31 de março de 2009

Zush Tarot


Porta-Zush-Evru/Ivlod, 2006.


Tem gente que diz que o Tarot é brega. Dá até pra entender... A cartomante e sua bola de cristal (de vidro), o anúncio no portão de casa com erros de português, as mesmas frases feitas (de efeito), enfim, a leitura de cartas tem essa cara desde que nos entendemos por gente. A televisão, essa divulgadora de "cultura", se esmera em perpetuar o lance. Nada contra o popular, grande manancial de loucuras, mas a postura dos meios de comunicação deixa tudo ainda mais caricato. Além do que não se deve confundir o Tarot, conjunto de cartas, com o uso que se faz dele.

Quando comecei com essa parada de estudar o Tarot (ó ignonímia, ó infâmia), meus amigos intelectuais, escritores e artistas, torciam o canto da boca, pra lá de bestas. Na Universidade então, nem se fala: -"Lá vai a louca do Tarot. Sim, porque além do gosto duvidoso, ainda não bate bem da bola", era isso mesmo o que pensavam. Bem, depois de um tempo passaram a rever este ponto de vista, creio. Durante os três anos que passei na pós-graduação, dando aulas e participando de congressos e seminários, muita gente descobriu do que se tratava o Tarot: uma máquina narrativa, uma galeria de imagens inigualável, um arcabouço aberto para o estímulo imaginativo. E do que trata a Arte, senão da imaginação?

E o que dizer de caras como o cineasta Alejandro Jodorowsky, o artista plástico Xul Solar, o poeta T.S. Elliot, o escritor Italo Calvino? Aí, então, a coisa muda radicalmente de figura. Dizem os pseudo-doutos: -"Se eles gostam, bem..." Ah, a ignorância esnobe é mãe de todos os males. E faz parte da nossa cruzada tarológica indicar o Tarot e revalidá-lo como um sistema de linguagem universal, muito além da prática divinatória - que também é importante, embora não baste para esgotar seu enorme poder catalisador.

Todo esse tre-le-lé porque achei outra figura incrível que trabalhou o Tarot numa etapa da sua trajetória: o artista espanhol Zush, de batismo Albert Porta, e que em 2001 trocou seu nome para Evru. Esse catalão-camaleão que já inventava moda em 1964 foi pego com substância ilegais em 1968 e conduzido a um hospital psquiátrico. É ali que muda seu nome para Zush, palavra sussurrada por um colega do Frenopático de Barcelona, e cria sua primeira exposição individual, "Alucinações", que já continha sementes da sua simbologia e iconografia, posteriormente desenvolvidas. Na década de 70, Zush apresenta obras significativas e de grande formato : De Jude a Nasha, onde figuras de silhuetas femininas realizadas com spray destacam pontos ou centros que, unidos, formam uma classe de constelações eróticas flutuando em espaços vazios. Essa "sexologia astral" terá como base iconográfica as cartas do Tarot que o artista converterá em referência capital de sua própria simbologia, "em seu constante questionamento da arbitrariedade que existe em toda linguagem", como traduzi de um artigo da Fundação Suñol, que agrega a maior parte das obras de Porta-Zush-Evru.

Procurei onde pude mais referências visuais, em especial as que concernem ao Tarot, e encontrei os seguintes conjuntos de lâminas:













E agora, com uma lente de aumento, vou brincar de identificar os rastros do nosso Tarot cruzadas com simbologia e iconografia individual de Zush. Outro dia, mais notícias.

Zoe
Links para conhecer melhor o trabalho do artista:
Tecura
Galeria Fernando la Torre

24 de março de 2009

AO MENOS ACENDA UMA VELA





"(...) a chama, dentre os objetos do mundo que nos fazem sonhar, é um dos maiores operadores de imagens. Ela nos força a imaginar. Diante dela, desde que se sonha, o que se percebe não é nada, comparado com o que se imagina. Ela traz consigo um valor seu, de metáforas e imagens, nos domínios das mais diversas meditações." (Bachelard, 1989)


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6 de março de 2009

Rainhas: Qual é a sua?


Mulheres são seres múltiplos, irisados. Nosso reino é um arco-íris. Somos uma e somos todas ao mesmo tempo. Mas existem certas características que saltam aos olhos. Normalmente, combinamos pelo menos duas das Rainhas, é muito difícil encontrar um tipo “puro”. A terceira está escondida e a última, renegada. A Rainha escondida mostra a idealização que você tem de si mesma, mas que não traz à tona facilmente. É aquela que você gostaria de ser, mas não consegue ou tem motivos para deixar quieta por um tempo. Já a Rainha renegada, aparece por breves momentos de intempérie criando uma confusão na auto-imagem e funcionando como Sombra – aquilo que você mais detesta em outras pessoas e que não reconhece possuir. Conhecê-la é o primeiro passo para uma maior integração de suas Rainhas. O mais importante aqui é observá-las, observar-se, e fazer uma auto-análise. Você irá facilmente descobrir sua combinação básica. São as duas Rainhas mais “simpáticas”, aonde você encontra mais facilmente suas características. A escondida é aquela que você admira, mas deixa quieta. E a renegada mostra o tipo de mulher que você se sente mais distante, a que não “agüenta”, aquela com quem implica, a “antipática”.

Onde você se encontra?


R A I N H A_D E_P A U S




É a Dama do Fogo. Suas cores são o vermelho, o laranja, o branco. Gosta de pouco pano sobre o corpo, mas abusa de lenços e fitas. Tecidos que imitam a textura e a estampa de peles é com ela mesma. A forma física é ágil, provavelmente magra, e adora tomar sol. Tem preferência por esportes radicais Não dá muita atenção aos detalhes e miudezas, prefere adornos grandes e sente-se muito à vontade perto da natureza, mar e floresta. Seu cabelo é rebelde como uma chama. Ela o assume completamente, crespo, liso ou ondulado e gosta de mantê-los soltos. Sua espontaneidade seduz. Sente-se muito bem de cabelos avermelhados, castanho acobreados, tons dourados. Sua cozinha não existe sem pimenta e temperos condimentados. Tem a índole forte e é auto-suficiente. Sua libido é de alta voltagem, é uma mulher que respira fundo e vai em frente. Normalmente, não pensa antes de agir. E adora ocupar o centro das atenções. É muito divertida, mas quando está brava, cuidado! Explosões à vista: é uma mulher “bomba-relógio”. Extrovertida, fala o que lhe dá na telha e depois se arrepende. Ou não. Os maiores defeitos são a impaciência e o excesso de vaidade. Suas palavras-chaves são Inspiração e Criatividade. No amor, é apaixonadíssima e tem dificuldades em manter um relacionamento estável. Seu tipo psicológico é o Intuitivo. Seu temperamento, segundo a classificação de Hipócrates, é o Colérico. Seu castelo Elemental, o das Salamandras. Sua Deusa é Ártemis e seu Reino, o da Lua Nova.


R A I N H A_D E_C O P A S



É a Dama da Água. Suas cores são os azuis e verdes delicados, os rosados, os tons pastéis. Seus trajes são clássicos e com um toque floral-romântico. É a encarnação da feminilidade, no sentido tradicional do termo. Seu corpo de formas mais arredondadas fica bem com rendas, pérolas, túnicas e sedas. Gosta de formas curvas nos cintos e bijuterias. Prefere manter a brancura da pele e abusa de chapéus e lenços durante o dia. Quando vem a lua, ela resplandece, brilha no escuro. Aprecia jardins, riachos, quedas d'água, noites estreladas. Seus cabelos macios, sejam claros ou escuros, caem como uma cascata estejam presos ou soltos. Seu temperamento é suave. Sua índole, amorosa, sonhadora, nostálgica, idealista, utópica. Seduz pelo mistério. Os maiores defeitos são a indecisão e a falta de confiança. Sua palavra-chave é Harmonia. Introvertida, é a mais chorona das Rainhas e mal dignificada faz com que a mulher, não raro, sofra de autocomiseração, seja dada a chantagens emocionais e sofra com medos infundados. Gosta muito de crianças e da idéia de ter filhos, mas no amor prioriza o carinho e o romance. Mesmo casada é uma eterna namorada. Seu tipo psicológico é o Sentimento. Seu temperamento é Fleumático. Seu castelo, das Ondinas. Sua Deusa é Afrodite e seu Reino é o da Lua Crescente.


R A I N H A_D E_E S P A D A S





É a Dama do Ar. Prefere os tons frios, os azuis celestes e cores metálicas. O acinzentado e o negro favorecem sua beleza de linhas retas. Seu corpo é elástico e flexível. Escolhe a simplicidade ao se vestir, é a mais austera das Rainhas e não abre mão de tecidos com o toque diferenciado e os sintéticos. Não se ressente com ambientes fechados, gosta de estudar e lê muito. É urbana. Se expressa muito bem escrevendo. Seu reino é do intelecto. Os cabelos costumam ter cortes retos e ela abusa dos coques e rabos-de-cavalo. É a tradução viva da palavra “elegância”. Para se alimentar é frugal e grande amante da comida japonesa. É justa e meticulosa. Não costuma dar muita vazão aos seus sentimentos - difícil tirá-la do prumo. Quando isso acontece lembra-se que a vingança é um prato que se oferece frio. Manipula intelectualmente através da grande rapidez de seus pensamentos, articulações e armadilhas. Encara batalhas mentais com desenvoltura e seduz pela inteligência. Introvertida, é discreta, mordaz e muitíssimo esperta. O maior defeito é a inquietude. Sua palavra-chave é Racionalidade. Gosta muito de ficar só, mas quando ama é pra valer. Seu tipo psicológico é o Pensamento. Seu temperamento, o Sanguíneo. Seu castelo, o dos Silfos, embora ela não acredite nisso. Sua Deusa é Atena e seu reino é a Lua Minguante. (Se quiser saber mais sobre a Rainha de Espadas, clique aqui).


R A I N H A_D E _O U R O S




É a Dama da Terra. Seus olhos preferem encontrar os tons dourados, os ocres, os marrons fortes, o verde-bandeira. Seu corpo lembra um tronco de árvore, ela é robusta e compacta, de ancas largas. No vestir alterna entre o despojamento de quem trabalha ao ar livre com a riqueza e opulência do ouro, anéis e brocados A Rainha de Ouros sabe como ninguém valorizar a roupa que veste. Gosta de jóias e adornos em profusão e não dispensa os coloridos. Adora festas. Ama as plantas e sente-se plenamente à vontade lidando com a terra, ela tem raízes. Com seu dedo verde, tudo que planta, vinga. Isso se repete na cozinha - seu pão caseiro sempre dá certo. Seus cabelos são de fios grossos e fartos. Tem o temperamento forte, extrovertido, mas constante. Os defeitos são o egoísmo e o pessimismo. Sua palavra-chave é Manutenção, mas vive intensamente o momento presente. Prática e sensata e seduz pela constância. Teimosa, é muito difícil demovê-la de seus propósitos. Quando fica brava pode ser grosseira. E mesmo que se arrependa não irá voltar atrás. No amor é tradicionalista, generosa, e não vive sem pimpolhos agarrados às suas pernas. Seu tipo psicológico é o Sensitivo. Seu temperamento é o Melancólico. Seu castelo, dos Gnomos. Sua Deusa é Deméter e seu Reino é a Lua Cheia.

* Caso deseje saber sobre os Tipos Psicológicos, faça o teste .


p.s.: O artigo sobre as Rainhas do Tarot foi originalmente publicado na Revista Personare.

p.s.2.: Se quer saber como consquistar um Rei, leia o artigo do Leonardo "Café Tarot" Chioda na Personare. Mas antes veja as deliciosas imagens dos Reis do Housewives Tarot no blog do Léo.

26 de fevereiro de 2009

Avatar e Trajestórias


Trajestórias

Um dia desses, acordei com uma idéia: pedir para alguém que me fizesse um avatar. Uma bonequinha Zoe. Tive uma menininha há quatro meses atrás e, claro, a gente sempre se reconecta com o mundo dos contos de fada, revistinhas e bibelôs. Pois bem, liguei para minha amiga Márcia Széliga, ilustradora renomada de livros infantis, artista plástica e escritora e encomendei a brincadeira. Ficou melhor do que eu poderia imaginar. Uma verdadeira BarbieZoe! Mas isso é apenas uma palhinha do que a Márcia faz se divertindo nas horas vagas. O trabalho dela é minucioso e inspirado - a última exposição, Trajestórias, foi um sucesso aqui em Curitiba.



Grata pelo brinquedo, Márcia!



Zoe

20 de fevereiro de 2009

Carnaval




Minha idéia de carnaval, um carnaval de sonho, inclui a máscara. Um objeto repleto de significados, beleza e mistério. Oculta para mostrar uma outra coisa. Que pode ser a nossa vontade (verdade?) mais secreta. Com a máscara dá-se vida a uma personagem, alguém que tem "outra" vida. E no carnaval lida-se de perto, bem de pertinho, com o inesperado. O que torna tudo muito excitante.

Bem, isso pra mim que estou longe (e assim desejo permanecer) dos axés & cia, BBBobagens e etc., e tenho uma visão romântica do negócio. Um carnaval em Veneza. Mas pode ser também em outra data e em outro lugar na Itália, num castelo com labirinto, por exemplo. Veste-se a mácara e... Plim! Como "il matto dei tarrochi" o mundo se abre para a fantasia. É O Louco e o 7 de copas. Com todas as colombinas, pierrots, arlequins e polichinelos que habitam o mundo dell' Arte. E aí se sonha acordado. Isso se você estiver com sorte, vai que o destino lhe reserva um olhar "diogomainardiano" embaixo da máscara... Já pensou?

O Tarot e o Carnaval. O mote é O Louco, claro. Ele, o Coringa que se interpõe em qualquer situação, que dança entre entre as cartas e mistura os caminhos. Única imagem que sobreviveu no nosso baralho comum, tamanha força arquetípica. Ele e o Rei. Momo.

O carnaval é um cortejo, assim como a sequência de cartas. Uma procissão profana, o triunfo de situações e alegorias. Rosa Magalhães, você nunca pensou nisso, depois Hans Christian Andersen? O Tarot é um carnaval de figuras, todas as vezes em que se embaralha as cartas e são dispostas, aleatoriamente. O tarólogo é aquele que, mascarado, tira a máscara das imagens. Mascarado sim, porque sua individualidade não importa no momento da leitura. Por isso A Sacerdotisa usa seu véu. Para que possa revelar.

Digressões à parte, um achado: as máscaras que usam cartas de Tarot como elemento decorativo. Encontrei algumas na rede aqui, aqui e aqui. Escolha a sua e divirta-se!







MÁSCARA NEGRA
Zé Keti-Pereira Mattos, 1966

Quanto riso oh quanta alegria
Mais de mil palhaços no salão
Arlequim está chorando
Pelo amor da colombina
No meio da multidão

Foi bom te ver outra vez
Está fazendo um ano
Foi no carnaval que passou
Eu sou aquele pierrô
Que te abraçou e te beijou meu amor
Na mesma máscara negra
Que esconde o teu rosto
Eu quero matar a saudade
Vou beijar-te agora
Não me leve a mal
Hoje é carnaval

5 de fevereiro de 2009

ETERNOS GAROTOS



Por que certos homens se comportam como garotos a vida inteira? Esse é o tema do Áudio Tarot da quinzena e que está logo ali a sua direita.

Tenho colecionado, da experiência de minhas consulentes, um vasto material de canalhices, omissões, papo-furado, atitudes inexplicáveis... E claro que, como mulher, também saco do riscado. Ninguém está incólume. Mulheres de 17 a 70 caem na armadilha. E ficam sem entender lhufas.

Ele chega, lindo de morrer, super gracinha. Aqueles dardos no olhar que nos atingem em cheio, um jeito de corpo com uma gingada especial, a maneira de arrumar o cabelo, aquela conversa que... Puxa! - Parece que a gente se conhece de uma outra encarnação! E por aí vai.

O curioso é que ele pode ter a idade que for. Pode ser um cientista, um empresário, um advogado de sucesso, e até um doutor da alma humana. Mas na hora do relacionamento volta a ser garoto, apenas um garoto, sempre entre a cruz e a espada. E nos colocam - ou nós que nos deixamos colocar - na mesma situação.

Na carta do Enamorado, o personagem principal é o garoto. Mas se olharmos mais detidamente, para onde aponta a flecha? Para a mão que está sobre o coração do menino. Parece que a seta vai atravessar sua mão antes de atingir o coração dele...




Se Cupido lhe pegou de jeito, só resta olhar a questão por um outro ângulo. Tentar sair de si, mesmo que momentaneamente, e avaliar o que acontece. Nesse sentido, creio que o artigo que ofereço para vocês no Áudio Tarot, é uma boa oportunidade de reflexão.

Vai que uma luz se acende? Ok, pode ser só a Sininho...



Zoe
p.s.: alguém leu "Síndrome de Peter Pan"? Li faz muito tempo, não lembro de quase nada.

2 de fevereiro de 2009

A Rainha do Mar




Odôyabá! Odó Iyá! Hoje é o dia Dela, 2 de fevereiro. Os mares estão em festa.

É facil pensar em Iemanjá como a Rainha de Copas, a Rainha do Mar. Ela encarna facilmente o arquétipo tarológico. Mas a facilidade pára por aí: Oxum compartilha da energia da Rainha de Copas nas águas (doces para Oxum) mas o ouro das suas vestes nos faz pensar na Rainha de Pentáculos. Iansã é a Rainha de Espadas com sua força cortante mas, em certos aspectos, lembra a Rainha de Paus - principalmente no que se refere a sua independência sexual.



Renaissence Tarot___________________________ Ecletic Tarot

Nunca é demais um certo cuidado nas analogias.
Mas seja como for, Odó Iyá, Mãe Sereia!
E muitas rosas brancas para todos nós.


Zoe

Bom dia de Sol

Housewifes Tarot

O dia acordou com gosto de pétala & canela. Sai para caminhar sob os últimos raios da aurora. Curitiba, 18 graus pela manhã. Perfeito. É impressionante o efeito que o sol causa nas primeiras horas. Uma sensação de leveza que contrasta com o peso que sinto no meio da tarde. Consta no "Manual do herói", de Sonia Hirsch, que todos nós temos nossos horários de pico, segundo a sabedoria chinesa. Eu funciono bem pela manhã. É quando melhor produzo, sem dúvida alguma. Tenho a sensação que minha cabeça está zerada, meu corpo idem. E depois do primeiro café... Hum, melhor impossível. Mau humor, nem pensar.

Hoje, pela primeira vez em seis meses, abro a porta de casa e saio para a rua. E a plenitude, como um jardim de sonho, volta a fazer parte da minha vida, completando a alegria de voltar ainda bem cedinho, sentar aqui e escrever. Quer saber? Rotina é o maior barato.

Um bom dia de sol para todos vocês.




Zoe

29 de janeiro de 2009

Do Livro dos Contrários



Marcos Prado (1961-1996) narra o encontro entre o destino e o acaso no seu Livro dos Contrários. É genial! E para ilustrar os não menos geniais "Juca & Chico".


"sou o destino, muito prazer
você parece abatido"
"estava assim por você
mesmo sem nunca ter te conhecido"

o destino, que não bateu à porta
fatalmente ficou comovido
o acaso, sem querer, foi embora
tomando rumo desconhecido

o destino pensou: "é minha culpa
eu é que o faço inesperado
preciso deste cara como dupla"
e desviou do seu rumo por acaso


22 de janeiro de 2009

+ 3 cartas para Obama

Por curiosidade - tarólogos são curiosos incuráveis - resolvi tirar três cartas para Obama. Tenho assistindo TV aberta mais do que gostaria e a cobertura da posse foi o mote do dia 21 de janeiro. Lá pelas tantas, antes que a primeira dama trocasse de roupa para o baile, sem muita preparação ou pergunta elaborada saquei o tarot de Marselha abri o leque. Vieram ilustrar a mesa A Morte, O Eremita, O Julgamento.

Como política não é minha praia, evitei arcanos menores e achei a arrumação suficiente. Também não marquei as casas dentro dos esquemas Passado/Presente/Futuro ou pensei em Tese/Antítes/Síntese. Desejei um retrato da situação. E elas se apresentaram.



Curioso, considerei. A Morte e sua gadelha, ceifando o que precisa ir embora. A mudança radical que Obama representa para diversos segmentos. Até aí, perfeito. Passo sem maiores detalhes pelos segredos do Eremita e a imagem explode - O Julgamento. O Apocalipse. O Aeon. A Nova Era. Todas as representações do arcano XX vem à minha cabeça, rapidamente.

Putz, como o Tarot pode ser óbvio. Mas não sei ainda o porquê. Pensando bem, a seqüência poderia se referir ao momento da posse. Um flash. Neste caso - deuses meus - como pode um homem em meio à explosões de alegria se sentir tão sozinho! Ingenuidade sua, Zoe. Este é homem mais visado do mundo. Ele está rodeado por um universo de gente. Mas ele não vê o Mundo e nem a festa. Não escuta as trombetas. O Eremita olha para A Morte. Obama está só.

E eu, preciso ir fazer outra coisa. Não assisto ao discurso de posse.

A eficácia dos guarda-costas do Eremita é melhor do mundo, presume-se. E ali ele tem uma corcunda. O que traz escondido sob as vestes? - observou meu amigo, o tarólogo e lenormando Alexsander.

Sei que o Eremita fez um caminho rendado, é viajado, conhece todas as paragens. É o Louco Velho, experimentado. Traz uma lanterna - em antigas versões uma ampulheta. É Saturno, o deus do Tempo. Não compactua com O Hierofante, aquele seguiu uma hierarquia rígida e abalizada. O Eremita jamais será um conservador.

Aí comecei a pirar na gorgutinha e vi que no Tarot Camoin & Jodorowski o bastão do Eremita é vermelho. Vermelho como a gravata dos democratas. Vermelho como o famoso botão na Casa Branca, perto do telefone. Pensei na Guerra, em bombas atômicas. Mas aí já achei que estava pra lá de Nostradamus e antes que lembrasse da pílula azul e da vermelha, resolvi abrir a tiragem para a discussão com meus nobres pares tarólogos e simpatizantes.

O que vocês consideram? O que a Morte transforma, o Eremita esconde e o Julgamento revela?


Zoe
p.s. : uma sugestão de leitura - passem no Café Tarot e leiam o post do Leo Chida sobre o Imperador e novo presidente dos E.U.A.

Nuvens de Plástico



Silicon Dawn Tarot

São diversos os títulos do arcano XVI: A Torre Atingida pelo Raio, A Casa de Deus, O Hospital, O Fogo do Céu, A Torre de Babel. Na iconografia tradicional, a torre tem três janelas que, segundo Kaplan, mostram a percepção limitada de seus ocupantes. Vem a ira divina e apenas o topo da construção é separado da estrutura principal. Cabum!



Num dos seus significados a lâmina fala do desânimo do espírito que tenta penetrar no mistério de Deus. Os homens constrem a torre querendo chegar mais perto do Incriado. E o orgulho desmedido desta empresa temerária tem sua resposta - os indignos são derrubados. As idéias fixas destruídas. A hipocrisia, desmascarada. A materialidade (leia-se dinheiro) disfarçada em desejo espiritual é exposta. A presunção, escancarada. O arcabouço mental rígido, cristalizado, engessado, precisa de um golpe radical para que a mente (o teto) se abra para novas idéias.

Bem, as imagens falam por si. E como falam. Renascer? Hum... Duvido. As nuvens continuam grudadas nas paredes, nos escombros. E nuvens precisam estar soltas no céu.



Em tempo: é bom lembrar que o Brasil é o Campeão Mundial em incidência de raios. Pena que nem sempre eles caiam nos lugares certos.


Zoe



17 de janeiro de 2009

Sobre a Força

O artigo a seguir foi publicado originalmente na Revista Personare. Como não tinha exaurido o assunto resolvi escrever um segundo, fazer um áudio post e colocá-lo aqui, no player ao lado direito. E tendo em conta que A Feiticeira no Tarot é mesmo uma vertente insaciável eu e meus colegas Leonardo Chioda e Alexsander Lepletier estamos preparando um podcast falando sobre a Dama. Participam do áudio post nossos convidados especiais, Alejandro Jodorowsky e Sallie Nichols. Em breve, mais notícias!

até mais,
Zoe

O ANO DA FORÇA


__A Força - Tarot Nicholas Conver


O ano de 2009 é do arcano XI, A Força. No Tarot, é comumente representado pela figura de uma dama que envolve um leão. Não sabemos se ela o alimenta, o acaricia, abre ou fecha sua boca. Sabemos que os personagens da lâmina XI se mostram em um enigma cúmplice. O animal e a dama são retidos para sempre no emblema arquetípico que os representa. No momento em que foi eternizado o leão se mostra tomado pela força uma mulher. Ou seria um engano e a mulher estaria presa no olhar magnético do felino?

Conta-se que os grandes gatos têm poder hipnótico. Que o contato físico com o predador acontece em condições similares a um sonho de olhos abertos em um estado de privação prazeroso. O ser humano então, capturado pelos olhos do felino, não consegue reagir. O cérebro anestesia o corpo e se instaura uma cumplicidade entre presa e predador para que tudo acabe o mais rapidamente possível. Um entorpecimento dos sentidos, quase um prazer sensual toma conta da vítima – resta entregar-se.

Quem domina quem?

Não sabemos como a dama chegou até o animal, não sabemos o que vai acontecer em seguida. Ela soltará o leão e ele rodeará suas pernas como um gatinho? Ou ouviremos um rosnado, um esturro fatal mostrando a revolta do leão contra sua frágil domadora?

Para quem não assistiu, recomendo o filme “Roselyne et les lions” (1989), de Jean-Jacques Beineix. É possível ver a Dama da Força (e A Morte) em ação bem de pertinho (clique na imagem e veja o vídeo). A beleza de Isabelle Pasco é impressionante.





Uma mulher não domina um leão pela força bruta. Então, temos que pensar que tipo de força está em jogo, já que a ação contrária, o leão que domina a mulher, é mais plausível na vida real. Que é tão real quanto a vida simbólica, é bom não esquecer.

É o poder da suavidade que desarma o animal? Vejo delicadeza e pureza nos olhos da dama do Tarot marselhês, mas suas mãos me parecem bem fortes com a empunhadura cor de carne (no Tarot marselhês de Jean Payen). Seu pé também se mostra bem apoiado surgindo pela barra do vestido.

Será que a Dama da Força subjuga o leão pela sensualidade? Sim, a Dama é sensorial. Se não fosse, não conseguiria manter o bicho cativo.

Crowley a rebatiza, no Thot Tarot se chama “Lascívia”. E hipostasia a figura relevando ao máximo apenas um de seus aspectos: sua extrema sensualidade e a lida direta com o instinto.

__Lascívia - Thot Tarot

A Dama controla o leão através da inteligência? Seria a representação do confronto entre o poder da mente e a força bruta? Provavelmente. No Tarot de Marselha o chapéu da Força é a mesma leminiskata, símbolo do infinito, que cobre a cabeça do Mago - figura mercuriana por excelência.

Podemos dizer que a “namorada” do Mago no Tarot é a Dama da Força, também chamada de “A Feiticeira”, com muita propriedade.

E quando se fala do arcano XI, estamos pensando em quem? Na dama ou no animal? Sem dúvida representa os signos astrológicos de Virgem e Leão. A Força é o resultado da ação das duas figuras, intimamente ligadas.


Nos contos de fada, é “A Bela e a Fera”. No cinema,“King Kong”, o bruta gorila, rendido por Ann, uma bela loura. Ou Betty Ross, a namorada do “Hulk”, que o faz diminuir de tamanho, coisa que toda a armada norte americana unida não consegue.

Sim, porque ela também rende o leão através da beleza e do amor.

Tudo isso nos leva a pensar que ano de 2009 nos coloca frente a uma questão corriqueira, mas também muito interessante: o domínio das paixões. Somos vítimas da ação das paixões ou nos colocamos acima delas? O ideal será abrir a jaula e soltar as feras ou mantê-las cativas e alimentadas? Nem tanto ao céu, nem tanto à terra. Soltando as feras sentimos um grande alívio, mas prejudicamos quem está ao redor. Trancando a fera na jaula poupamos nossos amigos, companheiros e familiares, mas ficamos com um sapo (um leão?) preso na garganta.

Deixemos que a Força venha como uma grande lufada de vento. Respiremos sua energia brilhante - ela é nossa. Do momento que interagimos com a Força, assim como a Dama interage com o Leão, conseguimos absorver seu poder, integrá-lo ao nosso corpo. O leão nos alimenta. Nós alimentamos o Leão. E podemos assim, distribuir sua intensidade.

Essa solução serve para momentos de raiva, situações de crise, para momentos em que somos tomados por uma grande paixão e corremos o risco de tomar atitudes precipitadas.

A Força ensina que a energia apaixonada precisa ser distribuída dentro de nós, antes de qualquer outra ação. Precisa correr por nossas veias. Precisa ser vivida e devidamente emanada.

Depois dos rituais coletivos de Ano Novo, desejo que A Feiticeira propicie a todos nós uma conversa com a natureza de nossos leões, panteras, serpentes e pássaros internos, através da compreensão do magnetismo e do sentido de dignidade.

Que haja carinho, inteligência, coragem, soberania, vitalidade e muita motivação na hora da Domadora abrir a jaula.

Às nossas feras, um perfeito 2009.



Zoe de Camaris
artigo publicado originalmente na Revista Personare: www.personare.com.br

8 de janeiro de 2009

O Vestido



Hoje revi meu trabalho sobre Frida Kahlo. Escrevi (há uns bons posts atrás) uma interpretação de seus quadros sob a ótica do Tarot e foi um trabalho que me deu muito prazer. Fiquei um bom tempo olhando as reproduções, principalmente as que não havia analisado. Uma dentre elas me chamou mais atenção "O Meu vestido está ali pendurado" em que Frida pendura seu vestido tehuana em meio a uma simbologia diversa. Xeretei na rede e encontrei um artigo muito bacana.

Foi quando percebi que estava usando o meu indefectível vestido azul, antigo companheiro de dias de sol. Sabe aquele vestidinho gostoso, de malha geladinha, que há muito deixou de sair de casa? Pois é. Tenho carinho pelo meu vestido azul. Me cai muito bem. E não foi sem saudade que me lembrei da casa antiga e do dia em que pendurei-o para secar na varanda. Essas coisas bobas me deixam nostálgica. Coisinhas simples, corriqueiras mas que de repente, revestem-se de uma importância que não compreendo direito.

Parece que a cancerianas tem um apreço por vestidos pendurados. Frida também tinha. Só que danada arrasava...





Zoe

7 de janeiro de 2009

10 de Copas



Ontem tivemos um dia 10 de Copas, com direito a um lindo arco-íris no céu. Eu, meu marido e minha bebê curtimos a chuva e o sol, tiramos fotos e demos muita risada na frente da nossa casa nova. É sabido que o número 10 nos arcanos menores fala de uma culminação, uma totalidade cumprida e anuncia o próximo ciclo: hora de colocar a mão na massa. Se aqui está tudo bem, o momento é perfeito para aproveitar a maré e começar algo de novo. Pois então, aí está o AudioTarot, que espero converter rapidamente para ZoePodcast.
Espero que vocês suportem meu sotaque de curitibana...


abraço,

Zoe

16 de dezembro de 2008

A Favorita





Hoje acordei de cara. Sonhei que estava na casa de Gonçalo, da novela A Favorita. Eu esticava um fio da casa dele até a casa ocupada por Flora. O fio permitiria que as conversas entre Flora e Silverinha fossem gravadas. O movimento do meu inconsciente foi de revolta frente aos absurdos que fazem com que uma novela seja uma novela. Afinal, se a família Fontini tivesse tomado a simples providência de colocar uma escuta (simples uma ova, vocês não imaginam o trabalho que eu tive no sonho) as más intenções da vilã seriam descobertas antes de janeiro e a trama, interrompida.

Sonhar com novela é o ó. Meu inconsciente deve estar oco, não é possível. Prevendo a situação, um dia antes comecei a reler Kafka. Mais especificamente, "A Metamorfose". Nada como Kafka ou Proust quando a gente tá se sentindo meio burra.

Este seria o conselho da taróloga Cilene pra mim: "Criança, pare de assitir novela. Se agarre à Kafka. Senão, no próximo despertar você acordará virada numa barata".


Zoe

14 de dezembro de 2008

PERSONARE


A Revista Personare está no ar, sou uma das colaboradoras.

Vale a pena conferir o caprichoso trabalho da equipe.
Congratulações a todos!

Zoe


10 de dezembro de 2008

ERRAR PODE DAR CERTO


Recomecei a atender há poucos dias. E em uma das leituras aconteceu algo curioso. A consulente fez uma pergunta sobre a condução da sua vida espiritual. Saquei o Crowley da estante e o dispus numa arrumação por sete. Na sexta posição, “maior medo e maior desejo”, para minha surpresa e espanto da cliente, saiu uma das cartas extras de divulgação da O.T.O, Ordo Templi Orientis. Para quem não sabe, quando um tarot é impresso, via de regra, possui 80 cartas. 78 Arcanos, maiores e menores, mais duas lâminas que contém a marca pessoal do autor do deck e geralmente a propaganda da editora que o imprimiu.

Putz, pensei. Mas rapidamente lembrei que tudo o que acontece do momento em que o consulente entra no seu consultório faz parte da questão principal e da resposta. É uma carta que cai no chão, a forma que o consulente embaralha e escolhe as cartas e também, em um leque possível de ocorrências, o tarólogo que, distraído, não tomou o devido cuidado de conferir seu baralho. Meu caso, nesse dia.

Nem vou perder tempo dizendo que a vida de uma recém mamãe de um recém nascido é muito atribulada. Que você, como sempre, pensa em todos os detalhes, mas que nunca é perfeita. E que o destino, na casa de uma taróloga, sempre acena com suas contribuições, nem sempre facilmente decodificáveis.

Lembro-me de um amigo falando sobre o oráculo de Mercúrio. Sabem como funciona? Você está andando na rua pensando naquela questão para qual não há uma solução fácil quando duas ou mais pessoas passam conversando e você escuta uma palavra, uma frase que revela o vaticínio: a palavra "arrisque", por exemplo. Cai como uma luva. Responde a questão.

O mundo é oracular para quem sabe ou tenta lê-lo. É a Macro Geomancia. O vôo dos pássaros, uma folha que cai, uma porta que bate. Uma carta que não deveria estar no maço.

Interessante que a pergunta da minha consulente se referisse à vida espiritual. Ela é budista. Queria saber se estava dedicando tempo suficiente à prática. Se deveria cortar impulsos da sua vida mundana. Se poderia, um dia, morar no templo. Boba seria eu se não tivesse aproveitado o recado contido na lâmina que traz a simbologia da Ordo Templi Orientis.

Errar pode dar certo.
É bom não esquecer este ensinamento.


Zoe