na imagem abaixo, é o mais leve que conheço. Mesmo a sombra da dúvida que paira no Enamorado do tarot de Marselha, aqui não se retrata.


the lovers / waite tarot

Mas a paixão, o traço obsessivo que pode ou não permear uma relação de amor, é sua sombra: O Diabo. As correntes são fortes, o par não reconhece seu algoz. O anjo negro se esconde, funciona nas coxias. O sexo desenfreado, a bebida, a impulsividade e a confusão são elementos do arcano XV - número este que reduzido, segundo a prática numerológica, daria o 6, a carta dos Amantes.


the devil / waite tarot

Não li as cartas apaixonadas que Frida escreveu para Diego (publicadas pela José Olympio) em que poderia extrair mais informações. Sei apenas que não deve ter sido um relacionamento fácil (existe?) – ela gostava muito de tequila, era uma mulher passional e transou com diversas amigas. Brigas deviam ser comuns. Nitroglicerina pura.


"Diego en mi pensamiento" (1943)

Frida viu Diego pela primeira vez em 1922. Em 1928, levou suas obras para que ele as apreciasse, ocasião em que se tornaram amigos. Em 1929 estavam casados e participando ativamente da vida cultural mexicana.

Em 1935, nos Estados Unidos, Diego tem um caso com a irmã de Frida, Cristina, que posara para o artista. O golpe foi violento, uma dupla traição. Um dos quadros que retratam esse momento conturbado de Frida, e de natureza bastante apelativa, é “Unos quantos piquetitos”. Baseando-se em uma notícia de jornal, Frida transcreve a imagem de uma mulher morta pelo marido ciumento. O assassino, justificando-se perante a polícia, teria dito: “mas foram apenas alguns golpes!”


"Uns quantos golpes" (1935)

O quadro me lembrou imediatamente a imagem e o significado de um arcano menor, o 10 de espadas, que representa uma figura deitada, cravada por dez espadas no tarot Waite e similares. Apesar da interpretação tradicional não aludir à uma morte violenta, fala de traição - que era o momento de Frida, apunhalada pelas costas. A carta refere-se ao desamparo, à razão divorciada da realidade (que parece ter a ver com a observação feita pelo marido ciumento, ao justificar-se), à ruína. Rachel Pollack, estudiosa do tarot, ao interpretar esta carta, diz que basta uma única espada para matar alguém. E que seu significado se prenderia mais a uma atitude histérica, que teria sua voz na seguinte frase: “ninguém sofreu tanto como eu, minha vida acabou”. E parece que este era exatamente o recado que Frida queria passar para Diego.

Optei pelo tarot New Vision, que mostra o que estaria acontecendo do lado contrário da carta, e que introduz a imagem da morte e mostra a face da figura caída, ao exemplo do quadro de Frida. Morte: o marido com a faca na mão e o pássaro negro. As cores das duas imagens também combinam: o cinza do rodapé do quadro com as nuvens escuras do arcano menor; uma nesga de céu claro, amarelado, dialogando com o chão pintado de amarelo.


10 of swords / new vision

Depois da decepção, Frida viaja, afasta-se de Diego, dedica-se com vigor ao partido comunista, tem vários casos amorosos. Seu romance com Leon Trotski rendeu assunto. Nessa época, Frida conhece André Breton, contato importantíssimo na sua carreira e que lhe levará mais tarde a Paris, na sua primeira grande exposição em terras estrangeiras. Apesar do afastamento que ocorreu entre Frida e Diego, eles continuam casados. Em Nova Iorque, Frida tem uma relação bastante apaixonada com o fotógrafo Nickolas Murray. Depois de terminado o romance, Nickolas lhe escreve: “Eu sabia que NY só te tinha satisfeito enquanto substituto temporário e espero que encontres o teu refúgio intacto quando regressares. De nós os três só estavam lá vocês os dois. Sempre senti isso. As tuas lágrimas diziam-me quando ouvias a voz dele. O meu eu está eternamente grato a ti pela felicidade que a tua metade me deu tão generosamente”.

Ela continuava completamente apaixonada pelo “seu” Diego, Murray percebeu. Mas como Frida não havia se recuperado da traição que descumpria o trato de lealdade, e também por insistência de Diego, que achava que assim ela se dedicaria mais à sua obra e seria mais feliz, dão entrada no divórcio. Os papéis ficam prontos no final de 1939 e eles se separam. Frida começa a beber muito, ao mesmo tempo em que mergulha de cabeça no seu trabalho. É desta época seu quadro "Auto Retrato com Cabelo Cortado". Não queria mais sobreviver com o dinheiro de Diego. Abdica de seus atributos femininos e dos seus trajes tehuna, vestindo um terno tão maior do que ela que poderia ter saído do guarda-roupa de Diego. Ironicamente, pinta na parte de cima do quadro um verso de uma canção mexicana: "Olha, se te amei foi pelo teu cabelo; agora que está careca, já não te amo". Frida retrata-se com uma tesoura nas mãos e os cabelos caídos no chão parecem estar vivos, enroscados na cadeira.


"Autorretrato com pelo cortado" (1940)

A imagem evoca o Mago no tarot, arcano que fala do princípio masculino e da criatividade. O instrumento da "magia", a tesoura; as três pernas da cadeira, assim como a mesa no arcano I; a letra de música como a inspiração vinda do alto. A partir de deste quadro, Frida cria uma série de auto-retratos bastante semelhantes entre si, diferenciando apenas os adereços. "Manipula vários elementos para expressar temperamentos diferentes que, ao mesmo tempo, escondem a natureza de uma produção em massa, para ser vendida", segundo Andrea Kettenmann. O Mago é um comerciante nato e organiza seus objetos sobre a mesa para poder iludir e extrair alguma vantagem.


le bateleur / camoin e jodorowski

A saúde de Frida piora consideravelmente depois da separação. Em dezembro de 1940, Diego a pede em casamento novamente, declarando: “A nossa separação estava tendo um efeito prejudicial sobre nós dois”. Casam-se novamente. Mas ela coloca duas exigências: que se sustentaria com o seu próprio trabalho e que não teriam mais relações sexuais. Diego diz que ficou tão feliz com a concordância de Frida em reatar que aceitou tudo de muito bom grado. Ficam juntos até a morte de Frida em 1954, poucos meses antes das bodas de prata. Foram 25 anos juntos.

Diego foi o Homem de Frida. Frida, a Mulher de Diego. Uma relação crucial, literalmente. Amor, dúvidas, encanto, beleza, encruzilhadas. Uma ilustração mais do que perfeita para o Arcano VI.

Sim, Diego fez Frida sofrer. O sofrimento de Frida Kahlo também dever ter feito sofrer Diego Riviera. Se por um lado, Diego foi abandonado pela mãe e criado por diversas mulheres a partir de então - o que explicaria sua falta de confiança num amor único - Frida era atormentada por um grande vazio somado às suas inúmeras dificuldades físicas, às suas diversas cirurgias e abortos. Este foi um encontro de duas personalidades marcantes, extraordinárias. E um amor que apesar dos obstáculos, sobreviveu. Com Diego, Frida pôde compartilhar alegrias e dores, amantes e decepções. Foram parceiros e amigos, seus interesses eram comuns.


El abrazo del amor de El Universo, la tierra (Mexico), Yo, Diego y el señor Xólotl

Ele não a amava, então? Relações intensas são condenáveis? Por quem? Por quê? O correto é o que satisfaz as expectativas da sociedade, da família, os preceitos do “bem viver”? Presumivelmente sim. Mas as relações amorosas desafiam as regras do bom senso. Houve dedicação, coragem.

E o Amor não serve à covardia.

Diego ocupava os pensamentos de Frida, o que se vê em diversos auto-retratos, no “Retrato duplo”, presente de aniversario para o marido em 1944, em que imagem funde o rosto dos amantes, e no “Abraço Amoroso ente o Universo, a Terra (México), Eu, o Diego e o Senhor Xólotl,” de 1949. O cão representa o ser que guarda o reino dos mortos na mitologia pré-hispânica. Dessa forma, Frida reconstrói um novo "além-mundo" para ela, a Lua, e Diego, o Sol, onde estariam unidos para sempre. No último arcano do Tarot - O Mundo, O Universo.


the universe / crowley tarot


Zoe de Camaris
p.s.: mais arcanos “em Frida”, em breve.


Bibliografia: KETTENMANN, Andréa. Frida Kahlo, dor e paixão. Lisboa: Taschen, 2001.

11 de maio de 2006

ANO HUM


Rainha de Paus / Adrian Tarot


Um ano de Zoe Tarot.
Grata a todos que me visitam,
é pra vocês que eu escrevo.

Em breve, supresas no ar.

besos,
Zoe

4 de maio de 2006

"Recuerdos" do Tarot em Frida Kahlo


Quyen Tieu Dinh


Frida é demais. Literalmente "demais". Visceral, exuberante, opulenta, colorida, trágica, escancarada, tosca, sangrenta. Frida Kahlo, uma deusa asteca - Coaticlue. Nada escapa da sua pena de obsidiana, é Vênus grudada em Plutão. Diversa, porque em gêmeos. Exuberante expressando leão, seu signo ascendente. Coragem é uma palavra essencial para compreendê-la. Mas o núcleo de Frida é canceriano. Cativa de uma sina de dor, de sacrifício, de sensibilidade exagerada - lágrimas de pérolas barrocas.

Kahlo é toda adjetivos. E assusta. Todo mundo adora, mas quem penduraria na sala de estar? O entorno precisaria ser muito delicado para suportar uma Frida Kahlo.

Sendo assim tão essencial não é difícil identificar “recurdos” do tarot - este baralho de lembranças fixas - na obra da artista mexicana. A morte, o sacrifício, a transformação, a paixão, a dor, o amor, a dúvida, a força, a religião, são seus motes.

A idéia que procuro desenvolver aqui (de maneira sumária) é de um tarot “em Frida”. Como, de que forma, estas memória ancestrais estão representadas em suas obras. E não uma insistência em meter à ferro e fogo, Frida no Tarot. A artista não precisaria ter conhecido o baralho na França, entre os surrealistas, e nem na sua México Dourada. Ela conta sua própria história em uma linguagem pictórica com léxico e sintaxe próprias. Frida é uma H.Q. viva.

Vou trabalhar de forma aleatória, como deve ser num jogo. Peço à Frida uma dica e ela me mostra A Imperatriz. “The Frames”, um auto-retrato. A primeira obra de uma artista mexicana do século XX adquirida pelo Museu do Louvre. Sua consagração. O retrato e o fundo azul foi pintado sobre folhas de alumínio. A borda, decorada com dois pássaros e flores, é sobreposta em vidro sobre o retrato.


Auto Retrato "The Frame", 1938


O terceiro arcano maior do tarot, A Imperatriz, nos fala sobre A Mãe Terra. A dona da fertilidade, a que traz proventos da natureza. O carinho, a maternidade, o nascimento, a cornucópia, a abundância. A Sensualidade, a Beleza. É Afrodite e Deméter.

Frida procurou compensar, sempre, suas dores físicas e emocionais simbolizando suas dificuldades ou buscando a sua transcendência em imagens. Não pôde ter filhos - foram três abortos, conseqüências do seu trágico acidente na adolescência. O lado negro das Deusas-Mães, Frida conheceu muito bem. Seu desejo de maternidade é uma constante, seja retratando seus sentimentos em relação aos abortos, seja transformando essa sua necessidade em cores, em opulência, na fauna e flora profícua que aparece em auto-retratos e outras obras da artista.


A Imperatriz no Tarot Waite/Smith

A amamentação é um dos atributos da Imperatriz. Relaciono-a também com a Temperança, um estado de conforto da alma, de plenitude e mistura de líquidos, leite e saliva. Frida não foi amamentada por sua mãe - teve uma ama de leite. No filme estrelado por Salma Hayek, a relação de Frida com a mãe é mostrada de forma meio avessa. Parece que sua referência de carinho e de maior contato físico era seu o pai.


my nana y yo o yo mamando, 1937

A Imperatriz está num jardim. É uma Rainha de Ouros, da Terra. Frida tem seu amor pelo México nas veias, o sangue índio e espanhol que herdou de suas de suas raízes maternas. E Imperatriz também representa a alegoria da Caridade. Frida dedicou sua vida ao partido comunista e à imperiosa necessidade de auxiliar aos menos favorecidos. Sua arte, o engajamento político e seu casamento com o muralista Diego Riviera levaram Frida à América do Norte e à Europa, tornando-a uma cosmopolita bastante crítica do primeiro mundo. Frida nunca desceu do trono nem se rendeu aos atrativos de outros países. O México fazia parte de sua alma.

A Imperatriz traz no seu escudo uma águia negra (na versão marselhesa). Frida, não raro, retrata um pássaro negro sobre o seu colo. E se representa entronizada, ao exemplo da Imperatriz. Frida também compartilha outra característica do arcano três, uma sexualidade vívida, intensa. Teve diversos amantes, homens e mulheres. Conhecia a sedução, a feminilidade e seus enfeites. Suas cicatrizes não a impediram de viver seus desejos e quebrar tabus de uma sociedade conservadora.




Vou incomodar Frida de novo e pedir outra imagem. A Morte, tema constante e cativo da cultura pré-colombiana e colonial do século XIX. O Dia dos Mortos no México não é uma ocasião de luto, mas um dia de festa. Esqueletos e máscaras que para nós soam tão assustadores são constantes na arte popular e no cotidiano. A Morte é encarada como um processo de transição para uma outra vida e assim é comemorada, forma como é normalmente intepretado O arcano sem nome no Tarot.
Pensando en la muerte 1943

Na sua cama, no forro do dossel, Frida fez deitar um esqueleto, onde já havia estado um espelho. A Morte era sua companheira constante, um de seus reflexos. Ficar deitada foi uma posição que Frida nunca pôde evitar. O que não a impediu, na sua primeira exposição individual no México, quando se encontrava já muito doente, de transportar-se deitada em sua cama para o espaço da mostra. O ciclo morte-vida era uma certeza de Kahlo.

El sueño o La cama, 1940
A cama de Frida

No Tarot é visto um esqueleto, com sua foice. No chão, cabeças, mãos, um pé, restos humanos. Elementos heteróclitos, soltos, sem aparente conexão estão em diversas obras da artista. Fragmentos. Frida é signatária da arte votiva e religiosa do seu tempo. Os ex-votos, peças de cera ou madeira que simulam partes do corpo e que são colocados pelos fiéis em capelas ou igrejas para agradecer graças alcançadas, frequentemente marcam presença em suas obras. Frida, no filme, pinta borboletas no gesso que envolvia seu tronco. E borboletas são símbolos da transformação. A imagem abaixo é de um colete ortopédico em que Frida retrata sua própria coluna partida, em 1944. Em um outro colete pintado pela artista, vemos a imagem de uma foice e um martelo, símbolos do partido comunista.

Há uma dúvida sobre a morte de Kahlo. Falece dia 13 de julho de 1954, oficialmente, vítima de uma embolia pulmonar. Na noite anterior Frida entregou para seu marido, Diego Riviera, um presente adiantado de bodas de prata. Diz a ele que lhe dava o presente por saber que o deixaria muito em breve. Segundo anotações em seu diário, é sugerido que ela teria acabado com a própria vida - "Espero a partida com alegria ...e espero nunca mais voltar...Frida".
As dores de Frida Kahlo eram atrozes. A amputação de sua perna até a altura do joelho lançou-a em uma terrível depressão. Foram mais de 35 operações, segundo a própria artista. Frida terá sido vencida, afinal?
........
(continua em breve - Frida e Diego Riviera / Os Amantes, arcano VI;
O Suícido de Dorothy Hale / A Torre abatida pelo raio, arcano XVI;
O Abraço amoroso / O Mundo, arcano XXI )


Zoe de Camaris
p.s. em Palavra de Pantera, um poema de Frida para Diego Riviera.

14 de abril de 2006

MEU NOVO SONHO DE CONSUMO:

O TAROT DA DONA DE CASA



Amei a idéia, imagine só: você está varrendo a sala, em pleno processo meditativo - o poder do devaneio de que nos fala Gaston Bachelard - e lá pelas tantas tem uma percepção inusitada. Para confirmar a sacada, corre para a caixinha de "divinação doméstica" e puxa um cartão - Ás de Paus!

É vero, o espanador pode ajudá-la a desmanchar teias de recorrências e lançá-la num novo mundo. Quem pergunta ao pó...



Ou então, A Temperança: A solução está em fazer um cheesecake naquele exato momento e reparar seus sentimentos. Como Água para Chocolate. Genial. Não vou sossegar enquanto esta caixinha não estiver na minha prateleira da cozinha, ao lado do açucareiro. E não estou ganhando royalties, juro ! É paixão de colecionadora. Ou quem sabe assim, possa fazer finalmente algum sucesso na cozinha.



O Tarot é mesmo uma máquina de imaginar. Adoro suas releituras criativas e curiosas, como neste trabalho de Paul Kepple e Jude Buffum. O deck tem sua iconografia no melhor estilo anos 50 - primorosamente irônico, mas contendo percepções pontuais sobre significados pouco explorados na maior parte dos decks tradicionais.

Segundo conta o livreto (ou melhor dizendo, os artigo das tarólogas Sally Ann e Janet Boyer, no Aecletic, já que ainda não o tenho ainda a acalentada caixinha em minhas mãos), o Housewives Tarot foi criado por Marlene Louise Wetherbee, uma dona de casa convencional. Maridão, crianças obedientes (ou nem tanto, se levarmos em conta a lâmina da Justiça) e uma casa impecável. Marlene Louise estava sempre na moda e era uma vitoriosa na cozinha. E como se tal configuração não lhe bastasse, era dotada de uma enorme intuição.

Um dia, no meio de um jogo de bridge com as vizinhas, resolveu divulgar o segredo do seu sucesso, amealhando um séquito de ávidas donas de casa, todas inconformadas com a difícil vida do lar (doce lar). Resultado? Marlene Louise, agora Madame Marlena, abriu seu próprio negócio, ensinando as esposas a nunca errarem uma receita de bolo e a manterem a cozinha sempre arrumada - o que vamos e venhamos, é coisa para Jeanne é um Gênio.




E depois da lida (ou ainda, antes de tudo), a recompensa: O Eremita. No melhor estilo Rainha de Ouros (do Thot Tarot) - aquela que já descascou o abacaxi e agora pode se dar ao luxo de cuidar de si mesma. Afinal, está na hora do marido chegar em casa. E nenhum homem quer encontrar sua mulher de chinelos, não é mesmo? Descer do salto, nunca! Assim dizia Madame Marlena. E parece que dava certo.




Bem, doces amigas do lar, Madame Zoe agora vai trabalhar. Ainda faço parte desta safra de mulheres complicadas que precisam aprender tudo com Madame Marlena.

abraços domésticos,

Zoe de Camaris
p.s.1: Confiram e divirtam-se - http://www.housewivestarot.com/

10 de abril de 2006


Tarot Torat Campaign / 3 of swords


Do meu coração ela fez almofada furadinha de alfinetes.

Dalton Trevisan

4 de abril de 2006

AMOR EM ARCANOS

O Triedro dos Relacionamentos

"... Aonde está você agora /
Além de aqui dentro de mim? "
Renato Russo



O amor é um mistério. Não se sabe de onde vem, nem porque vem. Podemos senti-lo, quase tocá-lo, mas é abstrato. Não há dúvidas que é o motor do mundo, a força que ordena e organiza a vida na Terra. E contra ele não existe magia. Apenas o encantamento. O Amor é o que restabelece a perfeição do nosso estado natural. Une o que está separado. Permeia nossas vidas todos os dias, todas as noites. Não há ser humano que não o conheça - é o que vivifica a vida (com a licença de uma acertada redundância), o que lhe dá sentido. E qual o sentido? Ou melhor, quais os sentidos, quais os caminhos o Amor pode tomar? O Tarot nos dá algumas pistas, alguma orientação.

São três os arcanos: O Enamorado, A Temperança e O Sol, representando três faces ou possibilidades, uma trívia. E todas estas formas de amar se interconectam, são permeáveis a influência umas das outras, atuam em conjunto, por isso o triedro: nada, nesse terreno, pode ser dissecado com o bisturi da lógica. Seccionar só serve para que possamos compreender melhor. E depois de conhecido, é recomendável que tudo seja colocado novamente no caldeirão.

Bem, partimos do principio platônico do andrógino primordial. Como é do conhecimento de todos, no livro "O Banquete" é narrado um mito que conta sobre estranhos seres proto-humanos que possuíam uma forma redonda - quatro pernas, quatro braços e um só corpo. Faziam amor com a Terra e moviam-se em giros. Eram donos de uma tremenda força e resistência, além de uma enorme ambição. Tomados pela arrogância resolveram invadir os céus, despertando a ira de Zeus. O rei dos deuses tomou uma espada e os cortou pelo meio, transformando-os em "metade". Desesperados, sem encontrar paz, buscavam sua outra parte sem descanso e quando a encontravam, fechavam-se em um abraço mortal. Zeus sensibilizou-se com o estado das coisas e mandou passar para frente os órgãos sexuais que se localizavam atrás. Assim, ao menos por um curto momento, as metades poderiam saciar-se num instante de morte, um instante de prazer, a chamada "pequena morte": o orgasmo. Separavam-se novamente e continuavam suas vidas, mesmo que incompletas, até o próximo abraço. E o Amor seria este encontro, o encontro da metade perdida. É a saudade de um "antigo estado", um estado de perfeição que todos nós, de uma maneira ou outra, tentamos recuperar.


E nesse momento, e nessa busca, não é a Eros, fugidio deus do amor, a quem devemos implorar, mas sim ao deformado Hefesto, companheiro de Afrodite e forjador das armas dos deuses que, ao ver-nos unidos no abraço, pode tornar-nos de novo um só:


«Aquilo que ansiais não é uma fusão perfeita de um com o outro, para nunca vos separardes, nem de dia nem de noite? Se for esse o vosso desejo, eu posso fundir-vos e soldar-vos, com o poder do fogo, num mesmo indivíduo, de tal forma que de dois vos transformo num só, de forma a que vivais um para o outro enquanto durar a vossa vida, e que, uma vez mortos, no Hades fiqueis um, ligados os dois numa espécie comum


Então peçamos ao ferreiro divino que nos faça de novo um só. Pois todos sabemos que quando o Amor une duas pessoas, a completude original é recuperada. E aí fica bem mais fácil cada um cuidar de si.


Ok, podemos dizer que estes dois pólos convivem dentro da gente. Yin e Yang, Anima e Animus. E assim é, senão creio que enlouqueceríamos. Algo dentro de nós subsiste gerando maior ou menor conforto, dependendo dos esforços de cada um na busca de Si Mesmo. Mas nada anula a busca do Si Mesmo no Outro.




No Tarot, o primeiro encontro dos amantes está representado no sexto arcano, O Enamorado. É a atração, a sintonia pressentida, o amor "à primeira vista", coup de foundre. O momento da dúvida, de conflitos, e também da eleição. O arrebatamento, a paixão, o desejo que inflama e toma o corpo e os pensamentos. O reconhecimento inicial, a "pesagem" das qualidades e defeitos, as primeiras recusas e aceitações. Os jogos de sedução, a dança do acasalamento. O namoro que pode ou não resultar em um casamento. Aqui se esgota a influência deste arcano, ao menos nos objetivos deste pequeno estudo. É o amor EROS.


A Temperança representa um segundo movimento e é aqui que as uniões se consolidam ou se desmancham. Passada a fase de novidades, representada pelos Enamorados, a Temperança promove os processos de intimidade o distanciamento, os acertos, a "equalização" do relacionamento. É a fusão e amálgama dos líquidos, dos humores. As famosas "concessões", sem as quais nem um relacionamento caminha. É fase em que se ganha confiança no parceiro. A justa medida. É a "realidade" do amor. A relação é "temperada" e caminha para o amor maduro, já não sobre a égide do anjo brincalhão. Manter a chama acesa é o desafio dos parceiros até porque na mistura de elementos díspares, os monstros costumam aparecer na superfície. É a hora dos vínculos acertados, da colaboração, da harmonia. Um processo demorado, uma sutil alquimia que pode ou não chegar ao próximo estágio, O Sol. É o amor PHILOS.



O Sol aparece para os amantes quando a confiança total é estabelecida. É o desfrute, a benção, o mel. Traz em si a Temperança introjetada e o brilho da paixão enamorada do arcano seis. Não há vergonha, mas sim um jardim paradisíaco. É o amor ideal, a idéia de alma gêmea que dispensa os outros estágios. É a certeza do Amor. Poucos relacionamentos chegam até O Sol, superadas as agruras da Temperança. A sorte grande é quando o encontramos num primeiro momento, quando olhamos nos olhos de alguém e o reconhecemos como o parceiro que vínhamos esperando desde sempre. Talvez seja uma idéia extremamente romântica do amor, parece quase impossível. É O Enamorado numa oitava maior, sem as dúvidas paralisantes. A inocência é recuperada, todo o corpo se abraça, envolvendo a alma. Não há medo da repulsa, os gestos são espontâneos. Não há jogos nem armações, não há nada para esconder. Os gêmeos estão nus sob O Sol e também protegidos pelo muro sagrado. É o amor ÁGAPE.



Nestes tempos de "Amor Líquido", como nos diz Zigmunt Bauman, já é raro passar do primeiro para o segundo estágio. As relações estão frouxas, sem consistência. Todos desejam um verdadeiro amor e, nessa busca, desejam estar sempre disponíveis para um próximo amor, que poderia ser o ideal. Projeta-se a felicidade no futuro e se foge das experiências do passado, ou se tenta revivê-las, como se fosse possível. Raramente se chega ao momento da Temperança. E quando acontece, os amantes se separam, entediados, buscando as novidades do arcano seis, ou ainda sonhando com alma gêmea, representada pelo Sol.


Bem, independente da face Eros que estivermos vivendo há algo de atemporal e eterno, uma origem divina no Amor. E uma atração irresistível, um sentido quase inumano no mais humano de todos os sentimentos. Ou será que sou só eu que penso assim?

Zoe de Camaris
p.s.1: agradeço ao querido amigo Mauro Lima por ter escaneado pra mim as cartas do seu belo Tarot Art Nouveau. Caíram como uma luva para este artigo.
p.s.2.: vale a pena dar uma olhada, para complementar o assunto, nos meus artigos aqui neste mesmo blog, neste mesmo cat-canal, sobre O Sol e A Temperança. Comentários, críticas e contribuições serão muitíssimos bem vindos.

1 de março de 2006

Lendo as Entranhas:



Um Rondel


Chamam de acaso, ou sorte, ou chamam de Destino-
As cartas e estrelas que tombam por vontade própria.
O amanhã se manifesta e traz a conta
Para cada beijo e morte, as pequenas e as grandes.
Queres saber o futuro, amor? Então espera:
Responderei tuas impacientes perguntas. Ainda-
Chamam de acaso, ou sorte, ou chamam de Destino,
As cartas e estrelas que tombam por vontade própria.

Irei até ti esta noite, meu bem, quando for tarde,
Não me verás; talvez te arrepies.
Esperarei até que durmas, então tomarei o que é meu.
E será teu futuro numa bandeja.
Chamam de acaso, ou sorte, ou chamam de Destino.

Neil Gaiman
in
"Fumaça e Espelhos – contos e ilusões"
tradução de Cláudio Blanc

p.s.: o rondel de Neil Gaiman sobre os perigos e os prazeres de predizer a sorte foi encomendado e originalmente publicado em uma antologia de histórias sobre a previsão do futuro.

28 de fevereiro de 2006

BACANAL




Quero beber! cantar asneiras
No esto brutal das bebedeiras
Que tudo emborca e faz em caco...
Evoé Baco!

Lá se me parte a alma levada
No torvelim da mascarada.
A gargalhar em doudo assomo...
Evoé Momo!

Lacem-na toda, multicores
As serpentinas dos amores,
Cobras de lívidos venenos...
Evoé Vênus!

Se perguntarem: Que mais queres,
Além de versos e mulheres?...
- Vinhos!... o vinho que é meu fracco!...
Evoé Baco!

O alfanje rútilo da lua,
Por degolar a nuca nua
Que me alucina e que eu não domo!...
Evoé Momo!

A Lira etérea, a grande Lira!...
Por que eu extático desfira
Em seu louvor versos obscenos.
Evoé Vênus!



Manuel Bandeira

23 de fevereiro de 2006

ÁS DE PAUS


Max Ernst

Uma pergunta pra você:

- Depois que o fogo apaga, para onde vai a chama?
........................................................................................
Sabe responder?
???
Bem, aí vai a cola:


"(...) a chama, dentre os objetos do mundo que nos fazem sonhar, é um dos maiores operadores de imagens. Ela nos força a imaginar. Diante dela, desde que se sonha, o que se percebe não é nada, comparado com o que se imagina. Ela traz consigo um valor seu, de metáforas e imagens, nos domínios das mais diversas meditações."
.....................................................................................
Bachelard, A Chama de uma vela, 1989.

18 de fevereiro de 2006

EU LUMINOSO NÃO SOU


Roberto Matta

Eu luminoso não sou. Nem sei que haja
Um poço mais remoto, e habitado
De cegas criaturas, de histórias e assombros.
Se, no fundo poço, que é o mundo
Secreto e intratável das águas interiores,
Uma roda de céu ondulando se alarga,
Digamos que é o mar: como o rápido canto
Ou apenas o eco, desenha no vazio irrespirável
O movimento de asas. O musgo é um silêncio,
E as cobras-d'água dobram rugas no céu,
Enquanto, devagar, as aves se recolhem.

José Saramago

(in PROVAVELMENTE ALEGRIA, Editorial CAMINHO, Lisboa, 1985, 3ª Edição)

p.s.: grata às minhas amigas tarólogas Janaina Leite e Erika Hirs pelo espontâneo auxilío com sugestões, perfeito para uma viajante um tanto atrapalhada. E que brilhe O Sol.

6 de fevereiro de 2006

O ENFORCADO




Pelas raízes do meu cabelo algum deus se apoderou de mim.
Fenvi em seus volts azuis como um profeta do deserto.

As noites caíram longe dos olhos como uma pálpebra de lagarto:
Um mundo de simples dias brancos numa órbita sem sombras.


Silvia Plath
tradução de Ronald Polito e Deisa Chamahum Chaves

16 de janeiro de 2006

O OUTRO LADO




Ao passar pela Real Grandeza
na rota do Túnel Velho
antes do S. João Batista
há uma placa no alto:
O OUTRO LADO.

Além túnel
há uma mestra de Tarot
que me disse um dia
ser O Enforcado
minha carta central.
Será por isso
que sempre que olho para cima
de ponta-cabeça
e tudo é ao revés
qual se eu estivesse
plantado diante do outro lado


Sebastião Uchôa Leite

8 de janeiro de 2006

O ACASO ME COMOVE




Faça os gestos certos,
o destino vai ser teu aliado,
ouço uma voz dizendo
do fundo mais fundo do passado.

Hoje, não faço nada direito,
que é preciso muito mais peito
pra fazer tudo de qualquer jeito.

Ai do acaso,
se não ficar do meu lado.


p. leminski

19 de novembro de 2005

TARÔ E CINEMA ( I )

O Rumor dos Arcanos em “The Village”, de Shyamalan

Todas as terras, nas minhas Visões / Junto co’a minha se encontrarão /
Por nós todos feita, Jerusalém, / Coração no coração e mão na mão.


Jerusalém, A Emanação do Gigante Albion - 1804
William Blake




Prescrições para a manutenção do espaço utópico

1ª Não deixe a cor ruim ser vista: - ela os atrai;
2º Não entre na floresta. É lá que eles vivem;
3º Toque o sino de alerta se eles vierem;
Não leia este artigo se não tiver visto o filme
!


Grande sacada de Mr. Shyamalan (ou da equipe de marketing) : bolar chamadas para induzir o público a não revelar o desfecho do filme que, se desvendado, “perde a graça”. Ou seja, é criada no espectador uma apreensão similar às prescrições que protegem o Vilarejo, impedindo-o, ou querendo impedi-lo, de contar o final. São três leis para os habitantes da Vila e uma lei para o espectador. Não se revela o fim do filme da mesma forma que o segredo do bosque precisa ser mantido - dupla articulação, uma similitude de significados que se associa ao marketing cinematográfico. Perfeito. Perfeito porque funciona.


O Muro

O filme “A Vila” metaforiza fobias do homem moderno. Até aí, nada de novo. Aliás, a surpresa que o diretor nos reserva é de uma obviedade que amedronta - nada está seguro. A inocência agoniza em um caldeirão perpétuo. Ou nos trancamos a sete chaves ou os monstros nos comem. Realidade? Exagero?

Alguns lêem o filme como uma apologia ao puritanismo - uma apreensão ingênua. Outros, como uma crítica ao governo Bush ou um pastiche de “Matrix”. Todas as leituras são válidas, o texto é polissêmico.

Uma das facetas que me salta aos olhos em “The Village” é a criação de uma cidade utópica no passado, já que as cidades “perfeitas” do cinema preferem habitar o futuro (ou um não-tempo). E também a possibilidade de discutir o Amor e a Confiança – questão importantíssima e libertadora e que, em minha opinião, torna o filme instigante.

Quanto ao primeiro item, não é de se estranhar que um filme que trate das utopias na contemporaneidade desloque o lugar ideal, a eutopia, para um passado que corresponde a uma idéia romântica. O futuro visto do presente traz a idéia de um espaço distópico, degradado. Se a questão é a segurança, o passado prometeria maiores certezas ou a ilusão de alguma garantia, mesmo que signifique retrocesso – abrir mão do que é conhecido, principalmente em termos tecnológicos.

O preço da segurança em “The Village” é a perda da liberdade. E é natural da condição humana não aceitar grades, prisões. A não ser que o cativeiro seja a própria ignorância: longe dos olhos, longe do coração - não é o que diz o fabulário sentimental? A ignorância nos destina ao não-exercício da vontade. Optar nem sempre é prazeroso, mas é muito irritante quando esse direito nos é tomado. Nem que a nossa atitude seja como a do pássaro que sempre viveu em cativeiro – ao abrir-se da portinhola, volta-se correndo para o espaço que parece seguro.

Imaginemos então dois círculos: o que separa o vilarejo do bosque e o que separa o bosque da civilização. São dois os muros. O primeiro é um “cercado” que protege a inocência, assim como é dramatizado no arcano XIX, O Sol. Até a cor amarela das capas, tintas e bandeirolas que sinalizam os limites no filme e que reproduzem a cor do Sol contribuem para facilitar a analogia.



Interessante que a idéia de uma proteção circular esteja presente, por exemplo, na organização físico-espacial de diversas tribos indígenas, criando uma fronteira que separa o mundo da cultura do mundo da natureza. É claro que o nativo se sente muito mais à vontade no seu habitat do que nós, os ditos civilizados. Mas ainda assim a natureza o apavora. E o círculo formado pelas tabas o abriga, separando o que é conhecido daquilo que causa medo - tudo aquilo de que não se tem consciência ou que não se quer ver. O Sol em uma tiragem de tarô também pode significar proteção. Um espaço de fruição da inocência.



O segundo círculo/elipse que estaria separando o bosque da civilização é a guirlanda, o têmeno protetor do mundo. No arcano XXI, O Mundo, do Tarô Visconti-Sforza, dois anjos (os gêmeos do Sol) erguem a Jerusalém Celeste envolvida por uma bolha. A Nova Jerusalém do poema de William Blake, mítica cidade mental da liberdade e da paz e que, juntamente com outras materializações literárias sobre cidades utópicas, poderia ter inspirado o Vilarejo de Shyamalam. Os anjos são os guardiões da inocência.


O Amor e a Escolha

A possibilidade de escolha está no eixo do Tarô: o Arcano dos Enamorados, também intitulado de Os Amantes. Pontual que uma imagem relacionada ao Amor trabalhe juntamente com a questão do livre-arbítrio - principalmente no arcano VI do Tarô de Marselha ou conjuntos de lâminas inspirados nele, já que nos decks ingleses a eleição não transparece imageticamente, como se nota nas figuras abaixo:



Tarô de Marselha


Tarô Waite

No palco das relações amorosas sempre está em cheque a opção, o receio de uma seleção equivocada, a medida da confiança e uma prova moral. O êxito ou o fracasso nessa prova é que irá determinar o desenrolar dos acontecimentos.

No filme, observamos um triângulo amoroso: Lucius, Ivy e Noah, relação dinâmica e que irá impulsionar toda a seqüência dos fatos e desenlaces sob a égide do Arcano VI, O Enamorado. Vamos agora conhecer as relações entre os protagonistas e as idéias-força:

Oswald Wirth, um dos mais importantes estudiosos do Tarô, marca o princípio da inteligência individual nas seguintes imagens: O Mago, A Força, O Enforcado e O Louco. Essas lâminas compõem a primeira das tétradas comparativas do Tarô em uma quadrangulação de forças que se esclarece por aproximação e analogia, a saber: O Mago tem a potência e a aptidão para instruir-se em todas as coisas, enquanto A Força, em um estágio plenamente instruído, dedica-se a obras práticas. No Enforcado o rendimento é improdutivo, mesmo que os talentos sejam reconhecidos. Seu pensamento demasiado sublime para fazer-se inteligível. Já O Louco, dono de um intelecto incapaz, não tem meios para compreender o que o rodeia.

Parece claro: Lucius Hunt é O Mago; Ivy Walker, A Força; Noah Percy, O Louco. E todos passam, em momentos diferentes, pela condição do Enforcado.





Lucius é aquele que traz em suas mãos o poder da mudança. Deseja ir buscar remédios para que ninguém mais padeça (como a criança falecida pela qual um pai chora no início do filme). Lucius Hunt é aquele que primeiro desafia o perigo e o único que se habilita a usar de seu potencial em prol da comunidade. É importante lembrar que O Mago faz tudo através de suas mãos e é através delas que Lucius indica o caminho para Ivy. Quando ele a toca, alguma magia se faz e tudo passa a se desencadear de forma vertiginosa. Lucius Hunt, como objetiva seu nome, é a Luz da Caça (o caçador da luz?) Lucius é a luz que ilumina o caminho de Ivy. O Mago existe em potência, não necessariamente em ação. E assim que Lucius fica imobilizado se torna O Enforcado. Quem é age é Ivy, A Força, impulsionada pela confiança, pelo amor e também pelo desespero.

Ivy significa “a videira”, aquela que dá a vida. A semelhança com “Eva” é nítida, ou seja, mulher primeva que inicia algo novo. Ivy é a cega que enxerga. A que confia cegamente. Ivy Walker (Walker é aquele que caminha), dona de uma sensorialidade apurada, coloca em ação o desejo de Lucius. É a potência do Mago que se estende e se realiza na Força. Ivy não vê as cores que separam o Vilarejo do Bosque. Sua compreensão da vida é outra – difusa e, no entanto, pontual. Ivy, no bosque, é a imagem do Eremita. Traz na sua capa a cor do sol e a luz da lamparina. Sozinha. Muitas vezes, o Amor exige esta jornada solitária, em busca da redenção. Restam-nos as experiências guardadas na sacola do Louco.


E Noah Percy é a encarnação do Louco. Percy, de “Percival”, aquele que perfura o vale - em outra possibilidade interpretativa, o que perfura o véu. Quem vê através do véu é Iyy, a cega. Noah, a inocência de mãos dadas com a alienação. Noah irá tornar-se o Enforcado porque é através dele que a salvação chega à vilarejo por vias inesperadas. É através dele também que o segredo será mantido. A sua morte garante a segurança de todos. Ele é o bode expiatório do grupo.

É através da morte de Noah que Lucius poderá sobreviver.

E para que alguém percorra o caminho com sucesso é necessária a união, a força das duas famílias – os que caminham (Walker) e os que caçam (Hunt), o que já se insinua na relação platônica de Alice e Edward, a mãe de Lucius e o pai de Ivy, respectivamente.

O Conselho, formado pelas figuras parentais (primeiras 5 imagens do tarô), são os anciões da Vila. Alice e Edward cumprem o papel da Imperatriz e do Imperador, arquétipos materno e paterno. A Justiça é representada pelo Conselho, fórum onde se discute todas as ações da comunidade. O Julgamento, além de estar presente nos veredictos, se faz sentir em todas as situações de irrupção – o alarme, os barulhos estranhos que vêm do bosque, as marcas feitas nas portas. É bom lembrar que o arcano do Julgamento é o único que apresenta um instrumento musical. E que chama a atenção de forma direta, incontestável - o som sempre nos pega de surpresa.

O Hierofante também é Edward, no papel de professor. A cena que o retrata na escola nos remete imageticamente ao arcano V. Na carta de tarô, temos os discípulos com os rostos voltados para o Pontífice. Na cena do filme, Edward é retratado de costas, com os alunos olhando para ele. Uma postura que insinua um segredo? Que existe algo por trás da história daqueles de quem não pode se dizer o nome?

Os arcanos se misturam, se interpenetram - Ivy tem elementos da Estrela (a sensorialidade diferenciada, percepção sintonizada, apurada, e também a inocência da Mulher-Estrela), da Força (aquela que doma o medo) e do Eremita (aquele que caminha protegido por um manto e que carrega uma lanterna iluminando seu caminho).

A cena em que Ivy coloca a mão para fora de casa e um daqueles de quem não se fala o nome se aproxima, momento exato em Lucius vem e toma sua mão, é a prefiguração, o prenúncio de Ivy enfrentando o medo na floresta. Lucius lhe dá confiança necessária para enfrentar a Morte.


A cor vermelha, proibida, é O Diabo. O sangue, o desregramento, a paixão, o sexo, a violência. Tudo que deve ser evitado para que não se perca a inocência e para que a Vila continue protegida. A fruta que não deve ser colhida - a maçã proibida de Ivy-Eva? Seria a cor vermelha a que Ivy pressente na aura de Lucius? Lucius-Lucifer, o anjo luminoso? Um paraíso perdido? Quando Noah Percy cai num buraco da floresta, é nítida a imagem do anjo caído. Vale rever a cena.


Dizem que existe um número determinado de temas no mundo e que todas as histórias derivariam destes arquétipos/protótipos. Eu lembraria da Flor Azul dos românticos alemães, o símbolo do impossível. E do conto da Rosa Azul, em que o príncipe, para salvar a princesa de uma mal terrível que a levaria à morte certa, precisa atravessar montanhas, florestas, perigos e trazer-lhe o remédio exato. A única flor azul que nasce no topo de uma única montanha. Em mundo em que o amor não raro é confundido com tesão e sexo, em que a confiança foi substituída pelo “ninguém é de ninguém” e pela omissão, é no mínimo constrangedor – para alguns – e emocionante – para outros – que o tema do amor romântico ainda faça tanto sucesso.

"The Village" rememora que o Amor e a Confiança movem montanhas, iluminam o caminho de cegos, promovem a Magia do Impossível. Mas sem esquecer que as frutas vermelhas sempre estão no meio do caminho.


Zoe de Camaris

Ofereço este artigo para João Acuio, Alexey Dodsworth e Janaina Leite. Grata pela interlocução: João no cinema e a caminho de casa, Alexey na Astréia e Jana no Messenger. Demorei mas publiquei. Incrível como fico me enrolando.