29 de junho de 2011

Curso de Tarot


FUNDAMENTOS (módulo 1)

A Linguagem do Tarot
Organização Estrutural
Bases Históricas
Abordagem Divinatória, Ocultista e Auto Reflexiva
Níveis de Interpretação
Rotas de Leitura/O Caminho do Herói
A Costura dos Arcanos Maiores
Via Seca e Via Úmida, Tétradas Comparativas
Os Arcanos Menores, Naipes e Elementos
Thot Tarot (Aleister Crowley), Universal Waite e Tarot de Marselha
O Ofício de Tarólogo - Postura e Ética


INTERMEDIÁRIO (módulo 2)

Aprenda a ler o Tarot criando as necessárias relações entre as lâminas. Em uma leitura, os significados "fixos" de uma carta tem o seu sentido alterado em relação aos arcanos que a acompanham. Como decodificar? Como desvelar a história que está posta a sua frente? Como perceber as ligações, os vasos comunicantes entre as imagens? Como exercitar a lógica combinatória? O curso é destinado àqueles que já possuem noções básicas da estruturação e significação dos arcanos maiores e menores.
Prática de Leitura
Aprofundamento nos Arcanos Maiores e Menores
Lógicas Combinatórias
Tiragens Diversas
Análise Numerólogica
________________________________________
Dia 30 de junho de 2011
Todas as quintas das 20h às 23h
3 horas/ aula por semana
12 horas/aula por mês
Valor mensal de 280 reais
Duração de 4 meses

O curso será na Rua Antonio Contin, 340
Cajuru
Curitiba-PR

Mais informações zoedecamaris@gmail.com

18 de março de 2011

Curso de Tarot em Curitiba

Você acha que quem lê Tarot nasce sabendo? Não. É claro que um poder intuitivo inato facilita muito, mas a Arte do Tarot pode e deve ser aprendida. Aliás, uma das vantagens, mesmo para quem não deseja se tornar um profissonal da leitura dos arcanos, é o desenvolvimento da intuição, que se dá a medida que o aluno começa a criar os necessários links entre as imagens.

Desenvolvi um método de aprendizagem que realmente funciona. Os estudantes reclamam que não conseguem comprender os vasos comunicantes, as interrelações. "Decoram" os significados mas depois, na hora da leitura, não sabem o que fazer. A história que o Tarot mostra não aparece tão facilmente. Creio ter encontrado uma "chave" para que a leitura aconteça, sempre unindo a intuição e a técnica.

Então, se você deseja fazer parte daqueles que conseguem desvendar os mistérios do Tarot ofereço neste ano os dois primeiros módulos do curso. Maiores detalhes no Zoe Mídia.

Em breve, o curso virtual.

Abraços,












11 de março de 2011

Kamelia e a Borra do Café


Aí está o meu oráculo. Alguém se arrisca a interpretar?


O nome dela é Kamelia. Nasceu no Líbano, mas mora aqui perto da minha casa. Quem me indicou foi uma amiga de infância e como tenho uma verdadeira paixão sobre o poder de leitura de imagens fui conferir. Confesso que mais pela arte do que procurando previsões.

A verdade é que não tenho mais a curiosidade que tinha na consulta de oráculos. Leio o Tarot para mim muito raramente e quando Madame Zoe dá o ar de sua graça, o que não acontece sempre. Eu também tenho que marcar horário. E mais: preciso sair de mim para que a leitura seja correta. O risco de projeção é muito alto e a necessidade de isenção, enorme. Isso é paradoxal porque um tarólogo precisa conseguir interpretar seus arcanos. Então, uma vez ou outra, sento-me no consultório, medito, e em situação de paz interior lanço minhas cartas.

Quando a barra pesa e eu realmente preciso de uma leitura apurada, recorro aos meus colegas. Aí estão Alexsander e seu baralho Lenormand, a perícia de Alexey com os signos e planetas, a sabedoria de Marcelo "Kirtan" Bueno nos arcanos. Giancarlo, Vera. Meu querido amigo Wagner Piccinin. Ou então leio os sinais nas sincronicidades cotidianas ou pela Geomancia, minha arte secundária.

No entanto, a caminho da borra de café, eu sabia que algo diferente iria acontecer apesar da natural apreensão com a leitura de oráculos, apreensão essa que todo consulente deveria ter quando se trata de dar um poder momentâneo para que alguém rompa os véus que separam a nossa ilusão de passado presente e futuro. Por alguma razão eu sabia que seria legal. Mas Kamelia superou as minhas expectativas.

Peguei um taxi porque não queria me atrasar. Curiosamente a motorista era mulher. Comentei que ia para uma leitura de borra do café e os olhos da motorista brilharam através do espelho retrovisor. Na hora de passar o cartão a maquininha deu uma emperrada e vi Kamelia me esperando na porta (para se chegar na casa é preciso atravessar um longo jardim). Acenei para que me esperasse e reparei que a leitura já tinha começado.

Ela me recebeu na sala que rescendia a um perfume exótico. Uma sala simples. Seu filho sentado em torno da mesa parecia fazer contas ou estudar. Me sentei no sofá, a televisão estava ligada (vale a pena ver de novo!) e Kamelia foi preparar o café. Rapidamente me meti na cozinha porque queria ver a preparação tradicional ao modo árabe. Kamelia me mostrou tudo, tim tim por tim tim.

Sentamos na sala como fazem velhas amigas e tomamos o café. O rapaz desligou a televisão, Kamelia derrubou o que restava do pó de café do fundo da xícara em um guardanapo e fomos para um quarto ao lado.

Ela não sabia nada de mim, muito menos a minha profissão. Pediu-me que não falasse nada e com o óculos na ponta do nariz começou a sua inspirada e delicada leitura. A cada frase, a magia que faz com que o oráculo conte com uma história que desconhece me surpreendia. Ali estava o meu presente e cenas misturadas do passado e do futuro que iam sendo deslindadas pela interpretação das imagens no fundo da xícara, as linhas castanhas sobre o branco.

Não, eu não vou contar para vocês o que ela me disse porque isso não se faz. Mas foi um momento único na minha vida. Um momento de surpresa, conhecimento e magia. Nunca fiquei tão bem impressionada e olhem que, definitivamente, não sou marinheira de primeira viagem. A vida não havia até então me brindado com o café de uma sacerdotisa árabe e nessa hora, eu era só uma consulente atrapalhada, querendo interromper com meus desabafos a condução delicada de algo que suplanta o raciocínio comum (fica aqui a dica para consulentes matracas-tricas: aproveitem o oráculo e consultem uma psicóloga para outros fins).

Fechada a leitura, que por algum motivo durou mais que o tempo regulamentar, Kamelia me surpreendeu com outra de suas artes: a culinária. Sua magia estende-se pela alquimia dos alimentos. Para complementar a renda familiar, atende encomendas de grandes e pequenos jantares com as delícias orientais. Vi seus frascos de água de rosas, provei de seus quitutes (o chanclich e o zátar vocês não acreditam),  e ainda saí de lá com duas conservas: uma de coalhada, outra de beringela com amêndoas.

E olha... Eu vou voltar. Não só para encomendar gostosuras mas para dar continuidade às linhas de café que ainda não apareceram.

Kamelia foi um presente que falou do meu passado e do meu futuro. E parece que recuperei o meu gosto por oráculos. E por café com cardamomo.
















Zoe de Camaris
p.s.: se alguém quiser experimentar das artes da maga libanesa é só me mandar um email: zoedecamaris@gmail.com .



8 de março de 2011

O AMOR EM DIÁLOGO




O primeiro olhar trocado, o coração que dispara, a corrida ao espelho, a insegurança, a beleza dos gestos (naturais e estudados), o caminho trêmulo das mãos, a dança das línguas... Todos conhecemos a linguagem universal do Amor. Está no nosso DNA e é reafirmado pelas letras de música, pelo cinema, pela literatura. O tema é inesgotável embora conte sempre a mesma história. O encontro, o desencontro, o reencontro, com ou sem final feliz.

Mas o diálogo de que falo aqui é outro, aquele que vai além de uma conversa com o espelho, a fala da vaidade, a verborragia hemorrágica da exibição. Falo da abertura do coração e do verdadeiro interesse que nasce em relação ao outro. "O que você pensa, o que você vive, o que você sabe me interessa diretamente e é demonstrado". Da arte do diálogo no Amor, quando quase tudo que se vê é um monólogo incessante que vai num crescente chocar-se com os céus a espera do raio.

É possível que minha perspectiva deva-se ao meu mapa mercuriano. Não é possível sobreviver a uma história que não conversa, que não se diverte com as  palavras, que não exprime ternura nas mais acirradas discussões. Não é possível um amor que não instigue, um amor que não leve à criação, um amor que não faça que o outro brilhe naturalmente.

Existem amores que continuam incitando, acordados na lembrança e no passado. E amores que provocam idéias de futuro. Minha saudade caminha em ambas direções.

Há uma armadilha, claro, no amor somos todos pequenos animais transitando na selva. Pois amar pressupõe a entrega, a confiança, o acreditar, o caminhar sem medo. A cilada é a competição. Transformar o outro em uma ameaça e reagir com estratagemas do intelecto. Provocar o nascimento do predador quando não é possivel livrar-se da vaidade. É um risco, mas um risco que para mim, com meu Mercúrio dominante, aceito tranquilamente correr. Arriscar-me na selva dos pensamentos é bem melhor do que passar a vida falando sobre tomates sem entender a língua do outro. Aceito os sapos e os diamantes, como no conto de fadas.

Não basta a beleza dos corpos, não basta o poder da atração, a química das diferenças. Quero primeiro a lingua e depois a lingua.

Ambas titilando no céu da boca.


Zoe de Camaris

* na imagem, Abelardo e Heloísa.

17 de setembro de 2010

Rainha do Lar? Só sendo Rainha de Ouros.

Para ser Rainha do Lar, só sendo rainha de Ouros - o arcano da corte mais próximo da Imperatriz. Partimos do princípio que o naipe de Ouros congrega todos os outros naipes, ou seja, a manifestação do Ar da Água e do Fogo, materializam-se na Terra de Ouros (ou na Terra de Marlboro), mas como isso é um depoimento e não um estudo, prometo me esforçar e manter o foco no que acontece comigo e aqui em casa.

Observem pelo caleidoscópio. Lucy in the sky with diamonds. Ou Poikilóthron. Afrodite sentada no trono dourado lançando raios irisados para todos os lados. Porque é isso a mulher. Toda a diversidade.

Eu demorei muito para conseguir somar minhas Rainhas. Sou essencialmente Copas e finjo (bem) que sou Espadas (a Persona acaba grudando como sói acontecer com máscaras usadas repetidamente). E isso, obviamente, se reflete na minha forma de cuidar da casa e da família.

Minha Rainha de Paus é flutuante. Em períodos de energia equilibrada, o emocional também se estabiliza. Quando a força é excessiva posso usá-la a meu favor ou contra mim, na maior parte das vezes por processos inconscientes. Quando a uso a meu favor, meu coração se acalma e posso pensar em deixar minha casa bonita, em criar uma organização aprazível, em comer bem, em sorrir, em amar incondicionalmente. Relaxo em Copas quando a Rainha de Paus me favorece.

Se usar contra mim a força da Rainha de Paus, meus sentimentos entram em pane - o que só dá vazão a uma Rainha de Espadas mal-humorada. Uma chata. Rápida com as palavras e argumentos, pole position ou nada. Posso esquentar e fazer gritaria. Ou gelar tudo e virar a malvada Rainha das Neves. Melhor nem comentar...  E nessa hora é recomendável que ninguém deixe nada fora do lugar. E eu repenso se devo ou não voltar para a Análise.

Agora, se a Rainha de Paus me falta, se a sua alegria se esvai, caio em tristeza e paro de comer. Fico meio sem graça. Isso se a Rainha de Copas, a menina sensível e sentimental e aquática for magoada. Disfarço ativando a máscara de Espadas (lembrem-se, ela é a Agua do Ar). Aí posso fingir que estou bem, coisa que não faço quando o pique é alto. Confesso que em certos momentos até gosto disso, gosto muito disso, a poesia conversa com a melancolia e ganho em transparência conversando com meus botões. A melancolia me apraz, não a dor. Nem a raiva. A intensidade logo me cansa. Copas, minha Água, se dá bem quando estou triste. E aí, fico suave. Nessas horas, a casa, materialmente falando, desaparece. É como se eu estivesse em outro mundo.

A verdade é que ando tão dona de casa, tão Housewives Tarot, tão brazilian way of life que tenho saudades de mim. Os poucos momentos de epifania são lavando a louça quando a bebê está dormindo ou passando o último produto anunciado pelos comerciais para deixar o chão branco da minha sala brilhando (a minha Rainha de Espadas é TOC total, seja na organização da casa, seja escrevendo). Fora isso, sempre são os Outros. E quando me dou conta já me esqueci entre as falas e os panos de prato.

Idealmente, poderia pagar para alguém para fazer o serviço doméstico que é repetitivo e invisível (para os outros). Você só fica realizada no momento em que a faxineira vai embora. Nos cinco minutos seguintes começa a repetir tudo, e assim vai, indefinidamente, queira ou não. Ninguém me ajuda na organização doméstica. Todos são bagunceiros. Minha Água entra pelo cano. Minhas Espadas são depostas. Sou melhor aqui, escrevendo. Fazendo o que faço agora.

Mas meninas, ao mesmo tempo... Estender roupas no varal pode ser uma atividade criativa (ironias a parte). O prazer em coar o café pela manhã é impagável. O panorama que avisto da minha casa, a enormidade de árvores, os pássaros (neste fim de semana, uma gralha-azul. Dias atrás, um tucano de bico verde)... Sim, há estética. Há beleza. E a beleza, sendo Copas, convulsiva ou relativamente ordenada pelas Espadas, é essencial. Luz. Não quero morar num apa(e)rtamento, que tantos falam ser mais simples.  Por isso, esfrego a calçada se imprescindível. Mas não hesito em deixar que o jardim seja tomado por dentes-de-leão. Assopro a florzinha de vento e chamo por soluções. A Imperatriz é Mãe e A Sacerdotisa, bruxa.

Por falar em bruxas, alquimias só em momentos especiais e para minha bebê. Consigo escapar da ditadura alimentar. Me viro com nozes, saladas, azeites, grãos. Quem encosta o tanquinho no fogão é meu marido. Mas aí ninguém escapa das frituras, da maionese, de misturas incompreensíveis. Minha frugalidade não compreende o excesso. Claro que me preocupo com a manutenção do(s) tanquinho(s), mas não há outra saída. Se eu resolver cozinhar, não faço mais nada da vida.

A casa é uma empresa. E quem mantém essa empresa funcionando sou eu, a administradora de Ouros. Trabalhar em casa, trabalhar fora de casa, pagar as contas, dividir quando dá, marcar horas no médico, correr pra lá e pra cá, receber os amigos, fazer visitas, cuidar de três filhas, cada uma com suas particularidades e idades diferentes, dar comida para o cachorro, lembrar dos dias do lixo reciclável e do não-reciclável, escutar as mazelas do jardineiro, levar criança ara escola, pegar na escola, sacudir a mamadeira, apagar as luzes, conferir as portas, namorar e enfim dormir depois que todo mundo já está acomodado, não necessariamente nessa ordem mas quase isso. Socorro! Eu e outras mil donas-de-casa, miríades de mulheres espalhadas pelo mundo. Antigamente, nem tínhamos nossos nomes em lápides. Somos um arquétipo.

A verdade é que depois de bastante tempo consegui unir lá do meu jeito as Rainhas. Nunca estão bem equilibradas, é verdade, mas a variação faz a vida ficar colorida. Tons de vermelho vivo e verde-limão. Outra hora, cores delicadas. Ou o dia indo embora e tingindo de azul-incompreensível o céu.

Rainha de Ouros. Essa é a guria, essa é a dona da hora. Ela me cansa, não paro quieta. Ninguém mais me vê grudada no computador ou lendo deitada no sofá. Ou me arrumando para sair dançar. Em compensação tenho uma casa linda, três filhas lindas, um gato e um cachorro lindos. E o dia de hoje pra viver. Sem passado. Sem futuro. Só o espaço, aqui e agora.

A Inevitável Rainha de Ouros me obriga a relativizar. Respirar fundo. Avançar e retroceder. Alternar os meus humores e procurar não bailar ao sabor deles. Entender minha menina e minha velha. Ser generosa comigo. Ser exigente também. Lembrar da fada, lembrar da bruxa. Atender minhas consulentes com suas Rainhas embaralhadas. Aprender com as amigas as nuances do caleidoscópio feminino que nunca, enquanto o mundo for mundo, deixará de nos surpreender.

Rainhas. Amar e amar e amar.
E quando dou sorte, um pouco de Poesia.

Zoe de Camaris
p.s.: esse post faz parte de uma blogagem coletiva proposta por Luciana Onofre e Pietra de Chiaro Luna.


12 de agosto de 2010

BE-A-BÁemBABEL








Դուք չեն հասկանում,
Գրեթե ոչինչ, թե ինչ եմ ասում
Ես ուզում եմ հեռանալ
Ես պարզապես ուզում եմ դուրս գալ
Եվ ուզում եմ գալ ինձ հետ

- Não entendi.

Που δεν καταλαβαίνετε
Σχεδόν τίποτα από αυτά που λέω
Θέλω να πάω μακριά
Θέλω απλώς να βγούμε
Και θέλω να έρθεις μαζί μου

- Bem, o que posso dizer?

तुम समझते नहीं
मैं क्या कह के लगभग कुछ भी नहीं
मैं दूर जाना चाहता हूँ
मैं तो बस बाहर निकलना चाहता हूँ
और मैं तुम्हें मेरे साथ आना चाहते हैं


- Melhor ficar quieto.

Ви не розумієте,
Майже нічого, що я кажу
Я хочу піти
Я просто хочу вийти
І я хочу, щоб ти поїхала зі мною

- Eu preciso contar o que vi agora há pouco.

Ez duzu ulertzen
Ia zer esan ezer
urrun joan nahi dut
nahi dut atera
Eta nirekin etorri nahi duzu nahi dut

- Besteira, isso já passou.

You do not understand
Almost nothing of what I say
I want to go away
I just want to get out
And I want you to come with me

- Eu não entendi nada.

Vous ne comprenez pas
Presque rien de ce que je dis
Je veux m'en aller
Je veux juste sortir
Et je veux que tu viennes avec moi

- Nem eu.

Você não está entendendo
Quase nada do que eu digo
Eu quero ir-me embora
Eu quero é dar o fora

- Agora?


Zoe

3 de abril de 2010

Sábado de Aleluia


A malhação de Judas
Afinal, a vítima é o traidor ou o traído? – Uma questão de ponto de vista, diria o Homem Pendurado, acostumado com mudanças bruscas de perspectiva - acordei pensando neste sábado de Aleluia. Oportuno lembrar do tema "traição" enquanto se malha o Judas, aquele que entregou Jesus por 30 moedas de prata segundo a versão tradicional. Outros dizem que Judas era o melhor amigo de Jesus, seu guarda-costas. Nesse ângulo de visão teria ajudado o Filho do Homem a cumprir seu destino. 'Mui amigo', mas vá lá. A questão é paradoxal mesmo. Ainda mais para um arcano que está naturalmente de ponta-cabeça.


Wirth
Tem um lance no Direito que se chama "Vitimização". A pessoa provoca provoca e provoca alguém. Um dia o provocado fica bravo e castiga o provocador que, rapidamente, toma o lugar de vítima. Louco isso, a troca rápida de papéis entre o verdadeiro bode expiatório e seu algoz. Aí tem aquela fala: - Só se coloca no papel de vítima quem quer - no caso, o provocado. Haveria então um acordo praticamente tácito de alimentação entre o algoz e a vítima. Acontece entre os sado-masoquistas e também entre os que não acham que sejam sado-masoquistas. Mas nem assim encontramos uma regra.

Nem sempre a vítima é causadora da sua dor como rezam os aficcionados pela Tábua da Esmeralda e os adoradores de "O Segredo". Existem os inocentes, completamente inocentes e que entram pelo cano. Aqueles que acreditaram, que botaram fé, que deram de si o melhor. Que fizeram tudo que estava ao seu alcance. Que têm gestos positivos e de repente... Lá se foi o tapete.

Por mais que se rodeie o assunto parece que sempre voltamos ao ponto de partida, o eterno retorno. Como se O Pendurado no Tarot ficasse girando feito A Roda da Fortuna e nos colocasse tontos.

Tem também o traidor, o algoz, que é verdeiramente traidor. Mas ele costuma ter justificativas para o gesto que, provavelmente, não chama de traição. Razões pessoais para voltar atrás no que foi combinado "na ponta do bigode", no "acordo de cavalheiros". Rói a corda. A nossa corda. Porque a própria corda é dificil, a não ser que o traidor tenha feito muitas abdominais e tenha um belo tanquinho. Movimento de iogue. Confuso esse arcano XII.



O Pendurado é o traidor ou a vítima?

É uma sensação horrível a de ser traido. Ao susto (traição sempre tem a ver com o medo) segue-se a dor e a revolta. Só quando perdoamos, nos entregamos, desistimos, que a dor da traição passa. Até lá ficamos pendurados, presos na mágoa. Causamos pena e compaixão. Perdoar nos liberta.

Curiosamente, não existe o efeito retórico, só o prático. Se não há verdadeiro perdão, não acontece nada. A corda continua firme.

E se a idéia é se vingar do sacana, o ódio toma conta do coração. E o traidor está lá, passeando de barquinho enquanto você espuma de raiva. A vingança é um prato que se serve frio, dizemos mentalmente. E alguns acreditam mesmo em justiça divina.

Mas não será a verdadeira vítima o traidor, execrado em praça pública, apedrejado, exposto pela propria traição? Não sofrerá o traidor (ainda neste mundo) as penas decorrentes do seu gesto em foro íntimo? Uma questão de consciência:



Há os traidores arrependidos que podem inverter sua posição rapidamente. De traidores passam a heróis. A verdade sempre nos favorece, diz um amigo. A verdade funciona como um escudo, causando maravilhas, mesmo que venha atrasada. E há os que não se arrependem nunca e também se tornam heróis. E a mentira permanece. A traição é um conceito que mexe de frente com a questão da verdade e da mentira.

Não sei qual versão está certa, se Judas-Capitu traiu mesmo Bentinho. Sei que o gesto de malhar o Judas é catalisador. Melhor queimar o boneco como um rito de passagem. Marcar a testa do Espantalho com nossa fúria, aquele covarde: - Loser! gritamos em côro. Vale como gesto simbólico, esse costume popular tão antigo.


Minchiate

E reafirma que o arquétipo continua vivíssimo. Que medre então e de preferência, bem longe de nós, afinal só existe um Sábado de Aleluia ao ano. Mas se assim não for que a dor se revista do sacro-ofício, o sacrifício sagrado, naquele que encontra um sentido maior para o sofrimento.


Mas eu nunca gostei dessa história de crescer através da dor.


Zoe

12 de janeiro de 2010

TAROT LÍQUIDO




Bacana. Tarot também é perfume. Lembram da linha TAROT da Natura? Pois é, mas agora o must da estação fica por conta da Dolce&Gabbana, The D&G Fragrance Anthology, 5 perfumes inspirados nas cartas.

Os arcanos escolhidos são O Mago, A Imperatriz, Os Amantes, A Roda da Fortuna e A Lua, cada um protagonizado por um(a) top model, com exceção da Roda, que ganha um casal. Vale a pena dar uma olhada na página oficial da coleção, se sua conexão for rápida.


LE BATELEUR/TYSON BALLOU


Notas de saída: Cardamomo, grãos de junípero, folhas de bétula

Notas de coração: Acordes aquáticos, coentro

Notas de fundo: Vetiver, cedro branco, resina de olíbano

Aromático e amadeirado




L'IMPERÁTRICE/NAOMI CAMPBELL


Notas de saída: Ruibarbo, groselha, suco de kiwi

Notas de coração: Ciclâmen rosa, toques de melancia, pétalas de jasmim

Notas de fundo: Notas de almíscar, madeira de sândalo, madeira de pomelo

Frutal floral



LES AMOREAUX/NOAH MILLS


Notas de saída: Bergamota, grãos de junípero, pimenta rosa

Notas de coração: Cardamomo, folha de bétula, raiz de lírio

Notas de fundo: Notas de almíscar e acordes de lenha

Oriental amadeirado



LA ROUE DE LA FORTUNE
/FERNANDO
FERNANDES E EVA HERZIGOVA


Notas de saída: Pimenta rosa, acordes verdes, abacaxi

Notas de coração: Tuberosa, gardênia, jasmim

Notas de fundo: Baunilha, raiz de lírio, benjoim, patchouli

Oriental floral




LA LUNE/CLAUDIA SCHIFFER


Notas de saída: Maçã, bergamota, acordes verdes

Notas de coração: Lírio, rosa, tuberosa

Notas de fundo: Raiz de lírio, couro, sândalo, almíscar

Floral fresco


D&G Fragrance Anthology tem um design espartano na escolha dos frascos e embalagens, como convém a uma linha com pegada mais popular. Os perfumes, sem muita fixação, não são intensos como seria conveniente aos arcanos maiores. Cheiram à arcanos menores, na minha modesta opnião. Exceto o n° 3 e o n° 10, mais fortes, pelo que deu pra sacar. Mas não se comparam, nem de longe, à profundidade do By, meu preferido da D&G para algumas ocasiões especiais (gratíssima até hoje a minha amiga Luciana Macedo por tê-lo me apresentado), mesmo que continue fiel ao raríssimo Fracas, da Robert Piguet que, por sinal, ai meus deuses, está pela hora da morte.

De qualquer forma, vale pena dar uma sentida na coleção. E para quem quiser conhecer a campanha publicitária, aí vai o link do n°6, escolhido para figurar aqui por motivos óbvios.... A beleza perfeita de Noah Mills. Esse homem não precisa de perfume. Se cheirar estraga.

Zoe
post scriptum: Voltei à loja de perfumes. Fiquei de cara com o que a moça treinada na campanha me disse. Você é que faz a mistura. Alquimizar os arcanos, puxa vida. Imagienei a balbúrdia. La Lune (horrível, mas apostaria depois de 3 horas pra ver como fica) com La Roue (forte, aveludado e com fixação). Imaginaria um perfume mais volátil para a Roda mas se os os consultores de marketing resolveram apostar na roleta problema deles. E mistura complicada a do arcano 18 com o 10, convenhamos. Claro que irá dar errado. Le Bateleur com Les Amoreaux... Gosto do n°1, o perfume. E o n° 6 pode dar barato, sei lá. Outras combinações? Mas afinal, quem chegaria à essência dos arcanos? Quem poderia misturá-los? Claro que não seria a Procter $ Gamble. Tá pra nascer o perfumista.

22 de novembro de 2009

A cor da consciência




A Morte________________________________ O Mago



Não existe magia negra ou magia branca, existe a magia. Assim como não há alma negra ou alma branca, só há a alma, as almas coloridíssimas de cada um de nós dentro da alma do mundo. Almas doídas e alegres, almas limpas, almas sujas, almas depois do banho e antes de pisar na lama, almas penadas e almas peladas.

Há mulheres que se chamam Alma, mulheres assombração caminhando na noite negra, lá onde pia a coruja. E de dia, onde o sol visita, a pele negra é lua na areia.

Não há bem ou mal. Apenas há. Nada é completamente negro, nada é completamente branco. Nem o petróleo, nem o omo total (que é azul).

O assunto das polaridades andou vindo à baila aqui em casa por isso o assunto. De pano de fundo, o Dia da Consciência Negra casou com a conversa, mais o Malcom X que depois passou na televisão.

Afinal, existem pessoas boas e/ou pessoas más? Minha visão pagã e politeísta da vida não aceita bem isso. Creio que o bem nunca é completamente bom e nem o mal é completamente mau. Não acredito na pureza dos extremos a não ser abstraindo, para efeito retórico e de discussão. Tudo se interpenetra na vida que se abre aos nossos sentidos, no mundo físico. A natureza não conhece o bem e o mal, nós é que a julgamos assim através de nossos estreitos parâmetros, do nosso ponto de vista limitado. Um raio é mau? Uma marola é boa? Pra quem? Não é o homem umas das traduções da Natureza?

Coisas más acontecem às pessoas boas (e vice-versa) é uma frase ridícula. Nem a coisa é tão má assim e nem a pessoa é completamente boa. E que coisas não tão boas acontecem a pessoas não tão más é fato corriqueiro. Estou sendo radical? Sim, sou radical quando afirmo que a radicalidade pura e extrema é impossível, ainda mais quando se trata do bem e do mal. Aqui neste planeta terra o claro não sobrevive sem o escuro. E nem o escuro prescinde do claro.

Mas o foco da conversa era sobre gente má e gente boa... Meu pai sempre repetia a frase de Oscar Wilde, que por sua vez vivia sendo repetida pelo meu padrinho: "Paira algo de nefasto sobre as boas intenções". Frase difícil, cria uma sensação de paradoxo na mesma hora. Como assim...? Hã...? Mas puxa, o cara não foi bom, a intenção não era louvável? Pois é. Resta saber se tem algo de bom na inveja, no rancor, na raiva. Tudo tem a sua razão de ser. É só assistir um filme no qual o herói é o bandido.

Disse Alberto Caieiro:

Louvado seja Deus que não sou bom,
E tenho o egoísmo natural das flores
E dos rios que seguem o seu caminho
Preocupados sem o saber
Só com o florir e ir correndo.
É essa a única missão do Mundo,
Essa - existir claramente,
E saber fazê-lo sem pensar nisso.


Black pode ser beautiful. White pode ser beautiful. Em Ouro Preto (cidade de duas cores) eu descia uma ladeira enquanto subia um homem de cor negra com uma camiseta branca onde se lia escrita: 100% NEGRO. Pensei que poderia estar ladeira abaixo com uma camiseta preta onde se leria: 100% BRANCA. Seria linchada, claro, como nazista. Sou uma perfeita representante da raça ariana. Represento o opressor e não posso usar uma camiseta como a que falei. Pois lembraria a todos, com minha camiseta que o mundo é muito desigual.

A alma não tem cor. Ou tem todas as cores. Pode ser xadrez.

Digo isso porque sou branca e estou na minha pele. E não tenho ideia de como seria ser negra, vermelha, amarela. 

Agora, a consciência tem cor sim. É verde. Da cor do Grilo Falante.






Zoe
p.s.: Encontrei as imagens de Malcom X e Spike Lee nos meus arquivos. Lembro-me que foram achadas num blog/site recomendado pela lista de discussão TarotL. Tentei recuperar o link, mas não fui bem sucedida. Intitulando as imagens consta a frase de Luther King: "I have a dream. Tarot, I have a dream?

4 de agosto de 2009

Como me sinto quando me apaixono

Depois de meses off-line, estou pronta para voltar ao Tarot com meu pique normal. Ou melhor, quase pronta. Ainda estou finalizando alguns projetos para outubro e dando uma sacolejada nos meus trabalhos literários. Mas prometo responder em breve aos comentários, preparar novos textos para o blog, para Revista Personare (que agora está em Portugal!) e para o Clube do Tarot. Enquanto não dou o start, deliciem-se com o artigo que meu amigo Rodrigo Garcia Lopes escreveu para Revista Cláudia. Amei. E tenho certeza que vocês vão se encantar também. É raro ler um homem falando assim tão diretamente sobre o estado maluco que é apaixonar-se. Assunto que, cá pra nós, mais do nos interessa... Boa leitura!


Abraços,

Zoe

Arcano VI- Tarot Haileris



COMO ME SINTO QUANDO ME APAIXONO
Rodrigo Garcia Lopes



De cara, me vem a frase de Rimbaud: na paixão, "eu é um outro". Ou penso no que costuma dizer um amigo: o fim da paixão coincide com a descoberta de que "um é pouco, dois é muito". A paixão, antes, era uma promessa de felicidade. Hoje, desconfio que antes eu não me sentia: as coisas é que começavam a sentir, a sofrerem em mim. A memória de um rosto ou de uma voz é o que me deixava sentindo, sentindo. Sobretudo a memória de uma presença, ou aquilo que os antigos chamavam de musa. Pois só uma musa é capaz de despertar essa música em nós, essa irmã da paixão chamada poesia, e que nos leva a escrever coisas "sem sentido" como: "Imprimo em seus lábios lírios & jasmins / primícias de cetim em toques de neve / mixo a ti e a mim nesses senfins / gravo na boca o cheiro bom do cravo. / Nenhuma nóia a nos tocar se atreve. // Ligado, digito os terminais dos teus sentidos / Regulo o foco do deleite, chupo teus bits & bytes, / Quando a aurora goza um sono rosa, Danaê, acredite: / com sentidos assim, quem precisa de inimigos? [...]. Sim, a paixão é uma mulher de olhos invisíveis.

Dizer que a paixão implica em perda da razão não parece correto. Talvez seja mais apropriado dizer que a paixão carrega uma outra razão. A paixão, para mim, é como a leitura de um poema. Ou nos arrebata ou não é poesia. Nem paixão. A paixão é como uma palavra, num poema, uma palavra que busca uma rima. Quando duas palavras se beijam, nasce a poesia. Para mim, a paixão tem a ver com aquela "realidade ficcional" na qual estamos imersos quando lemos um romance: uma suspensão temporária do descrédito do mundo e do outro. Mas, antes que acabe, "posto que é chama", pintam os sintomas: insônia (pensa-se naquela pessoa), suores e tremores nas mãos (pensa-se naquela pessoa), enfim, dispara-se um mecanismo mental obsessivo (pensa-se naquela pessoa). A paixão é patética (palavra-irmã de paixão). Pateta é a pessoa apaixonada. Um marmanjo passa a se comportar como um adolescente. Não há como escapar.

A paixão, como a poesia, não tem muito sentido num mundo regido cada vez mais por valores como Mercado e Sucesso. Pois a paixão não é um valor: ela é um bem, um talento, uma espécie de reserva ecológica da sensibilidade. Em nossos dias, a paixão virou artigo de luxo. A arte de padecer por um amor está se tornando tão exótica quanto a poesia, uma arte mais e mais restrita a iniciados, como o foram a falconaria, a numismática, a filatelia. Pois para o que serve esse negócio que nos acossa, nos deixa em estado de transe, de sítio, de alerta, de poesia? Nesses nossos dias velozes e superficiais, ninguém parece ter mais tempo para o tempo que a paixão exige. O mundo deveria se adaptar à paixão, e não o contrário.

Apesar de já termos visto e vivido o filme da paixão, o fascínio que o outro pode exercer em nós nos faz cair, como patos, nessa lagoa que os gregos chamavam de... pathós: sofrimento. Parece que se a paixão não carrega este componente de dor, não é paixão. Lembro, em cenas que hoje fazem parte definitiva de minhas amnésias afetivas, que a ausência da pessoa pela qual estava apaixonado provocava em mim os mais estranhos pensamentos. Hoje penso que essa projeção é a de nossa própria imagem. Como tentar agarrar o próprio reflexo num espelho, como no mito de Narciso. E tem outro problema: a paixão sonha eliminar a solidão, o que é uma impossibilidade. E é bom mesmo que "seja eterno enquanto dure": nossas expectativas em relação à pessoa-objeto de nossa paixão são quase sempre inatingíveis. Pois mesmo que apaixonar-se seja uma forma de "dor elegante", como diria Leminski, implica uma situação de estresse emocional e afetivo que nenhum ser humano pode suportar por longos períodos, sob pena de enlouquecer, e aí não seria mais paixão. Pois a paixão é um pensamento são num mundo insano. Quanto dura o filme da paixão? As personagens mudam, a paixão, não. Para mim, a paixão é como um daqueles paraísos perdidos: Mu, Atlântida, Agartha, Shambala, praia de Dido. Vê, já estou apaixonado e falando coisas sem sentido.




Rodrigo Garcia Lopes é escritor, poeta, jornalista, tradutor (Sylvia Plath, Rimbaud, Whitman, Laura Riding) e compositor, autor do CD de música e poesia Polivox, e dos livros de poemas Solarium, Visibilia, Polivox, Nômada. É um dos editores da revista Coyote e autor do blog http://www.estudiorealidade.blogspot.com/



23 de maio de 2009

A MORTE FAZENDO FESTA


Pensando na Morte - Frida Kahlo

Sim, sumi. Sumi porque a experiência de desaparecer ainda me é estranha. De repente lá vem ela - fatídica - e ceifa a grama aos seus pés. Vai sumindo com as gentes e é simples assim. Uma sucessão de cortes: Bruxursinha, meu pai, Leon Kaplan, um primo de primeríssimo grau e agora o Zé Rodrix. Todos novos novíssimos. Meu coração parece que virou peneira de bandido. Minha cabeça fica dando voltas. Outra noite, insone, e me peguei na sala, cismando. Acendi um Luck, rodei o dicionário de símbolos num gesto bibliomântico e lá estava: esfinge, máscara, petrificação. Sua face se mostrando na pior penumbra, no mundo do gelado. Arrepio. O momento do calafrio fatal. A Morte.

Nossa.

Falar o quê? É o que todos dizem. Meus Sentimentos. Gosto do lance dos sentimentos porque não entendo bem o peso dos pêsames. Mas mesmo assim, falar deles não significa nada numa hora em que tudo fica sem sentido. É um corte na noção de tempo, do corpo ocupando um espaço. De quantos lugares habitam as almas no ar, no céu.

Um amigo, em rápida menção me disse: - E se somos as ínfimas partículas da água rolando na crista das ondas? Me soou belo, grandioso e patético. Bem resolvido demais. Antes de chegar a gotícula, há que se compreender que Cavalo move a Morte num tabuleiro: Agora, seu nome é Xadrez.

Cena do flme "Det Sjunde Inseglet", de Igmar Bergman


Sempre sonhei com quem se vai desse em mundo em preto e branco. Resta-me as cores no mundo dos vivos e isso não é pouca coisa. Mas eles me parecem pálidos, os que se foram, como num filme antigo. E não é sépia não, é preto e branco mesmo.

Penso que a Morte vem assim num zuuuuuuuum, dá no ouvido da gente crescendo e crescendo - quando se viu já era. Viagem, essa que empreendemos sempre virgens. Mas para isso, há um percalço curioso: Dormimos todos os dias pois, caso assim não fosse, quando a Morte chegasse seríamos surpreendidos em uma porrada incontida, uma explosão de nêutrons, um cruz-credo avassalador.
Convenhamos: há coisa mais estranha, se olhada com perplexidade de quem vê a lua pela primeira vez, do que o ato de dormir?

Vamos lá todos em fila, que nem os anões da branca-de-neve com seus travesseiros, agarrados no quentinho para nos garantirmos. Enquanto estivermos cativos do calor tá tudo bem. Dá pra deitar na cama e ficar ali parado em semi-inércia. Coisa estranha é dormir. Sua normalidade me choca.

Dormimos para nos acostumarmos com a chegada da Implacável. E sonhamos. Nos sonhos, toda uma vida - vias, desvarios, veias em viés. Vida onde transitam aqueles que se foram mas não partiram. Em algum lugar, eles não se partem. Ficam. Deve ser dentro do coração.

Quando aparece alguém que eu não conheço nos meus sonhos, sei que é a figuração de uma alma. Eu poderia até arriscar uma interpretação pseudo psicanalítica, mas não vou perder tempo agora: a Morte não faz Nove Horas.

Então, quando a Inominável, vem - inominável sim, mas com o número bem certo - entramos para sempre no mundo dos sonhos, é a verdade inegável. Somos para sempre o que sonhamos.

Não me assombra a vida após a morte. Sei que ela existe. Mas me apavora seu corpo, sua dureza, sua crua verdade. Seu processo físico grita muito mais nos meus ouvidos do que a poderia a matéria da alma. A alma voa, a alma é leve. O problema é a lama, a Biologia da coisa, sua cara de esqueleto. Mas isso é cá comigo, numa angústia madrugueira que vos confesso e aproveito como mote ilustrativo.

Passar manteiga no pão precisa ser uma experiência sublime, não acham?

Só se pode falar da Morte feita a Ode em Vida.



The Caos Tarot - Arc XIII

Zoe

4 de maio de 2009

ESTADO DE ESPÍRITO


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mais puro que o vôo da corda
mais corda que a vida do vento
mais vento que a asa da lira
mais lírica que a prosa da pétala

mais pétala que a pluma dos dias
mais dias que o desejo do tempo
mais tempo que o acorde de sol
mais sol que a vontade de chuva

mais chuva que a sede de água
mais água que o verde da uva
mais uva que o veludo da veia
mais veia que a calda da lava

mais lava que a terra do fogo
mais fogo que a língua na boca
mais boca que a fome no corpo
mais corpo que a dança do sangue

mais sangue que o ouro da pedra
mais pedra que estátua de seda
mais seda que sonho de mel
mais nuvem que rosas no céu

mais céu que o fundo do azul
mais azul que os olhos de deus



Monica Berger

28 de abril de 2009

PROTEJA SUA ESCOLHA







Outro dia, uma consulente refletia sobre um relacionamento que tinha ido por água abaixo e sua dificuldade em abrir mão desse amor, me disse de forma enfática: “Eu protejo as minhas escolhas”. A frase me pegou. Já tinha pensado sobre a questão, mas nunca tinha escutado a ideia expressa assim, de forma tão pontual.


Sim, proteger as nossas escolhas. A gente demora tanto tempo para decidir entre uma coisa e outra! Pesa prós e contras, encara as oscilações da balança... deixa de lado um  caminho conhecido, confortável por uma rota desafiadora.


Noutras vezes, é preciso ser mais radical: ou muda-se de vida ou muda-se de vida. Sem saída: aquilo que nos dá absoluta segurança vai dançar. Não há garantias. Respira-se fundo, levanta-se a cabeça e: “Eu vou”. Mas vai pra onde?


E aí começa o processo de pesagem. Não raro, alguém sai magoado. Os mortos e os feridos. Sem esforço não há crescimento. E existem os sacrifícios, os desapegos. Coisas que a gente não quer largar. Como ir pra frente sem olhar pra trás? Pois é. Mas não tem jeito, a decisão precisa ser tomada. E depois disso, só há o futuro. Não dá pra voltar.


Proteger as nossas escolhas. É o justo, depois da coragem de colocar todas as fichas na mesa. Tanto trabalho não pode ser jogado fora assim, com uma marcha-ré na primeira dificuldade. Há que se proteger a possibilidade calculada, refletida, pesada na balança nem sempre equilibrada da vida. A escolha nem sempre é livre (somos fruto de condicionamentos), mas em última instância, é sempre nossa.  Quem diz que não teve escolha, escolheu não escolher. Mas escolheu.


Proteger nossa opção é um ato de amor. Uma questão de respeito para consigo mesmo. É ruim olhar-se no espelho pela manhã e dar de cara com alguém que não pode manter sua palavra. E saber que essa pessoa é você. É, ainda, um ato de amor para com os outros – aqueles que ficaram no passado e aqueles que fazem parte agora, do nosso presente. Por isso a importância de deter-se com atenção frente à encruzilhada e discernir com tempo e critério o novo rumo.


É claro que, vez ou outra, há arrependimento. Normalmente isso acontece quando nos deixamos pressionar e decidimos antes chegar a um veredicto profundo. Ou quando a nossa escolha se destina a satisfazer a alguém que não a nós mesmos. É difícil agradar gregos e troianos.


Toda escolha acertada exige centramento. Momentos de clareza, depois dos altos e baixos. Uma intuição forte, um desejo persistente.  Às vezes a gente errou mesmo, não tem jeito. Aí então é melhor colocar o rabo entre as pernas e voltar sem muitos dramas. Seleção equivocada. Essa conversa de “não me arrependo de nada que fiz na vida” é uma balela. É só uma frase repetida sem reflexão por egos frágeis. A gente se arrepende sim. 


Na história da humanidade, sabemos, o erro pode levar a um grande achado. A penicilina, por exemplo, foi descoberta por causa de um vacilo de Fleming, uma situação imprevista. Ou seja, podemos aprender, e muito, com o erro. Basta que exista abertura para mudar o ponto de vista. O lugar de onde olhamos um evento nas nossas vidas faz toda a diferença.


Nesse momento também é bom levar em conta que o conceito de certo e errado está atrelado a nossa forma de pensar, algo construído durante anos e com o respaldo da sociedade em que vivemos. Mas será que o “erro” é realmente um erro? Será que o “certo” é mesmo uma certeza?


O ideal é que possamos escolher sem pressões, calmamente, podendo dar uma “visada” no futuro e vislumbrando como ficaria nossa vida indo pelo caminho A, pelo caminho B, ou permanecendo. Pois permanecer, insisto, também é uma escolha.


Veja lá o que vai fazer na próxima bifurcação. Disso depende o seu bem-estar, a sua tranquilidade física, emocional e mental no futuro.


E depois de feita a opção, proteja seu caminho, seja ele feito de flores ou de pedras. Proteja as margens. Encerre os tijolos. Regue as rosas. E segure firme nas mãos de quem vai junto.





Zoe de Camaris



17 de abril de 2009

NANAINA!


3 de copas/Housewives Tarot

Ela disse "Nanaina". Minha filha de 6 meses falou. Certo, é o tatibitati, o gugu-dadá. Mas convenhamos, é uma palavra de três sílabas! Fiquei o dia inteiro com a palavra ressoando na cabeça: Nanaina. O que será isso? Foi na sua segunda refeição, a sopinha de legumes. Nanaina será "não"?

Em Minas Gerais, mais especificamente em Ouro Preto, os nativos dizem: "Nénãonénadanénão", bem rapidinho. Três negativas substituindo uma palavra de uma só silaba, a mais contundente da nossa língua portuguesa: "NÃO" O glifo "n" supõe a idéia de negativa, assim como no glifo "m" percebe-se a presença da mãe. Isso parece ser universal.

Mas o que será Nanaina? Lembro então de Alice (Através do espelho) e o famoso diálogo da protagonista com Humpty Dumpty:

— Não sei o que você quer dizer com essa palavra — disse Alice. Humpty Dumpty sorriu com ar de desprezo.
— Claro que não sabe, até eu lhe explicar... Quando uso uma palavra — disse Humpty Dumpty, num tom desdenhoso — ela significa exatamente o que eu quero que ela signifique, nem mais, nem menos.
— A questão está em saber — disse Alice — se você pode fazer com que as palavras tenham significados diferentes.
— A questão está em saber — disse Humpty Dumpty — quem é que manda.



E quem manda? A bebê, a inventora da palavra, detendora do seu significado? Mas ela não pode (ainda) me dizer o que significa. Eu, no papel de toda poderosa, que posso tentar traduzir a palavra ou encaixá-la nisso ou aquilo? Ou o contexto em que a palavra apareceu? Quem manda?

Nanaina pode ter a ver com "nenê". Ou com "ninar". Mas ela estava em pleno processo de iniciação do seu paladar, eis o contexto. Nanaina deve ser algo como "puxa que gosto estranho tem isso, não quero não".

Por via das dúvidas, Nanaina não quer dizer nada. Ou quer dizer tudo. Hoje, pra mim, tudo é Nanaina. A palavra não pára de martelar.

Com crianças, a aprendizagem acontece em duas vias. Elas aprendem, mas nós aprendemos mais ainda. E pelo jeito, ó jardim das delícias, a viagem começou! Primeira aula de Semântica. Ainda vamos ler muito juntas, menininha!


Nanaina pra todos vocês, seja lá o que isso signifique,

Zoe

p.s. : o 3 de copas, já ia me esquecendo, pode significar um nascimento. Para Crowley, o planeta Mercúrio, nesta lâmina, encontra-se em Câncer. O que pode presidir o nascimento das palavras.