29 de junho de 2011
Curso de Tarot
18 de março de 2011
Curso de Tarot em Curitiba
11 de março de 2011
Kamelia e a Borra do Café
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| Aí está o meu oráculo. Alguém se arrisca a interpretar? |
8 de março de 2011
O AMOR EM DIÁLOGO
Mas o diálogo de que falo aqui é outro, aquele que vai além de uma conversa com o espelho, a fala da vaidade, a verborragia hemorrágica da exibição. Falo da abertura do coração e do verdadeiro interesse que nasce em relação ao outro. "O que você pensa, o que você vive, o que você sabe me interessa diretamente e é demonstrado". Da arte do diálogo no Amor, quando quase tudo que se vê é um monólogo incessante que vai num crescente chocar-se com os céus a espera do raio. * na imagem, Abelardo e Heloísa.
17 de setembro de 2010
Rainha do Lar? Só sendo Rainha de Ouros.
Observem pelo caleidoscópio. Lucy in the sky with diamonds. Ou Poikilóthron. Afrodite sentada no trono dourado lançando raios irisados para todos os lados. Porque é isso a mulher. Toda a diversidade.
Se usar contra mim a força da Rainha de Paus, meus sentimentos entram em pane - o que só dá vazão a uma Rainha de Espadas mal-humorada. Uma chata. Rápida com as palavras e argumentos, pole position ou nada. Posso esquentar e fazer gritaria. Ou gelar tudo e virar a malvada Rainha das Neves. Melhor nem comentar... E nessa hora é recomendável que ninguém deixe nada fora do lugar. E eu repenso se devo ou não voltar para a Análise.
Mas meninas, ao mesmo tempo... Estender roupas no varal pode ser uma atividade criativa (ironias a parte). O prazer em coar o café pela manhã é impagável. O panorama que avisto da minha casa, a enormidade de árvores, os pássaros (neste fim de semana, uma gralha-azul. Dias atrás, um tucano de bico verde)... Sim, há estética. Há beleza. E a beleza, sendo Copas, convulsiva ou relativamente ordenada pelas Espadas, é essencial. Luz. Não quero morar num apa(e)rtamento, que tantos falam ser mais simples. Por isso, esfrego a calçada se imprescindível. Mas não hesito em deixar que o jardim seja tomado por dentes-de-leão. Assopro a florzinha de vento e chamo por soluções. A Imperatriz é Mãe e A Sacerdotisa, bruxa.
Por falar em bruxas, alquimias só em momentos especiais e para minha bebê. Consigo escapar da ditadura alimentar. Me viro com nozes, saladas, azeites, grãos. Quem encosta o tanquinho no fogão é meu marido. Mas aí ninguém escapa das frituras, da maionese, de misturas incompreensíveis. Minha frugalidade não compreende o excesso. Claro que me preocupo com a manutenção do(s) tanquinho(s), mas não há outra saída. Se eu resolver cozinhar, não faço mais nada da vida.
A casa é uma empresa. E quem mantém essa empresa funcionando sou eu, a administradora de Ouros. Trabalhar em casa, trabalhar fora de casa, pagar as contas, dividir quando dá, marcar horas no médico, correr pra lá e pra cá, receber os amigos, fazer visitas, cuidar de três filhas, cada uma com suas particularidades e idades diferentes, dar comida para o cachorro, lembrar dos dias do lixo reciclável e do não-reciclável, escutar as mazelas do jardineiro, levar criança ara escola, pegar na escola, sacudir a mamadeira, apagar as luzes, conferir as portas, namorar e enfim dormir depois que todo mundo já está acomodado, não necessariamente nessa ordem mas quase isso. Socorro! Eu e outras mil donas-de-casa, miríades de mulheres espalhadas pelo mundo. Antigamente, nem tínhamos nossos nomes em lápides. Somos um arquétipo.
A verdade é que depois de bastante tempo consegui unir lá do meu jeito as Rainhas. Nunca estão bem equilibradas, é verdade, mas a variação faz a vida ficar colorida. Tons de vermelho vivo e verde-limão. Outra hora, cores delicadas. Ou o dia indo embora e tingindo de azul-incompreensível o céu.
E quando dou sorte, um pouco de Poesia.
p.s.: esse post faz parte de uma blogagem coletiva proposta por Luciana Onofre e Pietra de Chiaro Luna.
12 de agosto de 2010
BE-A-BÁemBABEL

Դուք չեն հասկանում,
Գրեթե ոչինչ, թե ինչ եմ ասում
Ես ուզում եմ հեռանալ
Ես պարզապես ուզում եմ դուրս գալ
Եվ ուզում եմ գալ ինձ հետ
- Não entendi.
Που δεν καταλαβαίνετε
Σχεδόν τίποτα από αυτά που λέω
Θέλω να πάω μακριά
Θέλω απλώς να βγούμε
Και θέλω να έρθεις μαζί μου
- Bem, o que posso dizer?
तुम समझते नहीं
मैं क्या कह के लगभग कुछ भी नहीं
मैं दूर जाना चाहता हूँ
मैं तो बस बाहर निकलना चाहता हूँ
और मैं तुम्हें मेरे साथ आना चाहते हैं
- Melhor ficar quieto.
Ви не розумієте,
Майже нічого, що я кажу
Я хочу піти
Я просто хочу вийти
І я хочу, щоб ти поїхала зі мною
- Eu preciso contar o que vi agora há pouco.
Ez duzu ulertzen
Ia zer esan ezer
urrun joan nahi dut
nahi dut atera
Eta nirekin etorri nahi duzu nahi dut
- Besteira, isso já passou.
You do not understand
Almost nothing of what I say
I want to go away
I just want to get out
And I want you to come with me
- Eu não entendi nada.
Vous ne comprenez pas
Presque rien de ce que je dis
Je veux m'en aller
Je veux juste sortir
Et je veux que tu viennes avec moi
- Nem eu.
Você não está entendendo
Quase nada do que eu digo
Eu quero ir-me embora
Eu quero é dar o fora
- Agora?
Zoe
3 de abril de 2010
Sábado de Aleluia

A malhação de Judas

Wirth



Minchiate
Zoe
12 de janeiro de 2010
TAROT LÍQUIDO


LE BATELEUR/TYSON BALLOU
Notas de saída: Cardamomo, grãos de junípero, folhas de bétula
Notas de coração: Acordes aquáticos, coentro
Notas de fundo: Vetiver, cedro branco, resina de olíbano
Aromático e amadeirado

L'IMPERÁTRICE/NAOMI CAMPBELL
Notas de saída: Ruibarbo, groselha, suco de kiwi
Notas de coração: Ciclâmen rosa, toques de melancia, pétalas de jasmim
Notas de fundo: Notas de almíscar, madeira de sândalo, madeira de pomelo
Frutal floral

LES AMOREAUX/NOAH MILLS
Notas de saída: Bergamota, grãos de junípero, pimenta rosa
Notas de coração: Cardamomo, folha de bétula, raiz de lírio
Notas de fundo: Notas de almíscar e acordes de lenha
Oriental amadeirado

LA ROUE DE LA FORTUNE/FERNANDO
FERNANDES E EVA HERZIGOVA
Notas de saída: Pimenta rosa, acordes verdes, abacaxi
Notas de coração: Tuberosa, gardênia, jasmim
Notas de fundo: Baunilha, raiz de lírio, benjoim, patchouli
Oriental floral

LA LUNE/CLAUDIA SCHIFFER
Notas de saída: Maçã, bergamota, acordes verdes
Notas de coração: Lírio, rosa, tuberosa
Notas de fundo: Raiz de lírio, couro, sândalo, almíscar
Floral fresco
De qualquer forma, vale pena dar uma sentida na coleção. E para quem quiser conhecer a campanha publicitária, aí vai o link do n°6, escolhido para figurar aqui por motivos óbvios.... A beleza perfeita de Noah Mills. Esse homem não precisa de perfume. Se cheirar estraga.
22 de novembro de 2009
A cor da consciência

Há mulheres que se chamam Alma, mulheres assombração caminhando na noite negra, lá onde pia a coruja. E de dia, onde o sol visita, a pele negra é lua na areia.
Não há bem ou mal. Apenas há. Nada é completamente negro, nada é completamente branco. Nem o petróleo, nem o omo total (que é azul).
O assunto das polaridades andou vindo à baila aqui em casa por isso o assunto. De pano de fundo, o Dia da Consciência Negra casou com a conversa, mais o Malcom X que depois passou na televisão.
Afinal, existem pessoas boas e/ou pessoas más? Minha visão pagã e politeísta da vida não aceita bem isso. Creio que o bem nunca é completamente bom e nem o mal é completamente mau. Não acredito na pureza dos extremos a não ser abstraindo, para efeito retórico e de discussão. Tudo se interpenetra na vida que se abre aos nossos sentidos, no mundo físico. A natureza não conhece o bem e o mal, nós é que a julgamos assim através de nossos estreitos parâmetros, do nosso ponto de vista limitado. Um raio é mau? Uma marola é boa? Pra quem? Não é o homem umas das traduções da Natureza?
Coisas más acontecem às pessoas boas (e vice-versa) é uma frase ridícula. Nem a coisa é tão má assim e nem a pessoa é completamente boa. E que coisas não tão boas acontecem a pessoas não tão más é fato corriqueiro. Estou sendo radical? Sim, sou radical quando afirmo que a radicalidade pura e extrema é impossível, ainda mais quando se trata do bem e do mal. Aqui neste planeta terra o claro não sobrevive sem o escuro. E nem o escuro prescinde do claro.
Mas o foco da conversa era sobre gente má e gente boa... Meu pai sempre repetia a frase de Oscar Wilde, que por sua vez vivia sendo repetida pelo meu padrinho: "Paira algo de nefasto sobre as boas intenções". Frase difícil, cria uma sensação de paradoxo na mesma hora. Como assim...? Hã...? Mas puxa, o cara não foi bom, a intenção não era louvável? Pois é. Resta saber se tem algo de bom na inveja, no rancor, na raiva. Tudo tem a sua razão de ser. É só assistir um filme no qual o herói é o bandido.
Disse Alberto Caieiro:
Louvado seja Deus que não sou bom,
E tenho o egoísmo natural das flores
E dos rios que seguem o seu caminho
Preocupados sem o saber
Só com o florir e ir correndo.
É essa a única missão do Mundo,
Essa - existir claramente,
E saber fazê-lo sem pensar nisso.
Black pode ser beautiful. White pode ser beautiful. Em Ouro Preto (cidade de duas cores) eu descia uma ladeira enquanto subia um homem de cor negra com uma camiseta branca onde se lia escrita: 100% NEGRO. Pensei que poderia estar ladeira abaixo com uma camiseta preta onde se leria: 100% BRANCA. Seria linchada, claro, como nazista. Sou uma perfeita representante da raça ariana. Represento o opressor e não posso usar uma camiseta como a que falei. Pois lembraria a todos, com minha camiseta que o mundo é muito desigual.
A alma não tem cor. Ou tem todas as cores. Pode ser xadrez.
Agora, a consciência tem cor sim. É verde. Da cor do Grilo Falante.

Zoe
4 de agosto de 2009
Como me sinto quando me apaixono
Abraços,
Rodrigo Garcia Lopes
De cara, me vem a frase de Rimbaud: na paixão, "eu é um outro". Ou penso no que costuma dizer um amigo: o fim da paixão coincide com a descoberta de que "um é pouco, dois é muito". A paixão, antes, era uma promessa de felicidade. Hoje, desconfio que antes eu não me sentia: as coisas é que começavam a sentir, a sofrerem em mim. A memória de um rosto ou de uma voz é o que me deixava sentindo, sentindo. Sobretudo a memória de uma presença, ou aquilo que os antigos chamavam de musa. Pois só uma musa é capaz de despertar essa música em nós, essa irmã da paixão chamada poesia, e que nos leva a escrever coisas "sem sentido" como: "Imprimo em seus lábios lírios & jasmins / primícias de cetim em toques de neve / mixo a ti e a mim nesses senfins / gravo na boca o cheiro bom do cravo. / Nenhuma nóia a nos tocar se atreve. // Ligado, digito os terminais dos teus sentidos / Regulo o foco do deleite, chupo teus bits & bytes, / Quando a aurora goza um sono rosa, Danaê, acredite: / com sentidos assim, quem precisa de inimigos? [...]. Sim, a paixão é uma mulher de olhos invisíveis.
Dizer que a paixão implica em perda da razão não parece correto. Talvez seja mais apropriado dizer que a paixão carrega uma outra razão. A paixão, para mim, é como a leitura de um poema. Ou nos arrebata ou não é poesia. Nem paixão. A paixão é como uma palavra, num poema, uma palavra que busca uma rima. Quando duas palavras se beijam, nasce a poesia. Para mim, a paixão tem a ver com aquela "realidade ficcional" na qual estamos imersos quando lemos um romance: uma suspensão temporária do descrédito do mundo e do outro. Mas, antes que acabe, "posto que é chama", pintam os sintomas: insônia (pensa-se naquela pessoa), suores e tremores nas mãos (pensa-se naquela pessoa), enfim, dispara-se um mecanismo mental obsessivo (pensa-se naquela pessoa). A paixão é patética (palavra-irmã de paixão). Pateta é a pessoa apaixonada. Um marmanjo passa a se comportar como um adolescente. Não há como escapar.
A paixão, como a poesia, não tem muito sentido num mundo regido cada vez mais por valores como Mercado e Sucesso. Pois a paixão não é um valor: ela é um bem, um talento, uma espécie de reserva ecológica da sensibilidade. Em nossos dias, a paixão virou artigo de luxo. A arte de padecer por um amor está se tornando tão exótica quanto a poesia, uma arte mais e mais restrita a iniciados, como o foram a falconaria, a numismática, a filatelia. Pois para o que serve esse negócio que nos acossa, nos deixa em estado de transe, de sítio, de alerta, de poesia? Nesses nossos dias velozes e superficiais, ninguém parece ter mais tempo para o tempo que a paixão exige. O mundo deveria se adaptar à paixão, e não o contrário.
Apesar de já termos visto e vivido o filme da paixão, o fascínio que o outro pode exercer em nós nos faz cair, como patos, nessa lagoa que os gregos chamavam de... pathós: sofrimento. Parece que se a paixão não carrega este componente de dor, não é paixão. Lembro, em cenas que hoje fazem parte definitiva de minhas amnésias afetivas, que a ausência da pessoa pela qual estava apaixonado provocava em mim os mais estranhos pensamentos. Hoje penso que essa projeção é a de nossa própria imagem. Como tentar agarrar o próprio reflexo num espelho, como no mito de Narciso. E tem outro problema: a paixão sonha eliminar a solidão, o que é uma impossibilidade. E é bom mesmo que "seja eterno enquanto dure": nossas expectativas em relação à pessoa-objeto de nossa paixão são quase sempre inatingíveis. Pois mesmo que apaixonar-se seja uma forma de "dor elegante", como diria Leminski, implica uma situação de estresse emocional e afetivo que nenhum ser humano pode suportar por longos períodos, sob pena de enlouquecer, e aí não seria mais paixão. Pois a paixão é um pensamento são num mundo insano. Quanto dura o filme da paixão? As personagens mudam, a paixão, não. Para mim, a paixão é como um daqueles paraísos perdidos: Mu, Atlântida, Agartha, Shambala, praia de Dido. Vê, já estou apaixonado e falando coisas sem sentido.
Rodrigo Garcia Lopes é escritor, poeta, jornalista, tradutor (Sylvia Plath, Rimbaud, Whitman, Laura Riding) e compositor, autor do CD de música e poesia Polivox, e dos livros de poemas Solarium, Visibilia, Polivox, Nômada. É um dos editores da revista Coyote e autor do blog http://www.estudiorealidade.blogspot.com/
23 de maio de 2009
Sim, sumi. Sumi porque a experiência de desaparecer ainda me é estranha. De repente lá vem ela - fatídica - e ceifa a grama aos seus pés. Vai sumindo com as gentes e é simples assim. Uma sucessão de cortes: Bruxursinha, meu pai, Leon Kaplan, um primo de primeríssimo grau e agora o Zé Rodrix. Todos novos novíssimos. Meu coração parece que virou peneira de bandido. Minha cabeça fica dando voltas. Outra noite, insone, e me peguei na sala, cismando. Acendi um Luck, rodei o dicionário de símbolos num gesto bibliomântico e lá estava: esfinge, máscara, petrificação. Sua face se mostrando na pior penumbra, no mundo do gelado. Arrepio. O momento do calafrio fatal. A Morte.
Falar o quê? É o que todos dizem. Meus Sentimentos. Gosto do lance dos sentimentos porque não entendo bem o peso dos pêsames. Mas mesmo assim, falar deles não significa nada numa hora em que tudo fica sem sentido. É um corte na noção de tempo, do corpo ocupando um espaço. De quantos lugares habitam as almas no ar, no céu.
Um amigo, em rápida menção me disse: - E se somos as ínfimas partículas da água rolando na crista das ondas? Me soou belo, grandioso e patético. Bem resolvido demais. Antes de chegar a gotícula, há que se compreender que Cavalo move a Morte num tabuleiro: Agora, seu nome é Xadrez.
Sempre sonhei com quem se vai desse em mundo em preto e branco. Resta-me as cores no mundo dos vivos e isso não é pouca coisa. Mas eles me parecem pálidos, os que se foram, como num filme antigo. E não é sépia não, é preto e branco mesmo.
Penso que a Morte vem assim num zuuuuuuuum, dá no ouvido da gente crescendo e crescendo - quando se viu já era. Viagem, essa que empreendemos sempre virgens. Mas para isso, há um percalço curioso: Dormimos todos os dias pois, caso assim não fosse, quando a Morte chegasse seríamos surpreendidos em uma porrada incontida, uma explosão de nêutrons, um cruz-credo avassalador.
Vamos lá todos em fila, que nem os anões da branca-de-neve com seus travesseiros, agarrados no quentinho para nos garantirmos. Enquanto estivermos cativos do calor tá tudo bem. Dá pra deitar na cama e ficar ali parado em semi-inércia. Coisa estranha é dormir. Sua normalidade me choca.
Dormimos para nos acostumarmos com a chegada da Implacável. E sonhamos. Nos sonhos, toda uma vida - vias, desvarios, veias em viés. Vida onde transitam aqueles que se foram mas não partiram. Em algum lugar, eles não se partem. Ficam. Deve ser dentro do coração.
Quando aparece alguém que eu não conheço nos meus sonhos, sei que é a figuração de uma alma. Eu poderia até arriscar uma interpretação pseudo psicanalítica, mas não vou perder tempo agora: a Morte não faz Nove Horas.
Então, quando a Inominável, vem - inominável sim, mas com o número bem certo - entramos para sempre no mundo dos sonhos, é a verdade inegável. Somos para sempre o que sonhamos.
Passar manteiga no pão precisa ser uma experiência sublime, não acham?
4 de maio de 2009
ESTADO DE ESPÍRITO

mais puro que o vôo da corda
mais corda que a vida do vento
mais vento que a asa da lira
mais lírica que a prosa da pétala
mais pétala que a pluma dos dias
mais dias que o desejo do tempo
mais tempo que o acorde de sol
mais sol que a vontade de chuva
mais chuva que a sede de água
mais água que o verde da uva
mais uva que o veludo da veia
mais veia que a calda da lava
mais lava que a terra do fogo
mais fogo que a língua na boca
mais boca que a fome no corpo
mais corpo que a dança do sangue
mais sangue que o ouro da pedra
mais pedra que estátua de seda
mais seda que sonho de mel
mais nuvem que rosas no céu
mais céu que o fundo do azul
mais azul que os olhos de deus
Monica Berger
28 de abril de 2009
PROTEJA SUA ESCOLHA

Outro dia, uma consulente refletia sobre um relacionamento que tinha ido por água abaixo e sua dificuldade em abrir mão desse amor, me disse de forma enfática: “Eu protejo as minhas escolhas”. A frase me pegou. Já tinha pensado sobre a questão, mas nunca tinha escutado a ideia expressa assim, de forma tão pontual.
Sim, proteger as nossas escolhas. A gente demora tanto tempo para decidir entre uma coisa e outra! Pesa prós e contras, encara as oscilações da balança... deixa de lado um caminho conhecido, confortável por uma rota desafiadora.
Noutras vezes, é preciso ser mais radical: ou muda-se de vida ou muda-se de vida. Sem saída: aquilo que nos dá absoluta segurança vai dançar. Não há garantias. Respira-se fundo, levanta-se a cabeça e: “Eu vou”. Mas vai pra onde?
E aí começa o processo de pesagem. Não raro, alguém sai magoado. Os mortos e os feridos. Sem esforço não há crescimento. E existem os sacrifícios, os desapegos. Coisas que a gente não quer largar. Como ir pra frente sem olhar pra trás? Pois é. Mas não tem jeito, a decisão precisa ser tomada. E depois disso, só há o futuro. Não dá pra voltar.
Proteger as nossas escolhas. É o justo, depois da coragem de colocar todas as fichas na mesa. Tanto trabalho não pode ser jogado fora assim, com uma marcha-ré na primeira dificuldade. Há que se proteger a possibilidade calculada, refletida, pesada na balança nem sempre equilibrada da vida. A escolha nem sempre é livre (somos fruto de condicionamentos), mas em última instância, é sempre nossa. Quem diz que não teve escolha, escolheu não escolher. Mas escolheu.
Proteger nossa opção é um ato de amor. Uma questão de respeito para consigo mesmo. É ruim olhar-se no espelho pela manhã e dar de cara com alguém que não pode manter sua palavra. E saber que essa pessoa é você. É, ainda, um ato de amor para com os outros – aqueles que ficaram no passado e aqueles que fazem parte agora, do nosso presente. Por isso a importância de deter-se com atenção frente à encruzilhada e discernir com tempo e critério o novo rumo.
É claro que, vez ou outra, há arrependimento. Normalmente isso acontece quando nos deixamos pressionar e decidimos antes chegar a um veredicto profundo. Ou quando a nossa escolha se destina a satisfazer a alguém que não a nós mesmos. É difícil agradar gregos e troianos.
Toda escolha acertada exige centramento. Momentos de clareza, depois dos altos e baixos. Uma intuição forte, um desejo persistente. Às vezes a gente errou mesmo, não tem jeito. Aí então é melhor colocar o rabo entre as pernas e voltar sem muitos dramas. Seleção equivocada. Essa conversa de “não me arrependo de nada que fiz na vida” é uma balela. É só uma frase repetida sem reflexão por egos frágeis. A gente se arrepende sim.
Na história da humanidade, sabemos, o erro pode levar a um grande achado. A penicilina, por exemplo, foi descoberta por causa de um vacilo de Fleming, uma situação imprevista. Ou seja, podemos aprender, e muito, com o erro. Basta que exista abertura para mudar o ponto de vista. O lugar de onde olhamos um evento nas nossas vidas faz toda a diferença.
Nesse momento também é bom levar em conta que o conceito de certo e errado está atrelado a nossa forma de pensar, algo construído durante anos e com o respaldo da sociedade em que vivemos. Mas será que o “erro” é realmente um erro? Será que o “certo” é mesmo uma certeza?
O ideal é que possamos escolher sem pressões, calmamente, podendo dar uma “visada” no futuro e vislumbrando como ficaria nossa vida indo pelo caminho A, pelo caminho B, ou permanecendo. Pois permanecer, insisto, também é uma escolha.
Veja lá o que vai fazer na próxima bifurcação. Disso depende o seu bem-estar, a sua tranquilidade física, emocional e mental no futuro.
E depois de feita a opção, proteja seu caminho, seja ele feito de flores ou de pedras. Proteja as margens. Encerre os tijolos. Regue as rosas. E segure firme nas mãos de quem vai junto.
17 de abril de 2009
NANAINA!
Ela disse "Nanaina". Minha filha de 6 meses falou. Certo, é o tatibitati, o gugu-dadá. Mas convenhamos, é uma palavra de três sílabas! Fiquei o dia inteiro com a palavra ressoando na cabeça: Nanaina. O que será isso? Foi na sua segunda refeição, a sopinha de legumes. Nanaina será "não"?
Em Minas Gerais, mais especificamente em Ouro Preto, os nativos dizem: "Nénãonénadanénão", bem rapidinho. Três negativas substituindo uma palavra de uma só silaba, a mais contundente da nossa língua portuguesa: "NÃO" O glifo "n" supõe a idéia de negativa, assim como no glifo "m" percebe-se a presença da mãe. Isso parece ser universal.
Mas o que será Nanaina? Lembro então de Alice (Através do espelho) e o famoso diálogo da protagonista com Humpty Dumpty:
— Não sei o que você quer dizer com essa palavra — disse Alice. Humpty Dumpty sorriu com ar de desprezo.
— Claro que não sabe, até eu lhe explicar... Quando uso uma palavra — disse Humpty Dumpty, num tom desdenhoso — ela significa exatamente o que eu quero que ela signifique, nem mais, nem menos.
— A questão está em saber — disse Alice — se você pode fazer com que as palavras tenham significados diferentes.
— A questão está em saber — disse Humpty Dumpty — quem é que manda.
E quem manda? A bebê, a inventora da palavra, detendora do seu significado? Mas ela não pode (ainda) me dizer o que significa. Eu, no papel de toda poderosa, que posso tentar traduzir a palavra ou encaixá-la nisso ou aquilo? Ou o contexto em que a palavra apareceu? Quem manda?
Nanaina pode ter a ver com "nenê". Ou com "ninar". Mas ela estava em pleno processo de iniciação do seu paladar, eis o contexto. Nanaina deve ser algo como "puxa que gosto estranho tem isso, não quero não".
Por via das dúvidas, Nanaina não quer dizer nada. Ou quer dizer tudo. Hoje, pra mim, tudo é Nanaina. A palavra não pára de martelar.
Com crianças, a aprendizagem acontece em duas vias. Elas aprendem, mas nós aprendemos mais ainda. E pelo jeito, ó jardim das delícias, a viagem começou! Primeira aula de Semântica. Ainda vamos ler muito juntas, menininha!
Nanaina pra todos vocês, seja lá o que isso signifique,
Zoe












